D. FRANCISCO MANOEL DE MELLO


SUMMARIO

Duas obras recentes—De Ruy Chianca, no Theatro. De Edgar Prestage, em livro—Valor da obra do erudito lusophilo—Trabalho exhaustivo sobre o escriptor seiscentista. A vida do D. Francisco, suas viagens, suas aventuras, sua prisão. Lenda romantica—O duello nas sombras—A sua divisa: Quare?

Estabeleceu certa academia um premio valioso para ser conferido ao sabio zoologo, que escrevesse a mais completa e notavel memoria sobre o Leão.

Trez candidatos concorreram ao certamen: um Francez, um Inglez, um Allemão.

O Francez, espirito vivo, intelligencia captadora, facetada, assimiladora, que lêra Buffon, e admirára a elegancia de estylo com que o nobre Conde escrevia historia natural, empunhando uma penna de ouro, com mão bem tratada e esguia emergindo das preciosas rendas, sobraçou um volume d’essa historia, encadernado em marroquim, or sur tranches, e tomou um carro que o conduziu ao Jardin des Plantes.

Alli, em frente da jaula d’um formoso specimen do rei dos animaes, emquanto as amas e creadas da visinhança ouviam dengosas os requebros dos soldados, e as borboletas se perseguiam amorosas entre a folhagem, estudou os movimentos do soberbo animal, idealizou-lhe a existencia, e, em seguida, n’uma barraca da feira Neuilly, assistiu attento ás coleras d’um bando de leôas, excitadas pelo chicote de uma domadora que, vestida com maillot, dava tiros de polvora secca, em frente das fauces escancaradas dos bichos truculentos.

Poucas semanas depois tinha escripto um volume faiscante, pulverizado de anecdotas, livro de leitura interessante e facil, que foi devorado por milhares de leitores.

O Inglez comprou um fato de linho, um capacete de cortiça, uma boa carabina de caça, varias obras de viagens, um livro em branco para tirar notas e tomou um bilhete a bordo d’um transatlantico que o levou a um porto da Africa.

D’alli penetrou na Libya, procurando a região onde melhor pudesse observar a vida, os usos, os costumes das soberbas féras em plena natureza. Passou noites no embrenhado das florestas, e nas quebradas dos montes, onde echoam os rugidos dos magestosos animaes, e ouviu os bramidos das fulvas leôas amorosas nas clareiras alumiadas pelo luar africano.

Surprehendeu nos antros o ciume das mães; as luctas sanguinolentas entre os machos com o cio; o esphacelar das victimas colhidas nas caçadas. Elle proprio matou valorosamente, para se defender, medonhos leões, e trouxe exemplares preciosos para o estudo da raça. Ao fim de dez annos, tinha escripto um livro bem documentado, vivido, verdadeiro. Um livro de consulta, um livro de sciencia, um livro de bibliotheca.

O Allemão, esse, limpou os cristaes dos seus oculos de ouro, penetrou na bibliotheca imperial de Berlim, requisitou todas as obras de historia natural escriptas nas seis mil linguas que se fallam no mundo, abancou n’um dos mais reservados cantos da sala de leitura, e começou a ler, tomando apontamentos sobre tudo quanto se tem escripto ácerca do Leão, desde as obras fundamentaes de sabios até ás dissertações phantasistas a respeito do leão alado de S. Marcos nos monumentos de Veneza, não esquecendo as referencias á fabula do immortal Phedro. Ego nominor leo... O Allemão tem lido, lido, lido. Já lá vão vinte annos e juntou notas para outros tantos volumes de uma futura obra colossal!

Occorreu-me ao espirito a anecdota que precede ao ler as duas obras recentes (emquanto não apparece a terceira) inspiradas na personalidade de D. Francisco Manoel. O polygrapho seiscentista não é positivamente um leão. Mas o facto de ter sido agora assumpto de um drama de Ruy Chianca, e de um estudo biographico de Edgar Prestage, trouxe-me a confirmação do caso, que tão bem caracteriza as tres raças.


Francisco Manoel de Mello! A todos os que estudam, ainda que superficialmente, litteratura portugueza, este nome recorda o auctor da «Carta de Guia de Casados», dos «Apologos dialogaes», das «Epanaphoras», o diplomata da Restauração, o prisioneiro da Torre de Belem, e mais ainda o heroe do romanesco duello nas sombras, o supposto rival de D. João IV, e a victima da sua paixão pela Condessa de Villa Nova.

Dados estes elementos tentadores, o espirito meridional do sr. Ruy Chianca, todo vibrante ainda do seu triumpho com o exito de «Aljubarrota», toma o auctor do «Fidalgo Aprendiz», colloca-o em scena, apresentando-o entre personagens, mais de imaginação que de historia, e, dando-o como typo da nobreza de sentimentos da raça portugueza, exalta-o e celebra-o.

«Porque é poeta e nobre audaz e ciumento»

e tambem ainda porque, segundo elle põe na propria bocca do seu heroe:

«Poeta e bom fidalgo á moda portugueza
Bato-me onde é precizo em lidima defeza.
Por que? Pela divisa escripta em minha espada.
Por quem? Por meu amor. Por quem? Por minha amada.»

Não sei se quem não conhecer a individualidade de D. Francisco Manoel, tão complexa, e tão cheia de incertezas e de penumbras na vida do coração; quem não tiver perfeito conhecimento das suas obras litterarias, nas quaes o culteranismo, triumphante n’esse tempo, é tão elegantemente subjugado por um bom gosto artistico, raro nos seus contemporaneos; se quem não tiver lido os cem volumes de que se compõe a opulenta lista das suas obras; se quem não tiver saboreado nos «Apologos dialogaes» a «Visita das Fontes» e os «Relogios fallantes» tão ricos de conceitos, noticias, e bom sal attico; se quem não conhecer as discussões ora eruditas, ora piegas da «Academia dos Generosos»; se quem não tiver compulsado os diccionarios bibliographicos de Barbosa Machado e de Innocencio, e os estudos de Costa e Silva, Alexandre Herculano, e Camillo Castello Branco; não sei, repito, se o espectador que assistir desprevenido ao drama intitulado: «Dom Francisco Manoel» ficará com uma ideia approximada do homem notavel, que se chamou assim. É incontestavel, porém, que a sua attenção será sollicitada com sympathia para as qualidades reaes d’esse attrahente vulto, que o auctor do drama phantaziou galhardamente, e para a nobreza de sentimentos, que caracterizam a sua classe, predicados que são postos em formosos versos, n’um peito genuinamente portuguez. E porventura essa obra de arte, concebida e executada com a impetuosidade de um quasi improviso, n’um jacto de lyrismo, induzirá muitos a irem buscar nas fontes noticias acerca da individualidade do heroe, e a lerem nas obras de investigação o que se tem escripto com relação a esse personagem tão rodeado de interrogações, a esse soldado, diplomata, philosopho e poeta, sobre cuja acção politica a historia falla alto; sobre cujo valor intellectual os seus livros são eloquentes attestados, que perpetuam a sua fama; e cuja existencia sentimental a lenda envolve n’uma atmosphera de mysterio propicia ás hypotheses romanescas.

Em todo o caso é obra digna de ouvir-se agradabilissimamente.

O mais recente estudo, o mais notavel, e o que mais noticias encerra ácerca da vida e obras de D. Francisco Manoel de Mello é o «Ensaio biographico», grosso volume in-8.º, que se deve ao trabalho exegetico do escriptor inglez Edgar Prestage.

Espirito namorado das coisas portuguezas, alma lusitanisada até ao amago, a força de seducção que o levára a trasladar para o seu idioma Azurara na «Chronica do descobrimento e conquista da Guiné»; as «Cartas da Freira portugueza»; e o «Suave Milagre» de Eça de Queiroz, attrahia-o, desde alguns annos, para o vulto que no seculo XVII tão caracteristicamente representa a gente lusa, e que melhor cultiva a sonora e doce lingua de Portugal.

Conservando as qualidades fundamentaes da sua raça, e a segurança dos processos na investigação, o critico inglez entendeu que devia usar o idioma portuguez, tratando de um escriptor cuja linguagem Herculano aponta como modelo de estylo «pelo qual se vê quão rica e bella é esta nossa lingua, que para exprimir affectos não carece de neologismos, nem de enredar-se em archaismos». Prestage resolveu pois fallar d’esse portuguez na lingua portugueza.

O esforço enorme assim realizado pelo critico bilingue não se compara á alternativa facil com que os nossos quinhentistas e seiscentistas empregavam indifferentemente a lingua patria e a castelhana, de que é exemplo o proprio D. Francisco Manoel reputado classico, aqui com os seus «Apologos» e «Carta de Guia de Casados»; lá em Hespanha com o seu «Movimento de Cataluña».

Por isso mesmo é mais para admirar a temeridade do escriptor inglez que, habituado a formular a ideia na simples e regular syntaxe de sua lingua, se aventurou a tratar da vida e obras de um requintado cultista, ligeiramente eivado de gongorismo, e tão avesso na redacção complicada do pensamento á simplicidade ingleza quanto a glotte de um saxonio é rebelde á harmonica e suave musica da dicção portugaleza.

