XVII.
O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.
É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.
Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o encantára, no romance.
Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.
Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico em 1828.
Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.
Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o cognome de «Attila de coelheira.»
Em Coimbra, chamavam-lhe o chevalier sans peur et sans reproche.
A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de Ruy que{210} acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto d'uma perna torcida.
Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe custou muito puxão d'orelha.
Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor octogenario que o reprovou em mathematica.
Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o commendador Francisco de Proença. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.
Tinha destas cousas.
Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para sustentar o seu orgulho.
Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo desprezo.
Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.
O dinheiro commercial não lisongeava o fidalgo; todavia, esta repugnancia pôde vencel-a o amor.
Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio disfarçado as amabilidades de seu marido.
Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai moribundo, e o crucifixo do juramento.
Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.
O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.{211}
Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.
Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre, interroga-o:
«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!
O padre tartamudeou:
—Eu sou capellão d'esta casa.
«Que casa é essa?
—De uma minha amiga—balbuciou Leocadia.
«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa amiga?
O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:
—É a snr.ª D. Maria Maldonado.
O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si um principio de penitencia.
«Vamos, senhora!—disse Proença.
Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o, deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com sua mulher.
Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.
A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás intenções do marido.{212}
Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a attenção de seu marido dous segundos.
Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.
—Quem lhe morreu?!—perguntou ella.
«A senhora!
—Como?! está delirando!
«Quem morreu foi minha mulher—» tornou elle com uma visagem ridiculamente tragica.
—Pois se morri, eu vou morrer—disse ella com angelica mansidão—o Senhor receba a minha alma.
«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.
—Não quero entender a injuria—disse ella com firmeza—Antes a morte.
«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...
—E eu não aceito a graça—interrompeu Leocadia...
«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir, matei-a!
Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:{213}
—Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.
«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre quatro montanhas: Quer habital-o?
—Sou sua escrava, senhor.
«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?
—O que quizer, mas não posso ouvil-o.
«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»
E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João Tenorio.
Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.{214}