SCENA II
JOSÉ DE SÁ E VISCONDESSA
José de Sá
Que madrugada é esta! V. Ex.ª, á uma hora da tarde, já radiosa, em trem de viagem!
Viscondessa
Não dormi nada, tenho os nervos em convulsões, estou doente, e vou para Lisboa no Lusitania que sáe ás duas horas felizmente. Que me diz á scena melodramatica do baile?
José de Sá
Pareceu-me mais tragica do que melodramatica.
Viscondessa
Mas quem anda a fazer tragedias pelos bailes hoje em dia! Aquillo é d'um anachronismo{157} e máo gosto revoltantes! Se os maridos atraiçoados começam a dar-se ares de fantasmas tragicos nos bailes, os salões hão de tornar-se medonhos, e cada marido ha de dar-se o tom e o feitio d'um bravo de Veneza em veteranos.
José da Sá
Não se graceja assim com o infortunio, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Ora pelo divino amôr de Deus, snr. Sá! A gente não ha de vestir-se de lucto por que o senso commum vae morrendo hydropico de ridicularias! Eu acho natural e perdoavel que o seu amigo Jacome da Silveira despisse os ares carregados e funebres da vendetta, e esmurraçasse na Praça Nova ou no jardim de S. Lazaro o visconde; mas isto de enroupar-se n'uma toilette mysteriosa, coriscando dos olhos uns fulgores fulminantes, para afinal de contas ajuntar o escandalo á irrisão,{158} sinto dizer-lhe, conselheiro, que é um soberano disparate, e que o seculo vae muito luminoso para podermos receber a sério estas excrecencias da idade media. Que diz?
José de Sá
Eu não disse nada. Estou ouvindo e admirando a snr.ª viscondessa de Pimentel.
Viscondessa
Eu não armo á admiração, meu presado conselheiro; quero apenas que me vejam protestar contra tudo que tem vislumbres de tolice. Ora queira dizer-me: não estava ha muito tempo esquecida a desventura de Martha? O visconde não fugiu da sociedade para que ninguem se lembrasse d'ella e d'elle? Isto é verdade: que diz?
José de Sá
Ainda não disse nada, minha senhora.{159}
Viscondessa
Bem sei que não disse nada. O snr. Sá ensaia-se para estadista n'esta diplomacia de boudoir? Parece-me que desperdiça a sua infinita sagacidade n'esses ares meditativos com que trata coisas insignificantissimas.
José de Sá (sorrindo)
Estou quasi resolvido a irritar-me contra V. Ex.ª Se continua a injuriar-me, ai da viscondessa e de mim!
Viscondessa
Mas rebata isto, snr. Sá. Que lucrou o seu amigo bulindo nas cinzas de Martha? Reviver miserias...
José de Sá
Minha senhora, não bula V. Ex.ª n'ellas, que a memoria de Martha é sacratissima desde que expiou acerbamente a sua culpa.{160}
Viscondessa
Concordo; e por isso mesmo reprovo que Silveira... Ah! uma nota curiosa... O conselheiro, reparou n'aquelle pendor sentimental da cabeça de Eugenia sobre o hombro de Silveira, quando passeavam nas salas menos concorridas?
José de Sá (ironico)
Não reparei n'esse escandalo!
Viscondessa
Não? foi coisa que deu nos olhos de muita gente. Que infinita graça e que profundo mysterio não teria o apaixonar-se Eugenia... (rindo).
José de Sá
Ora, minha senhora... V. Ex.ª traz a sua formosa cabeça repleta de máos romances... Bem se vê que os seus nervos andam destemperados pelo terror das tragedias... (ouve-se o rodar da sege). {161}
Viscondessa
Ahi está a sege... Adeus. (apertando-lhe a mão) Vou por casa de Eugenia deixar-lhe um bilhete, se a não poder vêr de relance.
José de Sá
Vae auscultar-lhe o coração a vêr se effectivamente está apaixonada pelo meu amigo?
Viscondessa
Quem sabe?... quem sabe...
José de Sá
Ah! viscondessa, viscondessa... Receio que seu benemerito esposo esteja mais arriscado que o de Eugenia...
Viscondessa (fazendo-lhe uma mezura á antiga)
Ça n'est pas gentil, mon cher. Au revoir. {162}
José de Sá (cortejando-a profundamente)
Sempre admirador e sempre admirado. (A viscondessa sáe).