NOTAS
[1] Alguns chamaõ argilla a huma terra vermelha, gorda, muito cheia de arêa, de que usaõ para os fornos, e por isso em Pariz a chamaõ barro de fornos: este barro vem unido com arêa ferruginosa; porém na verdade argilla, e barro, saõ dous termos synonimos.
[2] Estes trabalhos consistem em differentes lavagens que naõ podem servir para as louças communs por serem muito baratas.
[3] Ha poucas argillas puras, pela maior parte trazem diversas uniões. Destinguem-se muitas especies 1º. argilla branca em Alemanha Weisser thon. Esta he a mais pura, e mais propria para as obras de louça, tambem serve para pitos, de que fallarei em outra parte. Conserva a côr branca no fogo, vitrifica-se com difficuldade, endurece a ponto de dar faiscas de fogo. 2º. A argilla cinzenta em Alemanha Schwarzgrauer thon menos pura que a primeira, e por isso naõ he taõ propria para a louça fina, e só serve para a grossa. 3º. A argilla negra, que toma esta côr dos mineraes, de que está carregada, bem lavada e preparada póde servir para louça. 4º. A argilla azulada he a mais commum de todas, della se fazem tijollos, e telha. 5º. A argilla vermelha escura he a mais fussivel de todas; serve para cobrir as outras obras inferiores. Ella tem muita impureza, e por isso se passa por peneira antes de a pôr em obra. 6º. A argilla amarella tirando a preto, he magra misturada com arêa; serve para pratos grossos, e tigéllas, e outras obras que naõ vaõ ao fogo: os Alemães a chamaõ Schulf. 7º. Argilla esponjoza, que se naõ póde trabalhar na roda, he preciso trabalha-la quasi secca. 8º. A argilla cinzenta de fazer bilhas como as que vem de Normandia.
[4] Para ter conhecimento exacto da natureza destes barros, se deve consultar Vallerio, M. Pott, e o Diccionario de Chymica de Maquer.
[5] A mica he huma especie de pedra folhada, brilhante refractaria: ha de muitas especies. Apparecem arêas, com mica, ou malacaxeta, cheias de muitas partes brilhantes. As partes brilhantes da mica se asemelhaõ ao talco.
[6] Os pyritis saõ mineraes que se assemelhaõ a pedaços de mina por seu pezo, e côr resplandecente; e com effeito contém alguma especie metálica; porém raras vezes, e em pouca quantidade; e tem muito enxofre, e arsenico.
[7] Terras calcareas saõ aquellas, que expostas a hum sufficiente gráo de fogo adquirem todos os caracteres de cal viva.
[8] A arêa para os tijollos deve ser mais grossa, e sem mistura de terra; a que se lança na agua, e naõ a tolda he a melhor; a dos montes he preferivel á dos rios; se esta estiver carregada de pedra.
[9] Molde: os louceiros chamaõ assim hum caixilho de madeira, em que elles formaõ os ladrilhos, e tambem, cavados em gesso, que servem para fazer com o barro differentes ornatos. [38] [est. I], fig. 5.
[10] Comparando todos os fornos, conhecidos em França, Suissa, Alemanha, e Hollanda os mais engenhosos para a economia da lenha, e perfeiçaõ de cozer saõ os de Suecia descriptos por Wynblad em huma Memoria que vem no Tom. IV. da Arte de telheiro desta obra pag. 112 §. 485.
[11] Lingueta, he a separaçaõ dos ladrilhos, que termina alguns fornos de louça, por baixo da qual estaõ as aberturas, chamadas creneaux [49], [52], [130].
[12] Crenaux, he a abertura, que se faz no forno, ou para dar huma communicaçaõ ao ar quente, ou para escapar a fumaça [50], [134].
[13] Fausse-tire, he a separaçaõ da abertura, que formaõ os ladrilhos, separando a fornalha do corpo do forno. [50.]
[14] Entende-se aqui por tempêra aquelle pequeno calor, que se chega á louça 36 horas primeiro a esquentalla só para depois lhe chegar fogo forte.
[15] Chasse; grande fogo de chama, que se faz no fim do cozimento com feiches de lenha, ou madeira rachada. [53.]
[16] Gâchis especie de argamassa, ou mistura de huma porçaõ de gesso em pó com argamassa de cal, e arêa. [62.]
[17] Com ladrilhos de duas côres só assentados com differentes posições, se podem formar muitas vistas agradaveis, o Author assevéra que se podem fazer até 86 variedades.
[18] Voguer amassar á maõ.
[19] O forno dos oleiros Alemães he muito simples; he quadrilongo, de hum comprimento proporcionado a força de cada fabrica, da altura de hum homem pouco mais, ou menos. A parte superior tem a figura de hum ovo, ou he chata, e baixa compõe-se de terra gorda, e de palha picada para conservar o calor. O interior, se faz de tijolos, e com abobada, as paredes de huma parte, e outra devem ser fortes.
