EXPLICAÇÃO PRÉVIA


Entrando a entoar, com uma pontinha de melancholia, a celebre balada—Dames du temps jadis, o poeta François Villon, em sua linguagem docemente archaica e ao de leve desbotada, interroga, n’um estribilho famoso:—Où sont les neiges d’antan?

La Royne Blanche comme un lys,
Qui chantait à voix de sireine,
Berthe au grand pied, Biettris, Allix,
Harembouges qui tint le Mayne,
Et Jehanne la bonne Lorraine
Que Angloys brulèrent à Rouen,
Où sont-ils, Vierge, souveraine?...
Mais où sont les neiges d’antan?

Já seculos antes d’este poeta aulico do quinhentismo francez, o Rei Trovador D. Diniz, n’uma das suas cantigas de escarnho, empregára em bom portuguez d’esse tempo o vocabulo antano.

E o nosso Jorge Ferreira de Vasconcellos, com menos graça, mas com vernacula auctoridade, legitima, na sua Aulegraphia dizendo:—hûa hora de um bom acerto como o de Antanho—a expressiva locução, que tão de geito me serve para designar, no livro que ides ler, as figuras ou as cousas, que se vão diluindo no passado, como neves derretidas pelo tempo.

A belleza fugidia das mulheres que seduziram, que dominaram, ou que a paixão venceu; os ciumes que consumiram corações, hoje mortos, de heroes feitos captivos; as illusões de sabios attrahidos pela eterna esphinge; os tragicos destinos de Reis, de Principes, e grandes do mundo dominados pela fatalidade, ou arrastados pelas vozes de sereias perfidas, tudo aquillo que, em tempos que já lá vão, teve na historia, na chronica, ou na lenda um momento de fulgorosa existencia, e que se vae apagando nos nevoeiros de Antanho, merece uma menção no rol das reminiscencias, onde o cuidado piedoso do artista tenta crystallisar as cousas vagas e tenues, que se vaporisavam na atmosphera...

Por isso fixar, por um instante que seja, nas paginas de um livro, ephemero como este, as feições dos rostos que sorriram, ou das almas que palpitaram, e que a acção dos annos vae corroendo, tem para mim uma especie de voluptuosidade, como a que acaricía o animo das creanças quando modelam estatuas feitas de neve que se derrete, ou edificam castellos construidos com areias que o vento espalha!

Neves e areias!—Embora movediças, inconsistentes, volateis e transitorias como as velhas luas que os mezes devoram, como as nuvens que se espreguiçam, como o fumo que se espalha no ar, e como as sombras que fogem pelo chão, são comtudo elementos para recompor os capitulos das memorias de Antanho.


Mas por que Antanho?

Se a alguem causar estranhesa este termo, ou o alcunhar de rebuscado, julgando que por affectação dou preferencia a vocabulos desusados, despresando a linguagem correntia e chan, breve corrigirá a accusação fazendo-me justiça.

Nunca manegei um diccionario em cata de palavras antiquadas para surprehender artificiosamente a estupefacção do leitor, nem recorri de fito feito á licção dos classicos, no proposito de apparelhar uma phrase com alfaias de molde a inculcar-me senhor dos arcanos da lingua.

Adoro a simplicidade no dizer e a naturalidade no discurso. Os melhores auctores são sempre, para mim em qualquer lingua, os que escrevem com mais clareza. Foi com esses que se formou a grammatica e se creou o gosto. Castilho,—Garrett, Herculano—mestres de todos nós, depois de rumiarem a herança dos avoengos litterarios atravez da confusa syntaxe medieva, ou da labyrinthica construcção quinhentista, ou dos pretenciosos gongorismos dos humanistas, ou dos prolixos arrazoados do seculo XVIII, deram com a sua prosa castiça, ao nosso lindo idioma, a crystalina transparencia, que tão bem se harmonisa com a sua aristocratica origem.

Se, porém, no decorrer da oração, pinga, do bico da minha penna um vocabulo de que se perdeu o uso, ou uma locução que, embora tocada da ferrugem do tempo, expressa significativamente a ideia, não me tolhe o receio de que me alcunhem de affectado, ou me accuzem de calamistrar propositamente os periodos. Deixo-o ficar.

