UM BEIJA-MÃO DE ANNO BOM NO PAÇO D’AJUDA
SUMMARIO
A Côrte—Romaria de grande gala—Alguns personagens—No anno de 1891—O Rei doente—Tentativas de organisação de um ministerio—Martens Ferrão—A anecdota das perdizes—João Chrysostomo—O seu ministerio—Baptista de Andrade—Laudator temporis acti.
É de hontem, mas parece já um capitulo arrancado de alguma chronica esquecida, a evocação de figuras e scenas, que a repetição do dia de Anno Bom faz passar nitidamente na nossa retina espiritual.
Figuras, algumas d’ellas que na voragem se sumiram, outras a quem o Tempo irreverente vae empoando as cabeças.
Scenas, que se diluem nos nevoeiros de um passado recente, mas cuja recordação vae tendo aquelle atrahente poder e mysterioso encanto, que fez exclamar ao mais attico dos prosadores francezes:
«C’est une puissante douceur que de sentir revivre en soi les vieux âges.»
Abrindo no dia d’hoje[3] um parenthesis ás preoccupações com que os telegrammas da grande guerra trazem alvoroçados os espíritos e confrangidos os corações, e fazendo votos para que o anno que entra traga a Portugal a parte da victoria a que tem direito, seja-nos licito repassar na memoria uma das solemnidades com que a liturgia tradicional celebrava o inicio de um novo anno.
Não era apenas uma exhibição ostentosa de pompas, uma feira de vaidades, ou um estendal pueril de mantos, de joias, de fardas e de condecorações.
Não era, como muitos praguentos affirmavam, o curvar servil de algumas centenas de dorsos perante a hieratica rigidez dos idolos reaes; nem a mesquinha caricatura da cortezania, com que a musa offenbachiana se celebrisou, nas notas gaiatas e ditos picarescos do Barba Azul, de galhofeira memoria.
Não tinha tambem o humilhante aspecto de subserviencia que algumas almas artificialmente e postiçamente orgulhosas attribuiam á cerimonia de um Beija-mão, alardeando, com supposta altivez, argumentos sediços e logares communs sobre a dignidade humana.
No fundo da consciencia d’estes philosophos (d’aquelles que a tinham) uma voz lhes segredaria ser muito menor aviltamento beijar a mão de uma Rainha (pois que o uso já de ha muito revogára a pratica de a beijar ao Rei) do que incensar com lisongerias qualquer tyranete de capelista.
A recepção do Anno Bom significava mais e melhor que uma simples parada de grandezas, e um monotomo desfilar de funccionalismo anonymo.
Era uma solemnidade symbolica, ordenada pelo rito tradiccional das Aulas Regias, para significar a intima reunião do Rei—Pae e Pastor d’um povo—com os representantes de todas as forças da Nação, n’uma reciproca aspiração ao bem commum.
A Côrte, no significado de assembléa que rodeia um soberano na sua missão augusta de governar, e formada com o que antigamente compunha os Trez Estados, juntava-se n’esse dia, em que o kalendario volta uma pagina no revolvêr do Tempo, para se congratular com o magistrado supremo, e com elle trocar votos tendentes á estreia de um anno feliz.
Na vespera realisára-se na Sé o Te-Deum em acção de graças pelo acabamento do anno anterior.
No dia seguinte abrir-se-hia o Parlamento, a que a Constituição attribuia a tarefa de fazer leis.
N’esta data, as Camaras legislativas e municipaes, os Prelados, os Grandes do Reino, os representantes do Exercito e das Corporações administrativas e scientificas, concorriam ao Paço para solemnisarem em grande gala o Anno Bom.
Desde manhã, pela extensa ladeira que de Alcantara leva ao Palacio de Nossa Senhora de Ajuda, uma fila de carruagens ia conduzindo, em fardas rutilantes, em uniformes garridos, em vestes prelalicias de setim, e em roçagantes sedas brancas com manto azul, o corpo diplomatico, os Ministros, os Conselheiros de Estado, os magistrados, a officialidade de terra e mar, e as senhoras emplumadas com os vistosos cocares do seu caracteristico vestuario de Damas.
