INDICE
[PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO]
[PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO]
[INTRODUCÇÃO]
[CONCLUSÃO]
[PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO]
«—Este foi o mais querido dos meus romances»
C. Castello Branco, Prefacio da
2a. edição do Romance d'um homem
rico.
Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta sentença:—«O homem não acha em si os alivios da razão quando os vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal austero da consciencia.
Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia.
O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.
Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual fôsse a distancia em que demorasse.
Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é acto impulsivo, o romancista é poeta.
Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais querido:—«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina», declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua poesia.
E como quem diz:—o symptoma da sua doença.
Pois não têem sido apodados de—loucos—os poetas? Se loucura é a desconformidade de actos ou de sentimentos com as regras da fria, pautadas e articuladas no codigo do senso-commum, vamos, que não têem os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua derrota.
Loucura lucida, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.
A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora, loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.
Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso; não cabe nas leis da normalidade.
Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas cezareos,—os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias realengas:
«Mecenas atavis œdite regibus»
outro, cantando apotheoses divinas:
«Deus nobis hœc otia fecit.»
Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando lhe estrophes accommodaticias.
Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio. Raras vezes pegou a enxertia; é certo.
O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma, estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao menos—apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os perigos;—Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue apagar a fogueira d'um auto de fé por um acto de fé, ou de prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o virus-rabico expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,—heroe sem hymnos!—á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra para devassar os segredos da erupção vulcanica.
Quantos insensatos!
Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da religião,—S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres, que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas, provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos estudos da sua extensissima symptomatologia?
E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...
A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas desconformidades com as regras da fria razão, pautadas e articuladas no codigo do senso-commum. Produzem as monstruosidades de Alexandre no Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas suas conquistas, de Xavier no apostolado.—Deus, familia e patria!—O que estes motes produziram de loucuras!
E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos desvios da razão e do senso-commum não produziram e não produzem! d'esses que espantam o mundo e se julgou,—ingenua simplicidade!—que honravam e ennobreciam a especie humana?
Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto, atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico, omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.
Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição: esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,—foi um rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.
Ahi estão ellas—nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de toda a especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o telegrapho.
Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é provadamente illustre.
Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio, excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores, sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos ecónomos e descobridores de pechinchas—o espirito conservador—os Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo, imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as ondas. Temperatura egual e morna;—a selvageria tropical, primitiva, tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.
O senso-commum até, por concessão transitoria,—sagaz bom-velho!—já creou, para illudir e desnortear poetas e romancistas, uma litteratura; em odio ás artes, uma arte; em odio ao genio, engenhos. Louvavel empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e com ella exgota a sua therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a cura fôr peior que a doença.
De muito dizer-se ao theorico:—sê pratico!—faz-se d'elle ás vezes um ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas variadissimas.
De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;—um grande poeta e um grande romancista... contrafeitos; e com elles—o satanismo e o naturalismo; porém—naturalismo—de meza de autopsia ou de laboratorio chimico.
—«Faz-me tristeza pensar,—escreveu Camillo n'um dos prefacios do seu Amor de perdição,—faz-me tristeza pensar eu que floreei n'esta futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de Quintiliano á do Collette-encarnado. A gente imaginava que os alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo, inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»—
Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de Maudsley.
Não se modificou—transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.
Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na Phedra pôz Platão na bôcca de Socrates:—«Os maiores bens são produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»—O—Est Deus in nobis,—que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S. João—«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para que o escutaes?»
Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos, aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os povos como as nevoas densas da palude.
Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas, toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.
Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos arvoredos.—A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados, sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo, patrimonio de todos.
N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:—«De mim digo que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos. Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido heroes. Além d'isso apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que passam. Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a singularidade de nos não lastimarmos.»—
Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir, que nunca lhes quiz mal.
Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as flôres do mal; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha a ingenuidade de julgar sagrados.
Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir, indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os espiritos fortes sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.
Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.
Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.
Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre Alvaro Teixeira:—«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»
—Deus—era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo a mais constrictora ancia da sua alma.
Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça paternal,—a da caridade?—«A solidão sem Deus não serve para infelizes maus»—nos diz elle no seu livro de consolações—O romance d'um homem rico—onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da resignação:
—«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado... Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e encontram os de Deus.»
E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:
—«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á «Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»—
E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da arte:—«Rien n'est beau que le vrai».—Por isso elle nos diz:—... «Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da verdade.»—
Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a indole do artista que o reproduz.
O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta, existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo existe na natureza.
Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.
Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar revelações e inspirações por todos esses theatros em que a humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não é educadora, não é nada e para nada serve.
Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros princípios e outras aspirações.
E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes impuridades espremem dos bicos das suas pennas!
Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas, com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da sepultura!—chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal insomnia,—signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes, achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal, falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.
Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em quando Camillo escreve a Corja ou o Euzebio Macario e Zola escreve o Sonho. Passos dados para a concordia senão para a unificação das escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo futuro.
Ha na Brazileira de Prazins uma ultima, talvez definitiva, feição litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates.
O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou d'uma hypocrisia revoltante.
Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.
Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e vão sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em edições populares. É certo que os contemporaneos do grande escriptor se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em plebiscitos—primeiro escriptor portuguez da actualidade,—honrado pelos poderes publicos, á porfia, procurado por todos aquelles que os combates da imprensa traziam d'elle distanciados, a unanimidade congrega-se em tôrno d'elle, no unisono d'uma apotheose sem exemplo.
Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas ingratidões.
Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho—sua religião e seu confôrto.
Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa.
Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!
Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.
A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro, que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de resignação, não póde resignar-se.
Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, de todas as terras, e até de todo o convivio,—porque ouvir, somente,—aquelles que o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia a dia, vae julgando incuravel.
Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.
Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas Chronicas duas rainhas que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do sempiterno horror.
Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como seu ultimo recurso.
Tristissimo.
Assim vive,—se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior que a morte,—o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os braços a procurar mão valedora....
Meu pobre amigo!
Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta esperança.
Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.
Quantas vezes tem elle repetido:
—«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi O romance d'um homem rico!»
Carnaxide, 1 de julho de 1889.
Thomaz Ribeiro.
[PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO]
Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver, soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não sabia gastar melhor e mais aproveitados.
Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial da desfortuna.
Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.
Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.
Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos balsamos dôces.
Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.
Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze casamentos felizes.»
E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.
Bellas, 19 de Maio de 1863.
CAMILLO CASTELLO BRANCO.
[INTRODUCÇÃO]
As tribulações dos santos são enigma:
uma cousa parecem, e outra são e significam:
parecem miserias da fortuna,
e são concelhos da Providencia Divina,
e signaes da felicidade eterna.
P. M. BERNARDES. (Silva de varios
dictames espirituaes.)
Na primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolonia, um bilhete da via-ferrea, para a ponte da Assêca. Saudades do campo, ancias de sorver do seio da natureza um hausto de ar puro; e, acima d'isto, o meu dorido amor a quantos sitios guardavam para a minha memoria do coração vestigios da infancia, que tão depressa passara com as flores d'outra mais formosa primavera... A que vem isto?!... É a saudade, leitor! Se a sente, se a já sentiu, recorde-se, e perdôe-me.
Entrei n'uma das mais flacidas carruagens do comboi.
Vejam a egoista e brutal natureza do homem-corpo! Nem quando a alma padecia tanto, se dispensou a ignobil materia dos regalos das almofadas! A angustia lamentosa de Lamartine era sincera; creio: mas em que recamaras de asiatica opulencia se lamentava elle! Que requintes de luxo para o corpo, e anhelos de gloria para a felicidade do espirito lhe não infloravam ao poeta de Elvira a dupla existencia, quando elle escrevia:
Héritiers des douleurs, victimes de la vie,
Non, non, n'espérez pas que rage assouvie
Endorme le Malheur,
Jusqu'á ce que la Mort, ouvrant son aile immense
Engloutisse à jamais dans l'éternel silence
L'éternelle douleur!
E Petrarcha, tanto anno a chorar sonetos, aposentado no palacio d'um doge, rodeado de servos, e d'amigos, e de admiradores, n'aquella feiticeira Veneza, tudo a expensas da republica!
E todos os outros mestres de bardos melancolicos?
Que muito enganados andamos nós com os poetas lagrimantes!
Eu ia a scismar n'isto, quando me deu na vista um homem, companheiro de carruagem, o qual estava pendurando o chapéo no arame, e vestia a veneranda calva com seu barrete de troçal preto.
