X.

Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das Pastoris de Longus, do Jumento de Lucius de Patras, e outros venerandos monumentos da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, a Dama das Camelias, e—se o principiante fôr extremamente estudioso—o Chatterton, o Bug Jargal, afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre{58} abrange todas as ramificações da sciencia humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta volumes.

Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez, prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.

A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto sentido, o illuminismo, que tambem não sei bem o que é. Pelo que, muito importa que o leitor saiba

Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do capitulo melhor se verá.

Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos. Souvent l'onde irrite la flamme, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as illusões{59} de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.

Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.

O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.

D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.

Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento de Castro.

Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu primeiro amor.

Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo{60} de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.

Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.

Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!

Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.

Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e duas da manhã, o nosso homem.

Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:

«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!{61}

—Nada...—regouguei eu.

«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.

O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.

—Eu ao senhor não lhe quero nada.

«Ora venha cá;—tornou elle—vamos passear e conversar. O senhor chama-se João Junior.

—Seu criado.

«Quiz namorar D. Vicencia.

—Isso lá... é conforme...

«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...

—Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a pedir-lhe é os meus versos.

«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que vencer.{62}

—Muito obrigado...—mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.

E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.

Dous annos depois, recebia elle de mim lições de savoir-vivre. O meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.

Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do coração n'um intervallo de negra tristeza.

A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.

E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.

Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz supplantar!

De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o salve compassivo que eu lhe dou, depois de trinta annos.


Oh vida! vida!.............................


Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...

Chorar no coração, e rir no espirito...{63}