SCENA XV
AS MESMAS E O VISCONDE
Visconde (com mal reprimido azedume)
A mulher de meu filho não sabe francez, snr.ª viscondessa.
D. Eugenia
Ah! o pae!.. Estava ahi!
Viscondessa
Com effeito! é possivel que eu tenha o tão desejado jubilo de vêr o snr. visconde!? Ha que infinitos annos o não vi! Que doce surpresa!.. mas, ao mesmo tempo, (com a mão na fronte, pensativa) que turbilhão de recordações melancolicas! Vê? não posso vencer a commoção! (Leva o lenço aos olhos) .{71}
Visconde (sorrindo)
São os meus cabellos brancos e as rugas profundas que a commovem, minha snr.ª? Ainda bem que V. Ex.ª me não sensibilisa com o espectaculo pungente da decadencia, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Pois creia que padeço infinitamente, visconde. Fóra de Lisboa, recobro forças e energia. Eu disse ao Pimentel: quero sahir d'aqui; estou farta d'isto; Lisboa está estupida; a vida d'esta sociedade é a proza chilra das sociedades gastas, sem feição, toda safada em relevos, um cancan, uma palestra de senhoras visinhas; emfim, Lisboa acabou-se... a Lisboa do nosso tempo...
Visconde (com intenção ironica)
A Lisboa dos nossos velhos tempos, minha snr.ª...{72}
Viscondessa (sem attender á interrupção)
Resolvi sahir instada pelo primo Travaços. Vim, e sinto-me melhor. Acho certa novidade nos costumes, nas maneiras, no ensemble da vida portuense. Logo que cheguei e a prima condessa me apresentou esta snr.ª como espoza de um filho do visconde de Vasconcellos, pedi logo que me dessem occasião de vêr a V. Ex.ª
Visconde
Muito grato ao obsequio...
Viscondessa
Não me pergunta por alguem de Lisboa, visconde? Não quer saber de alguem?
Visconde
Das pessoas que conheci em Lisboa ha 25 annos que me dirá V. Ex.ª? Umas morreram, outras envelheceram. Não me parece{73} aprazivel o passearmos em um cemiterio a lêr epitaphios de pessoas amigas ou conhecidas; nem V. Ex.ª folgaria de encontrar-se com alguns velhos que encaram a morte espantados, e apertam no peito ainda com amor o abutre da saudade.
Viscondessa
Que funebre! que elegiaco!.. V. Ex.ª abafa o seu antigo espirito com o pezo dos crepes! Aqui está o que faz a aldeia. Eu estive algum tempo no campo, onde o visconde se desterrou, sacrificando-me ás experiencias agricolas. Ao fim de oito dias, snr.ª D. Eugenia, as minhas ideias eram pavorosas. Se me demoro outra semana, morria abafada. Snr. visconde, trate de viver, e deixe á morte o cuidado de o apanhar, quando estiver distrahido. V. Ex.ª acha sensato estar-se a gente a vêr morrer todos os dias? Eu não. É uma doidice que não abre as portas de Rilhafoles, nem as da Arrabida, nem as de Cartucha, visto que se acabaram os frades contemplativos; mas, snr. visconde, olhe que um mysantropo{74} da sua especie dá cabo de si proprio, e flagella, os outros com as suas visões.
Visconde (ironico)
Eu sentiria atrozmente se incutia a V. Ex.ª ideias funeraes, e usurpava á sociedade feliz as alegrias da sua optima indole, snr.ª viscondessa.
Viscondessa
Vamos... Venha a ironia que me faz lembrar o Heitor de Vasconcellos de ha 24 annos. Ria maliciosamente, que eu antes o quero vêr assim. Minha querida amiga, entrego-lhe o cuidado de restaurar o espirito de seu pae. Diga-lhe as coisas floridas e rejuvenescedoras que a mocidade sabe dizer. Remoce este animo arido, e não o deixe voltar á aldeia. E adeus, visconde. Até amanhã. Conversaremos muito... Ah! é verdade! Ó visconde, olhe se se lembra de ter visto em Lisboa um tal Jorge de Mendanha que lá me conheceu ha vinte e tantos annos...{75}
Visconde
Eu já hoje ouvi aqui fallar d'esse Jorge de Mendanha que estava na America ingleza.
Viscondessa
Está no Porto.
Visconde
No Porto?!
Viscondessa
E vem ámanhã ao baile.
Visconde
Tenho certa curiosidade de o vêr.
Viscondessa
É extraordinario!{76}
Visconde
Que singularidade são as do homem, viscondessa?
Viscondessa
É o incompris!.. tem a aureola do mysterioso; o incognito, o romance. (O visconde solta um frouxo de riso) De que se ri, visconde?
Visconde
De mim, por ter a innocente ignorancia de me espantar...
Viscondessa
Espantar-se! de quê?
Visconde
Do enthusiasmo juvenil com que V. Ex.ª pinta o homem, que, se nos conheceu ha 24 annos, deve ter uma velhice rasoavel.{77}
Viscondessa
Ahi vem uma jeremiada sobre a velhice!..
Visconde
E, se elle é maior de 50 annos, e finge o incompris, o incognito, o romance, e tem aureola de mysterio, o tal sujeito deve ser ridiculissimo. Não me tente, minha presada snr.ª, que eu sou capaz de vir ao baile para não morrer sem ter visto um homem do nosso tempo com uma aureola de mysterio.
Viscondessa (dando-lhe com a luneta no hombro)
Maganão! Cuida que toda a gente lhe ha de fazer cauda na via dolorosa da sepultura!.. Ha muito quem ainda sinta o coração desopprimido sob o pezo da consciencia; deixe rir alguem para que nos não affoguemos em diluvio de lagrimas. (Com intenção.) {78}
Visconde (pensativo e abatido)
Eu é que não posso rir-me; mas sei que ha corações que não soffrem o pezo das consciencias que nada pezam.
Viscondessa
Adeus, minha querida amiga. Adeus, visconde... Ah! que não me esqueça furtar-lhe duas camelias do seu jardim, que as vi lindissimas quando vinha subindo.
D. Eugenia
Sim, minha snr.ª, vamos colher quantas V. Ex.ª quizer.
Viscondessa
Eu amo infinitamente as camelias. As senhoras do Porto mereceram da providencia dos jardins muito mais amor que as de Lisboa. Sahem.—(O visconde senta-se alquebrado).{79}