Cortejei-o, na hypothese de que elle me tivesse já cortejado, e eu não correspondesse, de abstrahido que ia a pensar no corpo e na alma, cousas disparatadas, que o leitor póde vêr mirificamente descriptas em S. Agostinho, e melhor ainda, em Xavier de Maistre; no primeiro, quando se confessa; no segundo, quando viaja á roda do seu quarto. O santo bispo chama ao corpo «bruto» e o conde francez chama-lhe «besta»—ao corpo entenda-se, e não ao bispo. Para mim tenho que o corpo é ambas as cousas, e muitas outras.
Se entro a desvariar, o leitor passa ao capitulo segundo, e isso é que eu não queria, porque os meus romances começam todos pelo principio, e este primeiro capitulo deve lêr-se.
Cortejei o padre. Parece-me que ainda não disse que era padre o meu companheiro. Dava-se logo a conhecer por tal n'aquelle apostolico semblante, se o não dissesse a volta e a sotaina, e o sapato de fivela de aço reluzente.
Correspondeu ao meu gesto com muita afabilidade, tirou-me da mão o chapéo para pendural-o, e offereceu-me rapé, depois de bater quatro vezes com os nós dos dedos na tampa da sonora caixa de tartaruga, marchetada de madre-pérola.
—Póde fumar á sua vontade, se fuma—disse-me elle.
Agradeci o agradavel consentimento, e offereci-lhe a minha charuteira, que elle não aceitou.
Recahi no meu lethargo. Agora era diversa a these: meditava n'esta palavra MORAL, e n'esta outra virtude, e lembrou-me Bruto. Todos sabem que Bruto, no ultimo instante de vida, dissera que a virtude era apenas uma palavra. Por isso é que eu ia conversando com o sanguento phantasma do heroico inimigo dos tyrannos.
—A moral!—dizia eu só commigo, depois que a imagem de Bruto se vaporou—a moral é que não é meramente uma palavra. Aqui vai quem poderia dizer-me o que é a moral. Este homem tem um rosto lucido e intelligente: como que estou vendo por elle uma boa alma.
Fitei os olhos suaves do sacerdote. Estava elle com os dedos inclavinhados e as mãos postas sobre o peito. Dava ares de profundo recolhimento, senão tristeza. Gostei de o vêr assim n'aquella postura, a mais artistica e significativa de paz, e conformidade vencedora dos maus e dos males da vida.
Comparei-me com elle. As minhas dores surdas, disfarçadas n'um sorriso convencional, e timorato do escarneo dos insultadores! O contentamento interior d'aquelle homem, revendo-lhe ao rosto, em suave tristeza, contrasenso se quizerem, mas expressão leal d'alma pura e sem temor! Aos olhos de um observador inexperiente, qual de nós dous seria o feliz?
Sahiu-se o padre do seu absorvimento, e disse-me:
—Serei indiscreto, perguntando-lhe onde tenciona ir?
—A Santarem.
—É um passeio aprazivel! O «valle» é um paraizo, povoado de saudades, que chamam sempre o espirito de quem lá teve uma hora de felicidade. Uma hora, digo, porque a felicidade d'este mundo, e só d'este mundo, não dura mais que uma hora.
—Ha quantos annos eu lá não fui!...—continuou o padre no tom magoado de entranhada saudade—E já agora é tarde... é o anoitecer da vida...
—Parece-me tão facil de satisfazer esse desejo!—interrompi eu.
—É facil, diz bem; mas é que ha saudades, que desabafam nas lagrimas; e outras, que se embebem d'ellas. A saudade do objecto, existente a distancia, converte-a em delicias a aproximação; porém, quando a saudade de um sitio é a dôr repercutida de vidas que lá viveram, e não podem reviver com a nossa, essa não tem allivio.
—Creio que tem—disse eu—é vêr e amar essas vidas em Deus, chamal-as em espirito ao lugar onde as amamos, e conversal-as na linguagem das lagrimas...
—E da oração...—disse o padre, e proseguiu, depois de breve silencio—Prouvera a Deus que todos os que soffrem de affeições perdidas tivessem o desafogo de buscal-as no céo...
E calou-se de súbito, cerrando as palpebras, e encruzando as mãos longas e ossudas sobre o peito.
Estavamos no «Poço do Bispo.» Pesava-me a idéa da separação, cuidando que o padre sahiria alli. É que já o estimava, captivo de sua linguagem e semblante. Eu sou assim com todos os homens, se me elles parecem intelligentes e desgraçados.
—Fica no «Poço do Bispo?»—perguntei.
—Não senhor; vou para os «Olivaes.»
—A passeio, ou é de lá?
—Vivo lá: tenho alli arrendada uma vivenda, umas ruinas pittorescas, em que me sinto bem. Estou alli como encasado n'aquellas paredes abaladas que parecem estar-me dizendo todos os dias: quando cahiremos nós comtigo?
Abriu um sorriso de extrema tristeza, e ajuntou:
—Se o senhor vier aos «Olivaes» alguma vez, e quizer hospedar-se na humilde casa, que lhe offereço, e sentar-se á mesa em que ha sempre o riso e vacca de frei Bartholomeu dos Martyres, pergunte pela quinta do Canavial, e procure o padre Alvaro Teixeira. Raras horas no anno estou fóra do meu quarto, ou dos arredores da casa. Encontra-me sempre, salvo se algum visinho lhe disser que o pobre presbytero passou a morar n'outra residencia onde as pessoas que me visitarem terão a caridade de pedir a Deus o descanço da minha alma.
Disse isto o padre sem o menor tregeito beatifico. N'aquellas palavras doridas sorria a consolação da esperança, e a jovialidade do justo que se não teme das contas finaes de sua alma com Deus, e da memoria, que de si deixou, com a justiça humana.
—Espero ir encontral-o com muita vida, senhor padre Alvaro Teixeira, e não será muito tarde. A sua povoação está ás portas de Lisboa; mas, ainda que muito longe fosse, eu iria passar uma hora com o homem communicativo e estimavel, para quem o coração me está fugindo com a palavra «amigo.»
—Agradeço-lh'a, e afago-a; respondeu, e estendendo-me a sua mão—Que o sentimento generoso sahe espontaneo do coração, sem consultar o raciocinio; ao passo que frequentemente as melhores qualidades do homem, que tratamos longo tempo, não vencem a descaridosa antipathia de um primeiro encontro.
—Como se chama?
Disse-lhe o meu nome. O padre repetiu-o tres vezes pausadamente, syllaba por syllaba, e depois exclamou de repente:
—Não me engano. É o mesmo. Eu conheço o seu nome ha onze annos. Entre os meus livros estão vinte paginas da sua infancia litteraria. Nem, talvez, já se lembre d'ellas! Pois não deve esquecel-as... Eu lhe cito o titulo: O CLERO E O SENHOR A. HERCULANO.
—É a verdade; são minhas. Classificou magistralmente a cousa: vinte paginas da minha infancia litteraria, felizmente esquecidas...
—Mas não as esqueça em si o homem de coração, que deve prevalecer ao homem d'estudo. Foi temeridade assentar-se á beira do caminho, por onde passava triumphantemente o primeiro sabio de Portugal; mas, feliz culpa, ditoso atrevimento o do rapaz, que não tinha exhauridas ainda todas as lagrimas da compuncção. Atrevimento reprehensivel fora o da porção do clero, que desenrolara do pulpito abaixo o sudario da sua ignorancia, disputando á sciencia o que era da sciencia, e arriscando a causa da verdade ás vaias de ingenerosos adversados, os quaes, não podendo hombrear com o historiador doutissimo no solio da sciencia, e castigar de lá os ignorantes, entenderam que bem mereciam do mestre apanhando-lhe a lama do chão das suas botas, e atirando-a á cara dos padres. No folheto do meu amigo não havia polemica nem sciencia; mas sobejavam conselhos aos parciaes do clero, que porfiavam em levar vantagem de injuria aos inimigos. Não se corra de ter, um dia, escripto que o padre é ignorante porque o não ensinam, e que as verdades santíssimas de Jesus não podem ser menospresadas pelas argucias da razão philosophica, nem pela rude e escura hermeneutica dos mal aviados defensores da exclusiva razão do catholicismo...
N'esta esteira foi navegando o padre, a todo o panno da sua muita critica e erudição. Pedem os leitores que os poupe ás conferencias do levita, e eu de melhor vontade os dispenso de ouvir-lh'as, mesmo porque me era preciso saber tanto como elle, para o não desprimorar da eloquencia com que me aligeirou em instantes a hora decorrida até os «Olivaes.»
Parou o comboi, e o padre suspendeu o discurso n'uma conjuncção.
