IV.
Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.
E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos{127} com a aterrada Thereza, estivesse resando a Magnificat e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!
Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.
Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,—o que é peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!
Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos mergulhados nas trevas onde me vira.
Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!
E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era, não!
«Póde abrir—disse ella—esse portal grande, e recolher-se da chuva.
—Não a sinto, minha senhora—balbuciei eu.
«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára tão cedo—tornou ella.
—As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...{128}
«Como?!—interrompeu ella.
Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.
Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.
Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.
A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos desambiciosa.
«Credo!—-exclamou ella—o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que preparo!
—Não fuja, tia Poncia—disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres—Venha cá, tia Poncia, que eu preciso das suas consolações.
«Valha-o Deus!—tornou ella—Suou tres camisas, e pranta-se no meio do soalho com o cadable ao ar!
—Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem, exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.
«Que está ahi a alanzoar o snr. João? Se eu o percebo,{129} cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.
—Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.
«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!
—Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá aquellas pantalonas, e fallaremos.
«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o sal na moleira...
—Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.
«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos a defuntos?
—Não me córte o discurso. Esta mulher vive...
«Ah! sim? inda bem, inda bem!
—E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...{130}
«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?
—Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e parece que está cada vez mais tonta!
«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!
Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno—tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de orações ad rem.{131}