O esforçado escriptor sahiu-se da sua empreza com muita honra, e o seu livro que modestamente baptisou com o nome de «Esboço biographico» é trabalho de grande valor, e está destinado a figurar em todas as bibliothecas de estudiosos de Portugal, do Brazil, da Hespanha e da America latina.

Embora por vezes a construcção da phrase deixe no paladar um resaibo, ou ligeiro travo que indica a sua proveniencia britanica, a redacção sempre clara leva-nos arrastados pelo interesse, atravez dos nove capitulos do livro, confiando plenamente na honestidade da factura, e na segurança dos processos empregados.

Para muitos se afigurará exagero de segurança, tanta é a minuciosidade com que se procura uma data: se discute um facto; se verifica uma lacuna; se averigua a existencia de indicios até agora desprezados; e com que se cata as obras do escriptor para n’ellas ir encontrar elementos biographicos.

Mas nunca é demasiada a investigação em livros d’esta indole, ainda mesmo quando as conclusões sejam de natureza negativa.

É portanto bem para apreciar a paciencia com que o auctor da biographia lê attentamente as obras do escriptor; com que interroga todos os que lhe possam fornecer elementos uteis, com que se corresponde com os directores dos archivos nacionaes e extrangeiros; com que entra nos cartorios das antigas familias que ainda os teem; com que examina os registos de nascimento, casamentos e obitos das parochias de Lisboa; com que percorre as ruas, praças e beccos estreitos, e com que estuda antigas plantas da velha Lisboa do seculo XVII.

Procedendo assim, e a exemplo de Herculano que do «Memorial» dirigido a D. João IV tira dados biographicos, consegue, cotejando textos e analysando documentos, alguns até hoje inéditos, e estudando as «Cartas Familiares», as «Tres Musas del Melodino», as «Epanáphoras», etc., reconstituir a vida do escriptor e, o que é mais difficil, sondar por vezes o seu intimo pensar.

No proseguimento d’esta tarefa apresenta Prestage o problema, ainda hoje insoluvel, dos motivos da paixão de D. Francisco Manoel, e da supposta connexão entre a sua desgraça e a aventura amorosa que, segundo alguns, deu causa ao desagrado regio, e á vingança de um marido.

Esse problema desperta a curiosidade, com a attracção irresistivel do mysterio.

O escrupuloso biographo apresenta-o tal como foi posto pelos seus predecessores, e indica as soluções alvitradas. Deixa ao leitor o decidir-se pela solução, que melhor convenha ao seu espirito. E, se não omitte a sua opinião, tambem não a impõe como dogma.

Ora como o caso é interessante; como os enredos que motivaram a prisão do moço militar formam uma trama emmaranhada, que nunca se desfiou bem, nem durante os doze annos de encarceramento, nem quando regressou do exilio, nem depois da sua morte; e, como nos depoimentos da historia apparece, trazido por mexericos, o echo do testemunho d’um avô meu, (echo, note-se bem, mas não voz propria), redobrei a attenção com que li o livro, e especialmente quando dá conta das versões, com que se tem querido explicar o drama.

No livro de Edgar Prestage são apontadas todas essas versões, desde as notas sisudas e graves de Alexandre Herculano, no «Panorama», até ás phantasiosas noticias publicadas por Camillo Castello Branco, na ancia, com que algum tempo enfermou, de deprimir a Casa de Bragança, e com as quaes pretende desatar todas as duvidas, e alumiar todos os pontos obscuros.


É sabido que D. Francisco Manoel de Mello, descendente por sua mãe do Duque de Bragança, degolado em Evora, e portanto ainda parente de D. João IV, depois de estudar humanidades no Collegio de Santo Antão, com o Padre Balthazar Telles, o historiador da Ethiopia, embarcou aos 16 annos, como aventureiro, na armada commandada por D. Manoel de Menezes, o chronista de D. Sebastião.

Batalhou nos Paizes Baixos; e foi como mestre de campo na armada de Antonio Oquendo contra os Hollandezes do canal da Mancha; militou no exercito do Marquez de los Veles, contra a Catalunha revoltada; e já antes da Restauração de 1640 foi diplomata habil por parte do Duque de Bragança, explicando com astucia em Madrid os tumultos de Evora, que inquietavam o Governo hespanhol.

A sua passagem, na Côrte de Madrid, pelas rodas elegantes, deixou fama. E foi festejada a sua assistencia nos celebradissimos saraus e festins, onde soube usar a arte subtil do cortezanismo, e as amaveis manhas de requintada galanteria.

Corria fama da sua maneira de cortejar as senhoras quando, subindo aos estribos dos côches em que passeavam no Prado, elle as entretinha com motes, que provocavam riso e galhofa; e celebrava-se a sua sciencia de bem dizer e engenho em contar casos, ora narrando as proezas de D. Simão da Silveira, em frente do balcão das damas da Rainha, quando lhes fazia terreiro, ora alludindo á naturalidade com que a Condessa de Lalaim, jantando á mesa de Margarida de Valois, se desabotoára, mostrando o seio, para dar de mamar a um filho que creava. A sua conversação salpicada de dictos, de annexins, de anecdotas, de epigrammas picantes, era saboreada com prazer nas tertulias e seroadas, onde por este conjunto de qualidades mundanas, D. Francisco era apreciado como modelo de verdadeiro cortezão: ao mesmo tempo diplomata habil, militar arrojado e poeta galanteador.

Foi, por isso mesmo, bem acceito das mulheres, debicando com ellas se eram «leves e gloriosas, prezadas do seu parecer» (euphemismo com que se referia ás coquettes, a quem comparava a loureiros, por indicar que a qualquer bafo leve de vento se moviam), e sabendo lisonjeal-as, se eram interessantes, com o aguçar-lhes as qualidades femenis, cultivando assim com pericia «toda a casta de damarias e matronerias». E ao passo que desafiava com malicia o riso das que tinham bons dentes, e aquelle feitio a que chamava «graça na boca e cova na face», requestava as que «traziam castanhetas na algibeira, sabiam jacaras, e entendiam de mudanças de sarambeque, com indicios de desenvolturas.» Tinha além d’isso receitas seguras para lidar com ellas, como revela na «Visita das Fontes» com o aphorismo que diz: «A mulher é como a laranja. Se muito apertada logo amarga. Quer-se levada por bem, mas não pelos cabellos.»

Não lhe perjudicava o exito, e o prestigio, a sua fealdade, se realmente era feio, como parece indicar aquella anecdota, que vem referida n’um codice da Bibliotheca Nacíonal de Lisboa, e que é attribuida ao Conde de S. Lourenço. Diz assim:

«A Senhora Rainha D. Luiza tinha um quarto aonde ella só entrava e muito occultamente ia pôr seu alvaiade e seu carmin de cara. Este quarto tinha por cima da porta ou de uma janella, uma bandeira, á qual muitas vezes, estando a Rainha dentro subia um macaco, por lhe permittir o comprimento da sua cadeia e d’alli observava as operações da mascara.

Quebrou o macaco hum dia a sua cadeia e, pela bandeira da janella ou porta, entrou no gabinete; foi-se logo aos unguentos e appareceu no Paço feito muito galante Dama.

A Rainha, desesperada, mandou matar o macaco, na mesma occasião infelizmente que uma Dama do Paço, prima de D. Francisco Manoel, n’aquella occasião preso de pouco, se foi lançar aos pés da Rainha, banhando-se em lagrimas, a pedir a Real intercessão por seu primo que era assaz homem de um semblante muito feio, talvez tanto como era bello espirito.

A Rainha, em colera, persuadida que a Dama lhe ia pedir pelo macaco, deu-lhe logo a exclusão, prevenindo o peditorio, dizendo-lhe: «Não, não. Não me peças por elle que ha de morrer, porque é muito feio

Cahiu a pobre Dama com um accidente, fulminada da injusta sentença da Rainha, que condemnou o innocente animal pelo mesmo delicto em que ella era comprehendida e em que tinha sido a mestra do macaco, que por isso mesmo que era feio, queria fazer-se bonito.»

A anecdota é engraçada, mas não nos assegura a fealdade de D. Francisco.

Este Conde de S. Lourenço, meu avô, a quem, diga-se de passagem, são attribuidas com mais ou menos authenticidade muitas anecdotas, nasceu muito depois da morte de D. Francisco Manoel a quem só conheceu por tradição, e pela leitura das obras d’aquelle a que chamava bello espïrito.

Emquanto á prima que desmaiou aos pés da Rainha, quando foi do mofino equivoco, o seu testemunho é suspeito.

Pois que emquanto com os labios o alcunhava de feio, com o indiscreto desmaio trahia o sentimento que a dominava.

Chamava-se ella D. Maria de Portugal, e foi depois Condessa de Penalva.

Era irmã do Conde da Ponte, Marquez de Sande, e acômpanhou como Dama a Rainha D. Catharina a Inglaterra. Quem sabe se nas vigilias da brumosa ilha, não lhe pairava na imaginação a figura do encarcerado primo, menos disforme que a imagem que apresentára á Rainha D. Luiza.