—E portanto...—disse elle—Adeus, meu amigo, não ha tempo para mais.
—E portanto—disse eu—não o dispenso de concluir o seu discurso. Eu é que digo por hoje adeus ao valle de Santarem, e fico nas pittorescas ruinas dos «Olivaes.»
—Fica!—exclamou elle com alegria—Pois bem haja!
Saltei, dei a mão ao padre, e apresentei o meu bilhete ao conductor.
Merece chronica um episodio de instantes que se deu entre mim e o conductor n'esta estação. O meu bilhete designava a «Ponte da Asseca» e o conductor formalisado dizia-me que eu não podia deixar de ir á «Ponte da Asseca.» N'um breve discurso tentei debalde provar ao funccionario que a companhia não era prejudicada com o receber mais oitocentos e tantos reis acima da minha passagem para os «Olivaes.» O homem, que era belga, não entendia o meu vasconço de Poitou. O padre encostado ao cunhal da estação, arquejava de riso; o belga relanceava os olhos envinagrados, avinhados é mais exacto, d'elle para mim e de mim para elle, julgando-nos ambos cumplices na logração. A final soou, segunda vez, a campainha, e o habil empregado lá foi fazendo de mim um mau conceito. Isto prova que bem avisado andou o governo, collocando o intelligente belga, no lugar onde podia fazer tolices algum portuguez estupido. E, se não provasse isto, provaria a embriaguez do homem, e ainda assim a boa escolha.
—Ora vamos lá—disse o padre Alvaro Teixeira, encostando-se ao meu braço—Temos dez a doze minutos de caminho. Vamos pisando este chão que é como sagrado para mim. Repare nestas flôres das ribas e vallados, que eu vejo ha trinta annos, sempre com o mesmo viço e a mesma côr em cada primavera. Ha na natureza um aspecto de indiferença que exacerba a dor dos infelizes, se é que todas estas boninas não renascem para chorar commigo. Um poeta diria e pensaria isto. Quando alguns traços do passado se me varrem da memoria do coração, e, depois, acerto de encontrar-me com a madresilva, com a margarita, com a flôr do rosmaninho, revivem as lembranças todas, umas pungentes, outras doces de saudade; mas nenhuma de esperança... Esperança! Não se ri d'esta palavra na boca de um velho, que cahiria extenuado se apressasse a corrida após de uma esperança, áquem da sepultura?...
—Por que não? A esperança de encontrar mais um amigo, e depurar alguma alma empestada pelas más paixões, não é tão digna de si, e dos seus annos!? E além de que o senhor padre Alvaro não é velho.
—Veja se me lisongêa, meu amigo. Olhe se faz com as suas palavras a maravilha da fabula: rompa n'aquella pedra a fonte da juventude do corpo e a da alma. Remoce o achacoso velho que já conta... diga lá, quantos annos me faz?
—Cincoenta e seis, ou sessenta, quando muito.
—Não, senhor: tenho quarenta e seis.
Contemplei-o com assombro e piedade. Quarenta e seis annos aquelle homem, que me ia pesando no braço, e se abordoava á grossa bengala que lhe oscilava na mão! A luz dos olhos serena, mas quasi apagada. Os vincos da testa escalvada encruzados e fundos, travando-se em miuda rêde ao redor das orbitas. As faces arregoadas, lividas, e flacidas. As cordoveias do pescoço repuxadas pelos tendões descarnados. O dorso recurvo, e as extremidades tremulas e morosas nas articulações dos joelhos. Quarenta e seis annos! Que fogo voraz se retrahe no coração d'este homem, quando o involucro assim se fende e estala febra a febra! Foi a mão de Deus, que me guiou a ti, filho da dor, para me humilhar diante da tua paciencia!? Falla, falla, ensina-me a compor dos meus gemidos o hossana da victoria, sobre as agonias, que me vergam, quando eu mais me afadigo a despontar-lhe os espinhos com a rebellião insoffrida. Diz-me através de qual fibra illesa e invulneravel te vem do espirito aos labios esse teu sorriso! Dá que eu prove o fel de cada lagrima, que enxugaste com o punho da batina nas tuas faces aradas! Não cáias arvore bemdita, sem que eu colha fructos de benção d'essas magestosas frondes, que se abaixam até ao raso da minha miseria. Se adivinhaste um infeliz no homem, que deixou em tua memoria as vinte paginas do coração juvenil, deixa-o sentar-se á tua beira, a meio caminho da vida; aponta-lhe d'aqui o trilho menos escarpado da sepultura; ensina-o a converter cada espinho em flôr; cinge-lhe os rins com o cilicio que revigora a alma; dulcifica-lh'a com o travor das lagrimas penitentes; dá-lhe a força de homem, e reserva para Deus a tua essencia de anjo.
Este era o seu refugio, o seu descanço.
Fr. LUIZ DE SOUZA. (V. do Arc.)
A tristeza das ruinas é uma tristeza particular, da qual nem todas as almas se magoam. Já observei vezes sem conto isto mesmo no semblante das pessoas que foram commigo a visitar um palacio derrocado, ou as alpendradas d'um convento, ou algum lanço empenado de muro de castello.
No convento de franciscanos, cerca de Vianna, reliquias santas em cujas abobadas credes ouvir ainda o ciciar dar oração dos frades comtemplativos, estava eu, por uma tarde de estio, com um amigo, que escrevera muito sobre a poesia da cruz. Subimos a um teso d'onde se avistavam descampadas e fertilissimas varzeas. A fronte do meu amigo pareceu-me alumiada do sacro lume do estro. Esperei, com reverente silencio, a estrophe inspirada pela soledade, e esmaltada dos matizes do sitio, que eram poesias feitas para um genio que as bem soubesse ler. Entre-abriu o poeta os beiços, como flôr matutina o calice ao primeiro beijo do sol, e disse:
«Se fosse meu tudo isto que vejo d'aqui, ia viajar n'um vapor meu, comprava um palacio em Milão, outro em Paris, outro em Londres, e havia desbancar quantos luxos orientaes o Byron inventou para o seu Sardanapalo!»
Não respondi, de triste que fiquei, e de triste que já estava.
Outra vez, fui com outro amigo ao castello de Palmella. Desci ás masmorras em que não seria custoso com uma enxada trazer á flôr da terra as ossadas dos que alli morreram ha cem annos emparedados á ordem do conde de Oeiras. Refugi com o pensamento d'este laivo sangrento da historia, e fui em cata de glorias aos seculos primeiros d'aquelle baluarte da nossa independencia de Castella e da mourisma. Enleavam-me estas meditações, quando o meu amigo, cabisbaixo n'um angulo d'um bastião, resmoneou:
«Fizemos uma crassa tolice em não trazermos de Setubal um pedaço de carne assada e duas garrafas do Cartaxo, que era optimo vinho, e havia de saber-nos aqui que nem o nectar dos deuses.
Ora, este poeta era amantissimo de ruinas, quando as poetava no seu gabinete, em artigos, a um tempo, de saudade do que fomos, e fulminação contra os governos barbaros, que deixavam ao camartello iconoclasta demolir os vetustos moimentos da nossa extincta grandeza.
Outro caso:
Nos arrabaldes de Lisboa, ha um espaçoso jardim abandonado, junto de uma casa esburacada de balas, e aberta em largas fendas, desde o cerco de 1833. Por entre hervas e arbustos silvestres rompem algumas hastes enfezadinhas de rarissimas flôres, que teimam em reflorir na sua estação, como se a esperança lhes não morresse ainda de voltarem aos cuidados da mão delicada, que as semeara e amimára alli, com o coração em flôr tambem. Quem se lembra ainda da formosa jardineira que descia com o sol a colher ao seu jardim os mais gentis enfeites do seus cabellos? A formosa passou, e a rosa de toucar floreja ainda ao pé do myrto, á sombra da anemola e da romanzeira, abafada pelas moitas das papoulas, que são o ephemero adorno das sepulturas. Que triste eu scismava n'isto, quando o meu amigo, author de idyllios que faziam amar a botanica e adorar as flôres, rompeu n'esta canção:
—Este jardim, aqui ás portas de Lisboa, se o dono o pozesse a couve lombarda e feijão carrapato podia render vinte e tantas libras annuaes.
Disse, e perguntou-me se iriamos jantar ao Matta, ou á Taverna ingleza.
Por estas e outras, puz eu que a tristeza das ruinas é uma particular tristeza, da qual nem todas as almas se magoam.
