VII.

Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D. Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento na estalagem de Vallongo.

Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação, poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.

Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal, principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos principiou a sahir,{43} e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D. Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.

Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um Vitellio de meia tigella.

Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos, que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.

Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:

Meu amante coração.

É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito obra que{44} muitos annos depois encontrei executada, com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.

Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, ipso facto, dispensava o almoço,—enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha: panem, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o et circenses traduzi-lh'o em café com leite.

Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a Vicencia; mas como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei Raposo; por consequencia—VICENCIA RAPOSO!

Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!

Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada!{45} D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.

Não o quiz assim a minha desventura.

D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!

O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!

Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce, deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o chapéo na mão.

—Como passou a noite, snr. João Junior?—acudiu ella ao meu embaraço.

«Muito obrigado, minha senhora...—gaguejei eu.{46}

—Passou bem, não é assim?

Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.

—Então passou mal?—tornou ella.

Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas bisonhos, e respondi bruscamente:

«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»

Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.

—Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?

«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...

—Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria tomar banho cedo!

Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!{47}