Assim eu pudesse, com engenho e arte, trazer á minha prosa os termos, os vocabulos, as locuções, hoje perdidas, que tanta nobreza e lustre davam á linguagem portugueza.

Assim eu soubesse usar com discreto artificio das riquezas, que nos legaram os bons doutores da palavra escripta!

Quem lograsse hoje pôr ao serviço de ideias modernas a ferramenta com que trabalharam os Barros, os Coutos, Manuel Bernardes ou Francisco Manuel de Mello, quem conseguisse dar aos pomposos processos do classicismo novas articulações, e a flexibilidade que torna a phrase ductil e lhe dá graça, teria creado a forma mais elegante do verbo humano.

Já um sabio conspicuo preconisava, como a melhor receita para nos desfazermos do ranço dos extrangeirismos, que tanto tem contribuido para a nossa desnacionalisação, o uso diario de—caldos de Vieira.

Estomagos ha, bem sei, que não acceitam de bom grado tão substancioso alimento e se obstinam nutrindo-se com traducções atabalhoadas de romances francezes. Se porém cada traductor ou cada operario de lettras, todas as manhãs, antes de entrar na officina, se decidisse a confortar o esophago com uns goles de humanidades, em breve a multidão dos leitores se encontraria mais rica nas boas artes e com um glosario mais abundante.

Vem isto a pello para explicar a preferencia dada ao vocabulo Antanho no titulo com que embucei este livro.

É antiquado? Cahiu n’um meio esquecimento? Não está admittido no emprego diario, nem adoptado na giria das salas?

Mas que me diga quem quer que me leia se, para significar tudo aquillo que é anterior ao momento actual, ao anno em que vivemos (ante annum) não o julga mais proprio, mais perfilhavel e de mais agradavel euphonia que o corriqueiro Passado.

No termo Passado, é certo cabe tudo o que existiu no tempo, e os homens registaram nos seus papyros, canhenhos e tabuas enceradas, ou seja Tacito nas paginas dos Annaes, ou Suetonio nos Doze Cesares, ou Strabão na Geographia, ou os chronistas, narradores, memoristas e bisbilhoteiros de Côrte, desde o indiscreto Saint Simon ao mexiriqueiro Pepy nos Gossips da gente ingleza; e entre os nossos o Bispo do Grão Pará nas suas Memorias, ou a dôce Condessa de Atouguia nas confidencias auto-biographicas.

Mas em Antanho conchava-se melhor aquillo cujo desapparecimento nos deixa a penosa sensação de que não volta mais, de tudo o que se esvae na poeira da vida, de tudo o que a lenda envolve na nebulosa recordação, de tudo quanto o bafejo das edades embaciou, de tudo quanto a morte fez tombar.

Do Passado tracta a Historia, illuminada pela Philosophia.

Antanho é a evocação animada do que existiu, amorosamente acariciada pela phantasia.

O Passado é a realidade positiva testemunhada por documentos.

Antanho é a reconstrucção conjectural das eras anteriores.

O Passado é a biographia da humanidade.

Antanho é o poema da Vida e da Morte.

Plutarcho escreve acerca dos varões illustres do Passado.

Camões canta as glorias do Portugal de Antanho.

Na toada d’este vocabulo escuta-se como que um echo da voz longinqua das gerações extinctas. E sente-se n’elle não sei que perfume de saudade, tão portuguez, que é lastima pensar que portuguezes o vão esquecendo.


Ha na lingua ingleza duas palavras semelhaveis entre si que designam com propriedade feliz o duplo sentido que pode ter o termo—Historia.

History quando na apreciação dos factos o historiador os liga e explica com leis, que a sciencia ensina. Story quando o chronista ou o narrador conta casos ou evoca figuras, deixando o leitor avaliar a importancia do que á vista da sua alma apparece.

A primeira é como que orgão pomposo de cathedral tangido pelos pontifices da Sciencia.

A segunda é o maneirinho harmonium chromatico, que papagueia sem emphase tudo quanto o compositor organista fareja nos codices, ou desentranha da tradição, ou desencanta nas lendas avitas, repetidas á lareira.

Não imaginem, porém, que vão encontrar n’este livro Historias da Carochinha ou Contos de Fadas, taes como nol-as narravam as velhas creadas de nossas Avós:

«Era uma vez uma Princeza, que se agradou de um pastor...» Não!

As velhas cuvilheiras morreram ha muito, e não deixaram successores.

