XII
Capitalistas e proprietarios, industriaes e commerciantes, ponde a intelligencia, já que felizmente ainda lhe não podeis pôr os olhos, no que seria a bancarota.
Se hoje vos queixaes de que os vossos fundos, os vossos predios, as vossas fabricas, os vossos armazens padecem com o estado do paiz, o que seria se desabasse tudo n'uma ruina geral?
E geral teria ella de ser.
Fallido o thesouro, é natural que essa fallencia arrastasse a grandes difficuldades a maioria dos estabelecimentos de credito. Dado isto, a ramificação do desastre chegaria á mais solitaria cabana e ao mais obscuro balcão.
Tanto no espelho dourado dos salões da opulencia, como no barro vidrado da baixella do pobre, se reflectiria algum gesto de tristeza ou de angustia.
O luxo retirar-se-hia diante da parcimonia. A parcimonia diante do constrangimento. O constrangimento diante da fome.
Porque, não vos illudaes, o paiz vive em grande parte á sombra do estado.
Morto este pela fome, a fome de uma parte do paiz sairia directamente d'essa ligação apertadissima.
De que vive geralmente o funccionario publico, quer elle se chame empregado, professor ou militar?
De que vivem os portadores de milhares e milhares de contos de réis em titulos de divida fundada espalhados no paiz?
A repercussão d'essa desgraça chegaria immediatamente a todos, porque é em grande parte o estado quem vos paga o juro de vossos capitaes, a renda de vossos predios, os artefactos de vossas officinas e os artigos de vosso commercio.
A incidencia da bancarota, o mais pesado de todos os impostos, porque arruina o capital, procurar-vos-hia em todas as transacções da vida social, percorrendo por vias mysteriosas todas as representações do trabalho e da riqueza.
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Qual seria a depreciação de todos os valores actuaes pela raridade, e, portanto, pela carestia da moeda cunhada?
Que somma de moeda chegaria para as necessidades da circulação e da producção, se o credito a não a auxiliasse com a sua poderosa camaradagem?
Que soccorro vos daria o credito em frente d'esse cataclysmo, elle, a melindrosissima entre as mais melindrosas das molas sociaes, e que o mais ligeiro abalo contrae, como a folha da sensitiva se fecha ao contacto de um só dedo que a toque?
E comprehendeis vós sem o credito as sociedades modernas, em que uma actividade devoradora, que é muitas vezes uma ficção, necessita de outras ficções para mover os cem braços com que se agita o mundo contemporaneo?
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Tendes-vos lembrado de quaes seriam as consequencias politicas da bancarota?
Os vinculos sociaes e politicos, infelizmente já de si tão frouxos, desatar-se-hiam n'uma dissolução completa.
As paixões ruins, explorando a miseria publica, recrutariam n'ella perigosos batalhões.
A especulação tomaria a soldo a revolta.
E não tumultuariam unicamente na praça publica os pretorianos do motim; os que, sem o estimulo de uma idéa, passeiam nas ruas apenas a ambição de quem os paga, formulada em gritos indifferentes aos que recebem o estipendio, e que ámanhã gritarão com identico enthusiasmo a favor de quem na vespera cubriram de vituperios.
Tumultuaria tambem na rua a fome dos verdadeiros necessitados; dos que iriam esquecer na sedição as lagrimas da familia, ou que, movidos por um vislumbre de esperança, pediriam a uma transformação radical a cura de suas desgraças.
Não seria então um partido sério o que tomaria as redeas do poder. A logica das cousas, a mais inexoravel de todas, pol-as-hia nas mãos dos mais audaciosos, nos momentos em que a audacia é tudo, e arredaria para o lado os pacificos e illustrados cultivadores da idéa apparentamente victoriosa, mas que seria na realidade envilecida e conspurcada pela cooperação material de homens para quem servisse só de mentirosa bandeira.
E imagine-se o que seria se, livre das piozes de qualquer superioridade, que o contivesse, o açor podesse pairar á solta com a omnipotencia de sua vontade em toda a extensão do facto e da lei!
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A moral soffreria igualmente graves affrontas.
Não é quando falta o pão que mais se escutam os conselhos d'ella.
A probidade recuaria diante da astucia e da violencia.
A reserva, abandonando a prudencia, rebentaria em explosões de colera, que mais activariam as chammas do incendio.
Aonde houvera a espontaneidade ficaria a coacção.
Ao pudor da familia segredaria o demonio do ouro suas infernaes tentações.
O proprio archanjo da caridade tentaria debalde chegar-se ás camas dos enfermos nas misericordias e hospitaes, porque só alli acharia leitos nus, aonde, á força de miseria nas arcas vazias, não haveria misearias que proteger e consolar.
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A bancarota!
Já encarastes bem essa atroz eventualidade?
Não é a venda da herança por um prato de lentilhas; é a venda do patrimonio por um espectaculo de horrores.
A bancarota é o prejuizo material multiplicado pelo sobresalto do espirito; operação que, em virtude d'um phenonemo inevitavel, produz sempre um resultado superior á intervenção dos dois factores que n'ella collaboraram.
A bancarota ainda é mais do que tudo isso. Mais do que a pobreza; mais do que o perigo; mais do que o descredito; mais do que a barbaridade; mais do que a sedição.
É a deshonra do nome da patria!
E querereis, vós os que pensaes, que possuis e trabalhaes; vós todos os que andaes na vanguarda do movimento nacional, que o nome do vosso paiz fique deshonrado na historia do seculo?
Não é possivel.
E não basta que a bancarota não seja um facto inevitavel; é necessario que o não pareça.
Porque em pontos tão delicados parecer é quasi ser.
Intervinde, intervinde, pois, que ainda é tempo. Salvae o paiz pelo paiz. Saccudi o habitual torpor e trabalhae desde já n'esta empreza tão util para vós, como gloriosa para o nome portuguez.
Não se vos dá um grito de terror no meio da batalha.
É uma voz de—sentido!