SCENA XIII

O MESMO E D. ANTONIA

D. Antonia

O mano chamou?

Francisco de Valladares

Chamei.

D. Antonia

Eu tinha ido ao jardim vêr as suas araucarias. Estão lindissimas.

Francisco de Valladares

Eu recommendei-lhe ha mezes, Antonia, que se não descuidasse um momento dos seus deveres n'umas relações amorosas em que a vi muito arriscada. O visconde do Espinhal é um homem que tem perdido no conceito da sociedade algumas senhoras na posição{243} da mana Antonia. O mundo, que despreza as mulheres que elle diffamou, nobilitou-o ao mesmo tempo com o diploma de conquistador, e o visconde considera-se obrigado a sustentar a sua reputação. Á justiça ou á dignidade dos irmãos e dos maridos responde com o duello; e á moral pacifica das familias com a zombaria. Ora eu, prevendo que o seu descredito, Antonia, me levaria ao extremo de lhe pedir a elle contas do seu honrado nome, pedi á mana que terminasse essa perigosa inclinação. Antonia prometteu terminar. Cumpriu?

D. Antonia (hesitante)

Cumpri, mano Francisco.

Francisco de Valladares

É sempre assim verdadeira? Quando accusa os outros é tão sincera como quando se absolve a si?

D. Antonia

Não percebo...{244}

Francisco de Valladares

Mentiu; mas está perdoada com a condição de desmentir-se das suspeitas que me deixou da fidelidade de Albertina. Repita-me o que sabe de sua cunhada. Chamo a sua consciencia á presença de Deus. Diga, mana Antonia, que viu? em que funda as suas desconfianças?

D. Antonia

As minhas desconfianças?..

Francisco de Valladares

Sim; não me obrigue a repetir o que está bem impresso na sua lembrança.

D. Antonia

Eu já disse que desconfiava... porque... Ha certas coisas... que inspiram suspeitas até certo ponto... sim, eu desconfiei porque...{245}

Francisco de Valladares

Essa hesitação parece um annuncio de arrependimento por haver calumniado a pobre Albertina...

D. Antonia

Calumniado! Tem coisas o mano Francisco! Sou incapaz de calumniar.

Francisco de Valladares

Bem. Diga então lá desembaraçadamente. (Vê-se ao fundo Leonardo que escuta por entre o reposteiro).

D. Antonia

Disse e digo que Albertina faz ostentação de virtudes que não tem.

Francisco de Valladares

Disse mais pelo claro que lhe parecia que ella trazia o coração distrahido...{246}

D. Antonia

Foi isso.

Francisco de Valladares

E que Albertina amava o doutor Lobo.

D. Antonia

Justamente.

Francisco de Valladares

Agora venham as provas que hontem lhe não pude pedir porque Albertina entrou.

D. Antonia

As provas!

Francisco de Valladares

Tem as provas?

D. Antonia

Para que quer o mano saber... São coisas{247} que o affligem, e lhe aggravam os padecimentos.

Francisco de Valladares

Não me dê razões parvas. (Ergue-se convulso) Responda! Mando que responda! As provas?

D. Antonia

Não se exaspere. Eu vou satisfazêl-o... Quando o medico sahiu uma vez do seu quarto, Albertina esperou-o n'esta salêta, e demorou-se algum tempo a conversar com elle, tendo-lhe as mãos apertadas nas d'ella. Outra vez, a creada de sala contou-me que ella estava a chorar de joelhos, e o medico a levantara com muito carinho e palavras meigas. D'outra vez fui eu que a vi abraçada n'elle com ar de grande alegria... Outra pessoa me disse tambem que a vira sahir de casa do medico e entrar n'uma sege...

Francisco de Valladares

Que pessoa?{248}

D. Antonia

Certa pessoa...

Francisco de Valladares (irritado)

O nome?

D. Antonia

O visconde do Espinhal.

Francisco de Valladares

Já o nome de minha mulher cahiu n'essa sentina? (muito agitado) Então está perdido tudo! Embora esteja innocente, Albertina perdeu-se! A deshonra da mulher de Fracisco de Valladares é propalada pelo visconde do Espinhal. (Fita a irmã rancorosamente, travando-lhe do braço) Se ella estiver pura, é preciso que a senhora vá ser infame longe d'esta casa onde morreu sua mãe... (Francisco de Valladares sáe impetuosamente a entrar{249} no quarto, mas encosta-se de fraco ao espaldar d'uma poltrona. Leonardo sáe apressado a dar-lhe o braço).