As Fadas fugiram espavoridas com a balburdia que por ahi vae.

Os pastores só cuidam em reclamar com arreganho augmento de salario e diminuição de horas no trabalho.

E as Princezas e Infantinhas (onde ainda as ha!) tremem receiosas, escutando o rouquejar dos sociologos e politicos que teimam em nivellar a humanidade... por baixo.

Este livro rasteirito e terra-a-terra não é pois tecido com fios de imaginação, nem na sua trama se bordam anecdotas improvisadas, ou conjecturas faltas de bôa fiança!

Homens e factos, paysagens e scenas, fallas e gestos, toda a acção que se desenrolla em tragedia, em drama, ou em simples farça, foram colhidos nas obras, que rezam com veracidade acerca das coisas dos bons tempos d’outróra.

Desde a era dos Affonsinhos quando o bravo Ibn Enrik, temido pelos mouros, mas muito donoso e bem camuz de entender damas, se comprazia em donear com galanteios, e desde as auróras de Aviz, quando o Mestre andava na empreza afanosa de consolidar a independencia, até ao surgir e desapparecer das figuras de hontem, ainda fixadas nas nossas retinas, Portugal é tão fertil em assumptos pittorescos que não ha mister recorrer a ficções, ou engendrar romances fabulados para embalarmos a imaginação com idyllios bucolicos, ou retemperarmos as almas com a memoria de acções heroicas praticadas pela gente lusa.

É assim que os medalhões que tenho trazido entre dedos, e cuja serie vou continuando para meu desfastio, reproduzem imagens reaes de creaturas que viveram.

E parecendo escolhidos ao sabor do accaso ou do capricho, são comtudo suspensos pelo mesmo nastro, como contas de uma gargantilha, que um unico fio de retroz atravessa.

Não obedece a factura d’esses paineis, como não obedeceu a dos anteriores, a tyrannia de escholas.

E por isso n’elles não se estabelecem theses, nem se proclamam theorias, nem se tentam resolver questões sociaes.

São simples productos de uma olaria indigena todos nascidos do mesmo sentir portuguez; d’aqui são terrantezes, e todos modelados com o barro da mesma barreira amassado com agua dos nossos rios, e cosidos com o calor do sol que nos aquece.

Tem talvez por isso um ar de familia que os irmana e em cada qual o leitor encontrará uma feição caracteristica da nossa raça tão rica de qualidades typicas.

Abrindo ao publico esta nova sala da minha galeria não quero comtudo obrigal-o a uma visita enfadonha de museu, com Baedecker em punho, forçando-o á contemplação de quadros consagrados pelas indicações banaes dos Guias dos viajantes.

Convido-o apenas, mais outra vez, a uma digressão livre, na companhia de cicerones caseiros cujas arengas são buscadas nos melhores alfarrabios.

Com o auxilio do bom Fernão Lopes, e das tradições locaes, conseguiremos obter um logar junto á estacada para assistirmos á lucta de duas valentonas da edade-média, perante D. Filippa de Lancastre e a sua côrte.

O palreiro conego Braz da Motta levar-nos-ha a Almeirim, ao Paço dos nossos Reis, onde tomaremos parte nos festejos com que se celebraram as bodas dos Duques de Aveiro.

Com Francisco de Andrade e D. Antonio Caetano de Sousa auscultaremos o coração serodio do Senhor D. Jorge, perdido de amores, aos 70 annos, pela tenrinha D. Maria Manoel.

E guiados pelas proprias confidencias escutaremos as pulsações do amoroso Francisco de Moraes, o Palmeirim, rendido aos pés da bella Torcy.

Com o nosso contemporaneo, o erudito Prestage, entraremos de passagem no carcere onde D. Francisco Manoel de Mello encastellava periodos sonoros, e amaldiçoava a sua paixão amorosa.

Depois, acompanhados por Duarte Nunes de Leão seguiremos attentos as peripecias que provocaram a vingança da filha de Pedro Nunes, o cosmographo, e as aventuras da heroica amazona aveirense, Antonia Rodrigues, hoje homem, ámanhã mulher, que deixou brado em Mazagão.

