SCENA IX

O CONSELHEIRO E FRANCISCO VALLADARES

Conselheiro

Não seria perigosa imprudencia sahir da cama, snr. Valladares? Acho-lhe um certo rubor nas faces...

Francisco de Valladares

É signal de bom sangue, quando não seja de nobre vergonha.

Conselheiro

Como?

Francisco de Valladares (inquieto)

Quero sahir de Portugal por algum tempo... Vou para Florença... É um clima restaurador; quem lá não póde viver sente-se morrer mais suavemente. Os grandes infelizes{237} devem pensar em morrer onde as agonias lhes sejam menos crueis. Vou só... quero ir só. Estou intratavel, impertinente, phrenetico. Tudo me enoja, e eu devo enojar a todos.

Conselheiro

Menos a sua esposa que o ama extremosamente e o não deixará ir só.

Francisco de Valladares

Deixa... ha de deixar. Não admitto contradicções que poderiam matar-me...

Conselheiro (com assombro)

Matarem-no!.. quem?

Francisco de Valladares

E para quê?! Eu não embaraço a passagem a ninguem! (Com exaltação de louco) Passem! Praça ao vicio! Rompa triumphante. Eu sou pequeno para me atravessar á{238} bôcca da voragem. Entrem, abysmem-se, esmaguem-me o coração, mas deixem-me a honra salva.

Conselheiro (áparte)

Está perdido!