Transportes varios, uns modestos puxados por famelicos rocinantes, outros levados a trote largo pelos impacientes pur sang, iam entrando sob as abobadas do atrio, ao som do «Hymno da Carta», que a banda da guarda de honra entoava.
De quando em vez um coche apparecia, balouçando-se nas correias das suas molas.
Era agora o do Duque estribeiro-mór que quatro machos de Alter tiravam.
Era depois o do Marquez de Vallada, com a creadagem vestindo librés verdes, que elle adoptára da casa de sua mulher, uma senhora Lafões. Era ainda o dos Duques de Palmella, conduzindo a Camareira-mór e o Commandante das guardas reaes, ella com o seu busto patricio emergindo de entre rendas, elle envergando a farda vermelha do seu cargo.
Pela grande escadaria ia subindo numerosa concorrencia ataviada de galas, emquanto que no portal do pateo, junto aos aposentos da Rainha Mãe, se apeiavam aquelles que pelos seus officios deviam esperar os soberanos, que vinham do Paço de Belem, aquella graciosa vivenda construida por D. João V.
Lá em cima, nos salões, o Conde-mestre-sala dispunha os recemchegados.
Na galeria de D. João IV ficavam as camaras, os officiaes de todas as armas e os magistrados. Na Sala do Throno o corpo diplomatico, enfileirando ao fundo, os chefes de missão com os seus secretarios, e, do lado direito as ministras com as mulheres dos secretarios de legação.
Pelas salas que deitam sobre o Tejo espalhavam-se os altos Corpos do Estado e todas as Dignidades do Paço.
Na volta das duas horas o cortejo entrava na Sala do Throno, vindo á frente o Conde de Ficalho, que então servia de Mordomo-mór, empunhando a Negrinha, o famoso bastão de marfim encimado por uma cabeça de preta, esculpida em ébano, que symbolisava o poder dos Reis de Portugal nas conquistas de Além Mar.
Á sua direita o Duque de Loulé, Estribeiro-Mór; e á esquerda o Duque de Palmella, capitão dos Archeiros.
El-Rei D. Carlos, corpulento, mas, n’esse anno a que nos vimos referindo, emmagrecido ainda pela doença recente, nobre no andar compassado, e com aquelle olhar azul investigador, que n’um relance abrangia toda a sala, era ladeado pelas duas Rainhas.
Á direita, a Rainha D. Amelia, altissima, radiante na sua belleza meridional, coroada por um diadema rútilo, dominava ainda mais pela irradiação impressiva da sua personalidade, que pela estatura elevada. Da esquerda, a Rainha D. Maria Pia, fulva, elegante, tendo na expressão um sorriso doloroso de enygmatica significação. Pela primeira vez, desde que enviuvara, assistia a uma recepção. O velludo negro que a vestia accentuava os traços d’aquella figura tragica, em que se confundiam um poder de seducção, que attrahia, e não sei que influxo de fatalidade, que fascinava.
Segurava o manto da primeira a Duqueza Camareira-mór, em cujo perfil se liam bem desenhadas as linhas espirituosas do seu avô Palmella.
E, tomando a cauda da segunda, a Marqueza de Unhão, em plena mocidade e formosura, sempre alvo da curiosidade dos estrangeiros, que a sabiam descendente directa de Vasco da Gama.
Seguiam-se a estas todas as damas, em cujos mantos azues figuravam, bordados a prata, os brazões heraldicos da familia de cada uma. Depois os Ministros, os Officiaes-móres e a Casa militar, que iam tomar os respectivos logares.
El-Rei dirigia-se ao Corpo diplomatico, a cujo chefe—o Nuncio—(que n’este anno era Monsenhor Vanutelli, depois cardeal, e por vezes indicado para Papa) fallava primeiramente, seguindo depois a escala pela ordem de antiguidades. A cada um, em algumas palavras, se referia ou ao respectivo soberano, ou a negocio pendente, aproveitando assim a occasião para facilitar a tarefa do seu ministro dos Estrangeiros.
Acabado o cercle, e subindo os soberanos ao throno, começava o desfilar, encetando-o a Decana do Corpo diplomatico, que depois das trez mesuras, mais ou menos airosamente succedidas, se retirava.