Não hesitaremos tambem em penetrar indiscretamente, levados pelo maldizente Costa e Silva ou pelo sisudo Barbosa Machado, nas cellas do convento da Rosa, ou nas do convento da Esperança onde emmurcheceram Violante do Céo, Magdalena da Gloria, Maria do Céo e outras freirinhas, preciosas flôres do seiscentismo, exhalando sonetos, soliloquios, e villancetes, de amortecido perfume.

Se algum dos meus leitores se enfadar, em meio da jornada, tem um recurso facil.

Fecha o livro e recolhe-se nas proprias cogitações, certamente mais interessantes que os meus arrazoados.

E eu não lhe quererei mal, porque isso não me tolherá que vá continuando a regar com agua de Neves de Antanho as plantas do horto portugalense.

St.º Amaro—Junho 1918.

IGNEZ NEGRA
A HEROINA DE MELGAÇO


SUMMARIO

Lua do mel—A primeira separação—Incursões na Galliza—Morte de Ruy Mendes de Vasconcellos—Regresso a Coimbra—Doença do Rei—Partida do Duque de Lancastre—Viuvez de Nun’Alvares—Projecto de ataque a Melgaço—A côrte da Rainha é convidada a assistir—As duas contendoras—Lucta de mulheres—Victoria de Ignez Negra.

Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as exigencias da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.

Em plenilunio de mel, a loura Filippa de Lancastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a politica do pae lhe outorgára, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.

É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas todas eram portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitarios, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o animo saudoso.

Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:

—«Senhor! N’este Reino sohia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fóra do reino?»

D. João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.

Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»

E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.

Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da gloria alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.

Iam os dois condestaveis—Nun’Alvares, o de Portugal—e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra), condestavel do duque de Lancastre.

Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.

Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido e desenvolto no commetter; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D. Tristão», e outros mais. Era na propria consciencia do bando heroico, uma côrte d’esse novo—Rei Arthur, Flor de Lys—D. João I de Portugal.

Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e energica actividade d’este Rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e lhano, audaz e cauteloso, prompto, e cruel até, em reprimir, mas generoso no premiar, inexoravel com os delinquentes mas affavel, familiar e bom camarada com os companheiros de armas.

Verdadeiro chefe, sabia mandar.

Perfeito Rei, na missão paternal, era o protector do seu povo.

E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegancia, o loudel de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns, gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a precedencia na vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre...

Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos, havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com brilho e lustre para a gente portugueza.

Desafiavam ás vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado do Condestavel, Alvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes e o francez Ruby pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto fóra da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar nas aguas turvas da cava. Essa imprudencia valeu-lhe uma reprehensão do Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:

—«A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»

E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um virotão, que o feriu.

A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que, para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na chronica:

«E como veiu á tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:

—«Por certo eu sou ferido d’herva.»

E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:

—«Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.»

—«Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»

Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saude, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:

—«E como não bebereis vós do que eu bebo?»

Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.

El-Rei vinha-o vêr cada dia duas e tres vezes, e ao terceiro dia estando com elle fallando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:

—«Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte...»

«El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lagrimas... e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza...»

Poderá a nota naturalista da anecdota, no que se refere á pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjôo a alguma leitora menos affeita á pratica das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.

Mas ninguem se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.

Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os toxicos violentos do strophantus ou da digitallis, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.

Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triumphos, com as lagrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ancioso, commovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infallivel.

Elle ás vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.

Era esse punhado de heroes, cujos animos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levam á victoria, mas as delicadas dedicações e devotadas amizades promptas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:

—«Oh! que bom Portugal!

—«Oh! que bons Portuguezes!»


Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El-Rei vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra, onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio caminho das duas cidades, sentiu-se acommettido de doença.

Dôr de quentura, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso.

«Que a doença parecia grave—acrescentavam;—que já tinham cahido enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma molestia, causada talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente avisar a Rainha.»

Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde, de visita a sua filha, se achava tambem o Duque de Lancastre. O mensageiro subiu á Alcaçova, penetrou nas abobadas que levavam á sala dos archeiros, e, offegante, descarregou-se do penoso recado.

Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que chegou aos aposentos de D. Filippa, surprehendendo-a dolorosamente.

Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria, fleugmatica, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de dever, forja geradora de altos Infantes, e rigida disciplinadora de côrte, a loura ingleza, que tão grande missão veiu cumprir no mundo, era amoravel, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia «tão concordavel ao seu desejo.»

Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a sua indole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem, além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferencia que lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e com direitos, por sua mãe, a um throno—o throno de Castella.

Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I, entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para Portugal, optara pela solução mais convinhavel á sua politica.

Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são indifferentes a uma preferencia. Além d’isso, o coração não carece de razões para se decidir.

Gosta-se, porque se gosta!

E porque a loura Rainha recem-casada adorava o marido, apenas o soube doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e supplicas para que desistisse de commetter tamanha imprudencia.

O verão corria abrazador e doentio (diziam-lhe) os caminhos eram asperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos corregos pedregosos dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia, sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens sisudos, tudo foi inutil para a demover.

Organisou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros inglezes, prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas accommodaram as andas que haviam de transportar a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando todos em silencio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenomeno frequente nas almas alvoroçadas com a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephemera felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos, justas, danças e trebelhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal do Porto, através das ruas atapetadas de «verduras e cheiros». Olhava, com os olhos d’alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um archanjo, montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao d’ella, que era levado de redea pelo Arcebispo. Escutava o echo das trombetas, das pipias e das musicas, que se casavam com as acclamações da multidão em delirio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas mui guarnidas em volta das quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas e donzellas do Paço e da cidade. E repassava, commovida na memoria a scena dos prelados á luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que o via partir são, forte, todo entregue á ancia de batalhar...

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas; era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe afogava a garganta; era o prognostico de um sortilegio sinistro que lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de Portugal.

O Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e tantos annos, ia tambem apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação que lhe trazia ao animo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provavel do genro alteraria a situação, e perjudicaria o exito das suas ambições?

Aos espiritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha affluiam semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei,) dominava a angustia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro sentimento.

Outros pesavam dentro em si, n’aquella balança de egoismo, inseparavel da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto traria ás conveniencias proprias. E o interesse, a principal força determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viavel, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não désse á luz um herdeiro a quem iria de vez o governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretenções!...

O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a oppressão de agourentos presagios.

Chegaram ao Paço do Curval. Alli, o estado do Rei não era de molde a tranquillizar, ou desfazer cuidados.

Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre «tão fraco e sem esforço que adur lhe podem fallar, ficaram nojosos e tristes».

Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a quentura deixára o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha, atormentada, e exhausta com a violencia da jornada e das commoções, sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro em si... e moveu uma creança.

Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres esperanças, desmoronava-se o edificio da sua felicidade sonhada, e... (cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.

Via-se sósinha, casada de pouco em terra extranha, fallecer-lhe logo assim tudo o que a fortuna lhe trouxera «e bem se tinha por mal aventurada entre as mulheres do mundo». Chorava, pedindo á morte que a levasse primeiro.

Na Camara proxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente suffocados, não chegavam, o Rei, conscio do seu estado, tomava providencias.

Mandava chamar o Condestavel, agora ausente no Alemtejo. Fazia testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que mandára, tempos antes, encarcerar.

Era solemne o momento. A Rainha, receiosa de que a morte lhe roubasse o marido, como lhe roubára o filho, levantou-se e, embora gravemente combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.

Não sabia reter as lagrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta. Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ancia com que nas occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.

Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante não permittiam illusão!...

Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto á cama do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e da Virgem Maria.

Assim se conservou largo tempo...

Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo, sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da multidão, impressionada com os presumiveis sinistros casavam-se com as preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.

Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio...

A autonomia de Portugal dependia de um alento d’aquelle homem, estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa continuava rezando...

Passaram horas...

Como se a mysteriosa acção das préces, e o esforço superhumano d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais efficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar do robusto arcabouço foi-se tranquillisando, os olhos começaram a descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida...

Estava salvo D. João I!


Foi do Curval convalescer a Coimbra, onde a Rainha tambem se libertou do pezadelo que lhe opprimira o animo. Recomeçou para os dois o idyllio interrompido.

De breve dura, porém, havia de ser o repouso, que nem D. João I era homem que se deixasse ficar em lazer descuidado, quando tantos negocios lhe sollicitavam a attenção.

Cumpria despachar o sogro que começava a ser um estorvo sério, e cuja empreza ia perdendo probabilidades de exito. Cumpria reunir Côrtes para a resolução de alguns negocios de Estado. Cumpria caminhar sobre Melgaço, unica praça que no Minho ainda conservava voz por Castella.

Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua reduzida hoste, que, em seis galés, n’uma clara manhã de fins de Setembro largou de foz em fóra, para Bayonna, então ingleza.

Desembaraçado assim do hospede, e aviados outros assumptos, que se antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Côrtes.

Foi durante ellas que D. Nuno Alvares Pereira, o Condestavel, teve noticia da morte de sua mulher. Correu ao Porto onde ella fallecera, fez-lhe exequias solemnes, mandou a filhinha para Lisboa á guarda da Avó—Iria Gonçalves—e, arrumadas assim as cousas domesticas, voltou para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do seu espirito.

Negocio de Estado era tambem por certo e de alta importancia para D. João I, essa viuvez de Nun’Alvares.

Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiencia prévia dos interessados, El-Rei resolveu logo, de accôrdo com a Rainha, casar o seu Condestavel com D. Beatriz de Castro, filha do Conde D. Alvaro Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d’algo». Proxima parenta da linda Ignez, collo de garça possuia porventura o mesmo poder de encanto que seduzira o Rei D. Pedro. Este viuvo, porém, era pouco susceptivel de se deixar captivar com graças femininas.

Avesso por indole ao tracto conjugal, não lhe soffria tambem o animo independente aquella imposição de um consorcio, assim improvisado.

Resistiu bisonhamente,—ao Rei com uma simples negativa; á Rainha, pela qual professava um respeitoso affecto, respondeu esquivamente:—«Para offerecer a D. Brites os braços, era preciso que estivessem desarmados e não convém ainda lançar a espada.»

Excusa de guerreiro! Sentir de monge!

Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleiado, levantou vôo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada.

D. João I conhecia o seu irmão d’armas. Era inutil insistir, podendo até qualquer teima provocar alguma d’aquellas desavenças, que entre os dois ás vezes surgiam.

D. Beatriz, se acaso edificára n’aquelle terreno o castello da sua felicidade, viu-o desfeito em nevoa, antes mesmo de o habitar. E continuou, (até que ao deante levou outro destino) a ser ornamento na Côrte de D. Filippa, acompanhando-a como as outras na jornada que logo El-Rei emprehendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que mais applaudiram a aventura da aguerrida Ignez Negra, que logo vamos presencear.

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mór D. Beatriz Gonçalves de Moura viuva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta, Tareja Vasques Coutinho, viuva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Telles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Biringueira Nunes Pereira, prima do Condestavel e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das náos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episodio d’aquella épocha.

D. João I preparava-o adrede para mostrar á Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua côrte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independencia do Reino.

Era uma genuina galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flôr da Côrte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da dextreza, e do valor com que se pelejava.

Era tambem uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estimulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma ala de namorados de nova especie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras—o Doutor, João Affonso de Santarem, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Institutas, que no brandir das espadas e dos arremeções.


Corria o mez de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fétos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graniticos; com o velludo esmeraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das filias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regencia de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflete nas lantejoulas de feldspatho e de mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o geito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabujenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o sequito proseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavallos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali á aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas reliquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e conductores de equipagens, alvoraçavam a gente do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rusticos tugurios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surdiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farneis; emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva colleando pelos caminhos do valle deixava á esquerda os montes levemente ondulados de Galliza a padrasto do rio Minho, e começando a subir a encosta, que vae ao Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Bouças.

A Rainha com a sua côrte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade á frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia á portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afóra a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçára a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de Dona Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre affonsina guarnecida de dentes que mordem o céo, era defendida por Alvaro Paes de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além da gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacificos, cujas familias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.[1]

Entre as familias que n’esse fim do seculo XIV se acoitavam n’aquelles habitaculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da Arrenegada.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em furia e ancia de arremetter ella propria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu tambem inquieta e fervilhante ás primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fôra ferido Pero Lourenço de Tavora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado portuguez foi correspondido, não havendo grande damno de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projecteis que destruiram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

Ao mesmo tempo mandou que nas immediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construirem duas escadas e uma bastida, formidavel machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus tres sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, tres mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia tambem trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno Tank; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Belgica está actualmente exercendo a sua terrivel acção devastadora.

