UM ROMANCE NA CÔRTE DE D. JOÃO III
SUMMARIO
Prisão do Barão da Alvito—O heroe da aventura romantica—A filha de Brites de Lara—O romance—Entrevista nocturna—Evasão por uma janella—Quem era a verdadeira heroina?—D. Juliana defende-se—Condemnação de D. João Lobo—O Duque de Aveiro—O casamento—Epilogo.
Estava a Côrte em Santarem, nos fins do anno de 1546, quando occorreu um acontecimento extranho, que excitou vivamente as curiosidades mundanaes.
Fôra preso o Barão d’Alvito, D. Rodrigo, e mandado para o Castello de Soure.
Por que usaria El-Rei de tanto rigor para com o seu Védor da Fazenda?
Fallava-se n’um caso de amores. Mas o Barão tinha 52 annos, e o seu officio imprimira-lhe um caracter de seriedade, incompativel com aventuras galantes.
Então os mais bem informados mexeriqueiros das rodas paçãs esclareciam: Que não era elle o heroe do novellesco successo, mas sim seu filho, D. João Lobo, o qual aspirando á mão de D. Juliana, a filha da Marqueza de Villa Real, puzera em pratica um expediente, que esperava ser decisivo para o bom exito da sua empreza...
Mas acode aqui de certo, borbulhando na curiosidade do leitor, o desejo de saber quem sejam tão eminentes personagens.
Para lhe evitar o enfado de percorrer calhamaços de linhagistas, chronicas, ou codices de nobiliarchia, apresentar-lh’os-hei de seguida, conforme as boas fontes m’os indicam.
Vejamos primeiro quem seja o encarcerado.
Estes Lobos, de Alvito, enchem a Historia, desde os fins do seculo XV, sendo mencionados ora no desempenho de altos cargos, como os de embaixadores e Escrivães de Puridade; ora nas emprezas guerreiras, batalhando em Castella ou em Africa; ora nos saraus do Paço, compondo rifões, apodos, e cantigas do mal dizer; ora envolvidos em aventuras amorosas; ora luzindo em justas e torneios; ora elles proprios apodados e chasqueados por outros poetas palacianos.
Este D. Rodrigo era filho de D. Diogo, 2.º Barão d’Alvito, que estivera na batalha de Toro, que fôra estimado de D. João II, e que tivera habilidade de escapar á perseguição de que foi victima seu irmão, Fernão da Silveira. Entrou como aventureiro nas justas de Evora, trazendo um leão rompente com esta divisa:
«Con sus forças y my fee
todos mys males dobré.»
Effectivamente, soube navegar nas revoltas aguas da Côrte do Rei terrivel, e nas mais amenas, mas tambem perigosas da de El-Rei D. Manoel. Poeta e namorado, fez versos a varias senhoras, entre as quaes D. Filippa de Abreu.
Na farça do Velho da Horta, representada por Gil Vicente em 1512, vem elle assim citado na ladainha:
«Oh Santo Barão d’Alvito
Seraphim do deus Cupido
Consolai o velho afflicto.»
A qualidade da pessoa, a importancia dos que se lhe dirigiam, e o cuidado com que Garcia de Resende compilou as producções dos versejadores palacianos, fez com que elle ficasse perante a posteridade notado por um incidente burlesco, aliás vulgar na misera humanidade, mas que nem sempre tem como actor um Védor da Fazenda, como chronista um Conde de Vimioso, e como reporter um Garcia de Resende.
Fôra o caso que n’uma jornada de Almeirim para Lisbôa... Deixemos, porém, fallar o Cancioneiro, que diz:
«Trouas que fez o Conde (de Vimioso) ao Barão (d’Alvito) porque vindo com el rrey d’Almeyrim para Lixbôa em hum batel, se lhe destemperou o estamago, e sahyo em uma cirvilha, a fazer seus feytos em huma lezira:
«Abaixo de Escaropym
através de Saluaterra
O Barão sahyo em terra
Quanto trouxe d’Almeyrim.»
e continúa relatando carnavalescamente o comico incidente, em versos que não eram destinados a mais, que a uma innocente brincadeira entre parentes. Não são porém, só as cantigas de escarnho do cancioneiro que o tornam memorado. A maneira como se houve no modo de apaziguar Lisbôa, quando El-Rei D. Manoel aqui o mandou para pacificar a populaça, excitada a matar judeus na celebre sangueira de 1506, dá mostra do grande valor d’aquelle que João Rodrigues de Sá mencionou assim:
«O dyno de ser escrito
por quem lhe dê seu louvor,
Barão, d’Alvito senhor
e Villa nova d’Alvito».
Um dia quando estava fazendo a barba para ir beijar a mão a El-Rei, que o fizera Conde, morreu de uma apoplexia.
Seu filho foi D. Rodrigo, o 3.º Barão, aquelle que foi preso por ordem de D. João III como dissemos no começo d’esta narrativa.
Era Vedor de Fazenda, como quem diz, Ministro das Finanças.
Este logar, de grande importancia, pelas dependencias que tinha, grangeou-lhe numerosos amigos, mas, como sempre acontece, ainda mais adversarios e malquerentes. Uns gabavam o seu engenho, revelado em versos de bôa factura, como aquelles dirigidos a D. Beatriz de Vilhena, ou a satyra ás Damas do Paço, «que tinham feito um rol dos homens que havia para casar e entre elles alguns mais que sexagenarios.»
Exaltavam tambem a fórma como se desempenhára da missão de que o incumbira El-Rei D. João III, quando o enviou á Côrte de Carlos V, por occasião da morte da Imperatriz.
Os seus inimigos, porém, não lhe poupavam remoques, chegando até a accusal-o de não ser indifferente ás offertas com que as partes tentavam corrompel-o. D’esta maledicencia faziam-se écho varias boccas, mesmo entre as dos seus mais chegados. Assim o revela Suppico, que em um dos seus Apophthegmas nos conta o seguinte:
«Praticavam certos fidalgos, presente El-Rei D. João III, em fidalguias antigas, e avoengos passados. Entrou n’este tempo D. João de Menezes, e disse Dom Rodrigo Lobo, Barão de Alvito: Aqui vem D. João, que sabe muito dos passados. Respondeu-lhe: Dos passados não sei nada: agora dos presentes da vossa casa sei muito. Era notado o Barão de aceitar».
