XVI

Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de Celorico de Basto.

Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso não sei eu.

Caprichos.

Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.

Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João José Dias.

Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo latrocinio, pelo talisman do buril, pelo{162} fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.

Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas indisputaveis da fé.

Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico de Basto.

Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.

Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.

Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.{163} Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.

Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:

—Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!

E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!

«Que diabo é isto, senhor?—perguntára timidamente o preto.

—Não vês? é um charuto, que me ha de matar!

«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!

N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle{164} testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.

O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um romancista que sabe do seu officio.)

O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.

O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.

No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario{165} nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.

Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.

O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao{166} phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...

Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos circumstantes.

Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a Rilhafolles,{167} antes que a demencia se tornasse incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.

Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae (Pater is est etc.) queria acompanha'-la, receoso de que a presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito filial.

«Quando me casaram com este homem—disse ella—não se estipulou a condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»{168}
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