SCENA III

JORGE E JOSÉ DE SA

José de Sã

Que vieste, afinal, fazer aqui?

Jorge

Ver como se houve a Providencia n'este pleito que eu terminei com a sociedade. Fui condemnado. Apellei da iniquidade da terra para a justiça do céo. Agora, vim vêr como a justiça do céo sentenciou. Quero vêr, face a face, e sem que me conheçam, o homem que matou a alma da mulher que a sociedade disse que morreu ás minhas mãos. Morta estava ella. Matou-a quem a cobriu de opprobrio: matou-a o infame que eu venho procurar n'estas salas, 20 annos depois que offereci a minha sentença de desterro á suprema alçada de Deus. Vejamos, pois, o que Deus fez d'elle. Por ora, o que presenceamos, meu{107} amigo, faz-me desconfiar que a justiça celestial não desce a sujar as suas balanças n'este lamaçal da terra. (sorrindo) Suspeito que o meu recurso de revista foi lá em cima julgado por desembargadores que fazem obra pela jurisprudencia que levaram de cá. (Triste e concentrado) Ainda o não vi; mas sei que estou nas suas opulentas salas. Aqui de certo não mora a desgraça. Os infelizes não accendem tantas serpentinas para se mostrarem. O homem que depravou Martha, e atirou ás mãos da minha vingança esse cadaver, Heitor de Vasconcellos vive! nobilitaram-no com uma corôa de visconde, saborea-se nas dôces chimeras que esmaltam o ouro da vida; e, de mais d'isso, tem um filho que lhe regala a velhice com estas musicas e danças. (Ouve-se a orchestra, por um breve espaço, durante o qual Jorge medita concentrado. Depois a musica descahe para uma toada triste e como remota acompanhando a declamação) E o condemnado fui eu. Abri-lhe as portas de minha casa, leveio-o ao intimo do meu lár, puz na sua mão a de uma mulher que eu adorava, dizendo a ambos que se dessem os parabens da{108} minha felicidade. E elle empestou-lhe a alma, insinuou-lhe no coração o despejo, e a infernal coragem de me trahir e matar. Matou-me. Quem foi dos trez o desgraçado? E ella jaz onde a infamia lhe não peza. Eu venho de arrastar meia existencia debaixo de um céo maldito. Heitor de Vasconcellos envelheceu: placidamente lhe corre a vida debaixo d'estes tectos explendidos e por sobre estas alcatifas aveludadas. A sociedade respeita-o. Nos seus salões estão os sabios, os virtuosos, os ricos, e tambem o pae de familias com suas filhas, e os maridos com as espozas sem macula. O condemnado fui eu. Perdi a mulher que amei, perdi a honra que amava mais, lavei o sangue de minhas mãos com lagrimas em vinte mezes de carcere, e vinte annos sem patria. Aqui estou. Venho vêr o que a divina Providencia me diz d'este homem que voltou as costas á sepultura da mulher que ambos matamos... ao infame que envelheceu feliz. Respondi, José de Sá. Não me perguntes mais o que vim aqui fazer.{109}