Se é verdadeira a anecdota de Suppico aquelle trocadilho com a palavra presente devia soar menos bem aos ouvidos de Dom Rodrigo, tanto mais que o caso se passava na presença do Rei, cujo valimento podia ser abalado.
Sel-o-hia effectivamente? E a ordem de prisão com pretexto ou motivo na aventura de seu filho, proviria da quebra do agrado régio, e diminuição de confiança? É o que vamos ver.
Mas o que fizera o rapaz?
Apaixonára-se pela formosa D. Juliana, filha dos Marquezes de Villa Real.
Era por todos os motivos uma noiva appetecivel.
O bisavô, D. Pedro de Menezes, primo do Rei, fora 3.º Conde de Villa Real, 7.º Conde de Ourem, e casára em 1462 com D. Beatriz, filha do Duque de Bragança, D. Fernando. Nada menos!
Quando D. Pedro foi nomeado Governador de Ceuta, tendo apenas vinte annos, alguns arguiram esta eleição pela sua pouca edade: mas o Rei atalhára:
«Os filhos da casa de Villa Real já nascem emplumados.»
D. Juliana, portanto, nascera emplumada. E se considerarmos que, além da alta hierarchia, tinha dotes de belleza notavel, comprehende-se que o moço D. João Lobo, filho do Barão, levantasse os olhos para a orgulhosa patricia.
Esquiva? Talvez! Mas o apaixonado rapaz, além de confiar em si, presumia ser attendido, visto que ia recebendo cartas de inilludivel e terna acquiescencia aos seus emprehendimentos.
N’esse tempo não era muito facil estabelecer um commercio amoroso entre gente da Côrte, como fôra pouco antes, quando a mocidade alegre se reunia em festas e serões. Não quer isto dizer que os não houvesse já n’essa occasião, e até com esplendor. Umas vezes no Paço, outras no palacio de D. Duarte, e dos outros Infantes, algumas vezes tambem nas residencias dos Condes de Linhares, dos Condes de Vimioso, dos Condes de Redondo, reunia-se ainda por este tempo a nata da aristocracia portugueza em tertulias de requintada intellectualidade. Nos Paços da Ribeira, de Almeirim e Coimbra representaram-se então muitos dos autos do irreverente Gil, e foi perante D. João III que o frade ribaldo Ribeiro Chiado poz em scena o seu—Auto da natural invençam. Foi no pateo de Estacio da Fonseca, com assistencia escolhida, que se representou o memoravel—Auto de El-Rei Seleuco—do moço Luiz de Camões, que tanto deu que fallar. Mas em todas estas diversões respirava-se um ambiente sisudo e grave. Na Côrte dançava-se, sim, mas somente a arrastada pavana e a ceremoniosa galharda. E a Rainha D. Catharina, assim como desterrára dos serões os bailes pulados, era tambem inexoravel no que dizia respeito a galanteios, aventuras amorosas, e casos de paixão ardente.
Por isso nas assembléas do Paço, de onde a alegria ia fugindo, e cada vez mais a rigorosa etiqueta imperava, não era facil a D. João Lobo encontrar a linda Juliana de Lara, a quem de certo, se fosse como dantes, não deixaria de dirigir trovas de louvor, do mesmo modo que a outras haviam feito seu pae, seu avô e todos os Silveiras, seus proximos parentes e afamados poetas palacianos.
Mas os apparecimentos de D. Juliana eram raros. O pae morrera em 1543 e o lucto conserval-a-hia largo tempo alongada de festejos. Além d’isso os Menezes, Villa Reaes, orgulhosos e exclusivos, não entrariam frequentemente no convivio de outras familias nobres.
O apaixonado Alvito recorreu então ao classico expediente das cartas, servindo-se como intermediario de uma creada da casa dos Marquezes. O chefe da familia, Dom Miguel de Menezes, era uma creança que pouca attenção dava aos casos domesticos. A Marqueza viuva, bastante recolhida, não podia tambem fiscalizar as manobras da creada.
Ora, como as respostas das cartas que escrevia eram animadoras, D. João Lobo, julgando-se acceito, aventurou-se, com o escudo das seguranças recebidas, a pedir D. Juliana em casamento.
A Marqueza de Villa Real D. Brites de Lara e seus cunhados D. Nuno Alvares e D. Leonor, surprezos e arranhados no seu orgulho, esbravejaram.
Como se atrevia o pimpolho a levantar tão alto as suas vistas? Os Lobos eram de boa linhagem. Sim! Eram poderosos, influentes e astutos no manejar o valimento régio. Mas não era o bastante para aspirarem a uma neta de Reis, a uma parenta proxima dos Braganças, a uma filha dos Menezes, Villa Reaes que nasciam já emplumados. Vedor da Fazenda! Tinha isso, é certo, algum valor. Mas o que era em presença dos titulos e senhorios do Marquez D. Pedro, pae de Juliana? Fôra elle 5.º Conde e 3.º Marquez de Villa Real, 2.º Conde de Alcoutim e Valença, 5.º Capitão General de Ceuta, Senhor das Villas de Valença do Minho, de Caminha e Terra de Valadares, das Villas de Almeida, Alcoentre, Chão de Couce, Pousa Flôres e Maçãs de D. Maria, Alcaide Mór de Leiria, etc.. Praticára façanhas em Ceuta durante cinco annos, e a sua gloriosa memoria não podia agora ser amesquinhada, alliando sua filha com quem lhe era inferior em nobreza.
Por outro lado, os Alvitos, beliscados na sua prosapia com a recusa insolita, assanharam-se e respingaram com aprumo: que a sua nobreza e fidalguia, attestada no escudo—cinco lobos passantes de negro, armados e linguados de vermelho, bordadura azul carregada de oito aspas de ouro—nada desmerecia da dos Menezes.