[20] Os oleiros Alemães para as suas obras communs se servem só do lithargirio, a que chamaõ Glatte, Silberglatte. Piza-se, passa-se por huma peneira, e liviga-se sobre huma pedra. Para que o lithargirio naõ corra muito, se lhe ajunta huma igual quantidade de area branca, e fina. Esta mistura se põe liquida ao dezejo de cada hum; lança-se huma quantidade sufficiente no vaso, que se quer envernizar, e que já está cozido, move-se e se despeja aquella quantidade, que sobra, e já naõ pega. Passado hum quarto de hora, já se póde levar o vaso para cozer o verniz. O vaso com o verniz deve estar no forno 16. ou 18. horas. Se o verniz, naõ foi bem livigado, fica desigual, e cheio de graõs.
[21] Querendo-se que o esmalte seja branco, misturaõ-se cinco partes de estanho com vinte de chumbo; fazem-se calcinar em hum vaso de barro no forno de calcinaçaõ. A fornalha se deve esquentar algumas horas antes de se lançar nella o chumbo, e a chama deve sempre dar sobre o chumbo, para isto deve ser o forno de reverbéro. Deve-se mover o metal com huma espatula de ferro até elle se reduzir em cinzas. Entaõ se lança o estanho, e se move do mesmo modo, até que este tambem se converta em cinzas. Augmenta-se o fogo, até que as cinzas estejaõ abrazadas; entaõ se diminue o fogo, e se deixaõ esfriar, movendo-as sempre com a espatula. Misturaõ-se estas cinzas com igual porçaõ de sal, e de area; põe-se tudo em hum vaso descoberto, e se põe nesta segunda calcinaçaõ todo o sal se evapora, a materia contida no vaso se abate, e o peso diminue; porém o sal só se ajunta para facilitar a fusaõ. Piza-se a materia calcinada em hum gral de ferro, e se liviga cuidadozamente em huma pedra, com huma quantidade de agua sufficiente, para a tornar de huma consistencia liquida. Cahindo sobre o verniz qualquer bocado de gordura, por pouca que seja, desmancha todo o trabalho, porque os metaes tornaõ a tomar sua primeira fórma, e o verniz desaparece de cima dos vasos, em que se tinha applicado. O pó, cahindo sobre o verniz, faz no esmalte huns pequenos buracos.
[22] O quartz, he huma pedra dura, côr de leite, meia transparente, e vitrificavel, que se acha em muitos lugares, especialmente nas minas. Ainda que o quartz se vitrifica, quando se mistura com huma argilla vitrificavel, ou chumbo; com tudo por inadvertencia se inculcou esta substancia; he melhor substituir o spath, fusivel que se vitrifica mais facilmente.
[23] Frittar, he calcinar a materia do vidro, para separar della todos os corpos gordos, que dariaõ alguma côr suja ao vidro.
[24] Naõ ha aqui país algum, em que se naõ faça louça para o uso dos seus habitantes: ellas saõ mais, ou menos perfeitas segundo a qualidade dos barros; mas todas se fazem sobre os principios já explicados. Hum observador attento podera contribuir a aperfeiçoar esta arte no lugar, que habita, applicando-se a examinar as differentes qualidades de barro, suas composições, e suas misturas.
[25] As operações Chimicas naõ se podem fazer, senaõ em cadinhos cozidos para poderem resistir a acçaõ dos dissolventes Chimicos, e a hum calor muito forte. Os de argilla boa tem o inconveniente de quebrar, passando do quente para o frio. Foi preciso procurar-se misturas, que os fizessem soffrer estas variações, e ao mesmo tempo conter os metaes derretidos por hum grande espaço. Os melhores cadinhos vem de Hessa. Veja-se Arte de Porcelana.
Diz Mr. Pott que estes cadinhos se fazem com huma boa argilla refractaria, misturada com duas partes de area de mediana grossura, separando-se a mais fina por hum crivo. Esta mistura emmagrece o barro, e naõ o deixa encolher, nem rachar, nem fazer-se muito compacto, sendo cozido; A area deve ser de huma grossura mediana, sendo fina, os cadinhos se quebraõ. Mr. Pott diz mais que os cadinhos destinados para fundiçaõ de vidros, naõ devem levar area grossa, nem calháos, ou outras materias semelhantes, que saõ sujeitas a derreter-se. Para evitar isto, se ajunta a argilla o pó da mesma argilla cozida, e pizada grossa; a mistura se faz com partes iguaes, ou duas desta argilla cozida; duas, e meia, e ainda tres, e huma só da argilla nova, quanto melhor he esta tanta maior porçaõ admittem da outra cozida; e deste modo se fazem os grandes cadinhos para as fabricas de vidros. Mr. Pott fez hum grande numero de experiencias a este respeito: elle misturou a argilla com as caes metallicas, ossos calcinados, pedras calcares, talco, amianto, pedra pomes, esmeril, e muitos outros, e de todas estas experiencias naõ lhe resultou hum cadinho sem defeito em todas as vistas. Com tudo parece, que se poderiaõ fazer cadinhos melhores do que todos os conhecidos. Para isto se precisaria ter huma boa argilla bem refractaria, isenta de materias piritosas, e ainda de barros ferruginosos; este deveria ser lavado com cuidado para separar-lhe a area, e depois misturallo com duas, ou tres partes de argilla cozida, e pizada grosseiramente. Os cadinhos formados em moldes deveriaõ ser cozidos em hum fogo muito forte.