VII

Entretanto, o padrinho de Narcisa não escarmentava no sestro de casamenteiro; é certo porém que similhantes casos assim funestos, não se repetiram nas suas operações matrimoniaes. Por esse tempo, casou elle a filha com diminuto dote, e abriu a carreira do sacerdocio a um filho, que outras vocações depois afastaram da egreja. Os seus teres, com judiciosa economia, seriam bastantes á decencia aldeã; porém, privar-se da mesa farta e franca, era privar-se de amigos que lhe festejassem as anecdotas. Pinto Monteiro, no dia em que falisse de auditorio, começaria a morrer no abafador silencio da cellula penitenciaria.

Empobrecia rapidamente: mas dava a perceber que a philosophia de Job é a ultima moeda com que o homem decahido compra a resignação e a gloria eterna, par dessus le marché dizia elle.

Amaro Fayal, confidente dos secretos desfalques do patrão, pensou em retirar-se para o Brazil, visto que não tinha secretaria para fiscalisar, nem desprendimento tamanho que acceitasse outra vez o officio de moço de cego.

É aqui o logar de repetir litteralmente uma accusação que todos os meus informadores, sem discrepancia, irrogam ao cego de Landim:

Um lavrador da Lamella, induzido por Pinto Monteiro, vendeu as suas herdades por alguns contos de réis, a fim de ir negociar no Brazil e centuplicar o seu dinheiro. Sahiu Monteiro com destino ao Rio, levando em sua companhia o lavrador. Passados dias, apparece em Landim o cego, fingindo-se doentissimo, e diz que o seu companheiro embarcara, e elle retrocedera forçado pela molestia. Ora, do lavrador nunca mais houve noticia; mas, no governo civil de Lisboa, fôra visado o passaporte de José Pereira da Lamella, e o mesmo nome inscripto na lista dos passageiros. Isto não obstante, o cego era accusado de haver matado em Lisboa o lavrador, não podendo roubal-o por maneira mais suave; e a certeza confirmou-se quando parentes que o Lamella tinha no Rio, perguntados a tal respeito, responderam que nunca viram tal homem, nem, depois de chamado pela imprensa de todas as provincias, apparecera. Asseveravam, porém, que um nome similhante se lia na lista dos passageiros desembarcados no Rio, no mesmo navio e mez em que de Portugal se informava que elle partira.

Seria mais natural suppor que José Pereira morrera obscuramente em alguma rossa; mas á calumnia pareceu mais romantico decidir que o cego o matára.

—Como presumem os senhores que o cego matasse o lavrador?—perguntei.

—Não sabemos; mas o mais provavel é que o atirasse ao rio quando o bote ia para bordo da galera.

Esta era e é a opinião corrente. Pelos modos, o cego, em pleno sol do Tejo, na presença dos barqueiros, alijou o passageiro ao rio, e fez remar para terra o bote com a bagagem do morto; depois, saltou no Caes das Columnas com a mala do dinheiro debaixo do braço, e ás apalpadellas lá se foi pacificamente caminho de Landim.

Corre parelhas em maldade e estupidez esta aleivosia, é certo; mas o lavrador, de feito, fôra assassinado em Lisboa.

Agora, posto que tardia, ahi vem a rehabilitação de Antonio José Pinto
Monteiro.

Quem induzira o lavrador da Lamella a vender as terras foi Amaro Fayal, offerecendo-lhe sociedade em negocio que rendia 200%. O Pereira da Lamella era calaceiro. O trabalho agricola pezava-lhe: as suas terras, avaliadas em cinco contos, rendiam escassamente o passadio grosseiro do lavrador minhoto. Calculou, firmado na prova mathematica das cifras de Amaro, que, ao fim de cinco annos, devia ter cinco contos dez vezes multiplicados. É claro: 200%—5 vezes 10—50 contos. Vendeu as terras e partiu com o ex-secretario do cego. Pinto Monteiro, sinceramente affeiçoado ao seu confidente de vinte annos de varia fortuna, acompanhou-o até ao Porto, e d'ali voltou para Landim algum tanto enfermo, e ás pessoas que lhe perguntavam pelo Pereira da Lamella respondia naturalmente que tinha embarcado. Dava-lhe, porém, que scismar não estar o nome de Amaro Fayal na lista dos passageiros.

O leitor já descobriu que o assassino do lavrador foi Amaro; que o passaporte do morto serviu para o matador; mas ignora os pormenores do crime, e eu tambem os não sei.

Passados annos, um correspondente de gazeta escrevera o essensial da calumnia que assacava o homicidio ao cego. O delegado de Villa Nova de Famalicão, Soares d'Azevedo, e advogado de Pinto Monteiro em diversas demandas, aconselhou-o que justificasse a sua innocencia n'este crime que lhe imputavam, porque deixal-o á calumnia e á revelia era arriscar-se a perder todos os seus pleitos. O cego, com a lucida intuição de quem tinha longa pratica de crimes tenebrosos, explicou a morte do lavrador, comprovando-a pelas circumstancias do passaporte, pela omissão do nome do homicida na lista dos desembarcados no Rio, e pela certeza que lhe deram de Amaro Fayal ter morrido poucos dias depois que chegára, no hospital, com o roubo ainda intacto, segundo vira na noticia dos espolios dos fallecidos. Replicou-lhe o delegado que semelhante justificação era insufficiente: o cego redarguiu que não tinha outra, nem essa mesma daria, se Amaro Fayal fosse vivo, por que no seu braço se amparara vinte annos, vinte annos vira pelos olhos d'elle, e mal remunerado o despedira, sem que o seu guarda-livros murmurasse da mesquinhez da paga.