Então, em vez de discutir gráos de nobreza, o impaciente D. João resolveu assediar a fortaleza, sempre na ideia de que encontraria n’ella recebimento. Era o golpe de audacia dos que tentam a fortuna.
Uma noite, altas horas, já Santarem dormia, a Marqueza viuva e os filhos, recolhidos havia muito, sentiram um estampido estranho do lado da rua, e não muito longe dos aposentos de D. Juliana. Sobresaltados chamaram os creados, que verificaram ter sido arrombada uma adufa e ter «alguem lançado as portas da dita janella para fóra do coiçe.»
Foi, então visto um vulto saltar precipitadamente, levando «certas peças e vestidos.»
Alguns affirmavam ter reconhecido D. João Lobo, filho do Barão de Alvito, que assim indicava ter acolhimento intimo nos quartos de D. Juliana.
O caso era grave. Tanto mais que D. João Lobo, interrogado, affirmou ser já casado com ella.
Ora, (e aqui complica-se o enredo,) á nobre heroina d’este romance havia El-Rei já destinado outro casamento, sem contudo ainda ter dado d’isso conhecimento ao interessado.
Tratava-se de a unir ao Duque de Aveiro, D. João de Lancastre, filho do Senhor D. Jorge e, portanto, neto de El-Rei D. João II.
Dava-se pois uma circumstancia curiosa. Este Duque de Aveiro fôra aquelle que, sendo ainda Marquez de Torres Novas, declarára ter clandestinamente casado com a filha do Conde de Marialva promettida ao Infante D. Fernando, irmão de D. João III.
O Destino tem ás vezes caprichos curiosos! O Acaso, nas phantasiosas curvas da sua acção mysteriosa, levava agora D. João Lobo a representar para com o Duque de Aveiro o mesmo papel, que este havia desempenhado com relação ao Infante D. Fernando.
Teria D. João III aproveitado as circumstancias para applicar a pena de Talião ao Duque, que em tempo se oppuzera ao casamento de seu irmão, impondo-lhe agora uma noiva que outro reclamava?
Não é provavel. Os factos têm uma explicação natural e simples.
Da parte de D. João Lobo havia uma paixão amorosa e isso, se não torna legitimas, faz no entanto perdoar as maiores loucuras.
Sem que tenhamos procuração d’esse romanesco fidalgo para lhe desaggravar a memoria adduziremos no entretanto, algumas attenuantes á leviandade de architectar a comedia da janella arrombada, e de se declarar casado com a innocente filha da Marqueza de Villa Real.
Recebera cartas d’ella, allegava o rapaz, em sua defesa, e essas cartas autorisavam-n’o a entrar em casa da sua noiva, ou, para melhor dizer, de sua mulher.
A declaração do casamento clandestino era expediente muito usado n’aquelles tempos para o conseguimento do fim desejado, sem que o caso tivesse caracter de gravidade, que hoje teria para qualquer das partes. D. Pedro I affiançou ter casado clandestinamente com D. Ignez de Castro. O Rei D. Fernando assim quiz casar com D. Leonor Telles. O Marquez de Torres Novas agora Duque de Aveiro (este que D. João III destinava a D. Juliana) oppuzera-se ao casamento de D. Guiomar Coutinho allegando que com ella era casado.
Então?
Além d’estes exemplos, e superior a todos, o desvairamento sentimental do moço Alvito merecia talvez uma absolvição.
Mas El-Rei D. João III não o entendeu assim. As intenções do rapazelho contrariavam-n’o.
Os desposorios clandestinos não lhe agradavam. Estes «casamentos a furtos» tão vulgares no seculo XVI, eram validos, segundo as constituições do Arcebispado de Lisboa de 1537 sendo o homem de 14 annos e a mulher de 12.
Mas ia-se d’elles abusando, com manifesto prejuizo da boa ordem. E quantas vezes se simulavam, ou se inventavam! Este era menos que provavel ter-se realisado. E além d’isso vinha prejudicar planos assentes, pelos quaes se resolvêra dar um premio de consolação ao Duque de Aveiro, que se retirara amuado para Setubal, porque pretendendo casar com uma filha do Duque de Bragança, D. Jayme, e casar tambem sua irmã, D. Helena, com o Duque de Barcellos, fôra-lhe isso negado. Causara-lhe essa recusa manifesto descontentamento pois andava sempre emprehendendo «em que a grandeza da sua casa não fosse assombrada da de Bragança de que sempre viveu com emulação, trabalhando por estabelecer entre ellas equilibrio.» Ora, não era muito facil achar compensação para o casamento a que aspirava. Só se se fosse buscar á casa de Villa Real, parente de El-Rei e dos Braganças. Estava por isso indicada D. Juliana, e assim o havia decidido D. João III, quando rebentou o episodio de D. João Lobo e se espalhou a fama da sua aventura nocturna, com arrombamento da janella, e a descida subrepticia com as vestes na mão...
Cumpria tomar providencias rapidas. A primeira a que se procedeu foi á prisão do velho Barão de Alvito, e ao seu encerramento no Castello de Soure. Parece a repetição da fabula do Lobo e do Cordeiro; com a variante de que aqui o Cordeiro era Lobo, e em vez de ser Filho era Pae de quem assim perturbava as aguas limpidas da Côrte...
Mas porque mandava o soberano prender assim o pae do delinquente?
O Sr. Teophilo Braga, fallando de passagem n’este poeta palaciano, aproveita logo a occasião para dar uma roda de inepto ao Rei dizendo: «D. João III, como estupido, mandou o Barão D. Rodrigo Lobo preso para o Castello de Soure».
Existe, porem, uma carta, do Barão dirigida a El-Rei, muito comprida (transcripta, bem como alguns outros documentos relativos a este caso, pelo Sr. Anselmo Braamcamp Freire no livro terceiro dos Brazões da Salla de Cintra.) que nos indica os motivos que imperariam no animo do monarcha para assim proceder. Por este documento se vê que se dizia que o Barão, pae, auxiliava o filho na sua empreza; e que tendo-lhe El-Rei recomendado que o vigiasse não o fizera devidamente.
