XIII.
Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e{76} primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do padre Albito Buela.
Bento de Castro—digamol-o sem desdouro seu—era ardente correligionario de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado—aliás excellentes creaturas—uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.
Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido o Contracto social de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que pararam{77} as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de Castro?
A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal discipulo de Socrates.
Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.
É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardente ad hoc.
Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada, posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as sympathias do preto.
Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.{78}
Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.
Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha visinha.
Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte, respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.
Veremos.{79}