Camillo Castello Branco, não sei com que fundamento, assegura que elle era «gentil, moço de trinta annos, corajoso e poeta, o primeiro e mais galan de quantos então abrilhantavam os saraus da primeira fidalguia».

Não existem retratos para averiguar. Mas o que é tradição é que nas suas peregrinações pela Europa, teve triumphos, e que sejam quaes forem os lances do drama que causou a sua prisão, parece ter captivado alguns corações. Entre elles um, que ficou na lenda.

Seria essa aventura que occasionou a sua desgraça?

Vejamos.


O crime de que foi accusado, e pelo qual foi preso e condemnado, caréce de fundamento.

Um certo Francisco Cardoso, creado do Conde de Villa Nova, D. Gregorio, andava de amores com uma tal Catharina, mulher de um antigo creado de D. Francisco Manoel chamado João Vicente, que fôra despedido por seu amo.

O marido mandou matar por trez homens o Cardoso, sendo o cadaver d’este encontrado em uma viella, que subia para o Limoeiro.

Foi aberta devassa, e os assassinos postos a tormentos declararam que fôra D. Francisco que os incumbira do crime. Os trez sicarios foram justiçados: João Vicente, o marido de Catharina, e antigo creado de D. Francisco, foi condemnado ás galés; e este enclausurado, victima ao que parece de vingança de inimigos publicos e encobertos.

Quem eram elles? É sobre isso que paira o mysterio.

Attribuem uns essa prisão á vingança de D. João IV; outros ao odio do Conde de Villa Nova, porque o moço escriptor era bem querido da Condessa; outros ainda a inimigos politicos que depois de perderem o desgraçado Secretario de Estado, Francisco de Lucena, aproveitaram o assassinato do Cardoso, e o resentimento de um creado despedido, para armarem o tenebroso enredo que perdeu o infeliz D. Francisco.

E todas estas versões se entrelaçam nas sombras, formando um d’estes enygmas historicos, que tentam dramaturgos e romancistas.

A mais romantica das versões é a que se encontra n’um livro de Linhagens attribuido a Joseph Cabedo de Vasconcellos e Manoel Moniz Castello Branco, versão explorada por Camillo com toda a veia de arte e azedume, que caracteriza o seu modo de escrever.

Segundo elle, D. Francisco, apaixonado pela formosa Condessa de Villa Nova, esperava uma noite, cioso e desconfiado, n’um canto escuro do pateo de um palacio, espaçoso vestibulo, que se chamava o Pateo das Columnas, perto do Limoeiro, quando um vulto se approximou embuçado. D. Francisco perguntou quem era. Não recebendo resposta, desafiou o desconhecido, e cruzaram as espadas.

Ao tilintar do ferro accudiu sobresaltada a Condessa, com uma luz na mão. Os duelistas separaram-se.

Mas o embuçado, que era D. João IV, tambem enfeitiçado pela Condessa, conhecera a voz do rival, que lhe era familiar, e d’ahi a vingança attribuida ao Rei.

Esta versão, que é deprimente para todos os personagens, pois faz da Condessa, além de leviana, dobre e refalsada, de D. Francisco um ciumento ridiculo, do Conde D. Gregorio um inverosimil barba-azul envenenador de trez consortes, que successivamente o enganaram, e de D. João IV um rufião de congostas escusas e um algoz coroado, esta versão, repito, não resiste á critica. Embora houvesse no caso um fermento de amores e ciumes que sempre fazem levedar o folhado dos corações, não foi assim baixo o papel de D. João IV, e o proprio Camillo o confessa n’uma nota correctiva publicada, annos depois da primeira afirmativa, na «Bohemia do Espirito» isentando o Rei da responsabilidade dos infortunios de D. Francisco.

O sisudo e taciturno Costa e Silva no seu «Ensaio bigraphico-critico sobre os melhores poetas portuguezes», dá a esta versão um aspecto mais réles e burguez, pois diz que D. Francisco «era victima da vingança de uma alta personagem a quem offendera sem o saber, e sem intenção; pois encontrando-se os dois ás escuras em casa de certa moça, passaram ambos a vias de facto e houve entre elles alguns bofetões».

Por esta fórma o enfadonho Costa e Silva conserva o odioso da historia, tirando o perfume romantico á pittoresca aventura de capa e espada.

Por outra maneira se quer explicar o caso n’uma advertencia, que se encontra no codice da Bibliotheca Publica, a que já nos referimos. Diz assim: «D. João José Ansberto de Noronha, Conde de S. Lourenço, homem de prodigiosa memoria e muito grande instrucção em toda a litteratura e historia, me disse hoje, 4 de Maio de 1790, que não ouvira jámais fallar nesta briga, mas sim que sendo D. Francisco Manoel suspeitoso ao Rei por algumas informações de Castella, ou verdadeiras ou falsas, fizera propor a D. Francisco Manoel, pela Condessa de Villa Nova, o plano de uma conspiração contra o Rei, ferindo pelos mesmos pontos das noticias ou suspeitas que tivera. Á conversação desta nova Dalila assistio o Rei, occulto com hum panno de raz, e o infeliz amante tendo a fraqueza de condescender na proposição, e a fineza de não a denunciar, cahio na desgraça do Rei para não incorrer na de traidor».

O Bispo do Gram Pará nas suas memorias conta a mesma historia pela fórma seguinte: «A Condessa de Villa Nova e Figueiró foi objecto da affeicção de D. Francisco Manoel de Mello. Allude a ella quando diz: Nuevo la vi. D. João IV querendo provar a fidelidade de D. Francisco persuadiu a Condessa que o tentasse.

D. Francisco para lisonjeal-a disse que seguiria o partido de Castella. Foi preso.

Assim m’o revelou o Conde de S. Lourenço».

Essa historia deixa assim collocados, ainda mais desastradamente que a outra, os que n’ella entram.

D. João IV passa a ser um esbirro, um aguazil; a Condessa uma sereia perfida e desprezivel; D. Francisco um patetinha lamecha e pueril; e o Conde de S. Lourenço um bisbilhoteiro indiscreto.

Sem pretender arvorar-me em paladino d’este meu avô, querendo desvanecer defeitos ligeiros que, se porventura os tivesse, eram bem compensados pelas qualidades brilhantes, que dão tão grande interesse á sua personalidade, devo dizer que é muito duvidosa a authenticidade de qualquer d’aquellas affirmativas, e sobretudo das insinuações malevolas que encerram.

A Advertencia, onde são colhidas, é uma nota anonyma lançada n’um codice e não merece grande confiança. A segunda variante é tirada das Memorias do Bispo do Gram Pará, manuscripto publicado por Camillo, de cuja authenticidade alguns duvidam.

Mas se effectivamente o Conde de S. Lourenço tivesse referido o caso a Frei João de S. Joseph, não o affirmava como testemunho (pois a scena se passára havia mais de um seculo), mas apenas como echo dos zum-zuns maliciosos trazidos na tradição, e ainda não registrado na chronica escandalosa.

Este Conde de S. Lourenço foi, com mais trinta e tantos companheiros, preso á ordem do Marquez de Pombal no Forte da Junqueira, onde esteve dezoito annos.

Era tão excepcional a sua memoria que se conta ter escripto nas paredes do carcere o «Velho e Novo Testamento», sem auxilio de livro. Parece que tambem escreveu um «Tratado para a educação do Principe», que nunca chegou a publicar-se.

Os dissabores passados na masmorra, que um companheiro de prisão—o Marquez de Alorna—descreve no livro intitulado «Prisões da Junqueira», deram ao seu espirito uma ampliação morbida na visão das cousas, um poder maravilhoso de evocar personagens e factos que a sua imaginação ideava. Quando sahiu da cadeia, e recolheu á casa da Congregação do Oratorio, onde foi companheiro do poeta Bocage, a originalidade da sua conversação dava a muitos, que não possuiam a facilidade de comprehender os cambiantes da palavra, a impressão de que a sua razão desvairava. Outros, tomando á lettra as divagações da fecunda phantasia, registravam-n’as como assertos. Assim o Bispo do Gram-Pará e o anonymo da Advertencia terão recolhido como affirmações, simples boatos, que o Conde referia, se é certo que os referiu, pois não estava isso na indole intellectual do auctor da «Carta ao Marquez de Ponte de Lima sobre a Regencia do Reino».

Voltando agora ás causas da prisão de D. Francisco Manoel, e pondo de parte as explicações romanescas, (posto que pareça certo que o infortunado poeta teve effectivamente uma paixão pela formosa Condessa) inclinamo-nos a que a perseguição, que soffreu, tivesse sido motivada por odios politicos. Entre os seus perseguidores parece na verdade ter figurado D. Gregorio, o marido da Condessa. Mas não ha indicios de ter sido o ciume que o aguilhoou na sua furia contra o amoroso D. Francisco.

Rancor é certo que existia, como prova uma carta do Embaixador de Hespanha em Roma ao Rei D. Filippe, em que dá noticia de o Conde reclamar contra a presença de D. Francisco na capital, depois de ter sido solto.