Parece que se dizia tambem que por ter alliados na casa da Marqueza, dera um officio rendoso a um creado de D. Leonor de Noronha tia de D. Juliana: e que dava de comer a moços de casa da Marqueza com o intuito evidente de os subornar.
A tudo isto responde o Barão D. Rodrigo, com allegações confusamente expostas mas que constituem uma defeza clara. Falla na sua idade de 52 annos, nos 21 durante os quaes foi Vedor da Fazenda o que lhe acarretara inimigos, seus accusadores agora.
Brada que a primeira mercê a cabo de tantos serviços prestados, não deveria ser pagar assim muitos annos innocencios. Insinúa que o casamento com D. Juliana não era desegual, visto que «fidalguia eu sou contente da que meus filhos e eu temos»; e accrescenta, com mais basofia que sinceridade, a affirmação de «que se me D. Nuno Alvares (tio de D. Juliana) pedisse meu filho para a sua sobrinha que lh’o não dera.»
A carta onde, a par d’esta fanfarronada, o Barão atira algumas biscas a D. Nuno Alvares, foi recebida por El-Rei ainda sob a impressão dos acontecimentos.
Metteu-a na boceta, e, longe de mandar soltar o pae, deu ordem para que o filho fosse tambem preso e se procedesse á devaça e julgamento.
Andava o Rei mal humorado porque n’essa occasião foi-lhe entregue um papel, sem subscripto, que se dizia ser assignado por D. Juliana, e todo com lettra d’ella, declarando ser casada!
Agora o caso tornava-se mais serio, visto ser a propria interessada quem fazia esta affirmação.
Ella, porém, informada do enredo que se urdia em volta da sua pessoa, e sentindo-se alvejada pela maledicencia de uns, pelas settas de escarneo dos outros, e pelas reticencias no sentir de muitos, mandou pedir a El-Rei que fizesse justiça, ordenando uma rigorosa investigação para aclarar tão melindroso caso.
O Monarcha promptamente accedeu.
O borborinho malevolo levantado pela bisbilhotice acerca d’estes casos indiscretos ia alastrando, quando El-Rei nomeou dois Desembargadores do Paço e do Conselho para juntamente com o Corregedor da Côrte fazer «todas as diligencias, exames e inquirições per que se a verdade do dito caso podesse bem saber».
N’uma manhã d’esse inverno de 1546, á porta do palacio dos Marquezes de Villa Real, em Santarem, apeavam-se das pacificas mulas, em que vinham montados, os magistrados encarregados por El-Rei de interrogar a nobre donzella D. Juliana.
A Justiça em todos os tempos se tem revestido com trajes de grande solemnidade, e com espectaculosa ostentação para impôr o seu austero prestigio e inspirar respeito no desempenho das suas funcções.
Se ainda hoje, nos nossos democraticos pretorios, o juiz, o delegado, e o proprio official de diligencias, envergam com certa gravidade a béca e a volta tradicionaes, para se proceder ao julgamento de qualquer rufião da Alfama; se a robe rouge ainda veste pomposamente o magistrado do Palais de Justice que manda para os carceres de Paris qualquer apache de Montmartre; se na Royal Court of Justice o Presidente encaixa com sisudez a peruca do seculo XVIII para applicar alguns dias de hard-labour aos malandrins do Whitechapel, com que cerimoniosa pompa se apresentariam as Justiças do muito alto e muito poderoso Rei o Senhor D. João III para procederem ao interrogatorio da nobre filha dos Marquezes de Villa Real, reclamada como sua mulher pelo filho do Védor da Fazenda!
Com caras graves, vestes severas e empunhando com circumspecção as varas symbolicas, attributo do officio, os magistrados subiram as escadas, conduzidos pelo mordomo da casa, que os introduziu no salão.
Alli a velha Marqueza, seu filho o moço D. Miguel, e talvez tambem o tio D. Nuno Alvares aguardavam os Desembargadores, que iam inquirir sobre a veracidade do escripto, que fôra apresentado a El-Rei como sendo assignado por D. Juliana.
Esta, de pé, junto a uma credencia, sobre a qual jaziam, n’uma encadernação sobria e rica, os Santos Evangelhos, esperava, levemente arrogante, o Corregedor da Côrte e os seus companheiros, que se curvaram reverentes ao entrarem. Vestida de negro, com simplicidade, apresentava como unico adorno uma cruz de ouro, que lhe pendia do pescoço, presa por um grilhão.
A cabeça emergia airosa da alta golinha. Uma ligeira nuvem de tristeza attenuava a altivez e desdem da physionomia, denunciadora de nobre raça.
Sem emphase, mas com firmeza, dirigiu-se ao Corregedor da Côrte, apresentando-lhe um papel em que escrevera a sua defesa. E para que não se puzesse em duvida tel-o escripto por sua mão, repetiu por palavras o que n’elle exarara.
Os dedos corriam-lhe nervosos na cadeia de oiro, mas a voz era serena, segura a dicção, e cada phrase soava sonoramente na vasta quadra em que a scena se ia passando.
«Peço digam a El-Rei nosso Senhor, que os mandou cá, que lhe beijarei as mãos por se lembrar de minha orfandade e desamparo. Se meu pae, que morreu em seu serviço, vivera agora, não se houvera este rapaz (e sublinhava com ligeiro desprezo as palavras este rapaz) de atrever-se a fallar em mim, levantando este falso testemunho. Sua Alteza (era o tratamento que ao Rei se dava ainda) ha de lembrar-se que sou bisneta do Duque D. Diogo, seu tio, e filha e neta dos mais leaes vassallos que Sua Alteza tem tido. Cumpre-lhe, portanto, dar o castigo que tão grave caso merece, para que em toda a parte se saiba a justiça que Sua Alteza mandou fazer. E para que n’isto sejaes mais certos, a vós, senhores, como a justiças de Sua Alteza, juro n’esta Vera Cruz que tenho ao pescoço, que lhes amostro (e com a mão alva e esguia elevava a cruz á altura dos olhos dos homens de lei, e n’ella punha os beiços respeitosamente) e a estes Santos Evangelhos em que ponho as mãos, que isto foi o mór falso testemunho que se nunca levantou.»
