CONCLUSÃO
Nicoláo de Mesquita, cortado de desgostos, e inclinado á sepultura com desejos de fechar-se n’ella, saiu de Londres com o filho. A desgraça não lhe dava treguas.
Trouxe de Pariz mestres para Martinho, habeis na sciencia, e prendas de educação esmerada.
Voltou á torre solarenga, e chamou a si duas velhas senhoras, parentas de Martinho Xavier, para lhe regerem a casa e especialmente velarem o bem-estar do filho.
Passou dois annos por tal maneira abatido de espirito, que deu comsigo, quasi aniquilado de raciocinio, nos extremos preconceitos da religião desfigurada por visualidades. Acercou-se de missionarios de todo cégos á luz do Espirito Santo, em quanto ao teor de aligeirar o peso de certas amarguras. Dos missionarios resvalou ás superstições lastimaveis no homem que tivera intelligencia clara, e sciencia pratica. Prestava ouvidos e coração a coisas de agoiro, e sortilegios. De enlevos na contemplação do Supremo Senhor do céu e terra, descia a pactuar com uma boçal velhinha, santa famigerada, o quebramento do seu fadario. Esta escuridade prenunciava as trevas do sepulcro.
A piedade não o forrava aos impetos de um odio á sombra de Beatriz. Nunca mais entrou á capella onde esperavam o ultimo juizo as cinzas da infeliz. Os missionarios não souberam extirpar-lhe da alma o cancro do rancor: davam-lhe amulêtos, e orações prófugas do espirito immundo.
Mandára erigir um santuario na recamara do seu quarto, e ahi se exercitava em soliloquios mentaes, entoando com fervorosos assomos de illuminado as amorosas apostrophes ao divino dos padres Chagas e Bernardes. Se não tivesse descançado no Senhor aquelle Santo parocho, o penitente iria pela mão do velho á estrada recta da divina misericordia.
Uma tarde, Nicoláo de Mesquita, após a sobre-excitação febril de algumas horas, chamou criados com alavancas, e desceu á capella, onde não havia entrado desde a morte de sua mulher.
Mandou levantar a pedra do jazigo e extrair a ossada que estivesse mais á flôr da sepultura. Os criados suando de pavor, curvaram-se a remexer os ossos; mas superstições, ou abalo sobre-natural, não ousou tocar-lhes; e, um após outro, fugiram da capella, ao verem desfigurarem-se medonhamente as feições do fidalgo.
Nicoláo travou da alavanca, e tentou mettel-a ás junturas argamassadas do jazigo da esquerda, onde estavam as solitarias cinzas da unica adultera d’aquella familia. N’este esforço e reluctancia com as difficuldades de abalar a pedra, extenuou-se, perdeu o alento, e caiu de rosto contra o degrau do altar, exclamando vozes inintelligiveis.
As velhas senhoras, o filho, os mestres e os criados acudiram á capella, e tomaram-n’o em braços. Nicoláo revolvia a lingua na abobada palatina, e tirava uns sons roucos, arripiadores, como gritos de ave nocturna.
Chamaram medicos e sacerdotes. A medicina capitulou de paralisia o incuravel ataque. Os padres ungiram-no, que a lingua não podia accusar as angustias da alma.
N’uma lucta de spasmos e ancias se desprendeu, ao fim de vinte e quatro horas, o atormentado espirito de Nicoláo de Mesquita.
Ao cair a pedra sepulcral sobre o cadaver, justaposto aos ossos de Beatriz de Sousa, a piedade impõe-nos silencio. Vimos o que é a justiça de Deus na terra; n’outros mundos é-nos defeso devassal-a.
Martinho de Mesquita foi tutellado de Ricardo de Almeida, um dos seus mais proximos parentes, por parte de sua mãe. É hoje marido da morgada do Pontido, filha de Ricardo e Laura.
Ainda vivem os ditosos que o morgado de Fayões invejára nos seus ultimos dias de vida. N’aquella casa ha um só incentivo a lagrimas: é a memoria de Raphael Garção.
Dizem-nos que o filho de Beatriz, desde que ouviu a historia de sua mãe, tem dias de attribulado recolhimento. Possue o retrato d’ella, pendente da manilha, tirada do esqueleto de Raphael, e conservado na casa do Pontido. Uma vez sua mulher surprehendeu-o absorvido na contemplação do retrato. Poz-lhe a mão na espadua, e elle, voltando a bella imagem de sua mãe aos olhos da esposa, disse, banhado em lagrimas:
—Como não havia de perdel-a o mundo, se ella era tão formosa!
FIM