Prestage, no seu livro, onde o leitor póde encontrar «tudo o que se tem escripto sobre esta questão tão complexa», aponta de passagem uma circumstancia, que abre um horizonte á critica e um incentivo a novas investigações. Refiro-me á condemnação de D. Agostinho Manoel, parente de D. Francisco. Tudo leva realmente a crer que a causa da accusação fosse semelhante á que tornou suspeitos e acarretou ao patibulo este D. Agostinho, o Duque de Caminha, o Marquez de Villa Real e o Conde de Armamar.

A atmosphera de desconfiança e suspeição, creada na sociedade portugueza pela conspiração dos Grandes contra D. João IV, e o estado de espirito do monarcha, ameaçado de perder a corôa, são motivos sufficientes para explicarem a perseguição que D. Francisco soffreu.

É eloquente aquelle periodo do «Memorial» dirigido por elle a El-Rei, a quem diz: «No mesmo dia em que eu estava diante de um esquadrão (no Alemtejo), governando-o contra os inimigos de Vossa Majestade, estava alguma pessoa—que d’esta pratica já haverá dado a Deus contas—n’esse Paço persuadindo a Vossa Majestade me mandasse prender porque eu sem duvida, a juizo da sua bondade, hia com animo de me passar a Castella. Fundava bem essa sua suspeita em me haver eu escusado de testemunhar contra Francisco de Lucena aquillo que eu não sabia».

É emquanto a mim n’estas palavras do proprio D. Francisco Manoel, dirigidas ao Rei, que se deve ir procurar a explicação da sua odysséa. E na excitação dos espiritos, vibrantes ainda com a tragedia do Rocio que pôz um epilogo á conspiração, é que se deve buscar o fermento com que os inimigos do talentoso escriptor, architectaram a sua desgraça.

Ciumes, se os houve por parte de um marido, só podem ter contribuido para que este diligenciasse prolongar o encarceramento.

Da parte do Rei, que se correspondia em cartas com D. Francisco Manoel, depois de preso, e que até o consultava sobre negocios publicos, não se nota vislumbre de azedume ou rivalidade; como tambem não transparece em tudo quanto D. Francisco escreveu.

Então que resta da imaginada vingança de um Rei que ardendo em zelos ferinos se transforma em «algoz coroado»?

Phantazias de novellistas!

Em toda esta emmaranhada questão aguça-nos a curiosidade saber alguma cousa acerca da heroina do romance (se o houve), aquella requestada Condessa de Villa Nova, cuja physionomia esquiva se rebuça n’uma mantilha de mysterio.

O Conde D. Gregorio foi casado trez vezes. E não concordam aquelles que mais acreditam na rivalidade entre o Rei e o escriptor, sobre qual das trez Condessas enfeitiçou a ambos. Uns preferem para causadora da tenebrosa historia a primeira, que foi D. Brazia ou D. Branca de Vilhena, filha do Conde da Sortelha. Outros talvez prefiram como enredadora do drama amoroso D. Guiomar da Silva, segunda mulher do Conde D. Gregorio e filha do Conde de Odemira. Finalmente, Camillo, seguindo os genealogistas que consultou, decide-se pela terceira, D. Marianna de Lencastre «de peregrina formosura e a mais cantada dos poetas fidalgos d’aquelle tempo».

E com a phantazia camilliana decide sem hesitação que o Conde seu marido envenenara esta terceira consorte, como já tinha envenenado as duas primeiras, e apresenta-o como um Borgia, prodigo em ministrar fortes dóses de peçonha ás successivas condessas.

Ora, a «Historia Genealogica» e alguns linhagistas bem informados dão noticia de que D. Marianna, dezoito ou vinte annos depois d’este drama, não só estava com vida, mas casou segunda vez com o Conde de Aveiras, Luiz Telles da Silva, tendo enviuvado do Conde de Villa Nova a 14 de Abril de 1662.

Se é certo que tivesse havido da sua parte qualquer especie de sentimento pelo talentoso fidalgo, encarcerado a 19 de Novembro de 1644, já de ha muito o coração lhe arrefecera, não tendo resistido á ausencia do amoroso poeta, que ia transitando de carcere para carcere, do Castello para a Torre de Belém: da Torre velha para Ribamar...

E elle? Que sentia na prisão onde permaneceu tantos annos?

«Entrei n’esta prisão honrado, sahirei por força abatido; entrei são, sahirei doente; entrei mancebo, sahirei velho; entrei accommodado, sahirei pobre. Tudo o que perco, e já não posso cobrar, dou por bem perdido quando a grandeza de Vossa Majestade não consentir acabem meus inimigos que eu entrando tambem innocente, saia culpado».

Estas palavras dirigidas ao Rei não dão a impressão de um rival despeitado e opprimido, fallando ao seu competidor victorioso. Não falla ahi (nem é natural que fizesse confidencias amorosas n’um memorial ao Rei) nos sentimentos que porventura o atormentavam, como tambem pouco ou nada se fazem sentir os seus infortunios de coração nas obras que escreveu—cartas, apologos, poesias ou tratados.

Quem, porém, esquadrinhar bem os seus escriptos encontra phrases, que abrem frestas reveladoras sobre a alma do captivo sentimental, que sabia fallar de amor. Assim, diz elle: «quando nisso me ponho, sei amar de uma arte nova. Porém, tambem digo que passar ruins dias e peiores noites por gente loureira é cousa trabalhosa».

Se quando isto escrevia ainda não estava preso, o que sentiria quando nas longas noites da Torre de Belém, banhada pelo Tejo que o luar chapinhava, ruminasse sobre a fidelidade da leviana e loureira creatura que porventura, á mesma hora nos Paços da Ribeira em festa, escutava galanteios e finezas?

«Encerrado en una torre,
me guardan dentro del mar,
como en el nacar la concha
guarda la perla oriental».

Pobre poeta esquecido! Pobre coração atormentado!

Para suavisar amarguras, trocou angustias sentimentaes em moeda litteraria.

As lettras, que são um grande refugio espiritual, trouxeram-lhe uma occupação, e dos annos passados na inactividade forçada resultaram algumas das obras primas da litteratura portugueza.

«Aos emulos que o perseguiram, escreve Herculano, deve elle a gloria que cerca o seu nome.

Se não fosse a dura e larga prisão, porventura teria gastado os seus dias no meio dos tumultos da guerra e dos enredos cortezãos. Assim, os invejosos que pretendiam deprimil-o, foram aquelles mesmos que contribuiram para que lhe coubesse o que neste mundo mais preço e valor tem—o renome e a immortalidade».

Prestage tambem considera bemaventurados os infortunios de D. Francisco Manoel, «que delle fizeram um grande homem e um grande escriptor».

Será assim? Talvez não! Costumam os amadores do canto de certas aves cegal-as com um ferro em braza afim de as tornarem mais canoras e melodiosas. Quer-me parecer que as volatas do rouxinol nos salgueiros, e que os trillos do pintasilgo nas giestas, tem mais sabor e harmonia que os gorgeios por força dolentes do «ruysenhol captivo que canta de noute e faz saudades», ou que o pintasilgo preso ao poleiro, por cadeia de latão, na loja do barbeiro.

É pois de crer que o talento de D. Francisco Manoel, desabrochando livre nos paços, nas salas nobres, nos campos de batalha, no convivio do seu amigo Quevedo—o pae da graça—e nas tardes de ocio no Rocio, onde os casquilhos da Côrte tinham prazo-dado, teria produzido mais «Apologos dialogaes», mais «Guerras da Catalunha», mais «Epanaphoras» e mais obras poeticas, embora fosse mais reduzido o numero de allegações juridicas e memoriaes.

Mas, metade dos seus cem volumes que escrevesse, já eram de sobejo para immortalizar o classico escriptor que marca uma phase na evolução da nossa lingua.


A obra de Prestage sobre D. Francisco Manoel de Mello é o que os Inglezes chamam an exhaustive work.

Desde a noticia sobre a familia em que nasceu, até ao ultimo capitulo em que faz um apanhado sobre o homem e o escriptor, os seus amores e a sua descendencia, o auctor do ensaio vae seguindo com minuciosa attenção cada um dos trabalhos litterarios do prodigioso polygrapho, tirando d’elles preciosos dados para a sua biographia e para a analyse psychologica da sua interessante individualidade.

Os capitulos sobre o exilio no Brazil; sobre as viagens; sobre a «academia dos generosos», em que ha a curiosa relação dos certamens, e a lista dos socios; sobre as negociações para o casamento de D. Affonso VI e sobre a morte do escriptor, encerram paginas não só de biographia, mas de historia.

E dos documentos que são annexos ao volume, alguns ha bem curiosos, como aquelle que testemunha as relações de D. Francisco Manoel com o Governo hespanhol logo depois da Restauração, e que tanto fazem meditar sobre a concepção de patriotismo n’aquelle turvado periodo. Augmentam esses documentos o valor da obra, e tiram-lhe todo o caracter de panegyrico, pois não poupam o espectaculo de algumas mazellas espirituaes.

O ensaio biographico está destinado a ser não só o breviario de todos aquelles que quizerem conhecer D. Francisco Manoel de Mello, mas a formar a base fundamental do monumento que é devido ao inconfundivel escriptor.