Depois, já menos solemnemente, mas com a mesma firmeza, accrescentou:
—«Nunca me passou pelo pensamento que este homem isto cuidara, nem nunca por nenhuma pessoa, mulher nem homem, nem moço, nem menino me foi dado recado seu, nem carta sua, nem nunca vi lettra sua, nem nunca pelo pensamento me passou que com outro homem podia casar senão com o Duque de Aveiro.»
Como podia restar ainda alguma duvida, pois se havia fallado em cartas d’ella, promptificava-se a, presente El-Rei, escrever e fazer a sua assignatura.
Concluindo, dizia:
—«E peço a Sua Alteza, por quanto assim ha cartas falsas feitas em meu nome, queira que perante elle escreva. E porque eu fazia outro signal (ou assignatura), antes de agora, e por fazer má lettra, me ensinava a escrever o Dr. Manoel Vaz, mestre do Marquez meu irmão, e porque dantes eu fazia um Y grego no signal (Julyana ou Yuliana?) e agora faço um grande, porei aqui ambos os signaes.»
E escrevendo no papel que era destinado a El-Rei as duas assignaturas em presença dos Desembargadores, prestou de novo juramento e entregou-lhes o escripto.
O tom, a segurança de si propria, a fé com que jurara, o grande ar com que representára esta scena, davam um cunho de sinceridade ás suas affirmações. Não podia mentir quem fallava d’esta maneira. Assim o entenderam os magistrados que se retiraram recuando, e, d’isso convencidos, desceram a escada. Depois, bifurcando-se nas sellas, esporearam as anafadas azemulas em direcção ao Paço.
Não se fez esperar largo tempo a sentença que reza pouco mais ou menos assim:
«Manda El-Rei nosso Senhor, vistos estes autos e o libello que por parte da justiça foi dado contra D. João Lobo, filho do Barão d’Alvito, e vistas as diligencias e inquirições que se fizeram sobre o caso... e havendo respeito á sua menor idade, que vá degredado por dez annos para o Brasil, e que depois de cumprir o dito degredo não entre na Côrte, nem a quinze leguas nem na villa de Santarem emquanto viver.»
A sentença condemnatoria causou grande impressão nas rodas mundanas em que parentes, amigos e simples curiosos, tinham seguido com attenção e avida curiosidade este enredo, que não sabiam esclarecer. Era então verdade a culpa de D. João, com a aggravante de se provar ser falsario e calumniador? Se o não era, como se explicava que o rapaz, embora leviano, mas que nunca faltara aos preceitos da honra, forjasse cartas, e viesse assegurar a existencia de um casamento nunca realisado?
Chegou afinal a apurar-se que elle não fôra culpado. Ao que parece, a alma damnada, a inspiradora e, porventura, figurante ou representadora da comedia, era uma creada da casa dos Villas Reaes que illudia o moço D. João, fazendo-lhe crer que era bem acceito de sua ama. Fabricava ella propria as cartas de D. Juliana, puzera talvez em scena o pretendido casamento, e, (quem sabe?) talvez o consummasse no mysterio d’aquella noite em que o apaixonado se encontrou dentro da praça, e intentou, ou se viu obrigado a arrombar a janella do aposento de D. Juliana.
Não ficaram documentos explicativos da interferencia da creada, que nos elucidem sobre os intuitos que a levaram a compor este auto vicentino, nem sabemos o destino que a moça teve.
Começaria talvez por uma simples complacencia para com as solicitações do namorado pretendente, seduzindo-a tambem a mira nas esportulas chorudas, dadas pelo generoso D. João. Fingia bôa avença da parte de D. Juliana.
Iria depois complicando-se por tal fórma a trama urdida que difficil seria recuar.
Teria tambem, (não é isso impossivel) o coração interessado; e não podendo comer á mesa do banquete, diligenciaria, com dissimulações e embustes, saborear algumas migalhas que lhe não eram destinadas?
Sendo assim, o desvairado D. João teria cahido n’um logro levado pela conhecida sentença que diz: Quod volumus facile credimus. E elle, que tanto queria aquelle casamento, acreditaria facilmente nas apparencias mentirosas.
As cartas asseguravam-lhe amor correspondido, as entrevistas, nocturnas e rapidas, confirmavam-lhe essa convicção, e a comedia do casamento a furto (se a houve) mais lhe consolidaria essa crença. Quando entrou de noite em casa de D. Juliana, supporia talvez de bôa fé encontrar-se com sua mulher.
Muito penoso lhe havia de ter sido o accordar do sonho, sentindo-se roubado nas suas aspirações, afastado do valimento régio, e alvo das zombarias de todos os que estão sempre dispostos a folgar com os males alheios.
Mas nem calumniador, nem falsario era o pobre moço. Isso não!
Se não ha provas indiscutiveis da sua innocencia, nem documentos, que revelem os artificios occultos empregados pela ladina cuvilheira dos Villa Reaes para attrahir o incauto áquella ratoeira, ha testemunhos que, embora indirectos, são a cabal demonstração de que o procedimento de D. João Lobo e de seu pae, era menos condemnavel do que se suppunha.
Quanto ao pae, é eloquente a sentença dada em Julho de 1548, isto é pouco mais de um anno depois da prisão.
No seu accordão, os Desembargadores de El-Rei, ordenam que, em vista dos autos e da devaça, ao Barão D. Rodrigo seja levantada a menagem sob que estava preso no Castello de Soure, e permittem-lhe ir para sua casa.
Logo em seguida D. João III determina que venha para a Côrte servir o seu officio. Isto é reintegra-o no lugar de Védor da Fazenda, que exerceu até á morte, que succedeu em 1559. E não só lhe dá o cargo como lhe restitue a privança.
