SCENA XV
D. ANTONIA E LEONARDO
Leonardo (com respeito)
Minha senhora, vou-lhe pedir um favor por alma de sua mãe. A menina é christã, e não ha de faltar-me.
D. Antonia (com sobranceria)
Que quer?
Leonardo
Que se arrependa emquanto é tempo, e vá dizer a seu mano que a senhora faltou á verdade na intriga que armou á sua pobre cunhada. Faça-me isto, porque a senhora é catholica.
D. Antonia
Quem lhe permittiu o atrevimento de me fallar assim?{251}
Leonardo
Isto não é atrevimento, senhora; é confiança e amisade de creado antigo.
D. Antonia
Os creados antigos são sempre creados, entendeu? (Menção de sahir).
Leonardo
A menina faz favor de me ouvir aqui baixinho? (Á bôcca da scena).
D. Antonia
Diga.
Leonardo
Lembre-se que sua cunhada desfaz esta meada quando quizer; e se ella a não desfizer, desfaço-a eu, dou-lhe a minha palavra de homem catholico, que me preso de ser.{253}
D. Antonia (alto)
Que meada? que meada?
Leonardo
A menina quer que eu lhe responda tambem a gritar? Veja lá. Seu mano está alli pertinho, e a demanda póde ficar acabada aqui n'esta sancta hora. Torno a pedir-lhe por alma de sua mãesinha que vá dizer a seu irmão que não disse a verdade. A senhora disse a verdade até certas alturas; mas torceu-lhe as voltas para arranjar a mentira; sim, V. Ex.ª bem me percebe, e a consciencia lá lhe está gritando; porque a menina é, foi, e ha de ser sempre catholica.
D. Antonia (afogando os impetos da ira)
Que petulante! que villão!{253}