Eu de mim, liberalmente dotado de dores minhas e intimas, já fujo de ir onde está a solidão lamentosa, parque nunca me ella deu o remedio que deu a muitos, mal feridos do mundo. E de ruinas é que fujo mais esporeado pela lembrança das más horas, e peçonha para muitos dias que tenho trazido de lá, em vez do balsamo, que a meu ver, só é salutar nas almas golpeadas, se a consciencia não se dóe com ellas.
As unicas ruinas de que tenho saudosa memoria são as da vivenda do padre Alvaro Teixeira, nos «Olivaes.»
A casa tinha claros vestigios de palacete. Os cunhaes estavam em pé, amparando alguns lanços de parede, recortados em escaleiras desiguaes. Através de nove janellas das quatorze da fachada coava-se o azul do céo, apenas interceptado por algumas vigas e ripas empenadas e torcidas pelo calor. Nas padieiras e cornijas amarelleciam fetos e outras hervagens resequidas que deixavam realçar o verde da hera. Esta marinhava do interior das paredes para os batentes e couçoeiras das janellas, sem portadas, e n'algumas enredava-se em urdidura tão agradavelmente tecida, que dissereis ser a natureza tanto mais de vêr-se quanto mais desalinhada é da esquadria da arte.
Entramos n'um largo portal, que abria para um pateo espaçoso, alcatifado de relva, nos pontos de juncção entre as lageas. As paredes circumpostas eram ladrilhadas de tijolo azul e apainelado, figurando passagens mythologicas e campestres. No rebordo superior d'este ladrilho, corriam em toda a roda argolões feluginosos, que deviam ter sido as prisões dos cavallos, nas tardes calmosas, quando os antigos senhores, refestelados nas suas cadeiras encouradas, vinham, do patim imminente ao pateo, gozar-se do espectaculo dos mursellos e alazões rinchando, escarvando, e folgando em airosas upas.
Subimos a escadaria do patim, e entramos n'uma sala pouco alumiada e muito extensa. De relance vi que o tecto era de castanho e profundo, com artezãos grosseiros, e um brazão de extraordinario tamanho e lavor no centro. D'este pendia uma corrente de arame e um grande lampadario, através de cujos vidros afumados, a custo uma tocha lograria coar o seu clarão. Ornato n'esta sala não vi algum, a não serem dous escanos de castanho, de altissimo respaldo, com a pintura duplicada a ocre das armas do tecto.
Segui o padre ao longo d'um comprido corredor ladeado de quartos, á imitação de dormitorio claustral. A maior parte d'estes quartos não tinham tecto, nem portas, nem pavimento. Na extrema do corredor estava uma velha sentada, quando apontamos á outra extrema. Levantou-se então, e forcejou por tirar do cinto duas chaves encambadas n'um atilho, operação não facil, porque o atilho se lhe enredara nas camandulas, e estas no fuso, e este no fiado.
—Não se impaciente, senhora Eufemia,—disse o padre.—Ande lá de seu vagar, que nós não temos pressa.
—Valha-me Deus!—disse a velha afreimada—este berzabum do negalho parece que tem cousa má! Não querem ver isto? Olhe onde o rosario se foi imbelinhar!
A senhora Eufemia já suava, e cada vez embrulhava mais as cousas, a tempo que o padre, tomando-lhe das mãos a tarefa, ia desdobando a miada, sorrindo e gracejando com a velha, que não podéra sahir-se d'aquellas difficuldades, por ter dous dedos da mão esquerda inutilisados n'uma grossa pitada de simonte, que resfolegou, em quando o padre pacientemente desenredava a cambulhada.
D'alli passamos á porção mais reparada e habitavel do palacete, e residencia do locatario. Era uma sala, e dous quartos contiguos. N'um d'estes estava a cama e livraria do padre; o outro era devoluto para hospedes. A sala tinha mobilia, que fora sumptuosa no começo do século passado: eram tremós dourados, cadeiras de estofo estreitas com espaldar alto e douraduras floreadas, mesas lisas orladas de embrechados a ouro, com fechaduras de prata rendilhadas, jarrões indianos com reluzentes matizes de escarlate e azul. Das paredes, cintadas de florões a oleo, pendiam os retratos de D. João V, ao de D. Pedro III e D. Maria I n'um só retabulo. Outros retratos innominados, afóra o do ministro da justiça no reinado de D. Miguel, João de Mattos Vasconcellos Barbosa de Magalhães, oriundo de Barcellos, e morto no desterro, adornavam, a grandes intervallos, as quatro paredes da sala, cuja limpeza abonava o cuidado da senhora Eufemia.
Abriu o padre Alvaro a vidraça do seu quarto, e eu fui á janella examinar os contornos da casa. Vi em baixo uma pequena parte d'um grande jardim cultivado e retalhado por meandros de murta e alecrim. O restante estava abandonado. Feixes de herva myrrada afogavam um cysne de pórfido, o qual se levantava sobre um pentágono de granito, no centro de uma bacia de marmore de todo sêcca, e esborcinada. Arvores de densa copa e muita grossura de troncos formavam, emmaranhando-se, a enorme sebe do antigo jardim. Através das clareiras interpostas aos troncos entrevi um paul, reliquias do que devera ter sido um vistoso lago. Rebalçavam-se no charco alguns patos, e saltitavam e ralavam as rãs como á competencia com as cigarras.
Defronte, a duzentos passos, vi uma casa nobre, toda ladrilhada de amarello, com as suas tres chaminés pintadas de azul, e brazão de armas, retocadas de novo, no triangulo em que remata o frontal do edificio.
—Quem vive n'aquella bonita casa?—perguntei eu.
—Aquella casa é d'um commerciante de Lisboa—respondeu o padre—Foi dos que foram donos d'esta em que vivo...
Observei no semblante do padre mudança de côr, e muita tristeza no olhar para uma das janellas do palacete. Dava a cuidar, pela insistencia com que fitava a janella, que devia alguem apparecer alli; mas tanto aquella, como todas as mais, estavam fechadas, e nenhum signal de vida, se não o chilrear das andorinhas ao longo das cornijas da casa, podia responder á observação attentiva do meu amigo. Não era observação, era absorvimento, por motivos que o leitor saberá opportunamente.
Como de golpe, sahiu o padre do seu transporte, e, voltando-se risonho para mim, disse:
—Vamos vêr se o meu amigo se conforma com a mesquinha hospedagem que lhe dou. Venha d'ahi.
Segui-o ao quarto visinho, onde estava a senhora Eufemia toda azafamada a desdobrar lençoes para a cama. Era esta um grande leito liso de pau preto com as quatro hastes do pavilhão. Completavam o adorno da camara duas cadeiras e uma banquinha, e lavatorio de ferro, onde já se via a fina e alvissima toalha. Na parede estavam doze estampas enquadradas em ébano, as quaes representavam a vida de Barnabé Chiaramonte, com referencia a Napoleão, segundo a conta Beauchamp na «Historia dos infortunios e captiveiro de Pio VII.» A alfaia mais rica do meu quarto era um festão de trepadeiras, com flôr escarlate, que ensombrava a metade superior da vidraça. A limpeza, a frescura, o perfume, e a doce melancolia d'aquelle recinto não podiam invejar pompas, se as ha, que mereçam comparação com as do meu saudoso e lindo quarto das ruinas dos «Olivaes.»
—Já sabe—disse o padre—que tem de fazer aqui penitencia da irreflexão com que se fiou da minha hospitalidade.
—Como isto é gracioso, senhor padre Alvaro!—disse eu sem simular o enthusiasmo—A poesia está aqui!
—A poesia dos prophetas de Jerusalem;—atalhou o levita—a poesia das lagrimas...
—E a da esperança, que é tão formosa, tão do céo, e dos desventurados n'este mundo!—acrescentei eu, enlevado no meu rapto de cinco minutos—Aqui, devem vir os luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de novo á arena. Aqui, restauram-se os alentos do espirito, extenuado por perdas do seu sangue, que—é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco, entre a creatura manietada, desvalida, e vil, e a besta-fera em toda a pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez, e soberba. Mal d'aquelle, que foge o mundo, e se refugiarem si: é um engano; é render-se o homem ás garras do dragão que encerra, e nutre com a peçonha que a desgraça lhe vara no seio. O homem, desfavorecido dos acasos de que depende a felicidade, o bem, e a fortuna, não póde nada comsigo, nem deve estar lacerando-se com as suas proprias unhas para extirpar com o sangue a raiz do mal. Fóra de si é que está a salvação. Em Deus é que...