Estão cheios de anecdotas comprovativas da intimidade entre o soberano e o vassallo as paginas das chronicas e os Apophthegmas de Suppico.
Querem ouvir dois?
«Ordenando El-Rei D. João III que se fizesse um livro, em que se escrevessem todas as mercês que até então tinha feito, e se sommassem; como soube que estava acabado, mandou que lh’o levassem, e juntamente outro em que estavam registadas todas as mercês que El-Rei D. Manoel seu pae fizera; e achando que até alli as suas valiam dobrado lhe disse o Barão, que era um dos Ministros com quem El-Rei communicava aquelle particular.
—«Não achará Vossa Alteza n’esse livro ter-me feito outra mercê mais que só de um açôr.»
Respondeu-lhe El-Rei:
—«E o potro que vos trouxe o Almoxarife de Beja, sahiu bom?»
Entendeu o Barão o remoque e disse promptamente:
—«Senhor sahiu um sendeiro.»
De outra vez, refere o bom do Suppico, estando El-Rei em despacho com o Barão d’Alvito e o Secretario Damião Dias se leu a petição de um rendeiro que estava preso por 500 cruzados que devia á Fazenda. El-Rei perdoou-lhe 300. O Barão mandou logo passar a Provisão d’essas partes mas o Secretario entrou em duvida sobre a quantia, o que originou disputa entre os dois magistrados. Atalhou então o Rei dizendo:
—«Pois que, cada um de vós me entendeu em differente fórma razão é que me incline para a melhor parte». E perdoou tudo a esse homem.
Este pequeno episodio, se demonstra a generosidade de El-Rei, dá tambem a medida da boa harmonia entre o monarcha e o seu Secretario das Finanças.
Isto pelo que respeita á plena rehabilitação do pae.
Com referencia ao filho, D. João Lobo, accusado dos crimes de diffamação, arrombamento, e outras acções feias praticadas em detrimento da reputação da filha da Marqueza de Villa Real, sabemos que nem sequer foi obrigado a partir para o degredo. E, se chegou a sahir do Reino, voltou logo. Mas ainda melhor demonstra não só o perdão, o apreço em que vieram a ser tidas as suas qualidades, o alvará de Abril de 1560, que o nomeia por morte do seu pae, Védor da Fazenda com o ordenado de cento e oito mil e trezentos e trinta e trez reaes, fóra os emolumentos que deviam ser importantes.
Assentou, assim, como em chão de relva humida, a poeirada que o episodio do estouvado D. João levantara.
Não é conhecido, já o dissemos, o destino que teve a ardilosa camareira que, por espirito de intriga, ou de ganancia (auri sacra fames, que ataca ainda os mais humildes) ou talvez por erotica paixão, teceu a teia em que se iam enredando os Alvitos e a nobre Juliana.
D’esta é que sabemos como epilogou o romance.
Vamos a vêl-o.
Já contámos como o Duque de Aveiro se retirara rabugento para Setubal, quando El-Rei lhe embaraçou a pretensão de casar com a filha do Duque de Bragança e de casar sua irmã D. Helena com o Duque de Barcellos.
Foi tal o seu desprazer (diz D. Antonio Caetano de Sousa), deu-se por tão sentido, que não cuidou mais durante a vida de seu pae em tomar estado.
Os casamentos e os casos de amor fizeram por um capricho do destino segregar muita bilis a este D. João de Lancastre, filho da gentil «Perigosa», e do Senhor D. Jorge, aquelle que nascera num episodio romantico de D. João II.
Na mocidade tivera a louca pretensão de se declarar casado com D. Guiomar Coutinho, filha do Conde de Marialva, o que tantos dissabores lhe dera. Depois fôra o desvairo de seu pae (e d’esse achaque não estava então ainda curado) intentando, perto dos setenta, casar com D. Maria Manoel mocinha de dezeseis annos, ao que elle Duque de Aveiro tivera de se oppôr com uma energia que deu brado. Em seguida viera a contrariedade de lhe impedirem a alliança com os Braganças. Agora chegavam-lhe aos ouvidos rumores que misturavam o seu nome entre os dos personagens do caso de Santarem.
—Que significaria esta atoarda? Perguntava a si proprio o Duque quando no inverno de 1547 se achava em Evora convalescendo, (talvez do figado combalido) e que El-Rei o mandou chamar a Almeirim onde estava a Côrte.
—Que lhe quereria El-Rei?
Até então nunca fôra Sua Alteza prodigo para com elle em graças, intimidades ou bons dias.
E embora alguns biographos affirmem que El-Rei era inclinado ao Duque, os factos tinham demonstrado o contrario.
Cumpria, porém, acatar as ordens do soberano.
Promptamente mandou selar o seu melhor troteiro, e ordenou que o acompanhassem alguns officiaes e creados, seguindo logo os azemeis e mulas bagageiras.
Pela estrada que corre da capital do Alentejo atravez a leziria até á pittoresca Almeirim, D. João de Lancastre ia ruminando a natureza das determinações de El-Rei.
Empreza militar?—Embaixada?
—Governo em Além-mar?
Porventura passava-lhe na mente a verdadeira causa da chamada. Ter-lhe-hiam chegado aos ouvidos os echos das declarações de sua prima D. Juliana perante os magistrados.
Zum-zuns indiscretos, talvez lhe tivessem trazido algumas palavras de El-Rei...
Á medida que se approximava de Almeirim, atravessando a paizagem plana dos campos de Muge, e quando lá ao longe via já recortarem-se na linha do horizonte as torres de Santarem, ia elle cogitando no destino que o esperava.
—Casamento? As ordens de El-Rei não se discutem. E d’ahi, talvez não lhe desagradasse a ideia (quem sabe?) de transformar a appetitosa Villa Real n’uma Duqueza de Aveiro.
Ia já nos 46 annos e a sua grande casa ameaçava não ter por elle successão. Não lhe repugnava pois a espectativa de que El-Rei lhe fallasse no assumpto.
