I.

Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do Pastelleiro, nos suburbios de S. João da Foz.

Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre. Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem morava alli.

Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!

Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera então{114} para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a visse.

Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.

«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.

A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia pouco avistal-a.

Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.

Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!

Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!

Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.{115}

Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.

E por isso aquella mulher do Pastelleiro entrára em minha alma, vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!

Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo d'amendoas doces.

Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.

N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era d'aquellas que se curam homœopathicamente, e eu de certo não conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a homœopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente homœopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura tão{116} depressa das molestias d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.

Acabem as divagações.

Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e imaginava.

Não pararam aqui as visões estupendas.

D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.

Maravilha!

Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o suspirar de brisa por entre flores,{117} e o murmurar de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Gœthe, a descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.

Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.

Dai esmola d'amor á desgraçada,
Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.

Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos rochedos.

Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.

A natureza ouviu-me em silencio.

Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella faz?!{118}