XI.

Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle aperto d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi lhe alargasse as angustias que a comprimiam.

Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder ás perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a cabeça ao hombro, e soluçou, chorando copiosamente.

«Que é isto, meu Vasco?!—instou a impaciente senhora—Bem me parecia a mim que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...

Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue fresco, soltou um grito.

«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.

—Isso que importa, minha mãi?...—disse Vasco, sentindo diminuir a violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de afflicção e pasmo.{174}

«Que importa!?...—tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu filho, e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira—Importa a minha morte, Vasco!...

—Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a viver. Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua mãi, nem aos de fóra causou damno sabendo que o causava.

«Jesus!—interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação—estás-me matando com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer, meu pobre menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho, tem. Teu pai viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se tomassem os meus conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes, recuperavam a saude... Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte? Tens razão, meu querido filho; mas não te assustes; verás que o sangue cessa; vamos aos ares do campo; o que tu precisas é descanço. Não leias mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar fresco da noite; não tornes a comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu quarto até ser dia. Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?

—Sim, minha senhora, prometto tudo.

«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito triste... antes quero vêr-te chorar.

—E eu tambem queria chorar... tambem!...

«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz... Dizes-me tudo, filho?

—Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.

«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...

—Por quem é, minha mãi!—atalhou elle com as faces instantemente abrazadas—Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse, calumniou-a cruelmente...{175}

«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?

—Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.

«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que ella estava destinada para um filho da madrasta.

—Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o seu coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia amar-me, e por fim...

«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?

—Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...

«E ella acceita?...

—Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é meu, morre commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de soffrer... que, já agora, pouco será; mas o que tenho curtido calado, e docil á desgraça, foi muito, minha querida mãi, só Deus sabe o que foi. A minha Leocadia morre... e então verá se ella não era digna d'este amor que me mata.

«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos remedio, que o ha-de haver.

—Nenhum.

«Pois nenhum?! ella já está casada?!

—Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.

«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...

—Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um bom patrimonio?

«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr cá a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o anjo que nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor de sua mãi!... Que barbaras leis, justo céo! O que{176} os homens fazem! De todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só um é rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas do irmão, que é sempre o mais ingrato...

Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras, com meiguice, tirando-lhe as mãos da face.

«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a riqueza de meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu trabalho, porque bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se Deus nos ajuntasse todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais n'este mundo; houve uma força superior que destruiu a minha felicidade; não acharei outra... que faço eu agora aqui?!...

—Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...

«O que, minha mãi?!

—Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...

«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar... não estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos enganar, porque a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar nos meios de mudar a vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a deram, já está com ella. Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não era senhora da sua alma. O coronel chamou-me, e disse-me: «faça que minha filha me obedeça; ajude-me a encaminhal-a ao destino que lhe dei; lembre-se que eu me sacrifiquei a uma mulher aborrecida, para assegurar a minha filha um futuro, casando-a com o meu enteado.»

«E tu, filho...

—Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um sonho...{177} Quando eu me convencer completamente que perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!

A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:

«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras: Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.

Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e brandura:

—Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.

E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.

«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos, meus queridos filhos.

Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.

«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima—dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco, como quem acarinha uma criança—hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento. Empenharei{178} todas as minhas relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?

—Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para acabar assim...

«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...

—Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?

«Que é, Vasco?

—Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?

«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua vontade.» Que fez ella?

—O que fez ella?—respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações, que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz—O que fez ella?... Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?

«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma: morreria fulminada logo alli, ou...

—Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de Leocadia.{179}

«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»

A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.

«Porque a mulher que ama—continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos para o retracto de seu marido—porque a mulher que ama como eu amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga. Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia, não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas{180} de felicidade com que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...

Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.

Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto, com o braço erguido e convulsivo, dizia:

«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que tua mãi foi para elle.

—Não posso fazer similhante supplica...—interrompeu Vasco.

«Não podes, filho? por que não podes?

—Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.

E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.

Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia:

«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua mãi, vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.

Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella como se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era phantastica a visão de sua mãi.

Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de{181} Vasco recusa abrir, e dizem-lhe que está alli uma carta que deve ser immediatamente entregue ao menino.

É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o sinete, e diz a sua mãi que a leia.

Continha isto:

«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me. És a causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas deste inferno. Responde-me já, já.

Leocadia.»

«Eu vou responder, meu filho—disse a viuva, correndo á escrivaninha. Vasco estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de sua mãi.

Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:

«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do convento de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege espera-a a mãi de Vasco, e sua mãi extremosa

Maria Maldonado.»

Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:

«Salvou-me!{182}