SCENA III
Visconde de Vasconcellos
Bailes! bailes! com que tristeza os imagino!... Quem me dera não saber que meu filho dá bailes!... Deixasse-me eu ficar na solidão do meu desterro na aldeia... Era preciso que a minha amargura entrasse no coração viçoso e feliz de meu filho, para que a desgraça o não assalte em pleno gozo de mocidade, saude e abundancia... Era preciso; mas ha cruel impertinencia n'este meu desejo. Um velho a querer regelar uma alma em flor com os seus pezares, com os seus tantos invernos vividos e chorados ao pé d'uma sepultura!... isto é uma iniquidade! Os experientes da vida,{19} os que envelheceram penitentes, onde quer que chegam, levam comsigo um fantasma funesto. Na sua presença, aos descuidados do futuro desmaia-se a côr brilhante das alegrias; aos loucos afortunados irrita-os a catadura torva da tristeza; os mais generosos espiritos não desculpam o velho, que sáe ao encontro da mocidade e lhe diz: «Envelhece antes do inverno da vida, para que o desandar da roda te não colha ainda na primavera, e te não abra no rosto o sulco das lagrimas. (Ouve-se o rodar de sege). Eil-o que vem respirando as fragrancias dos vinte e oito annos; e eu aqui estou como espectro de terriveis presagios, esperando-o nos salões, d'onde a noite de ámanhan fugirá de pressa como fogem as noites que abrem na memoria uma data, um nome, que no fim da vida as lagrimas não podem desfazer... Para que hei de entristecel-o? Deixal-o sonhar, deixal-o illudir-se. Que desconte na desgraça porvir isto que se chama felicidade, este brincar com as flores que cobrem a boca do abysmo. Deixal-o ser moço até que a primeira nortada do infortunio lhe bata no rosto. (Suspenso e recolhido).{20} Não posso, não posso. Aquelles que ainda podem salvar-se quero que me ouçam gemer no parcel onde naufraguei.