—Em Deus—interrompeu o padre. É essa a palavra, onde eu o estava esperando, meu amigo. Não se contradiga. Disse ahi que «a felicidade, o bem, e a fortuna são dependencias do acaso.» Quem isto sente, não acha absolutamente necessaria a intervenção da vontade divina nas contingencias, meramente casuaes, d'esta vida. Offerece-se-me cuidar que o meu amigo não meditou no desconcerto dos seus principios com as consequencias. Se a felicidade—a da consciencia, entendo—é obra do acaso, o acaso é a lei de Deus na ordem do mundo. O paradoxo salta! Não serei eu quem peça a Deus o milagre de fazer-se absurdo por meu respeito, até ao ponto de pôr á minha disposição uma cadêa de acasos felizes. O bem-viver, meu amigo, é tão rigorosa consequencia do bem-fazer, como a luz o é d'aquelle astro, que alli está no céo, protestando contra a sua theoria dos acasos. O homem não acha em si os allivios da razão, quando os vicios lh'a degeneram. A razão depurada dos sedimentos da antiga culpa, no crisol do Evangelho, é Deus. Deus não é sómente puro amor, é pura razão tambem. E, se não, veja que os bem-aventurados n'este naufragio da vida são aquelles que, rebatidos d'uma vaga contra a outra, emergem á flôr de cada escarcéo, abraçados á razão, taboa de infallivel salvamento. O embriagado da sua falsa fortuna, cuidando-se, um momento, domador das tormentas, póde sorrir de desprezo ou mofa, vendo quam dissaboridos e minguados passam os dias do justo. Aquelle dirá que o acaso prospero lhe bafeja a si, e o funesto ao outro? Dirá; no entanto, meu amigo, será tudo escuridade á volta d'este fatuo dos seus bens exteriores, quando a roda do acaso desandar. O interior, a quem me soccorro desconfortado, é a minha razão. Se as paixões me apagaram esta luz bemdita, a quem pedirei eu a esmola d'outra luz, se não a Deus?
Disse bem, meu amigo: «mal d'aquelle que foge o mundo, e se refugia em si.» Não andaria melhormente avisado o naufrago que, escapado do mar alto, entendesse que o salvar-se estava em ser revessado contra os penhascos das costas. Antes prolongar a agonia na esperança d'uma vela salvadora que nos póde chamar e reanimar para maior esforço. Antes esvasiar o calix da injustiça humana, sem o repellir, esperando que o Senhor dos mundos se amercie dos seus reptis, occasionando-lhes um dos imprevistos encontros, que lá estão delineados na sabedoria divina. A solidão, sem Deus, não serve para infelizes maus. Os bons, os absolvidos por sua consciencia, refrigeram-se, convalescem, e saram no ermo; bom é, porém, que não venham aqui ungir os braços para sairem de novo á arena. O proveitoso, o melhor, o sobre-excellente é que os luctadores invenciveis da fortuna não façam timbre em se degladiarem com ella, e deixem a arena aos vencedores lacerados de uma hora, e aos vencidos manietados da hora seguinte. Dito isto, meu amigo, pergunto-lhe eu se tem horas de jantar acostumadas.
Este remate, posto com um riso de graça, fez-me rir tambem. Como eu respondesse consoante mandava a cortezia, fomos para a mesa, que era proxima da cozinha, e ficava longe, em outro pequeno lanço habitavel da casa, para onde passamos, sobre um passadiço de tabões, fincados nas soleiras de duas portas.
.........................
No has visto mas?... Vuelve á la
pradera, hijo mio, por que hay en
ella cosas mas dignas de tu
atención.........................
Dios estaba en medio de los campos.
No le has visto? A él debe la
pradera su belleza; las miradas
de Dios animabam la claridad del
sol..........................
No has oido mas que él murmullo
de los arroyos, et gorgéo de las
aves, y el viento que mecía las ramas
de los árboles? Vuelvebe al
bosque, hijo mio, porque tus oidos
percibiran cosas mucho mas grandes...
ILDEFONSO MIRANDA (Himnos de
la primera edad.)
Passaram tres dias sem me eu lembrar que era delicadeza, se não dever, despedir-me do meu gasalhoso amigo: tão dulcificante me era aquelle remançoso descanço do corpo e socego de espirito.
A minha vida aligeirava-se a conversar, meditar, e lêr, toda instructiva e de proveito, sendo que poucas horas bastam á alma para se nutrir em colmeia copiosa, como era aquella, do mel que ao depois edulçora os azedumes de largos annos.
Tinha o padre umas horas da manhã, e sobre tarde, em que evitava delicadamente a minha companhia, e se fechava em seu quarto. Na terceira tarde, estava eu á beira da lagoa onde se rebanhavam os patos, e, por entre as frondes do arvoredo, vi o padre á janella do seu quarto, com o rosto entre as mãos, e os cotovelos apoiados no peitoril, e os olhos immoveis e fitos na casa fronteira do negociante de Lisboa. Naturalmente, e não sei se até curiosamente, relancei a vista para a casa, e vi, como sempre, as janellas hermeticamente fechadas. Estive n'este reparo até ao toque das Ave Marias. Padre Alvaro levou então ambas as mãos á cabeça, tirou o solidéo, e afastou-se da janella, já com as mãos erguidas.
Á hora do chá, a mais taciturna e recolhida do padre, disse-lhe eu:
—Vossa senhoria de certo não reparou ainda no meu apêgo ás suas ruinas; creio que não, porque é bom, e sente o bem que me vê gozar. Não obstante eu devia já ter dado por concluida a minha visita, sem comtudo julgar esgotada a hospedeira bondade do meu presado amigo. Não me culpe a mim, condemne a sua affectuosa convivencia, e o mundo tambem que me não dá outro amigo como o snr. padre Alvaro...
—Onde vai dar comsigo n'esse arrazoado?—atalhou.
—Era o prologo da despedida e do agradecimento que eu estava fazendo.
—Pois fique no prologo; e se, de força, quizer entrar no discurso, reduza-o á simples confissão de que está aborrecido, e quer ir espairecer nos «cafés» de Lisboa.
—Seria a primeira injustiça que o meu amigo fizesse, pensando tal de mim.
—Então, deixe-se estar mais oito ou quinze dias. Se quizer ir á caça, eu arranjo-lhe os petrechos; se quizer dar passeios mais largos, tambem lhe arranjo cavalgadura; se tem precisão de ir a Lisboa, vá e volte; se está bem e quer estar assim, não se despeça nem me agradeça, que o mesmo é lembrar-me que sou eu o obrigado.
O veneravel velho pozera-me então a mão no hombro, e eu respondi beijando-lh'a. Chorei, e sei dar a explicação d'estas lagrimas. Lembrou-me meu pai, cuja face eu beijei no esquife ha vinte e sete annos. As ultimas palavras amoraveis d'um homem de cabellos brancos, meu pai m'as dissera. Depois, não ouvi outras, senão as do sacerdote. Ahi está a razão das lagrimas, que o santo homem viu, e me galardoou com um abraço.
No dia seguinte, sahimos pela fresca da manhã, e subimos uma ladeira de olivedos, que no topo se espalmava em hervecida chã, assombrada de grandes arvores. Em nosso alcance, sahiu a snr.a Eufemia com o almoço, e retirou com ordem de nos trazer alli o jantar.
D'aquella eminencia iam os olhos a muito longe buscar a suave melancolia que levanta o espirito. Enlevavam as lezirias com as suas manadas de gado, os grupos alvejantes de casas, as granjas dispersas na esplainada, os pomares de laranja, os olivedos, e o rumorejo confuso e indistincto das aves, dos regatos, do brando ramalhar das arvores, e da toada de vozes distantes nas veigas, que se espraiavam ao sopé e em redor do nosso outeirinho. Estavam entre as arvores umas pedras musgosas convidativas de repouso. O acaso as talhára á feição de escabello com seus encostos. O padre sentou-se na menos commoda, e disse-me:
—Almocemos aqui. O meu mais longo passeio, ha vinte annos, é até este ponto do mappa-mundi. São estas as bellezas unicas, que eu mostro aos meus raros hospedes. Esse alamo, a que o senhor encosta o hombro, plantei-o eu em 8 de Junho de 1832. Tem vinte e dous annos.
Reparei n'outra arvore proxima, e vi duas iniciaes: L. A., quasi illegiveis pela sobreposição da casca.
—E estas letras escreveu-as tambem o snr. padre Alvaro?
—Tambem.