Ésta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi efficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados á fabricação do apparatoso engenho, apressaram-se a pedir treguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Alvaro Paes. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco á barbacã, e de dentro, encostado ao muro, fallou-lhe o commissario castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciarios. E emquanto elles fallavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao animo de uns, (os mais pacificos) esperanças de uma concordancia; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimivel era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região, a quem chamavam Ignez Negra.

Negra por appellido de familia? Talvez!

David Negro se chamava o rabbi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires—o Negro—era o escudeiro de Nun’Alvares na vespera de Valverde.

Familias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo á primeira, no seculo XVIII, o poeta da Arcadia—Almeno Sincero.

Ou, seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira, como a da Sulamite do Cantico dos canticos, (nigra sum sed formosa) contrastasse com a das suas conterraneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?

A iconographia portugueza é assás pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação ácerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artificio de imaginação, com encrespado cabello da côr do seu appellido; olhos igneos como o seu nome de Ignez; a pelle acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o labio superior. Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas não destituido de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição ella habitou depois da sua proeza,—a Venda da Angelina—(hoje um predio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até á porta de D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompôr uma effigie da Ignez Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocámos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada acceitou prazenteiramente o repto.


Entretanto El-Rei enviára á Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluidos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer rodar a bastida e encostal-a ás muralhas.

É possivel que o mensageiro annunciasse tambem no Mosteiro de Fiães, onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella solidão.

E logo entre o mulherio quantos commentarios sobre o projectado duello! Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa de commoções.

Por isso quando n’aquella manhã do principio de Março a Rainha, com a sua Côrte, se apromptou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate.

A primavera annunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã befejava a pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da ingreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das bôas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as facas em que iam montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a imminencia de um tropeção, ouviam-se exclamações afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além á esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a patria de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha, as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas... que appetecia dal-as como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma corôa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor d’ella, mettida nas faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectaculo attrahente, quando se rendesse á força, como femea dominada pelo seu legitimo senhor.

Por de fóra d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial portuguez, sobresahindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, prompta a atacar.

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descente. O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous de fundo todos os do acampamento, sendo difficil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia legua, desembocava abruptamente em pleno acampamento. N’este, o Rei que logo veiu receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.

Na Côrte dos Valois, perto de trez seculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho no celebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duqueza d’Etampes, jarretou o pomposo Châtaigneraie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades da França.

Aqui, porém, n’esse final do seculo XIV, e n’este canto da Peninsula, as escaramuças, perante uma côrte mais guerreira, que polida, mais austera que licenciosa, se não tinham o esplendor das ceremonias theatraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.

Pelo contrario. Na Côrte de Henrique II digladeavam-se dois adversarios para liquidarem uma intriga de alcôva.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exercitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a Arrenegada sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Ignez Negra, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectaculo d’esta pugna de nova especie, a que deram fóros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam circulo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa Ignez Negra a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas tambem têm sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicaveis, tantas anomalias flagrantes—homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadores valentes, herdadas talvez de seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Peninsula as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com furia, com sanha, com rancor atiraram-se uma á outra sem mais armas do que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensaguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dois monstruosos animaes ennovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construidas.

O drama começava a abalar o animo ainda dos menos susceptiveis de soffrer commoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos musculos que Ignez Negra, ou porque o espirito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a supplantára, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com acclamações, ao som de trombetas e charamellas festivas.


Alguns escriptores, seduzidos pela idéa de attribuir a este episodio o resultado da empreza, outros, copiando aquelles, (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações) affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duello animou e excitou a coragem dos Portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, trez de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois á escalada dos que «se chegavam tanto á Villa que punham um pé no muro outro na escala», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos páos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com imprecações e insultos («desmesuradas palavras») que assanhavam o animo de D. João I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a propria inferioridade, pediam novamente treguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assedio á viva força.

Então João Rodrigues de Sá, o das Galés—voz sensata—alvitrou que era de bôa politica acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:

«Quem medo houver não vá na escala.»

Subiu uma onda de sangue ás faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés na Ribeira de Lisboa. E resentido respondeu:

—«Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de colera eram logo dominados pela força calmante da razão, emendou:

—«Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoavel do ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas acceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa...

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:—«Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e bôa».

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e trez dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbolica das energias femininas, proclamando assim a victoria que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendaria proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas pela independencia, o feito mais authentico e mais significativo de Ignez Negra a heroina de Melgaço.