Essas trez mesuras em frente do Throno, no meio da vasta sala, sob todos os olhares assestados n’uma attenção curiosa, eram o triumpho ou o tormento das senhoras que as executavam; algumas com graça e elegancia, outras, mais timidas ou menos dotadas, com acanhamento, de geito desastrado.
Depois, pelo espaço de duas horas ou mais, era a passagem da numerosa concorrencia colleando como uma enorme serpe pelo vasto recinto.
E durante o decurso do cortejo as conversações, a principio segredadas, quebravam um quasi nada o rigor da etiqueta, e generalisavam-se depois n’um besoirar de vozes sumidas, trocando impressões, conforme o canto da sala.
Entre as senhoras—«toilettes», theatros, o ultimo romance. Entre politicos—os casos que agitavam a opinião publica.
N’esse anno de 1891, (occorreu-me esta data, entre outras ephemerides, por marcar verdadeiramente o principio do reinado, que se iniciára quatorze mezes antes, e decorrera em sobresaltos) o ministerio João Chrysostomo, no poder desde outubro, apparecia pela primeira vez n’uma recepção em Ajuda.
O Rei, no rigor do verão, cahira perigosamente enfermo. O poder estivera jacente durante largas semanas. Na sua convalescença, D. Carlos, perante a crise politica que se aggravára com o fracasso do tratado de 20 de Agosto, e vendo-se impossibilitado de recorrer a qualquer dos dois partidos, pois os ultimos insuccessos tinham affastado ambos do governo, chamára de Roma Martens Ferrão, que alli era Embaixador.
Era um antigo marechal da velha guarda. Militára com Fontes, com Andrade Corvo, com Casal Ribeiro. Como tal, poderia talvez formar um gabinete. E se não, como Conselheiro d’Estado e como seu antigo Aio, o Rei esperava d’elle um conselho.
O diplomata não se fez esperar.
N’uma tarde dos começos do outomno os dois conversaram largamente, n’aquella varanda do Paço de Belem, em cujas paredes de azulejo um Hercules executa os seus lendarios trabalhos.
O antigo politico, agora reformado e alheio ao commercio dos homens, que tornariam viavel uma situação, hesitára em tomar um encargo que reputava esteril. Declarava-se contraindicado para tal empreza.
Á sua experiencia de velho affigurava-se como melhor alvitre espaçar, protelar, não precipitar os acontecimentos.
Então, perante a insistencia do que fôra seu discipulo, referiu que o Rei Victor Manoel, quando o taboleiro do xadrez politico se baralhava, recorria sempre a um expediente efficaz. Retirava-se para as montanhas do seu Piemonte, e alli, durante uns dias, caçava perdizes. No regresso, as peças do xadrez tinham-se composto por si proprias.
O Rei ouviu silencioso a anedocta das perdizes (que n’esse tempo correu mundo) e embora fosse caçador apaixonado, não seguiu o exemplo do Avô italiano.
Continuou porfiando na sua faina até que, aproveitando o prestigio do general Abreu e Sousa, respeitado entre os partidos politicos pela sua honradez e patriotismo, conseguiu formar um gabinete em que entravam elementos de procedencias varias.
Miudinho de figura, com a sua barbicha inquieta e o olhar sagaz, adoçado por uma benevolencia communicativa, o honrado e energico militar inspirava confiança para a empreza difficil de abrandar as paixões excitadas pelas recentes convulsões de caracter internacional.
Vinha n’esse dia á frente do seu Ministerio saudar o chefe do Estado.
Confiára o encargo de resolver o conflicto recente a Barbosa du Bocage que, violentamente arrancado do gabinete de naturalista, puzera todo o seu patriotismo e clara intelligencia no encetar as laboriosas e delicadas negociações para normalisar as nossas relações com a Inglaterra.
A seu lado destacava-se a figura attrahente de Thomaz Ribeiro, Ministro das Obras Publicas, aureolado pela gloria nas lettras patrias, pelos triumphos na oratoria, e pelo exito nas missões que desempenhára na India e no Brazil. Conversando com elle amigavelmente, o titular da Marinha e Colonias, Antonio Ennes, magro, erecto, sublinhando as palavras sóbrias com um sorriso de espirituosa ironia. Os dois entendiam-se pela intelligencia e pelo coração. N’esse momento, deixadas as preoccupações das suas pastas, reciprocavam a sincera admiração, que a ambos inspirava a figura moral da Rainha D. Amelia.