Obrigava-me a discreto silencio a brevidade da resposta, e o recolhimento visivelmente magoado do padre. Tomei do cabaz as provisões do almoço, e accommodei-as sobre a pedra que melhor se ageitava. Fiz o chá e servi o padre, dizendo chistes, que me occorreram, tocantes aos cenobitas, moradores das brenhas, estomagos fortalecidos por fructos silvestres e raizes, os quaes não sabiam sequer da existencia do chá hysson nem do assucar, nem da manteiga de Cork, ignorada até do proprio Theocrito, Columella, e outros amantes da natureza e do leite. Se o leitor não acha sal n'estes ditos, o padre tambem lh'o não achou. De instante a instante fez-se noite n'aquelle aspecto, um quarto de hora antes claro e aberto ao contentamento interior.
—Que tristeza é essa?!—perguntei.
—A tristeza do homem, que não póde ser anjo—respondeu elle, trabalhando por reprimir as lagrimas.
De maneira dizia elle estas breves respostas, que eu não sabia replicar, nem consolar.
Aquelles minutos do almoço correram assim tristonhos, e terminaram, tirando o padre do fundo do cabaz dous livros: um era o breviario da sua reza, o outro era um romance... Um romance! e, de mais, um romance denominado VOLUPTÉ, Voluptuosidade! isto oferecido pelo homem de Deus, pelo vaso de eleição, pelo santo, cuja mão eu beijei hontem com fervor d'um catechumeno inflammado por um raio de graça, que a oração do justo me trouxera do céo! A voluptuosidade de Sainte-Beuve, aqui, n'este sitio, ao pé do livro de Job, do rei penitente, dos dictames do Espirito Santo!...
Acceitei o livro, e li, no prefacio, estas linhas:
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
«Entende o editor d'esta obra que as pessoas nimiamente escrupulosas, acaso espavoridas pelo equivoco titulo que ella tem, pouco perderiam, em verdade, não lendo um escripto cuja moralidade, por mais grave que ser possa, só diz respeito a corações menos puros e menos despreoccupados. Ao revez, pelo que toca ás pessoas, convidadas justamente pelo titulo que repelle as outras, essas, não achando no livro o que desejam, não ha que temer o derrancarem-se.»
Fui folheando e salteando os capitulos, e os relanços da obra que mais brevemente podiam ensinar-me o enredo da historia. Comprehendi-a toda em trinta minutos de leitura. É um homem que amou, e cobriu com a mortalha de levita a mulher que amara e perdera. É a analyse minuciosa e pungente d'uma paixão; e poderia tambem ser instructiva a analyse, se o espectaculo das agonias d'um naufragio fosse causa a gelar de terror os futuros navegantes e deixar rugir o oceano sósinho com os seus furores.
Fechou o padre o seu livro, e eu continuei a lêr.
—Sainte-Beuve escreveu esse livro em fórma de carta a um amigo—disse o padre—Se o senhor tivesse em mim um amigo, capaz de escrever com profundeza e graça, e me pedisse conselhos, eu mais quizera ter-lhe escripto este romance que o «Manual d'Epicteto» ou a «Imitação de Christo.» Ahi verá o philosopho, o sabio, o mundano, o penitente, o christão, e o martyr, se quizer. E sobre ser tudo isto, é ainda mais, é o homem. Quão raros são os livros que bem definem o homem, a não ser o de Job: Homo natus de muliere..., repletus multis miseriis «homem, nascido da mulher, acervo de miserias sem conto.»
—Poderei fazer uma pergunta, sem preambulos, que m'a desculpem?—atalhei eu.
—Porque não? faça.
—Entre o senhor padre Alvaro Teixeira, e este homem que veio cingir os rins n'um claustro das margens do Tejo, ha uma dôr commum, não ha?
—Ha uma dôr igual, um mesmo calvario,—perdôe-me a profanidade—mas as veredas muito differentes.
Após o silencio de alguns segundos, que eu não ousei quebrar com alguma pergunta melindrosa, o padre, erguendo a face inflammada, com a luz dos olhos estranhamente viva, disse n'um impeto de espirito:
—Hei-de mostrar-lhe algumas datas que tenho assentadas n'um livro. Não é auto-biographia, nem romance simulado com suppostos nomes, nem «Memorias» ambiciosas de futura vulgaridade. São cauterios applicados á chaga ínsanavel... Ha-de lêr os meus papeis.
—Mereço eu tanto?!—disse, sentindo-me vaidoso da confiança, e lisonjeado na minha cubiçosa curiosidade.
—A leitura do meu livro não paga merecimentos de quem quer que seja, nem sequer é uma lição nem um bom exemplo: é a parte d'um dia, menos fastidioso, que eu dou ao meu hospede. Lerá esta tarde.
Esteve-se em meditação o padre, sem desfitar os olhos do alamo e das letras, e continuou depois d'este theor:
—Se a não tivesse escripto, contava-lhe a minha vida. Tinha precisão d'este desafogo. Digo-a a cada noite que Deus manda com os seus silencios para m'a ouvir. Repito-a a cada aurora, que se aclara, não já para mim, que só espero vêl-a despontar além da sepultura. É natural este desejo de infelizes que se querem lastimados na sua dor. Esse mesmo desejo tenho submettido ao jugo de todos os outros. Nunca fallei do homem que foi aos que a mera curiosidade tem aqui trazido a ver o homem que é, em sua mesma obscuridade, um segredo estimulante de ociosos. A parte essencial da minha vida sabem-na muitos, e eu não sei quantos romances por ahi correm á conta dos meus soffrimentos. Sei que os velhos da minha creação me chamam «romantico» ou «tolo» que monta o mesmo. D'esses alguns não quizeram envelhecer ainda, e a cada passo os encontro em Lisboa, como os lá deixei ha vinte annos, gentis, perfumados, galãs, viciosos, e salvando-se da irrisão com o pouco cabedal que fazem da sua mesma dignidade. Outros avelhentou-os o mesmo vicio, e de crêr é que me julguem por si, ao verem-me assim encanecido. Haverá algum que me leia no coração e desculpe das injustiças dos outros; esse, porém, não me perdoa o feio envez em que eu espontaneamente voltei uma vida, que principiára mostrando uma face agradavel, e esperançosa de todos os bens que se tomam em conta de melhores n'este mundo. E assim é que tenho vivido e morrido só commigo, e affeiçoado aos que me lastimam e aos que me escarnecem. Uns e outros erram sem vontade. Na sociedade, em que elles medraram e se acreditaram, sou e devo ser aquillo que de mim pensam: um exquisito, que se goza das suas singularidades; ou um martyr excruciado por sua infeliz e dissociavel imaginação. Hypocrita é de presumir que me não taxem, porque a hypocrisia tem n'este mundo a sua ganancia, e elles bem sabem que eu nada tenho ganhado, nem solicitado. Isto, que vou dizendo, tem sombras de defeza propria, não tem, meu amigo?
—De defeza, não me parece, senhor padre Alvaro!—respondi—Quem é que o accusa? Escarnecer ou lastimar não é accusação. O que eu entendo das palavras de vossa senhoria é que perdoa aos baixos espiritos, que se querem levantar para avalial-o, e resvalam á lama.
—Não tanto—replicou sem embiocar a caridade—Sejamos generosos e até piedosos com as almas remissas e afrouxadas na trabalhosa fabrica das posições, das honrarias, dos bens da fortuna, da immortalidade e da perpetuidade dos seus nomes na riqueza e gloria herdada á sua descendencia. Entre estes, que muito é ser eu olhado como inutil, como o menos previdente dos tres a quem o Senhor distribuiu os talentos? O sacerdocio é havido como officio, e o sacerdote que não cura sequer de agenciar uma murça, ou uma abbadia rendosa, é um inhabil, que retrocedeu pela estrada obscura ao tempo escuro da religião. Que ha-de dizer a gente illuminada, segundo o tempo, d'um homem, que foi abastado, que se fez padre antes de ser pobre, e que empobreceu, e não cuidou de voltar a si com artes infalliveis o bom rosto da fortuna, e nem sequer escassamente soltou uma palavra de queixume contra os ingratos?
—Deve dizer—respondi commovido—que homem, que tal fez, é um dos escolhidos de Deus, um exemplo, e uma gloria da especie humana.
—A especie humana não dá fé de glorias tão baratas, meu amigo. Eu tive alguns annos de homem social e amoldado ao feitio vulgar. Pois saiba que se a mim me perguntassem então o que eram glorias da especie humana, eu apontaria Cesar, Alexandre, João de Castro, Colombo, Vasco da Gama, Camões, e os outros que escreveram para sempre os seus nomes no padrão d'um mundo novo descoberto, na pagina d'um livro, ou na lamina d'uma espada. Se me lá fossem dizer que aqui nos «Olivaes» vivia um padre, que nem sequer escrevera os sermões de Vieira, ou as «Orações funebres» de Bossuet, eu de certo responderia com um sorriso desdenhoso á admiração de quem me viesse fallar em tão pêcas glorias da especie humana.