O Palacio Real de Almeirim, fundado por D. João I, e que El-Rei D. Manoel engrandecêra e alindára, já apparecia agora, n’aquelle approximar de noite fria de inverno, como uma grande mole escura, picada de luzes.
O Duque de Aveiro apeou-se á porta das casas que habitava o Arcebispo do Funchal, e ahi ficou alojado.
Logo na manhã seguinte se avistou com os soberanos, e El-Rei, sem mais preambulos, propoz-lhe para esposa D. Juliana.
D. João de Lancastre, Duque de Aveiro, não era um sonhador, um amoroso, um poeta, nem tampouco um artista. Intelligente, sim. Escriptor mesmo. Mas as suas obras denotam mais tendencias de erudição religiosa, que sensibilidade perante o encanto feminino.
Entretanto (considerava de si para si) D. Juliana era formosa, e as suas qualidades seduziam-no.
Não foi, portanto, constrangido que beijou a mão a El-Rei, agradecendo o interesse na conservação da sua Casa; e referindo-se «á que elegera para sua mulher, affirmou que nenhuma podia ser-lhe mais conveniente que aquella que lhe insinuava.»
Este rasgo do cavalheiroso Duque abafou por completo as ultimas murmurações dos soalheiros da Côrte.
Todos agora approvavam a determinação dos soberanos e a boa aceitação do Duque, que logo se ficou em Almeirim, preparando as bodas.
Na presença d’El-Rei se fez o ajuste do dote, assignando-se o contrato a 29 de Janeiro.
Não nos interessam os dizeres d’esse extenso documento, que contém numerosos artigos e demonstra a grandeza dos personagens que se uniam.
Olhemos apenas para as cerimonias e festejos a que este consorcio deu ensejo.
Quem nos vae guiar para assistirmos a essa festança é Braz Luiz da Motta, um conego da Sé de Lisbôa, que foi testemunha de vista, e que por isso escrevendo ao Cabido, a narrar-lhe as peripecias, se alonga em pormenores que necessariamente temos que rezumir, embora com pena, por serem interessantes.
Foi a 1 de Fevereiro de 1547, que Dom Nuno Alvares, tio da noiva, a trouxe de Santarem em umas andas, especie de leito portatil ou palanquim, conduzido por azemolas possantes. Hospedou-a em sua casa.
Logo no dia seguinte, o Infante D. Luiz, o Cardeal, muitos bispos e toda a nobreza, montavam a cavallo, indo buscar o Duque de Aveiro á sua pousada.
Vestia, segundo diz o conego, de panno preto tozado, pelote e capa aberta, gorro de velludo com uma estampa, e um collar honesto. Montava um cavallo branco, sendo conduzido entre os Principes ao Paço, em cujo terreiro entraram, passando o arco. N’esse terreiro estava D. João III, tambem a cavallo. Recebeu-o affavelmente, debruçando-se sobre o arção da sella para lhe fallar.
A multidão era enorme e apinhava-se de tal fórma nos terraços, escadas, galerias, e varandas, que se deram alguns episodios, entre comicos e dramaticos.
Conta-nos o bom do Braz Luiz, que n’uma certa varanda e escada que a ella dava accésso, a gente era tanta, e carregavam uns sobre os outros com tal força, que o mainel d’essa escadaria rebentou, cahindo a gente, uma sobre outra, de cabeça para baixo «e os que traziam más calças descobriram as suas pobrezas, e os que as não traziam boas nem más mostravam aquillo que Deus lhes deu». Entre os gemidos de uns que sentiam as cabeças esmechadas, e a risota dos outros que tinham presenciado o espectaculo da natureza, a que o conego se refere, recolheram o Rei, o noivo e a Côrte á sala onde estava armado um estrado sob o docel.
Quando alli chegou a Rainha, a futura Duqueza, e as damas, veiu o Nuncio, que recebeu os nubentes.
Depois d’esta cerimonia começou o serão.
É difficil imaginar o que seria uma d’estas funcções na Côrte mais rica e faustosa da Europa, para celebrar as bodas dos Duques de Aveiro, ambos parentes de El-Rei. Nas paredes os Razes e as tapeçarias de Flandres figuram scenas da antiguidade ou da mythologia. A luz macia dos brandões, que os pagens, vestidos de côres garridas, empunham, illumina as salas, povoadas da melhor nobreza. Brocados e sedas, e pannos de ouro adornam as lindas portuguezas.
Fios de perolas entrançam-se nos seus cabellos, e nos afogadores rutilam pedrarias custosas. Os purpoens e justilhos dos cortezãos entrecruzam-se com as vestes prelaticias dos Bispos e do Nuncio.
A musica da camara, em que se fazem ouvir João de Badajoz e os Baenas, Nicoláo de Estovar, tangedor de harpa, e os ministris mais habeis, entôa uma marcha mesurada, ao som da qual começa o baile.
Dansam: El-Rei com a Rainha D. Catharina, grave e severa nos seus velludos escuros; o Infante D. Luiz com a Infanta D. Maria, cuja belleza loira, porte altivo e deslumbrante donaire attrahem todas as attenções.
Não menos chamam a curiosidade os dois esposados, dansando juntos; ella graciosa no curvar das reverencias, elle inclinando-se com cortezia nos compassados movimentos.
E depois d’estes pares, os dos mais senhores da Côrte: as duas Bocanegras—D. Maria, a camareira-mór, e D. Cecilia, a mais nova, D. Maria de Menezes, D. Violante de Lemos, já edosa, que fôra dama da Rainha D. Leonor, e, muito novinha, a seductora Catharina de Ataide, pensativa, um pouco alheada, cuidando no seu poeta, e escondendo talvez no seio aquelle retrato de que elle disse:
«Retrato vós não sois meu
Retrataram-nos mui mal,
Que a sereis meu natural
Foreis mofino como eu.»
