POST-SCRIPTUM
Depois de estar na imprensa este pequeno trabalho deram-se dois factos importantes: a rendição de Metz aos Prussianos e uma crise ministerial no governo do nosso paiz.
N'esta approximação não vae a menor sombra de epigramma. É uma questão de datas. Nada mais e nada menos.
Á puridade se affirma que não se quer estabelecer relação alguma entre Moltke, ou Bismark, com os homens d'estado que estão gerindo os negocios de Portugal.
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Caiu Metz. A toupeira napoleonica parece ter minado o baluarte aonde cento e cincoenta mil soldados albergavam a honra militar, que, violentamente affrontada em Sedan, fôra depositar nas mãos de Bazaine as tradições gloriosas do exercito francez.
Pobre França! Se assim foi, não bastava que vinte annos de compressão e de immoralidade te houvessem debilitado o braço e o coração; faltava-te ainda que um marechal do imperio te arrancasse parte da armadura, a fim de que a lança inimiga te chegue melhor ao corpo nu, quando um clarão de patriotismo começava a tingir em côr de sangue as barricadas heroicas de Saint-Quintin e Chateaudun!
Pobre mãe abandonada! Não era pouco que os teus proprios filhos para ahi te deixassem rasgar o seio ás mãos da soldadesca de alem-Rheno; faltava-te ainda que um d'elles, arrancando a corôa virginal da cidade impolluta, te ferisse com ella no rosto, quando lhe sorrias de esperança, por entre as lagrimas de teu penoso martyrio!
Na presença das traições de que é victima a França, não cabe o coração no peito de quem tem alma para sentir, e uma parte d'elle vôa a consubstanciar-se no do povo cuja tunica parece estar sendo jogada por Napoleão sobre um tambor prussiano.
Para quem está escrevendo as presentes linhas, a causa da França, em guerra com a Prussia, foi sempre a do interesse liberal e portuguez.
Bonaparte era um accidente que o furacão podia varrer.
O rei Guilherme é um systema, que terá sempre por objectivo a cruz da espada no calvario da liberdade politica.
Hoje, porém, collabora o sentimento com a razão.
Se o prisioneiro de Wilhelmshohe viesse a Paris sobre um canhão de
Krupp, antes Rochefort na presidencia do que Bonaparte no throno.
Antes o incendio do que a podridão.
Antes o sangue do que o lodo.
A desordem pode passar. A deshonra fica.
Se a restauração consolidasse um precedente de tal ordem, a moralidade espavorida teria de arrancar o vôo do occidente da Europa, levando comsigo nas azas os ultimos lampejos da decencia e as ultimas vibrações do patriotismo.
Praza a Deos que a França possa guardar esse resto, sem subverter os alicerces da sociedade, no desculpavel delirio de uma nação que vê a morte de perto.
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Em Portugal correm as cousas menos tragicamente.
Organisou-se uma administração debaixo da presidencia do sr. marquez d'Avila e de Bolama, o mais attendido conselheiro da finada dictadura, e sob a immediata inspiração do sr. bispo de Vizeu, um dos mais intrataveis adversarios da situação creada pelo sr. duque de Saldanha.
Esta incompatibilidade, que já dera anteriormente em resultado a saída do sr. marquez d'Avila e de Bolama do gabinete presidido pelo sr. marquez de Sá da Bandeira, produziu novamente… a juncção d'esse cavalheiro e do sr. bispo nos bancos do poder.
Ha, pois, governo, mas segundo o verdadeiro espirito do systema representativo não ha ministerio, porque os actuaes conselheiros da corôa, pessoas individualmente dignas de todo o respeito pelos seus dotes de coração e de intelligencia, não representam mais do que uma colligação de homens, sem corpo de doutrinas que os possam graduar em representação de partido.
Que não ha um verdadeiro partido atraz do governo, prova-o tambem exuberantemente a necessidade, em que se julgaram ver os organisadores da situação, de irem buscar alguns ministros fóra do parlamento, o que constitue uma violação flagrante das praticas constitucionaes e seria um erro indisculpavel se houvesse um partido ministerial, forte e preponderante, que tivesse dentro de si os elementos para a gerencia de todas as pastas.
Este raciocinio deve forçosamente ser exacto porque é impossivel que os deputados verdadeiramente ministeriaes, se os houvesse, se deixassem preterir em publico, como pessoas, por outros cavalheiros de opiniões pouco definidas, e que não haviam recebido o sacramento da confirmação na urna popular.
Viverá, portanto, o novo governo o tempo que vivem as rosas; ou durará o que as rosas não duram, se lh'o consentirem as opposições que lhe estão defronte e que farão bom serviço ao paiz não precipitando nova crise, que teria de resolver-se por alguma nova colligação.
Impotencia diante de perplexidade. Governo sem força na presença de opposição sem norte certo.
E ainda não será chegada a opportunidade de regularisar a politica do paiz?
O que obsta a que se comecem a agrupar desde já os elementos progressistas que andam dispersos por historicos, regeneradores e reformistas, e reconstruam um verdadeiro partido, adoptando um programma, não de sonoras banalidades mas de pontos determinados, indicando desde logo a maneira pela qual os resolveriam no dia em que fossem poder?
O que impede que façam outro tanto os elementos conservadores, espalhados igualmente por historicos, regeneradores e reformistas, e que podem até achar dentro do governo actual um chefe, que trocaria assim uma posição falsissima por outra mais digna de um homem d'estado?
Resolvida esta natural e indispensavel delimitação, porque não auxiliariam ambos os partidos o gabinete, não a resolver a questão de fazenda, porque essa não se resolve só com impostos e córtes na despeza, mas a votar, desde já, os tributos e as economias que são urgentissimos para desaffogar o thesouro das necessidades mais ameaçadoras?
Feito este grande serviço; organisados os partidos durante as treguas, porque não se feriria depois uma grande batalha parlamentar entre progressistas e conservadores, indo o governo a quem saisse victorioso da lucta?
É possivel que reagissem contra estas indicações salvadoras os estados maiores de algumas das actuaes parcialidades, os quaes talvez desejem que subsistam as divisões existentes, para terem maior importancia dentro de seus pequeninos exercitos.
Se isto é verdade, prepare-se então o paiz, e com tempo, a fim de que, chegado o momento opportuno, possa dar a lei a quem se mostrar rebelde aos conselhos do interesse publico.
Se proceder com energia e concerto, poderá impor aos seus representantes condições de boa politica e ter governos estaveis, obviando igualmente a que dissoluções repetidas corrompam cada vez mais os costumes da nação.
Porém se continuar a permittir a anarchia politica em que está vivendo a responsabilidade será sua.
As consequencias d'ella já se estão sentido.
Até aonde chegará a debilidade do paiz?
Para o fundo, até á perda de nossa fortuna?
Para atraz, até á perda de nossa existencia?
Oxalá que elle tome o caminho dos astros, até á riqueza e á independencia, á ordem e á liberdade!
2 de novembro de 1870.