SCENA IV
JOSÉ DE SÁ E DEPOIS JORGE
José de Sá
É necessario revelar a este infeliz as minhas esperanças de ainda podermos encontrar a filha de Martha, fazendo-lhe chegar ao coração a certeza de que é sua filha. (Examinando a carteira) Felizmente que tenho comigo a carta. Se não alcanço nortear-lhe o espirito para outro destino, receio que uma terrivel fatalidade venha recomeçar as desventuras d'este malfadado homem. (A Jorge que entra). Descançaste?
Jorge
Nem levemente: começo a vêr novos abysmos.
José de Sá
Tambem eu, Jacome.{164}
Jorge
Esta minha vinda a Portugal...
José de Sá
Eu não t'a aprovei. Se o teu intento era completar um plano de vingança, fizeste bem não me consultar. Eu te responderia que uma grande calamidade não justifica planos sanguinarios, por melhor mascarados que venham em requintes de pundonor. Se me consultasses, dir-te-hia que a honra que ensanguenta as mãos só póde a allucinação desculpal-a, e que um assassinio premeditado vinte annos é um acto de selvageria, se a demencia o não desculpar. Quando me avisaste da tua chegada ao Porto com um pseudonimo, comecei a duvidar da sanidade do teu juizo. A mudança de nome não podia dissimular um plano incompativel com a honra que te perdeu.{165}
Jorge (interrompendo-o e levantando-se com impeto)
A honra que me perdeu!.. excellente palavra. A honra devia nobilitar-me, se era honra. O que perde e avilta deveria ser o despejo, o cynismo, o impudor, o desvergonhamento que petrefica na cara do infame a lama que lhe atiram. Comigo não foi assim. A honra quiz desafrontar-se; sacudi de mim a vibora que me crivava o coração de infernaes farpas; mas a sociedade e a sua justiça vieram e bradaram-me: «Vae, condemnado; vai-te sem alma, sem dignidade, sem amigos, sem a misericordia de ninguem! Vae-te n'essa leva de ladrões e facinoras; vae contar na Africa as horas de 7300 dias e noites. Vae, por que tiveste a audacia de condemnar pelo teu desforço os centenares de despejados que não consentem que tu sejas mais brioso do que elles. Se querias gozar os teus direitos de cidadão, se querias a liberdade dos homens de bem, se querias a consideração dos honestos, recebesses a affronta em silencio, embora a sociedade te visse o{166} ferrete na testa; ostentasses ignorancia da tua deshonra; apertasses em publico a mão que estrangulara na garganta de tua mulher os sagrados juramentos da sua lealdade. Se da tua casa haviam feito um prostibulo, e dos teus carinhos de esposo um incentivo para irritar os prazeres do crime, bebesses o teu calix como tantos para quem o fel de uma deshonra de mera convenção chega a perder o seu travo. Quem te disse a ti, assassino, que a vida humana não era inviolavel? Eras marido amantissimo? Estremecias tua mulher com ternura de pae? Durante trez annos de idolatria não imaginaste sequer que o teu amor podesse ser assim galardoado? E foste trahido? E foste apunhalado pela mão que beijavas? E viste a mulher adorada roxeada nas faces pelos beijos d'outro homem? viste-a bem perdida, bem na lama, bem no abysmo? Não importa. A vida humana é inviolavel! Soffresses, miseravel! Acceitasses a ignominia que deixou de o ser desde que os infames a partilhal-a são tantos que não se podem escarnecer. E, se tinhas necessidade de sacudir o dardo do coração,{167} bebesses tu o veneno, e morresses, e deixasses tua mulher viuva e formosa viver, a sua inviolavel vida e gozar-se na inviolabilidade da sua devassidão...» É assim que a sociedade falla aos desgraçados como eu, José de Sá?
José de Sá
Desafoga, Jacome; mas em nome das tuas infinitas amarguras te peço que vejas em mim o unico homem que te quiz enxugar as lagrimas. Eu louvo os moralistas, que escrevem excellencias sobre a inviolabilidade da vida humana, e invejo-lhes o socego, a placidez, o solido raciocinio com que legislam para as paixões no conforto do seu gabinete. Esses taes nos darão exemplos de cordura quando a sorte funesta os collocar entre a deshonra e a theoria; mas, meu querido amigo, não me perguntes se a tua vingança está cumprida, e se a tua desaffronta requer a vida d'esse esmagado homem que hontem á noute viste cahir nos meus braços. Que queres tu fazer d'aquella preza de remorsos? Não o vês tão dobrado pela mão da Providencia?{168} Não lhe vias na face a escuridão profunda d'aquella alma?
Jorge
E quem te disse que eu vim a Portugal procurar esse homem para o matar?
José de Sá
Suspeitou-o o receio que tenho de que o prazo dos teus infortunios ainda não esteja fechado.
Jorge
Essa suspeita vinda de outro que não fosses tu seria ultrajante. Se nos meus designios entrasse a morte de tal homem, eu não praticaria o abjecto ardil de entrar disfarçado em sua casa. Hontem te disse no baile o que alli fôra fazer. Encarei o reprobo que tremia debaixo do fardo da sua ignominia. Não tenho mais que vêr. A vida é o patibulo d'aquelle condemnado. A Providencia sentenciou-o. Para que não falte nada ao seu supplicio até a coragem do suicidio o desamparou.{169} Creio em ti, Deus! Não se é perverso impunemente. Os que morrem afogados nas lagrimas que fazem chorar não são os que mais dolorosamente expiam. Incomportavel inferno deve ser-lhes o recordar-se!.. A minha vingança, José de Sá, completa-se com a vida do algoz da minha felicidade. Quero que elle viva. Não tenho mais que fazer em Portugal.
José de Sá
Tens. O teu coração póde reflorecer ainda. Penso poder vaticinar-te um resto de vida com luz, com alegria, com amor. Eu suspeito que Leonor existe.
Jorge
A filha de Martha?
José de Sá
A tua filha.
Jorge
Minha!.. Não me afflijas. Olha que ainda{170} se faz noite na minha alma, se vejo a imagem d'essa creança. Minha! que absurda nova! onde foste saber que ella era minha filha?
José de Sá
Se viste nas rugas do visconde de Vasconcellos assignalada a mão da Providencia, por que duvidas crêr que a Providencia premeie as tuas agonias, tamanhas e com tanta paciencia soffridas, mostrando-te a creança que se acalentou em um seio sem macula, a filha do teu sangue, do teu coração e da tua alma?
Jorge (com vehemencia)
Queres tu enlouquecer-me? queres que eu vá d'essa esperança á tristeza mortal do desengano? Como sabes tu que ella vive... e é minha filha?
José de Sá
Escuta.{171}