Ella sentindo o contacto d’este retrato e suspeitando as perseguições que ameaçavam o original, o moço Luiz de Camões, é possivel que errasse os passos da pavana. Errava-os decerto, porém, com tanta graça, que era um regalo dos olhos. Assim o sentiam todos, desde os Condes de Portalegre, da Castanheira, da Vidigueira, e D. Affonso de Portugal, filho do Vimioso, e D. Francisco de Mello, filho do Marquez de Ferreira e muitos mais, até aos bobos e graciosos de El-Rei, que entre guinchos, dichotes e chufas que atiravam a granel sobre as cabeças mais gradas, não deixavam de celebrar a seu modo as bellezas femininas.
Eram esses bufões D. Fernando Roxas—marmanjo-mór, o Panasco, preto creoulo, cujos ditos eram famosos, e eram D. Felix e D. Briando.
«Os truhões chocarreiros com guitarras
Que aplazen aos reis, aos principes, aos infantes.»
Ao dar das nove horas terminou o serão.
Acabavam cedo estas seroadas da Côrte. É que além de ser esse o costume, cumpria n’essa noite ir accommodar o noivo na sua pousada, bem como todos os assistentes, alguns dos quaes tinham vindo de longe e para longe iam, afim de na manhã seguinte, logo ás 8 horas, estarem prestes para se celebrar a missa pontifical, em que o bispo do Funchal devia lançar as bençãos aos Duques de Aveiro. Eram complicadas as fórmulas do Cerimonial Romano.
Foi longo o jantar, e só pela tarde se organizou a cavalgada que havia de levar a nova recem-casada a casa do Duque seu senhor.
Occorre agora perguntar se os echos d’esta rija festa, levados pela indiscreção de algum alviçareiro desastrado, chegariam ao retiro onde a esse tempo se amofinava D. João Lobo, filho do Senhor de Alvito.
Vozes de orgão na capella real, charamellas, sacabuxas, trombetas e atabales da fanfarra de El-Rei, o repicar festivo dos sinos das torres de Almeirim, annunciando as bodas, talvez fossem n’esse Fevereiro luminoso inquietar as vigilias do infeliz namorado.
Elle, no emtanto, tinha em si recursos para reagir contra as perrices do destino.
Não se deixou succumbir.
Tempos depois, já desvanecido o sonho amoroso, casava com D. Leonor Mascarenhas, filha do Capitão de Ginetes de El-Rei, e decorridos trinta annos veiu a rematar heroicamente a sua existencia ao som clangoroso das trombetas de guerra.
Entre estas duas datas a vida correu serena, e talvez feliz nos dois casaes.
D. João Lobo foi Vedor da Fazenda com agrado da Rainha Regente.
E o Duque de Aveiro desempenhou honrosas, difficeis, e ostentosas missões. Entre outras a da sua ida a Castela em 1552, com notavel pompa, a tomar entrega da Princeza D. Joanna, que veiu para casar com o Principe herdeiro, e que havia de ser a mãe de D. Sebastião. Para avaliar a grandeza d’essa embaixada basta dizer que, além de vinte parentes, todos com as suas comitivas, o Duque levava quinhentos homens de cavallo, oitenta alabardelos da sua guarda, e dois arautos, todos vestidos de sua libré roxa, amarella, e branca; e era seguido por cincoenta azemolas de bagagem.
Era opulenta a sua casa, era faustosa e intellectual a existencia do erudito fidalgo. E a residencia, assim como as dos Braganças, Vimiosos Borbas e Redondos, era frequentada pelos bons engenhos, que deixaram rasto notavel na litteratura portugueza.
Alli se encontravam o cerimonioso Caminha, o namorado Lopes Leitão, Francisco de Moraes, autor do «Palmeirim de Inglaterra», o Doutor Antonio Ferreira e, fulgurante entre os maiores—Camões, que mantinha com o Duque estreitas relações de espirito.
Da sua quasi intimidade dá-nos amostra a anecdota, referida por Juromenha quando conta a vida do Poeta.
«Indo o Duque de Aveiro (diz o biographo) ouvir missa a Nossa Senhora do Amparo, ahi encontrou o Poeta, e perguntando-lhe o que queria da sua mesa respondeu-lhe logo que bastava que lhe mandasse uma gallinha: esqueceu-se o Duque, ou fingio esquecer-se, e, depois de haver jantado, quando já não havia outra cousa, lhe mandou uma peça de carneiro, e o Poeta pelo mesmo creado lhe respondeu:
«Já eu vi a taverneiro
Vender vacca por carneiro,
Mas não vi, por vida minha,
Vender vacca por gallinha
Senão ao Duque de Aveiro».
Não pareça esta anecdota indicar parazitismo deprimente por parte de Camões, nem desdem ou falta de consideração do Duque, mas antes um despretencioso commercio de estima.
Elle proprio Duque de uma vez quando El-Rei o enviou á raia da Hespanha buscar a Princeza, e tendo n’essa occasião recebido de Setubal um solho, mandou de presente ao monarcha o saboroso peixe dizendo: «Que folgaria que soubesse tão bem a Sua Alteza como a elle lhe sabia a arraya de que lhe fizera mercê».
Da Duqueza pouco sabemos depois que casou, senão que manteve a linha orgulhosa e altiva que desde tamanina revelou. Mostra-o a insistencia com que, conversando um dia com o Duque de Bragança, D. Theodosio, lhe ia dando no decorrer da palestra o tratamento de «Vossa Senhoria».
Elle dissimulou cortezmente o despeito, mas na despedida disse-lhe sorrindo: «Advirta Vossa Excellencia (e sublinhava o tratamento) que cada um dá o que tem comsigo».
Ora, nesse tempo, só a casa de Bragança tinha «Excellencias» de juro.
Era a duqueza, ao que parece, boa educadora dos filhos, em contrario do Duque, o qual tinha com elles taes complacencias que levaram alguem a dizer:
«O Duque não é pae, é irmão mais velho de seus filhos.»
Educados com rigor ou sem elle, os Duques modelaram-lhes as almas com tão preciosa argilla que todos foram notaveis, e o mais velho, o Segundo Duque de Aveiro, escreveu com lettras de sangue uma das mais bellas paginas da lamentosa epopêa.