SCENA ULTIMA
OS MESMOS, JOSÉ DE SA E JORGE DE MENDANHA
Jorge (com as costas voltadas para o visconde)
Aqui estou, Leonor. (Leonor inclina-se como quem vae ajoelhar). Não ajoelhes. Se algum de nós deve ajoelhar, sou eu diante de ti. Vingada estás do meu desamparo, filha. Perdi as tuas caricias por espaço de vinte e um annos. Agora, o que pódes dar-me é lagrimas. Eu t'as recebo como signaes da misericordia divina. Snr. Rodrigo. (Rodrigo approxima-se) Vou expatriar-me outra vez. Deixo-lhe o bom e nobre coração de minha filha. Quem a aceitou e amou pobre, nada lhe importa{210} saber que ella é rica. Filha, privei-te do amor de pae; mas os bens de fortuna, como não podiam dar-me um instante de paz, não se perderam. Poderás enxugar com elles muitas lagrimas, se ellas não forem de angustias tamanhas como a minha.
D. Eugenia (ajoelhando)
O perdão, meu pae!
Jorge
Que tenho eu que perdoar-te, anjo?!
D. Eugenia
O perdão... para o pae de meu marido. (O visconde está erguido e amparado nos braços de Pedro Aranha e José de Sá).
Jorge (sem olhar para o visconde)
A misericordia dos homens não póde ser mais indulgente que a de Deus. Quando esse{211} homem não sentir sobre a consciencia o pezo da justiça divina, o meu perdão ser-lhe-ha inutil. Eu não posso perdoar-lhe a elle, por que Deus ainda me não perdoou a mim. Leonor, eu ainda choro tua mãe. Elle... que morra a choral-a. (Aponta-o sem o vêr).