VI
Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade presagiosa de trovoada.
O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.
Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.
D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa{70} apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.
Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.
Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.
D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o genro, e muda'-lo por meios suaves.
—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?
«Eu vivo assim melhor.
—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...
«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.
—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado{71} com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.
«Então que é?
—É que minha filha não póde assim viver contente.
«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.
—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.
«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.
—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?
«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as{72} outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.
—Que razão essa tão... tão singular!
«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.
—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.
«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.
O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:
EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.
Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.{73}
Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.
O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.
A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?
A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:
Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem; escrevam por baixo —O commendador JOÃO JOSÉ DIAS.
As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.
O castigo começa.{74}
{75}