SCENA II

OS MESMOS E O VISCONDE

[O visconde vem amparado por dois creados ]

Rodrigo (adiantando-se a recebel-o com apparente alegria)

Óptimo! bella surpreza! N'esta cadeira, meu pae. (Rodrigo e Eugenia vão recebel-o dos braços dos creados, e conduzem-o á cadeira).

D. Eugenia

Está muito melhor...

Visconde

Estou, filha.

Rodrigo

Que sente agora?{202}

Visconde

Ancia de repouso, e a nuvem da eternidade a toldar-me os olhos. Eis que chega a noite da morte. (Fitando Eugenia) Como está desfeita a sua formosura, Eugenia! Onde as lagrimas chegam, começa a morte a sua obra de destruição... Comprehendo bem a sua piedade, menina. Como não conheceu mãe nem pae, o grande amor filial que tinha no seu coração, deu-o ao pae do seu Rodrigo. Deus lh'o recompense no amor de meu neto... Cheguem para aqui o berço. Quero vêr o meu Álvaro... (Approxima Eugenia o berço) Adeus. Adeus. Tu entras, e eu vou sahir. Guardai-o, filhos. Conta-lhe tu, Rodrigo, a minha vida e morte... Eu queria beijal-o. (A Eugenia que faz menção de o tirar do berço) Não, não. Deixal-o dormir... Que serenidade! Tambem eu hei de têl-a. Para os grandes desgraçados o sepulchro é suave e socegado como o berço das creanças. Eugenia, venha aqui... Não chore d'esse modo, filha! Lamente-me, se eu viver.{203}

D. Eugenia

Eu não choro... o pae ha de restabelecer-se. (Rodrigo gesticula a Eugenia para que ella se esconda de modo que o pae a não veja).

Rodrigo

Meu pae. (Espera instantes que o pae levante a cabeça).

Visconde

Eugenia?

Rodrigo

Foi lá dentro. Na ausencia d'ella, faço uma pergunta a meu pae, e da ousadia lhe peço perdão.

Visconde

Pergunta.

Rodrigo

Essa infeliz senhora que meu pae amou... a mulher de Jacome da Silveira, tinha filhos?{204}

Visconde

Uma filha.

Rodrigo

Que se chamava...

Visconde

Leonor. Uma creança entre trez e quatro annos, muito formosa. Sabes alguma coisa d'essa menina?

Rodrigo

Meu pae soube que destino lhe deram?

Visconde

Não. Alguns amigos meus de Lisboa a procuraram sem resultado. Se ella tivesse apparecido, eu adoptal-a-hia, sabendo que o pae a renegára de filha aleivosamente, mas digno de desculpa...{205}

Rodrigo

Mas meu pae tem a certeza de que Leonor era filha de Jacome da Silveira?

Visconde

Como tu tens a certeza de que este filho é teu: jural-o-hei com os olhos na sepultura, e o coração na misericordia de Deus. Quando comecei a... cavar o abysmo da minha victima... Leonor já tinha dois annos e meio, e fitava-me com os seus grandes olhos d'um modo mui triste que parecia dizer-me: «Eu por amor de ti, ficarei sem pae e sem mãe» E ficou. (Eugenia, que tem ouvido muito alvoroçada este dialogo, n'este lance corre em grande transporte aos braços de Rodrigo).

D. Eugenia

Graças, graças, meu Deus! Fizestes o milagre, virgem do céo! Agora sim, que toda a minha alma respira desopprimida! És meu{206} Rodrigo! (Ajoelhando aos pés do visconde) Bem haja, bem haja que me tirou a morte de sobre o coração, e de sobre esta creança um affrontoso opprobrio!

Visconde (enleado)

Que é?! que diz, Eugenia?

D. Eugenia

Chame-me Leonor, que eu sou Leonor... Sou a filha da peccadora que morreu... Sou a orfã que a mãe de Deus guiou até ao coração de seu filho.

Visconde (agitadissimo)

É isto febre, meus filhos? é o delirio dos ultimos arrancos? Não me está esta senhora dizendo que é filha de Martha?!

D. Eugenia

Sou... sou...{207}

Visconde

Ajudai-me... erguei-me... Forças, vida, um dia de vida, meu Deus! Um dia para chorar comtigo, Leonor... Olha que tinhas a mais amoravel e extremosa das mães... o coração mais sancto do amor maternal. Formosa como tu... da tua edade... respeitada e adorada; contente, feliz, virtuosa, boa... Mas... matei-a... Não foi teu pae que a matou, Leonor... Fui eu!... O veneno que lhe fazia espumar sangue, e ranger os dentes convulsos, e rojar-se no chão, e atirar-se a gritar para o teu berço, esse veneno fui eu que lh'o vasei no peito... Eu fui quem a despenhei dos respeitos publicos para a deshonra irrevogavel, da mais rica e florida existencia para um torrão desconhecido do cemiterio, para a valla dos pobres... e levantei-lhe como monumento uma memoria infame! Fui eu... eu fui o algoz... (Resvala á cadeira, soluça e prosegue:) Meus filhos, ide, ide... Pede-vol-o com as mãos erguidas o penitente na agonia... Ide pedir a Jacome da Silveira... Vae, filha, vae pedir a teu pae que me perdôe. Dize-lhe{208} que é um agonisante que lh'o pede... Um homem que até esta hora invocou a morte, e a morte, a enviada de Deus, não quiz derrubar-me sem este grande trance. Vae, Leonor, vae dizer a teu pae que eu morro. Apaga-lhe o fogo da ira com as tuas lagrimas... Chora-lhe no coração, que a piedade renascerá, e o perdão virá a tempo de eu poder acabar sem estas angustias de remorso que me...