SCENA IX

OS MESMOS E PEDRO ARANHA

Pedro (cortejando-os)

Snr. Silveira, snr. conselheiro. A minha missão é triste...

Jorge (risonho)

Eu havia adivinhado a sua missão triste.

Pedro

Que tinha V. Ex.ª adivinhado? Isso é extraordinario!{188}

Jorge

Vem representar o pundonor agastado do snr. Rodrigo de Vasconcellos?

Pedro

Não, snr. Rodrigo de Vasconcellos, d'aqui a poucas horas, se verter sangue, será o de suas lagrimas. V. Ex.ª entrando n'aquella casa, fulminou a felicidade de dois esposos que se adoravam, e o futuro d'uma creancinha que me parece condemnada a não poder dizer o nome de seus paes.

Jorge

Que lhes fiz eu?

Pedro

Creio bem que V. Ex.ª, trasido na onda da fatalidade, senão antes pela mão da Providencia, o mal que fez, as tempestades que levantou, não as promoveu voluntariamente.{189} O snr. Jacome da Silveira quando entrou em casa de Rodrigo de Vasconcellos, e viu os sobresaltos e anciedades de D. Eugenia, decerto não podia prever que ia separar os dois esposos dilacerando-os pelo coração.

Jorge

Não o entendo, snr. Aranha!.. Que é? Eu separei e dilacerei os corações dos dois esposos! Que tenho eu que vêr com um ou outro? A snr.ª D. Eugenia fallou-me de outra que morreu, e disse-me que ouvira contar a sua historia, e chorou, não sei se compadecida de mim se d'ella... Tinha uma pulseira com um retrato, que denunciava a impudencia de quem o possuira e lh'o dera...

Pedro

O retrato que D. Eugenia tinha na pulseira era o retrato de sua mãe.{190}

Jorge

Isso é falso, snr.! O retrato era d'uma mulher que se chamou Martha, e foi amante de... (sustendo o impeto de colera).

Pedro

Sem duvida nenhuma. O retrato da snr.ª D. Martha é o que a snr.ª D. Eugenia tem na pulseira.

Jorge

Não me diga pois que o retrato é da mãe d'essa senhora.

Pedro

Affirmo a V. Ex.ª que a esposa de Rodrigo de Vasconcellos é filha de D. Martha de Villasboas, e que a pulseira não a houve do sogro, mas sim de D. Maria da Gloria, irmã de sua mãe.{191}

Jorge (rapido)

Entendi eu bem? Repita... Comprehendes tu, José de Sá? Repita o snr...

Pedro

Que o filho do visconde está casado com uma senhora cuja filiação ainda hontem ignorava. Sabe D. Eugenia que V. Ex.ª foi o marido de sua mãe, e tambem suspeitava desde muito, e desde hontem principalmente soube que V. Ex.ª, desconfiado da lealdade de sua senhora, repulsára uma menina chamada Leonor, a qual viveu em um Recolhimento, chamando-se Eugenia, e d'esse Recolhimento sahiu com uma prima do honrado rapaz com quem casou. Esta deploravel senhora está hoje apertada na cruelissima angustia de se vêr apontada por V. Ex.ª como filha do pae de seu marido. Este conflicto é pungentissimo para uma alma, cuja sensibilidade está exaltada por sentimentos religiosos. Eu acabo de presenciar a destruição rapida que a paixão e a vergonha estão fazendo n'aquella desoladissima{192} senhora—vergonha de ser apontada como filha da adultera morta a veneno, e como suspeita filha do cumplice de sua mãe, e esposa de seu proprio irmão! Fui chamado a confidenciar n'este inferno, e aconselhei-a que occultasse o mysterio do seu nascimento. «Não posso, bradou ella, sinto-me morrer esmagada pelo opprobrio da minha situação. Se o visconde é meu pae, receio vêl-o morrer ás mãos do matador de minha mãe; se meu pae é Jacome da Silveira, eu não posso deixar de me abraçar n'aquelle grande desgraçado, e dizer-lhe que sou sua filha!»

Jorge (interrompendo-o com as mãos fincadas nos braços d'elle)

Ouça, snr... Ella chamou-se Leonor? É filha de Martha? Foi ella mesma que lhe disse: «eu sou filha de Martha?»

Pedro

Quem poderia dizer-m'o senão a snr.ª D. Eugenia?{193}

Jorge

José, como comprehendes tu isto?

José de Sá

Que tens a tua filha. A Providencia collocou o anjo á borda d'um abysmo em que tarde ou cedo cahirias.

Jorge

Vá dizer-lhe que está aqui seu pae... Diga-lhe que eu lhe inundei o rosto de lagrimas quando a deixei no berço aos trez annos. Diga-lhe que ajoelhei com ella nos braços, e dei brados a Deus pedindo-lhe um abalo no coração que se despedaçou quando a infernal duvida m'a desentranhou do peito, e eu a repulsei, exclamando: «não és minha filha». Nas primeiras noites de carcere, eu via um spectro, e uma sombra compadecida, como a de um anjo lagrimoso. O anjo quando eu cahia de rosto contra as lages, e adormecia atrophiado pelo frio da madrugada, punha-me{194} na face a mão e aquecia-m'a; collava os labios nos meus ouvidos aturdidos de um gritar estridente, e dizia-me: «pae». Eu despertava, e cria que a febre cerebral ia matar-me... Fui para o desterro. Por entre o bramir, das ondas ouvia o vagir da creancinha; e de noite, buscando-a no céo, parecia-me vêl-a envolta em mortalha branca, entre as nuvens que passavam, e as estrellas que pareciam contemplar em mim o homem que reuniu em si quantas agonias Deus pôde crear n'um dia de cruel omnipotencia. Eu não podia então chorar como hoje. Deus não me deu a esmola das lagrimas para que o reconhecesse e confessasse na hora em que viesse a encontrar a face do anjo que nas infinitas noutes de degredo ainda me apparecia e dizia: «Espera» Chegaram. Sinto as lagrimas. Sinto-as no coração, que renasce; mas aqui dentro ha um anciar que me suffoca... Onde foi Deus levar minha filha?.. (sorrindo) Deus!.. Onde hei de eu ir procural-a?.. Alli... alli onde a desgraça, um acaso, um accidente estupido a levou! Hei de eu ir buscal-a, pedil-a... a quem? ao marido? ao filho do meu{195} algoz? Meus amigos, este apparecimento de minha filha não é um bem com que Deus me premeia... É uma nova esponja de fel, que me dão para eu matar a minha sêde d'amor e de felicidade. Não existe... Leonor está morta para mim... para sempre morta... meu Deus!.. Deixai-me choral-a segunda vez. (Esconde o rosto soluçante entre as mãos).

FIM DO PRIMEIRO QUADRO

{196}
{197}