Esta obra faz cahir o véo de sobre alguns pontos escuros e duvidosos da vida de D. Francisco Manoel, e, por engenhosas e rebuscadas conjecturas, encaminha o espirito do leitor a hypotheses provaveis. Mas não tem pretenção a desvendar de vez muitas das circumstancias em que está envolvida a existencia do interessante vulto seiscentista, nem dissipar por completo essa nebulose que nunca se esfarrapará em volta do nome prestigioso do escriptor.

No frontespicio de muitas das suas obras figura a enygmatica palavra: «Quare?»—«Por que?»

A concisão com que é feita essa pergunta encerra um mundo de interrogações, que dão á figura de D. Francisco Manoel de Mello juntamente com a poesia do infortunio, a poesia do mysterio.

ANTONIA RODRIGUES
AMAZONA DE MAZAGÃO


SUMMARIO

A Veneza Luzitana é seu berço—Vinda para Lisboa—Educação livre—Repressões—Revolta—Partida para o desconhecido destino, Mazagão—Annos de serviço militar—Galanteios de ambos os sexos—A Donzella que vae á guerra—Confissão inesperada—Desposorios—Regresso ao Reino.

Em Aveiro, a linda Veneza luzitana, nasceu, a 31 de Março de 1580, Antonia Rodrigues, que havia de dar brado no seu tempo.

O pae, Simão Rodrigues, mareante de profissão, passava a vida laboriosa no mar, embarcado nas galés, que, ou partiam com longinquo rumo, carregadas de sal, para o ultramar, ou se dirigiam aos bancos da Terra Nova, á pesca do bacalháo, ou iam seguindo a costa, em busca de acasos raramente lucrativos.

A mãe, Lianor Diaz, mourejava para ajudar o sustento da familia. Casara a filha mais velha, que logo partira para Lisboa.

A pequena Antonia herdara do pae, e talvez dos remotos avós, phenicios ou celtas, que n’aquellas paragens tinham abordado em passadas éras, a attracção pelo desconhecido, e o animo resoluto, avido de aventuras. Quando bebia na aragem, que vinha dos lados da barra, cem as emanações salinas, o philtro mysterioso, que impelliu os nossos navegadores para a conquista do mundo, sentia ferver-lhe tumultuosamente nas veias o sangue. E pelos minusculos canaes da ria, que serpenteava na planicie, ou pelas estreitas viellas da antiga villa, lá ia de envolta com a garotada turbulenta em perigosas excursões sobre jangadas improvisadas, ou em luctas monumentaes de pedrada. Era o tormento da mãe, que não podia domar aquelle pequeno animal bravío. Era o enlevo do pae, que, nas occasiões em que não embarcava, se revia na filha, quando ella partia, já dominadora, commandando o infantil exercito, ou organizando giganteas partidas de jogo de barra, em que se distinguia, apezar da edade, por ser dextra e agil.

A vida, porém, corria difficil para a familia. Os invernos quasi haviam atulhado de areia a barra, e a navegação fôra perjudicada com esse impedimento. Os canaes transformados em paúes tornaram-se estereis e doentios. Nas marinhas diminuiu a producção do sal, e por pouco não se extinguiu a industria da pesca. A villa, agora insalubre, ia-se despovoando pouco a pouco.

O antigo embarcadiço sentiu de perto a miseria. Foi então que sua mulher, a valorosa Lianor, resolveu levar a pequena Antonia para Lisboa, onde a outra filha se estabelecera. Afigurava-se-lhe que o genio indomito d’aquelle seu rebento meio selvagem, se disciplinaria melhor longe das complacencias do pae, e no contacto da gente da capital, mais polida de maneiras, que os miseraveis habitantes da decadente Aveiro.

O certo é que, pelos annos de mil quinhentos e noventa e tantos, metteram-se as duas a caminho, arrostando com as difficuldades e perigos d’uma viagem, tão arriscada n’aquelles tempos, quer por mar, onde os corsarios inglezes e hollandezes atacavam as embarcações mal defendidas, quer por terra, onde os ciganos aos cardumes surprehendiam os viajantes nas estradas, e até nas albergarias, ou dependencias de conventos em que pousavam.

Vieram encontrar Lisboa bem diversa das pinturas com que lh’a haviam figurado—primeiro ruidosa, festiva, brilhante, quando fôra da expedição para a Africa com D. Sebastião e a flor da nobreza; depois amargurada, deprimida, orphã de Rei e de côrte, quando da morte do Cardeal D. Henrique; depois ainda tumultuaria, nervosa, excitada por occasião da phantasmagorica acclamação do Prior do Crato; finalmente, galvanizada, com a organização e preparativos da partida da Invencivel Armada, para a qual tinham dado:

«Naples ses brigantins, Cadix ses galions
Lisbonne ses marins, car il faut des lions».

Na Lisboa onde entravam, respirava-se agora a atmosphera soturna das povoações subjugadas, sentia-se a tristeza apagada de uma terra de provincia, votada ao desdem pelo poder central.

O Palacio Real fechado, depois da partida do Vice-Rei, Archiduque Alberto, era na sua mudez taciturna a imagem do Portugal de então.


A filha mais velha de Lianor Diaz acceitou a missão de hospedar a irmã, o que não foi pequeno encargo para uma, nem grande motivo de regosijo para a outra.

A mais velha era azeda e violenta de genio. Pretendia governar com aspereza a rapariga que, passando já dos doze annos, manifestava cada vez mais o seu espirito de independencia, andando a flaino pelas congostas da antiga Alfama; subindo perto do Castello, d’onde enxergava ao longe o Tejo, que lhe avivava saudades da sua Costa Nova; renovando com a gaiatada do largo de S. Christovão e das Cruzes da Sé as proezas de Aveiro.

Eram então grandes partidas do jogo do pião, do homem, da laranjinha, do pegochuna, da cunca e sobretudo da barra, em que a rapariga revelava especial destreza e habilidade, como para todos os exercicios a que os Inglezes dão o nome generico de sport, vocabulo que os modernos lexicographos traduziram por desporto, palavra cuja significação é antes folgança, que jogos athleticos.

Outras vezes a pequena Antonia deitava até á Ribeira das Náos, onde se quedava pasmada, admirando toda a faina maritima, que ainda alli era muita, a despeito da progressiva decadencia, que a acção do Governo hespanhol ia tornando cada vez mais sensivel.

Ainda alli se construiam galeras, carracas, fustas e caravellas; ainda alli se carregavam as embarcações, que levavam homens e mantimentos para as nossas possessões, ainda alli se apparelhavam as armadas que iam a combater, e se descarregavam as que vinham da India com especiarias.

Estas excursões pouco proprias de uma rapariga que ia entrar n’uma puberdade promettedora; cujas fórmas começavam a desenhar-se em linhas felizes; e a cujo caminhar cadenciado os exercicios physicos tinham dado uma elegancia especial, não agradavam á sizuda e rebarbativa irmã primogenita.

Começaram então os reparos, as prohibições, as repressões, que em vez de alcançarem o recato e a compostura requeridas, mais excitaram no animo da insubmissa Antonia o espirito de revolta.

Ás recriminações da sensatez, correspondiam os impetos insubordinados.

De um lado o resguardado viver no interior da habitação lisboeta da edade média, com as gelosias de rotulas cerradas, e adufas cahidas, na qual a femea semi-arabe, ancilla enclausurada tradicionalmente, fiava durante as horas da sésta, até que entre lusco e fusco sahia a pedir ás visinhas lume para apromptar a ceia do marido, e a depenicar um pouco na reputação alheia; do outro lado a alma celtibera, impetuosa e independente que destroça cadeias, e rompe preconceitos, que é ciosa de emancipação individual, que se governa a si propria, indomavel, e que se encarna nas figuras de Brites de Almeida, a lendaria padeira de Aljubarrota; em Izabel da Veiga a heroina de Diu; em Filippa de Vilhena e Magdalena de Lencastre, as matronas da restauração; na filha do cosmographo Pedro Nunes, a freira de Coimbra; e em nossos dias n’uma neta de Vasco da Gama, cujo nome de Constança é já glorioso.

As duas irmãs representavam as qualidades typicas da mulher portugueza da pequena burguezia n’aquella quadra—a que, educada no recato moirisco, tinha a existencia quotidiana limitada pelo horizonte da sua rua, e as aspirações reduzidas a ver passar de anno a anno as pompas do «Corpus Christi»; e a que, deslumbrada com as aventuras narradas pelos capitães de navios, que regressavam de remotas paragens, sonhava com os explendores do Oriente, com os jardins de Ceuta, com os dramaticos encontros com piratas no alto mar, e com os cercos famosos das fortalezas da Africa e da India, em que as mulheres representavam por vezes tão insigne papel. Com estas narrativas de epopeia e miragem de riquezas, começava a levedar na alma da rapariga a aspiração de emigrar em companhia dos que partiam...

D’esta antinomia de caracteres havia de nascer necessariamente um conflicto de vontades. A mais velha, exigente e escudada com a razão, impunha recolhimento; a mais nova resistindo, proclamava emancipação. O resultado não se fez esperar.