Antonio Emilio de Sá Brandão, que entrára para a Justiça, representáva n’esse ministerio a antiga nobreza de toga, á qual se orgulhava de pertencer, tendo ascendido a Presidente do Supremo Tribunal.
E, como Ministro do Reino, Antonio Candido, o Principe da palavra, e a mais fulgurante gloria da tribuna portugueza, cuja personalidade se impunha pela força do talento, pela rigidez do caracter, e pela arte com que manejava os homens e conduzia os acontecimentos; correcto na sua casaca com a banda de S. Thiago, consagrando o valor do sabio e do artista do verbo, avançou até aos degraus do throno para apresentar ao Monarcha os discursos com que havia de responder ás saudações das Camaras.
Pequenos grupos, formados segundo as affinidades politicas ou sociaes, trocavam impressões sobre os successos recentes. José Luciano approximára-se de Antonio de Serpa, significando com esse gesto que a imprensa dos dois partidos, a do progressista com o Correio da Noite, a do regenerador com a Gazeta de Portugal, se harmonisava para dar força ao Ministerio na sua acção patriotica.
E no canto da janella grande, que abre sobre a Outra Banda, o conde de Valbom, arguto, destro no argumentar, e insistente, expunha qualquer plano a Lopo Vaz, ministro da vespera e ministravel para o dia seguinte, que o ouvia com aquella ironia bonancheirona a que alguns chamavam machiavelismo, e outros habilidade politica.
Hintze Ribeiro, que então ainda não empunhava o bastão de chefe, mas que ia creando atmosphera, attrahia, com o iman da sua subtil dialectica, elementos para futuras situações.
Entre os zun-zuns mundanos e os quolibet politicos, surgiam commentarios a algumas raras abstenções na concorrencia.
—Porque faltaria Fulano?
—Influenza?
—Hum!
—Talvez grippe politica!
—E Sicrano?
—Um leve amúo, que brevemente se desfará!...
No entanto, o desfilar continuava...
A figura aprumada do Cardeal Patriarcha D. José Netto, impassivel como se fosse destacada d’um painel bysantino, apoiava, conforme a pragmatica instituida por D. João V, o pé direito no primeiro degrau do Throno para significar a sua cathegoria de Principe da Egreja, sem comtudo deixar de ser dignatario da Casa Real.
E tambem sereno, e pouco communicativo, o chefe da Casa Militar, Baptista d’Andrade, o glorioso Almirante das guerras d’Africa, fazia recordar, pela sua ingenua e simples heroicidade, o Santo Condestavel, de quem por vezes em algumas solemnidades segurou o estoque.
Entre os grupos alguem recordava o inconsciente valor com que, n’um ataque ao gentio, elle perseguira os rebeldes valentemente entre tiros e zagaias. E porque, tropeçando, a farda se lhe empoeirasse e elle com naturalidade a saccudisse, sob a metralha, correu desde logo no sertão a lenda que o dava como invulneravel, affastando com desdem as balas.
Se alguem lhe fallava, respondia em monosyllabos, sem casmurrice, mas sem a affabilidade do pescador de influencias.
A sua personalidade inspirava tão grande confiança, que a muitos occorria dever ser aproveitado o seu prestigio em serenar a agitação que pela capital do norte lavrava.
Não foi necessaria essa intervenção.
Effectivamente, d’ahi a trinta dias rebentava um movimento no Porto, que promptamente foi acabado.
Devera-se isso á lealdade dos que a elle se oppuzeram. Assim como se deveu á energia e sensata acção do governo e á envergadura dos homens que o compunham, ter renascido a tranquillidade publica que o paiz disfructou durante um largo periodo.
Relembrando factos, currente calamo e sem outro auxilio que a memoria, é possivel que o quadro fique defeituoso e careça de melhores pincelladas para um feliz colorido.
Servirá elle, comtudo, para trazer ao espirito do leitor pretexto ou motivo para lançar um olhar retrospectivo á sociedade portugueza dos fins do seculo passado, e para me acompanhar a mim, incorregivel laudator temporis acti, na commemoração de uma solemnidade cuja recordação já se vae escondendo entre os flocos brancos das neves de antanho.