A conversação prolongou-se n'este sentido até horas de jantar.
Jantamos.
Não quero que o leitor diga que ninguem sabe o que comem e quando comem os heroes dos meus romances. Eu tenho a sinceridade de fazer comer, com vulgar semceremonia, não só os heroes de más manhas, mas ainda os santos, como o padre Alvaro.
Ibit homo in domam œternitatis suœ
Irá o homem para a casa da sua eternidade.
ECCLES.—12. 5.
Na tarde d'aquelle dia chamou-me o padre para junto de si, diante da mesa em que escrevia. Abriu uma das quatro gavetas da escrivaninha, e tirou um grosso volume de papel almaço, encadernado em papelão, sem alguma outra cobertura.
—Ahi tem—disse entregando-me o livro—Leia, como quem lê um romance de historia authentica, escripto por pulso não vezado a escrever novellas. Ahi vai o coração do seu amigo, a cinza das flôres de vinte primaveras, flôres que se abriam já queimadas, porque o bolbo de cada uma rebentava já doentio da venenosa rega das lagrimas.
Lembra-me que recebi das mãos do sacerdote o livro com o respeito do acolito ao receber o evangelho das mãos do celebrante. Póde ser que na minha reverencia houvesse menos ceremonia de ritual e mais religiosa devoção.
Recolhi-me ao meu quarto, e juro que me tremia a mão, quando abri o livro. Na primeira pagina, li este dictame de Isaias:
Ingredere in petram, et abscondere fosso humo
Quer dizer:
ENTRA NA SEPULTURA, E SOME-TE NA TERHA D'ESSA
COVA.
E mais abaixo o verso do psalmo 117:
Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini.
Póde assim trasladar-se em vulgar:
NÃO MORREREI; TEREI VIDA PARA NARRAR AS OBRAS DO SENHOR.
A fórma da narrativa é em divisões de annos, mezes e dias. Alguns capitulos estão incompletos, e d'estes vi uns poucos suspensos em conjuncções, ou n'uma virgula. O dizer é singelo, familiar, mas correcto e sempre puro na linguagem. Rara é a pagina com emenda ou entrelinha. De vêr é que fallava o coração, e que as suas primeiras palavras eram as mais expressivas, e respondiam fielmente ao pensamento.
Na primeira tarde poucas paginas li: tão detidamente as ponderava e relia. Entrei por noite alta com a leitura, e apaguei a luz, já quando a do sol me dispensava da outra.
Conhecia já Alvaro Teixeira de Macedo desde os dezeseis até aos seus vinte e sete annos. Isto me bastava para eu não poder sujeitar á modestia do levita os raptos da minha admiração, que melhor se entendera por idolatria.
O escripto dispensava os commentarios do author. Não pedi elucidação, nem promenores. Era tudo claro e minudencioso como historia escripta de hora a hora, entre lagrima e lagrima, com o coração na humanidade, e a consciencia em Deus.
Ao oitavo dia, fechei o manuscripto, e fui restituil-o ao padre. Não cheguei a dobrar o joelho, quando me elle tomava das mãos o livro; mas o coração pesava-me como para cahir e humilhar-se aos pés d'aquelle justo. Conheceu-o elle, e abriu-me os braços, e apertou-me ao seio, balbuciando commovido do meu embaraço:
—Tem o meu segredo: não abracei ainda outro seio que o tivesse. Diga-me agora: que aproveitou?
—Aprendi a conhecer a magestade do ultimo ser da creação. Assim, sei agora, o que não podéra ainda perceber na sagrada escriptura: «que Deus fizera o homem á sua imagem e semelhança.»
—E viu que o barro do homem se recoze ao fogo da desgraça...
—E d'essa depuração ao fogo lento, vi eu tambem que sahia o anjo...
—Pouco aprendeu...—replicou o padre—Eu queria mais que tudo isso... Queria ensinal-o a ser paciente, quando for desgraçado. Não lhe posso dizer mais singelamente o resumo de tudo que leu, nem lhe darei, se m'o pede, e mesmo se m'o não pede, mais encarecido conselho. Paciencia, é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam, e encontram os de Deus. Padecer é a quebra, a falha irremediavel e commum; resignar-se é a perfeição. A virtude, que todos alcançam, se a querem, é dar largo e por igual a amigos e inimigos, uns o seu ouro, outros as suas luzes, outros o seu braço, e o seu descanço. A virtude dos raros, a maxima virtude, a mais edificativa, é soffrer sem amaldiçoar, no asco da pobreza, no desamparo do descredito, na ignominia de não ter um amigo. Isto ninguem o vê, ninguem o admira, ninguem o vulga aos respeitos publicos. E que vai n'isso? Basta-me Deus. Não posso duvidar que elle me está vendo. Sinto-o no repouso da minha consciencia. O coração está passado de dores, o espirito conturba-se de angustias, a noite não acaba no termo de vinte annos. Assim é; mas que importa. Basta que a consciencia me diga: «não devias padecer, porque és bom.» Quando o homem que soffre se diz isto a si, é Deus que lh'o diz. Esta é a altissima rocha que vê em baixo as tormentas a fremir-lhe na base. Este é o berço providencial do menino, lançado ás ondas, e mandado buscar por Deus, para contar ao mundo os seus primeiros dias. Esta é a arca do justo, a caverna dos leões inofensivos, o post tenebras spero lucem de Job.[1]
Vá o meu amigo escutando com boa sombra estes «Exercicios espirituaes» com que eu principio a ensaiar a sua paciencia. Isto lhe ha-de acontecer mais vezes, porque é vêzo padresco entrar de vontade pelas homilias, quando o auditorio lhe não dá campo para prégar, e até para passear desassombradamente.
Veio a senhora Eufemia cortar-me a resposta. Trazia ella uma carta chegada de Lisboa. Padre Alvaro enfiou ao lêl-a; mas a pallidez habitual voltou, passados instantes. A perseverante desgraça já lhe havia dado pulso de ferro para sofrear os impetos do sangue.
—Vou hoje de tarde a Lisboa—me disse elle, placido e triste—Se quer ficar, e esperar, meu amigo, cá fica a boa Eufemia para cuidar de si. Se quizer vir tambem, e lá ficar, fique; e, se prefere tornar para as ruinas, mais contente voltarei.
Fui com o padre para Lisboa. Sem elle, a solidão dos «Olivaes» ser-me-ia dolorosa.
Separamo-nos no Rocio, onde apeamos do carro que nos transportou de Santa Apolonia. O padre disse-me a sua pousada, e eu fui para a minha hospedaria. Procurei-o no dia seguinte: estava elle a ponto de sahir para o convento de religiosas de Santa Martha. Opportunamente saberá o leitor o que elle ia fazer duas vezes em cada dia ao convento de Santa Martha.
Vinte dias, ou mais seria, acompanhei padre Alvaro Teixeira até ao pateo do convento, e d'alli a sua casa. N'este breve termo, o semblante do homem das dores declinou rapidamente para a lividez e magreza cadavericas. As ultimas idas ao mosteiro fêl-as de sege, e ahi mesmo tinha syncopes que o extenuavam a ponto de uma vez o levarmos em braços da sege a uma grade, onde o esperava uma senhora muito idosa, de veneravel aspecto, a quem o padre chamou prioreza. De relance, vi que esta, senhora estava soluçando e limpando as lagrimas, quando entramos na grade.
Sahi logo com o boleeiro, que me ajudara a amparar o meu amigo; mas ainda ouvi estas palavras da religiosa: «Acabaram-se os seus trabalhos.»
Ao toque de Ave-Marias fui chamado pela porteira do convento, e esta me disse que o senhor padre Alvaro me pedia a esmola de lhe ir dar o meu braço para se elle encostar. Maravilhei-me da reanimação em que o achei; mas conheci logo que era excitação de febre. Nada lhe ouvi durante o transito. Levava, como da primeira vez que o vi, as mãos encruzadas sobre o seio, e as palpebras descidas como se quizesse esconder de mim as lagrimas, que eu bem via estancadas nas rugas, á semelhança das que regelam na face d'um cadaver.
E eu, que não podia enganar-me no motivo d'aquella afflicção, tão absorvido ia, e tamanha parte quinhoava n'ella, que não tive uma palavra só de lenitivo, que lhe dissesse!
Parou a sege.
Saltei para amparar o padre na descida.