Uma manhã Antonia enfiou na cabeça o seu capello, alforjou no bolso de briche o pequeno peculio que a mãe lhe deixára; e eil-a ahi vae pelas tortuosas quelhas em direcção á rua dos mercadores de fato feito e roupavelheiros, á porta dos quaes se penduravam, balouçando ao sabor do vento, casacos, vareiros alcatroados, e calçotas oleadas dos pescadores da Costa. Alli ajustou um «vestido conforme ao trajo dos moços que vivem no mar em navios mercantes» e munida de uma thesoura dirigiu-se para o campo, fóra de portas. Não ficava n’esse tempo longe para qualquer dos lados, pois Lisboa ainda estava quasi toda encerrada nas muralhas de D. Fernando.

Sahindo pelas portas da Trindade, logo alli achou perto de Santa Catharina o que procurava, isto é, um lugar escuso onde, depois de cortar o cabello despiu o trajo de mulher e envergou o de grumete. Desceu então pelo corrego junto da muralha, e vindo dar ao Cata-que-farás dirigiu-se á Ribeira, perto das tercenas navaes.

Fervilhavam-lhe no cerebro projectos arrojados, atravessavam-lhe a alma de creança rajadas de emancipação.

Chegando á praia encontrou o formigueiro humano em plena actividade. Calafates e carpinteiros de machado trabalhavam nos arcabouços de pequenos bateis destinados á navegação costeira, emquanto outros alcatroavam os bojos de galeras inclinadas. Regateiras açodadas, confundindo os seus prégões com a algaravia da marujada, offereciam fructas, bebidas, frituras de peixe salgado. Alguns da soldadesca dos terços resmoneavam, queixando-se de serem mal pagos, e substituidos nas fortalezas de Cascaes e Setubal por guarnições hespanholas. Por entre a arraia alguns vultos embuçados em seus gibões, maldiziam dos vexames dos Castelhanos ou dos senhores governadores do Reino, e suspiravam olhando para os lados da Barra, em cata de um galeão phantastico, que lhes havia de trazer o Encoberto, o Rei legitimo, o desejado D. Sebastião...

Mas logo se calavam olhando desconfiados em redor não fosse algum esbirro denuncial-os, e dar que fazer á corda com que fôra enforcado o Rei da Ericeira, á galé em que se sumira o Rei de Penamacor, ou ao garrote com que Filippe II engravatou o Pasteleiro de Madrigal.

Carregadores espadaudos, transportando fardos de mercadorias, eram seguidos por mendigos andrajosos, que procuravam na peugada bagos de trigo esvasiados dos saccos mal compostos, ou sardinha petinga, escapada das canastras abarrotadas. Marinheiros mercenarios concertavam com os capitães de navios mercantes as soldadas de futuras derrotas. Outros embarcadiços preparavam-se para a largada.

Entre estes, o mestre de uma caravella carregada de trigo, prestes a partir, lamentava-se de que á ultima hora lhe desertára um grumete, que lhe fazia grande falta na viagem.

Antonia ouvindo a queixa sentiu-se tocada pelo destino, e obedecendo a uma força irresistivel, offereceu-se para substituir o marinheiro remisso. O mestre da galera olhou-a sobranceiro e desdenhoso. Parecia-lhe atrevimento do franganote. Quem lhe garantia as aptidões do rapaz? Hesitava.

O marujito, porém, inculcou-se como sabedor da arte de marear, e prompto para qualquer mister.

O capitão achou esperto o pimpolho, leu-lhe nos olhos vivos determinação e arrojo, e impellido pela urgencia determinou-se a engajal-o.

Partiu a caravella com rumo a Mazagão.

Durante a viagem tudo correu á maravilha. O novo grumete, activo, desembaraçado e agil, causava o espanto da tripulação pela fórma como realizava as manobras e serviços de bordo, trepando pelos mastros e tomando as velas, talvez por invocar reminiscencias do officio paterno, e a pratica das suas proezas na ria de Aveiro. Sempre álerta, era o primeiro arriba ao toque de alvorada, e á noite o ultimo a recolher. Dormia a qualquer canto do porão embrulhado no varino. E era tanto o seu recato, que os companheiros de camarata nunca suspeitaram o seu sexo.

É vulgar este contraste apparente entre uma grande desenvoltura de maneiras e a fundamental honestidade no viver. Não é rara tambem a inversa.

Entre as borboletas loiras, que esvoaçam em volta das lampadas electricas de Leicester Square em Londres, ha expressões virginaes, olhos azues cheios de innocencia, sorrisos ingenuos que se transformam em espasmos lubricos apenas se vendem por alguns schillings. Em compensação quanta manola sevilhana se pavonea no passeio das Delicias, de cigarro ao canto da bocca e punhal na liga, que não consentiria sequer que um atrevido esboçasse o minimo gesto de familiaridade equivoca.

A mulher de Claudio tinha no rosto as linhas hieraticas da sua dignidade imperial, e comtudo, chegada a noite, prostituia-se nas alfurjas de Roma, tornando um symbolo o seu nome de Messalina. Ao contrario, Jeanne d’Arc cavalga escarranchada e vestida de homem á caça de Inglezes nos campos de Patay, dorme nos arraiaes, de conserva com os arcabuzeiros de Carlos VII, e sahe pura, virginal, intemerata de todas as promiscuidades perigosas.

Assim a nossa heroina.

A pureza do seu espirito, a castidade do seu organismo preservam-n’a de avaria no contacto com a marujada, e nas intimidades do dormitorio.

Alma e corpo atravessam immaculadas as concupiscencias dos rudes mareantes.

Passaram dias. A travessia n’aquelle tempo, embora o barco fosse veleiro, era demorada. E a derrota não isenta de perigos n’esses mares infestados de piratas mouros e christãos. O capitão porém era homem de longa pratica, muito saber e prompta resolução. Entretanto havia nas suas maneiras dubias qualquer cousa que inspirava desconfiança a Antonia. A sua perspicacia teve ensejo de apurar-se na forçada convivencia de bordo e o seu faro não a enganava, como veremos.

Aproaram emfim a Mazagão, cuja fortaleza e casaria branca o pequeno grumete, trepado á verga da sobre-prôa, foi o primeiro a signalar.


Tinham os Portuguezes aportado alli em 1502 (havia quasi um seculo) e logo edificaram um castello no sitio em que existia uma torre. Mais ao deante, quando o Duque de Bragança D. Jayme voltou da sua expedição famosa da tomada de Azamor, que fica d’alli duas leguas, tão boas informações deu a El-Rei D. Manoel sobre a excellente bahia e amenidade do sitio, que logo este resolveu mandar para alli o architecto João de Castilho, o Velho, que, levando operarios e materiaes, entrou a construir a cidade.

Asturiano de nascimento, mas Portuguez de coração, o talentoso artista dotou a sua patria adoptiva de formosos monumentos. Compoz em pedra alguns dos mais bellos poemas da arte manuelina. Foi o auctor das abobadas e pilares do Cruzeiro dos Jeronymos em Belem; foi o mestre das obras da Batalha por morte de Matheus Fernandes; e foi-o tambem das obras reaes no Convento de Christo em Thomar. Poeta na architectura, lança ainda uma projecção luminosa sobre o nome de dois vultos eminentes no patriciado das lettras portuguezas—os dois Castilhos nossos contemporaneos.

Em 1543 João de Castilho, depois de ter estado em Arzila, parte para edificar a praça de Mazagão e delinear a cidade, que ainda hoje conserva tantos vestigios do dominio portuguez.

Poz n’esse trabalho toda a sciencia que exigia a construcção d’uma fortaleza a cada passo atacada pela moirama, que vinha aguerrida e cheia de sanha em tentativas de vingança assediar esse porto portuguez. E poz nas construcções toda a arte com que o seu genio se enriquecera em Italia, então em plena explosão de Renascença. Os baluartes, as bombardeiras de onde a grossa artilharia de bronze vomitava granadas em occasião de ataque, as seteiras dos parapeitos, as ameias ao longo das muralhas, a ponte levadiça sobre as fundas cavas, davam á curiosa fortaleza não só a segurança requerida, mas a elegancia, que caracteriza as construcções do nosso periodo aureo, tão lindamente manifestado na Torre de Belem.

Ás habitações da cidade João de Castilho deu a graça da sua arte, e as commodidades exigidas pelas condições sociaes dos moradores—ou gente da nobreza e familias da guarnição que da metropole tinham vindo acompanhar os seus parentes, ou mercadores que ensaiavam o trafico nos raros intervallos da paz.

Mazagão ficou assim constituindo um dos pontos fortificados d’essa costa de Africa ao longo da qual Ceuta, Tanger, Arzila, Azamor, Zafim serviam de theatro ás façanhas dos fidalgos, que alli iam ganhar as suas esporas de oiro, antes de passarem á India. Impellidos por esse espirito de cavallaria andante, que caracteriza grande parte da nobreza n’aquelle declinar da Edade Média, muitos faziam d’essas praças de Africa a sua escola de guerra. Em cada uma punhados de bravos arriscavam quotidianamente a vida em correrias, rechaçando com valentia os marroquinos que vinham de Fez, e colhendo, além de gloria, rebanhos de gado. Não era raro tambem aprisionarem formosas moiras, que traziam captivas ás suas noivas, ás suas mães, e ás suas damas, que as tomavam como escravas.

