SCENA VII

JORGE E JOSÉ DE SÁ

José de Sá

Ouvi tudo. Mal vae isto, Jacome! Bem pressagiava eu que se estão encadeando outros elos á corrente das tuas fatalidades!.. Como evitarás o duelo?

Jorge (serenamente)

Em meio de tudo isto, o rapaz teve momentos em que me abalou profundamente. Via-se ali um filho, nobre coração de filho. D'uma vez divisei-lhe lagrimas. Se elle, n'esse lance, me diz que seu pae era um desgraçado digno de compaixão, eu creio que lhe diria: «Peça a Deus que quebre ao penitente os espinhos do remorso; que eu deixal-o-hei a sós com o fantasma que o arrasta á sepultura...» E, depois, que immensa piedade me fez a mulher d'este moço, aquella doce alma{180} que se desfazia em prantos pedindo-me commiseração...

José de Sá

Calculemos o progresso d'esta nova calamidade. O visconde, fulminado pela tua presença, provavelmente succumbe. Se elle morre, o filho desafia-te. Irás ao campo. Se o matas, matarás um homem que quiz, com ou sem razão, defender a memoria de seu pae. Imagina o restante da tua vida, da tua velhice, com mais um fantasma para as tuas noites de insomnia. Se elle te mata, fechaste lastimavelmente o cyclo das tuas desventuras. Morres sem que os teus amigos de ti possam dizer que tinhas precisão de morrer legitimamente; quero dizer, que acabaste consoante as leis da honra; por que eu considero trez vezes scelerado o homem que vae n'um duelo apontar uma pistola ao peito d'outro que não odeia. Que rancor podes ter ao filho do visconde? ao marido d'aquella meiga creatura que hontem chorava diante de ti com a uncção do anjo que pede commiseração para a perversidade humana? Não{181} te disse ella que, se tivesses uma filha, os odios entranhados em teu coração sahiriam nas primeiras lagrimas de contentamento? Pois bem. Tratemos de procurar essa, filha de cujo amor depende a tua regeneração. Vejamos se ainda ha n'esta vida algum contentamento para ti. Se estas esperanças fallecerem, joga a tua vida nos desafios, ou para te entreteres matando, ou para morrer entretido.

Jorge

Vamos... conta-me o teu sonho.

José de Sá

O meu sonho, se sonho é, começa na deploravel noite em que D. Martha sentindo aproximar-se a morte...

Jorge

Depressa.

José de Sá

Antes de expirar escreveu uma carta.{182}

Jorge

A quem?

José de Sá (tirando a carta da carteira)

Á irmã que tinha no convento da Encarnação. Lê.

Jorge (examina a lettra com grande commoção)

Lê tu... Não posso.

José de Sá (lendo)

«Minha irmã, escrevo-te nas ancias de uma terrivel morte. Morro envenenada por Jacome. Invoco o sancto nome de Deus para jurar que Leonor é filha de meu marido. Elle disse que não era seu pae quando eu lhe pedi que a não desamparasse. Mostra-lhe este meu juramento, feito ao ir d'esta vida á presença de Deus. Se elle a desamparar, dá-lhe tu metade do teu pão. Adeus. Chora-me e pede ao Senhor pela tua pobre Martha.»

D. Maria da Gloria recebeu esta carta, sahiu{183} do convento, e entrou em tua casa, quando a irmã era morta. Eu dirigi o enterro da defuncta, e na volta do cemiterio soube que D. Maria da Gloria tinha levado a sobrinha. Indaguei na Encarnação; ninguem me soube dizer a paragem de tua cunhada.

Jorge

E soubeste depois?..

José de Sá

Quem o sabia era um teu creado velho que já o havia sido do pae de Martha; mas esse disse-me que jurára a D. Maria da Gloria nunca divulgar a residencia da filha de sua irmã.

Jorge

Porque?

José de Sá

Porque não queria atirar aos desprêsos do mundo a filha d'uma senhora assassinada...{184}

Jorge

Nada me disseste...

José de Sá

Que importava dizer-t'o para Loanda? Sobejavam-te lá mortificações. Além de que a delicadeza impunha-me o dever de te não fallar da creança que tu não julgavas tua filha.

Jorge

Mas esta carta...

José de Sá

Esta carta está em meu poder ha dois annos.

Jorge

Quem t'a deu? Maria da Gloria? Então onde está Maria da Gloria? onde está minha filha?{185}

José de Sá

Quando ha dois annos voltei da Exposição de Pariz, encontrei no meu escriptorio uma carta escripta vinte dias antes e assignada por um empregado do hospital de S. José, pedindo-me que chegasse lá para negocio urgente. O empregado chamou um enfermeiro, o qual me apresentou uma carta ditada pelo teu creado, nos ultimos momentos de vida, em que declarava que D. Maria da Gloria o mandara chamar, cinco annos antes, em perigo de morte, e lhe entregara uma carta para te ser entregue se voltasses a Portugal. E no ponto em que ia proferir o nome do convento onde tua filha estava, expirou golfando sangue.

Jorge

E afinal? onde está minha filha?

José de Sá

Até hoje tem sido frustradas as minhas dilligencias{186} nos conventos de Lisboa; mas tu vaes lançar mão de recursos em que tenho toda a confiança.

Jorge

Quaes? Que esperanças me dás, José de Sá?