—Tenha a bondade, me disse elle, sem mover-se, de subir ao terceiro andar, e dizer ao dono da casa, que tenha a paciencia de vir aqui fallar-me.
Subi, e desceu commigo o dono da casa, ao qual o padre disse o seguinte:
—Meu amigo, não tenho mais que fazer em Lisboa. Vou para os «Olivaes» agora mesmo, se o boleeiro quizer fazer a jornada de noite. Escuso dizer-lhe que está com Deus a pobre senhora. Agora é erguermos as mãos em acção de graças aquelles que a conhecemos. Eu cá me vou avisinhando das minhas ruinas como o reptil, ferido de morte, da conhecida caverna, onde se quer sósinho com as suas agonias. Dê-me a sua mão de amigo, e adeus.
Voltou-se para mim, e disse-me:
—Quando eu lhe escrever, a pedir a sua companhia, vá ter commigo, se o poder fazer sem custo.
—Pois não me quer comsigo agora?!—atalhei.
—Não, por ora não. Estes primeiros dias não podem ser repartidos nem consolados por ninguem.
Beijei-lhe a mão, que transpirava um suor rescaldado.
—Queira perguntar ao boleeiro se me leva aos «Olivaes»—ajuntou elle. Levei-lhe a resposta affirmativa, e a sege partiu, a passo rapido.
Fiquei conversando com o amigo do padre.
—Não o tornaremos a ver—disse-me elle consternado—Padre Alvaro não vive muitos dias; o senhor verá. Eu d'antes, quando o via desconfortado e com signaes de pouca vida, dizia-lhe:—«lembre-se d'aquella infeliz, que não tem mais ninguem no mundo.» Parece que isto lhe dava alma nova! Agora, não ha nada que o prenda á vida, senão o sofrimento...
—Mas eu cuido—interrompi—que o padre Alvaro ha-de achar sempre na sua vida occasiões de ser util a muitos outros desgraçados, embora se ofereçam com titulos menos valiosos á sua beneficencia. Em quanto houver um homem que lhe peça conselhos, esmolas, ou intercessão com Deus, o padre, qual elle é, não póde julgar terminada a sua missão n'este mundo.
—Essas conjecturas são conceituosas, e de bom juizo—redarguiu o sujeito—mas os negocios do coração alheio correm de modo muito diferente das nossas razões, pensadas, a espirito socegado, embora nos doam os infortúnios do nosso amigo.
E ficamos concertados a mandar no dia seguinte saber novas do nosso amigo.
O portador não nos trouxe resposta á carta. A snr.aEufemia hesitara em levar-lh'a á camara, onde se elle fechára; fôra por fim; mas voltara sem resposta, ou promessa de responder, quando podesse.
Decorrera uma semana em esperanças, até que um dia o amigo do padre me procurou para me dizer que a velha Eufemia lhe escrevera, dizendo-lhe que o seu amo estava em perigo de vida. D'alli partimos no mesmo ponto para Santa Apolonia, e de lá para os «Olivaes».
Estava o sacerdote sentado n'uma poltrona, junto á janella que olhava para o palacete fronteiro do negociante de Lisboa. Deu-nos as mãos, que cada um de nós aproximou dos labios. Respondeu a esta reverencia com um sorriso, e estas palavras pausadamente pronunciadas:
—O martyrio, que se alcança com as paixões da terra, tem tambem a sua santificação. Os meus amigos igualam-me nos seus respeitos a um S. Francisco de Sales ou Vicente de Paula...
—Esse sorriso abre-se em luz de esperança para os seus amigos, senhor padre Alvaro—disse-lhe eu.
—E eu me congratulo na esperança dos meus bons amigos. Tambem vejo a luz, que illumina e abraza... Ardere et lucere...[2] Padeci muito, e esperei muito d'estas horas finaes. Misérias e oppressões de uma longa vida aqui se acabam: Miser factus sim ego, et curvatus sum usque ad finem[3]. Curvado o corpo, sim, que o desconcerto total d'esta fragil machina é a repellões de dôr; mas a alma folga, e sorri no extremo dia: Ridebit in die novissimo[4].
Estas vozes extenuaram-no como se fossem um desafogo vehemente. O meu companheiro disse abundancia de palavras que, a seu juizo, deviam refrigerar o afogo febril do enfermo. Eu não tinha alguma fé nas consolações d'elle, e menos ainda nas minhas. Assisti silencioso á perdoavel verbosidade de um, e ao recolhimento offegante do outro.
Fallou-se em ir buscar medicos a Lisboa. O padre sorriu-se, encarando no amigo, que propozera a consulta.
—Medicos!...—murmurou elle—O caixão... Mortalha cá está esta...
Dizia, tomando em ambas as mãos convulsas as abas da batina. Ao fim da tarde, pedimos que se recolhesse á cama, e elle respondeu, fitando os olhos no céo:
—D'aqui vejo melhor a patria; mas a hora não chegou ainda. Já era muito esperar... O Senhor é piedoso com os que não desesperam, e com os pacientes. Espero... e, posto que padeci muito, não direi como o néscio: «minha alma descança, que possues muitos bens»[5]. Eu espero tudo da misericordia Divina.
Proseguiu fallando a intervallos, e até alta noite não consentiu que fechassemos a janella.
Pernoitamos ao seu lado, e vimol-o dormir duas horas serenamente. Palpei-lhe o pulso, e senti-o refrigerado e sem ponta de febre. Cobrei esperanças, contra o parecer do meu companheiro de vigilia.
Ao repontar da aurora, o padre olhou em nós ambos, e disse em tom compadecido:
—Caro tributo paga a amisade!... Vão deitar-se, meus amigos. Estou melhor. Digam á minha criada que vá chamar o parocho.
Fui dar as ordens, e voltei ao quarto, d'onde sahi, quando entrou o prior.
Durante o dia conheci que as minhas esperanças eram desmentidas por desfallecimentos e agonias passageiras do enfermo. A criada chorava alto a cada accidente, e eu via, no semblante contrahido do meu amigo, quanto o pungiam aquelles gritos. Pedi á criada que reprimisse o choro, e ella respondeu-me:
—O senhor talvez não saiba que eu criei aos meus peitos esse santo que está a morrer!...—E lançou-se de joelhos a orar em voz alta. Curvei-me diante d'esta dor, e adivinhei as angustias d'aquella mulher através dos ultimos vinte annos.
Ao fim da tarde, foi ungido o moribundo. Quizemos então quasi de força passal-o á cama: não o conseguimos.
—A morte é suave em toda a parte. Aqui adormecerei. Dulcis est somnus soperanti[6]—disse elle.
E, fitando no azul do céo os olhos embaciados, continuou:
—O céo da minha mocidade! Assim era n'aquellas noites de tanto e tão puro amor! A serenidade da natureza, e as agonias da creatura! Só o homem se dóe do homem, e Deus de todos. As creações sublimes do universo olham todas para o seu Creador, e não sabem como morre o reptil, nem quando despega da arvore a folha secca.
Vinham ditas com cançasso e violencia estas palavras. Pedimos-lhe que não fallasse, e elle apoiou a barba no seio, e cruzou as mãos, murmurando vozes imperceptiveis.
As onze horas da noite, estremeceu o agonisante na cadeira, e estirou os braços convulsivos. Pensei que era o extremo estertor. Volveu, porém, á sua quietação, e viu-me de joelhos, com as mãos apoiadas nos seus joelhos. Pôz-me no rosto a mão, e disse:—Beati qui lugent[7].
Soaram as doze horas n'um relogio de parede. O padre parecia contal-as, por um movimento nervoso dos labios. Tinha cahido a ultima pancada, e elle disse:
—Media autem nocte clamor factus est: ecce sponsus venit[8].
Ergueu as mãos em oração, inclinou a cabeça para o espaldar da cadeira, e suspirou. Cuidei que elle ia adormecer, quando vi calarem-lhe lentamente as mãos por sobre os braços da cadeira.
Era aquelle glacial dormir, que espera novo dia annunciado pelo anjo do ultimo juizo.
Ajoelhei de novo, e disse:
—Santo! pede a Deus por mim, e por todos os infelizes.
[1]Espero a luz, depois das trevas. Cap. VII, v. 12.
[2]S. João—5. 35.
[3]Psal. 37—7.
[4]L. dos Prov. Cap. 31. 25.
[5]S. Lucas—12. 19.
[6]É suave o dormir a quem trabalhou.
[7]Felizes os que choram.
[8]Ouviu-se á meia noite este grande clamor: é chegado o esposo. S. Matheus. 25. 6.