Não foi, porém, só de cruezas feita a epopeia de Portugal em Africa. Então, como agora, a par das brutalidades proprias da guerra, e da braveza com que o animal humano ataca o seu adversario, creaturas de bondade attenuavam com mãos piedosas os horrores da chacina. Assim o mostra o episodio passado em Alcacer—Ceguer no meiado do seculo XV, em que D. Izabel de Castro, Condessa de Vianna, esboça um movimento humanitario, que se torna um embrião da moderna Cruz Vermelha.

A mulher de D. Duarte de Menezes foi uma precursora das heroicas enfermeiras que, abandonando as frivolidades de uma vida de prazer, os confortos de uma existencia farta de gozos, e as elegancias, adornos e joias caras, envergam a simples bluza de linho, de que a braçadeira é divisa e galão honroso.

Passou-se o caso quando em 1459 o Rei de Fez resolveu tomar Alcacer, suppondo a guarnição exhausta e o Governador prestes a render-se. Dera-lhe essa esperança uma carta apprehendida no ar, atada ás pennas de uma seta. (N’aquelle tempo a correspondencia entre as praças e os navios era feita, á falta de telegraphia sem fios, por meio de setas). Ora uma, que levava a carta angustiosa de D. Duarte de Menezes, dirigida á caravella do Védor da Fazenda que viera do Reino, e com a noticia da penuria em que se achava, foi colhida por um moiro, e isso resolveu os Arabes a um combate encarniçado, de que afinal resultou a victoria para os nossos. No mais acceso da peleja aconteceu desembarcar, vinda de Lisboa, D. Izabel de Castro, mulher do Governador, com comitiva numerosa. Era a irmã do 1.º Conde de Monsanto, senhora de grande intelligencia e muita auctoridade entre a gente do seu tempo. Foi recebida com enthusiasmo pelos heroicos defensores da praça. E como na refrega muitos tinham cahido feridos, resolveu ella logo organizar soccorros e prodigalizar confortos espirituaes. Conta-o Ruy de Pina na sua chronica quando diz: «... assim pelo reparo que os feridos e doentes em sua cura d’ella recebiam, como pelo favor de suas donzellas com que os fidalgos fronteiros se favoreciam e folgavam melhor de pelejar, porque ella tinha em sua casa gentis mulheres filhas de homens honrados que, guardada em tudo a sua honra e honestidade, sabiam bem fallar e tratar os homens como mereciam». Estava assim esboçada a Cruz Vermelha.


Fechado este parenthesis voltemos á nossa Antonia, que tinhamos deixado abordando a Mazagão como grumete, na caravella carregada de cereaes, onde servia com o nome de Antonio.

Teve então o Governador uma denuncia certificando-lhe «que o mestre da caravella fizera furto e falsidade no trigo que levava». Procedeu-se a um inquerito, ou, como n’esse tempo se dizia, abriu-se uma devassa para averiguar, «tirando-se do caso testemunhas». Uma d’ellas foi o grumete Antonio, que compareceu perante uma especie de conselho composto do governador e alguns magistrados. Logo a todos impressionou a viveza do olhar do marujito, a sua expressão intelligente e decidida, a sua airosa cabeça enquadrada pelo cabello cortado á altura do mento, e aquella apparencia de ephebo, um mixto de escudeiro e de pagem, que lhe dava ao mesmo tempo um ar marcial, e a graça de cortezão.

Interrogado disse a verdade sem rebuço nem receio, a despeito dos olhares minazes do mestre do navio, que esperava assim atemorizal-o.

Não sabemos qual foi a sentença do Tribunal. É porém certo que Antonio revelou tudo, desde as suspeitas, que logo no principio da viagem o tinham assaltado ácerca da honestidade do mestre, até á prevaricação no caso das medidas. O rancor do embarcadiço transudava nos olhos injectados: pelo que não era de invejar a sorte que esperava o intrepido marujo, quando se achasse de novo na caravella á mercê do seu odio.

O Governador da fortaleza não consentiu portanto que o rapaz fosse exposto ás iras vingativas do mareante, e desde logo assentou praça, como soldado, ao grumete Antonio Rodrigues.

Começou elle immediatamente a mostrar a sua destreza no manejar das armas, e quando ia com os outros camaradas ás barreiras e estacadas a todos levava vantagem. Nas ruas e praças publicas, em occasião de exercicios, era tão desembaraçado na esgrima que logo passou a ser notada a sua pericia.

Fallando d’este periodo, diz o chronista seu contemporaneo: «fazia suas vigias de noite sem nunca faltar n’ellas, e com os soldados comia, e se deitava na cama, e dormia entre elles, vestido porém sempre com gibão e ceroulas, que nunca andava sem ellas, por onde não foi conhecido».

Durante mais de um anno fez serviço entre os peões. Mas notando-lhe as qualidades e valor o Capitão encorporou-o entre os de cavallo, dando-lhe soldo e mantimentos como aos outros cavalleiros.

Chegou então o capitulo mais brilhante da sua carreira militar, em que a valentia lhe proporcionou luzentes victorias sobre os moiros infieis, e o seu garbo conquistas sobre os corações christãos.

Diz d’elle o chronista Duarte Nunes de Leão: «Sendo de cavallo se avantajou dos outros a destreza, e bom ar, e ligeireza com que cavalgava do chão: e no commetter aos inimigos nas emprezas maiores e de importancia, sempre o Capitão o nomeava e mandava na deanteira como ao mais destro cavalleiro que tinha. E assim se achou em muitas pelejas e encontros onde foram captivos e mortos muitos mouros principaes e seus cavallos, de que Antonio Rodrigues participava como o melhor cavalleiro da companhia. Velava de noite nos muros seus quartos sem faltar, e sahia ao campo com sua espingarda a cavallo a fazer lenha e feno. E muitas vezes ajudava a matar porcos no campo dos mouros, de que trazia sua parte».

Quando vemos figuradas nos azulejos portuguezes as apparatosas caçadas ao porco bravo, em que cavalleiros de vistosas casacas e emplumados tricornes, perseguem com suas lanças, e seguidos de ululante matilha, o javardo, emquanto os couteiros, e moços do monte, sopram nas buzinas, concebemos facilmente como os heroes d’esse exercicio varonil, tão dilecto da gente de escol, alvoraçava imaginações femininas. E não nos causa espanto ver que n’aquelle canto da Africa o denodado caçador Antonio Rodrigues que tinha fama de atravessar com o acerado chuço a pelle dos animaes bravios, trespassasse tambem com os olhares os corações das formosas portuguezas.

«Por parecer um mancebo mui gentilhomem e de muita graça (diz o chronista) era mui bem olhado e favorecido das donzellas de Mazagão».

Entre ellas havia uma, cujo nome a historia não registra, talvez para não a vexar pelo seu equivoco, que se apaixonou loucamente pelo arrojado cavalleiro. Nos combates em que elle entrava, tão encarniçados que, segundo o costume, dois frades de São Francisco, com o crucifixo levantado contra os moiros, se collocavam no mais alto do castello para inspirar confiança aos soldados, não era raro ver a amorosa rapariga acompanhar as outras mulheres da povoação, moças e velhas que vinham dar agua aos homens, e que muitas vezes, deixando nas mãos d’elles os pucaros emquanto bebiam, arremessavam ellas pedras contra o inimigo.

Quando o combate cessava e todos recolhiam, Antonio Rodrigues era convidado a ir descansar a casa d’aquella, que muitos consideravam já sua noiva, e que era filha de «um cavalleiro principal». Ahi era recebido com affectuosa familiaridade pelos paes e mais parentes, que lhe offereciam dadivas como se já o considerassem genro ou pessoa da familia.

Antonia, receiando que o revelar a verdade trouxesse um natural escandalo, ou graves dissabores, e sendo-lhe tambem penoso desilludir a sentimental menina, deixava-se amar sem retribuir galanteios, e empregando meios dilatorios que a tirassem de difficuldades.

Este caso original de psychologia amorosa, já de si embaraçoso para qualquer casuista, e principalmente para quem andava mais habituado a escaramuças com agarenos que a justas de corações, ou embates de almas, complicava-se agora com um facto ainda mais curioso, e a que ella não era indifferente.

Entre os olhares com que as suas numerosas admiradoras solicitavam o seu, notava por vezes o de um moço militar de boa familia, que apenas se julgava presentido, o desviava, dissimulando. E por uma circumstancia inexplicavel, emquanto todos os camaradas tratavam Antonio Rodrigues desenfastiadamente, aquelle nunca lhe dirigia a palavra, ou se a dirigia era com visivel commoção.

Cantar-lhe-iam talvez na memoria, com mysteriosa significação, os versos d’aquelle romance tão lindo «A Donzella que vae á guerra», melopêa com que em creança sua aia o adormecia:

«Tende-los peitos mui altos
Filha conhecer-vos hão.
—Venha gibão apertado
Os peitos encolherão.


Senhor Pae! Senhora Mãe!
Grande dôr de coração.
Que os olhos do Conde Daros
São de mulher, de homem não!»


Esta situação de equilibrio instavel de sentimentos durou cinco annos.

