I
—Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
Ludovina respondeu:
«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
—Deves casar, como se sympathisasses.
«Bravo!... e depois?
—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? Casaram-me, deixei-me levar porque{22} era uma creança, vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.[[3]] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,{23} dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela «fortuna» de estupidas creaturas...
—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação{24} se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por não poderes levar um de glacé. Os taes censores de folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era o vestido de seda.
«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?{25}
—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.
«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção a quem me obriga.
—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.{26}
O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica receber a visita.
Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e timbra em comprar no Moré os mais anilados enveloppes, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.
Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe merece ser corrigida.
Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam{27} para elle ás onze horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do Trovador, a aria valida do Rigoletto, e o acto final da Lucia. De seguida, a compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra com a terrina da sopa do jantar.
O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da inappetencia.
Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o quantum satis das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não se entende.
Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado{28} de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.
Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.
D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.
É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.
Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde Aristophanes até Molière.
O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.{29}