E se o derivativo das batalhas com os moiros espaçava uma solução inevitavel, é certo tambem que a forçada intimidade n’uma cidade pequena, e n’uma sociedade limitada; a influencia do clima ardente tão propicio á explosão das paixões; e os perigos compartilhados com frequencia, elemento que tão fortemente concorre para o estreitamento de laços sentimentaes, espicaçava os cerebros e os sentidos dos actores d’este pequeno drama.

Repugnava ao instincto de rectidão de Antonio Rodrigues o embuste, embora forçado, em que vivia; desadorava a comedia que estava representando, tanto em contraste com os lances e investidas guerreiras, em que por vezes andava empenhada; e apiedava-se do engano em que via enredar-se a doce creatura, que lhe davam como noiva.

É possivel tambem que os impulsos do seu sexo, tão longamente reprimidos, a levassem a julgar necessario tornar regular a situação. Talvez mesmo não fossem extranhos a esse estado de espirito os olhares esquivos, quasi envergonhados, do moço militar.

Afigurava-se-lhe, porém, embaraçoso resolver este caso.

Não era correcto confessar a qualquer homem a sua ambigua situação. E difficilmente encontraria uma mulher, mesmo entre as matronas da cidade, que lhe escutasse de boamente a confidencia arriscada.

Durante muita noite de vigia na barbacan da fortaleza, durante muitas horas de ronda nos arredores do castello, meditou sobre o passo que tinha a dar.

Lembrou-se afinal que, entre os clerigos, que mais piedosamente confortavam os moribundos em occasião de batalha, e que mais reputação gozavam de saber tranquillizar os espiritos anciosos, destacava-se o Padre Provisor. Resolveu abrir-se em confissão ao austero magistrado ecclesiastico que, habil em questões de jurisdicção ecclesiastica, era ao mesmo tempo subtil manejador de almas e de casos de consciencia. Elle melhor que ninguem lhe indicaria o modo de proceder.

Ouviu-a surpreso o Padre Provisor, e logo lhe aconselhou a que ambos se dirigissem ao Governador Diogo Lopes de Carvalho, que sempre dispensára protecção ao moço militar, afim de lhe fazerem a extranha revelação.

Mais surprehendido ficou ainda o Governador, que o Padre, com tão inesperavel noticia.

E o que mais lastimava n’aquella insolita occorrencia, era ter que assim perder um dos seus melhores cavalleiros.

Mas forçoso era submetter-se ás circumstancias, e inevitavel o regresso de Antonio Rodrigues ao sexo a que pertencia.

Procurou-se então a casa de uma familia honesta onde pudesse recolher-se, e vestir o fato que lhe era proprio.

Não foi custosa a iniciação, porque a varonilidade de Antonia provinha mais da sua energia de animo, que da mascula rudeza de maneiras. Não era a virago das revoluções da rua; era antes o athleta androgyno dos collegios athenienses, cujas fórmas foram consideradas a suprema expressão da esthetica.

O novo trajo, longe de se desageitar no seu corpo, deu-lhe a graça feminina com que adquiriu um encanto proprio. Era isso o que lhe affirmava a familia que a recolheu. E Duarte Nunes do Leão, que a conheceu mais tarde, quando ella tinha trinta e cinco annos, achava-a «bem parecida, com muita graça no fallar, e grande viveza no espirito que justificava a sua fama».

Mas como seria encarada a metamorphose pelos seus antigos camaradas? E como a olhariam as raparigas que a tinham requestado? E que pensaria o official que de longe a olhava com timidez?

Então, ella, que tinha afrontado tempestades, balas de moiros, e arremettidas de féras, intimidava-se com a ideia de ver menos bem acolhido o seu novo avatar; a sua transformação de guerreiro em donzella. Pensou voltar ao Reino.

Aproveitaria a partida de qualquer familia que regressasse, e assim dissimuladamente subtrahia-se a commentarios indiscretos. Entretanto, não ousava apparecer em publico, tanto lhe parecia que todos haviam de encaral-a com zombaria ou menosprezo.

Enganava-se.

Duarte Nunes do Leão assevera «que a foram visitar as donzellas a que ella fallava amores, as quaes mudaram o amor que lhes tinham em amizade, e lhe pagaram as galanterias que lhes dizia com presentes de rocas e fusos, e outros taes ditos».

Ha n’esta offerta uma leve ironia, um innocente debique. Mas não a podia molestar; nem era essa a intenção das raparigas, logradas, mas não rancorosas.

O governador, que muito se lhe affeiçoara, e todos os da villa, tanto homens como mulheres, oppuseram-se á sua partida.

Entretanto aquelle a quem, de havia muito, a figura de Antonia impressionara, sem que nunca o tivesse revelado, e que era pessoa de qualidade, apresentou-se solicitando a sua mão.

Ha situações difficeis de sustentar. O marido de cantora celebre que assiste diariamente aos duettos da mulher com um tenor almiscarado; o da dançarina, que a vê desnuda e provocante piruetando perante espectadores em irreverente observação; o da mulher cujo talento pertence exclusivamente ao publico; o da feminista, que reivindica direitos politicos e a emancipação da tutela marital; o da mundana, que em bailes e em festas provoca adulações, segredos equivocos, colloquios prolongados, contactos em danças lascivas...

Mas de todas a mais estravagante é por certo a qualidade de marido de um soldado reformado, de um marujo na reserva, de um cavalleiro d’Africa.

E comtudo a casta attitude de Antonia, a sua candidez intemerata, o juizo recto, a doçura do seu animo, collocavam a esposa do moço official n’uma atmosphera ideal que não acarretava ridiculo sobre o noivo.


Partiram para o Reino logo depois do casamento.

A noiva recemcasada trazia entre as joias do enxoval uma dadiva pouco vulgar—a certidão, que o governador lhe dera, dos seus serviços pelas armas, e das acções de valor que commettera em successivas batalhas. Um attestado authentico de heroe d’Africa!

Parece que essa qualidade nada perjudicou a ternura do casal, visto que pouco depois lhe nascia um filho. Pelo menos de um, temos noticia.

Felippe III, isto é Filippe II de Portugal, quando veiu a Lisboa em 1619 quiz vel-a.

Tinha essa entrevista por motivo não sómente satisfazer a curiosidade do monarcha, mas talvez um intuito politico.

Era conhecido o prestigio da valorosa amazona a quem chamavam a cavalleira portugueza.

O soberano hespanhol no intento em que então estava de captar as boas disposições da Nação que, embora o estivesse recebendo com festejos espaventosos—cortejos, illuminações, danças e arcos triumphaes—era no entanto ainda ciosa de autonomia, aproveitava todos os meios de lisonjear, sem compromettimento, essa illusão. Affigurou-se-lhe que era um passo habil dar um testemunho da sua graça á heroina, que tão brilhantemente tinha honrado o brio portuguez.

Mandou chamal-a.

Accudiu Antonia Rodrigues ao convite. E pouco depois subia a grande escadaria do Paço da Ribeira, onde o Rei se achava, depois de ter vindo do convento dos Jeronymos.

Atravessou a sala dos Tudescos, entre os olhares curiosos da côrte, e foi introduzida na Camara onde Filippe III dava audiencias.

Devia ser um espectaculo curioso o encontro d’essa mulher forte, desempenada, de rosto aberto e olhar decidido, com o valetudinario e debil monarcha!

A pallidez de familia, tão pronunciada em Filippe, e as feições caracteristicas da casa d’Austria, tornadas celebres depois por Velasquez, nos rostos compridos e nos beiços proeminentes dos famosos quadros, contrastavam com a pelle de Antonia, tisnada pelo sol africano; com o seu rude dizer, ainda por polir; e com as maneiras de quem tinha a cavallo espetado alguns javalis e muitos moiros.

O Rei, ou por diplomacia, ou porque realmente a heroina lhe agradasse, conversou-a longamente. Acabou o colloquio (conforme diz o chronista) por lhe fazer mercê de duzentos cruzados para ajuda de custo, uma fanga de trigo em cada mez, e uma tença de dez mil réis em sua vida.

Mais ao deante tomou um filho para moço da sua camara, em attenção aos serviços d’ella.


Frey João de São Pedro, ou para melhor dizer Damião de Fróes Perym, (anagrama que servio de cryptonimo ao frade hieronimita) insere no seu Theatro Heroino um capitulo dedicado á intrepida cavalleira. Se não nos dá copiosas noticias, pois Frey João é pobre de erudição e de interesse, constitue comtudo um justo panegyrico celebrando o seu valor.

E D. Antonio da Costa no livro intitulado «A mulher em Portugal» tambem lhe dedica duas paginas, mais encomiasticas e laudatorias que noticiosas. Os dois escriptores contribuiram assim, cada um conforme a sua fazenda, com pedras valiosas para a base do monumento, que em tempo devia ter sido levantado, perpetuando a memoria da heroina.

Porque, encontrando-se n’ella tantas das qualidades da nossa raça aventurosa, sonhadora, resoluta; e tantas das virtudes da mulher portugueza, energica, valente, e leal, bem teria merecido a intrepida amazona (é esse o voto do licenceado Duarte Nunes do Leão) uma estatua equestre na melhor praça de Mazagão!