IV

O artigo que vamos transcrever deu causa ao conflicto do dia 21 de novembro de 1874:

«Apesar do desapontamento da colonia portugueza, que esperava um navio de guerra de primeira classe para metter-nos medo, em vez da falua Sagres, que só tem servido para ridiculos, consta-nos que o commercio já nomeou uma commissão, afim de promoverem uma subscripção para os bailes que pretendem dar no salão do Albino, ao largo da Trindade, e no Hotel Central, á estrada de Nazareth.

«Tiveram a honra da nomeação para a commissão os honrados negociantes José Solambada, Joaquim Gallinheiro, Bento de La-Rocque, Alivio Ladrão, José Coelho, (o balão) e Manuel dos Tomates, com os quaes nos congratulamos á vista de tão acertada escolha.

«Medeiros Branco, Frias e o compadre Antonio Muchila foram encarregados para fazerem as poesias analogas ao acto, nas quaes cantarão as Glorias de Alcacer Quibir e as do Rei chegou, depois do que o Club Philarmonico tocará a caninha bierde.

«Ai! que folia! que pagode!

«Sagres, é o gentil buque-luso com quatro canhões, dois por banda, montados em rodisios de cana da India, fundeada em nosso porto, hasteando galhardamente el pavilhon das gloriosas quinas portuguezas, tendo attrahido á flôr d'agua até os bacus, tralhôtos e candirus para a admirarem! Caramba!

«Os canhões são tão grandes como aquelles que os argentinos mandaram fundir, os quaes não cabendo nos seus arsenaes, tiveram de metter os arsenaes dentro dos canhões! Pumpum!

«Veiu a bordo da Sagres gentil, um grosso tonel de azeitonas arvorado em mestre, assemelhando-se muito pela figura grutesca a um d'esses patrões de falua do Tejo.

«Quem sabe se não mandaram esse loup de mer para cá com o unico fim de amedrontar-nos com sua figura obesa e ratona?

«Portugal tem garbo em presentear-nos com salchichões d'esses!

«Pedimos ao sr. Furman que não se esqueça de phothographar essa raridade, pois todas as vezes que vem á terra faz a população morrer de riso.

«Os janotas de pince-nez la del buque com effeito nada arranjarão aqui, porque já são mortos Villarés e Chicos Ruivos... restando apenas o Caleijão.[[59]]

«Consta-nos mais que a guarnição tem-se agradado tanto da terra, que toda ella quer desertar para aqui reforçar o trafico das carroças e pipas d'agua» etc.

Isto e muito mais foi publicado no n.º 259 da Tribuna, já referido; mas esta ultima parte dos insultos á guarnição da corveta, e especialmente aos janotas de pince-nez, os segundos tenentes da armada real, Carlos Krusse e Marques Costa, deu aso aos novos tumultos do dia 21 que ainda a moderação mais evangelica não poderia evitar.

Carlos Krusse, explica assim as novas occorrencias, em uma carta enviada do Pará á Democracia de Lisboa com a data de 28 de novembro de 1874:

«Sr. redactor.—Depois de commigo se haver dado um caso, que os jornaes da localidade occultam, e que o papel Tribuna procura deturpar, não ficarei silencioso á partida de noticias para ahi. Devo aos portuguezes a narração verdadeira do facto commigo dado. Para os da nossa colonia do Pará é trabalho inutil expôr o que todos elles sabem. Para Portugal são precisas algumas palavras.

«Li um artigo que, com a epigraphe Projectos de baile em honra del buque Sagres, vem publicado no jornal a Tribuna de 17 de novembro do corrente, e vendo o periodo—Os janotas de pince-nez—procurei no escriptorio da redacção um tal homem, ou cousa que o valha, que se responsabilisa pela folha.

«Mandou-me entrar esta repugnante creatura, e depois de lhe pedir com a maior prudencia o ultimo numero do jornal que publicou (o que me queria offerecer, e que, não acceitando, paguei por 800 réis) mostrei-lhe o artigo que ambiguamente me podia dizer respeito.

«Leu, e ao terminar, pedi-lhe me declarasse se era de mim que tratava, para lhe exigir prompta satisfação. Declarou-me terminantemente por duas vezes, (tantas por mim exigidas) defronte dos seus empregados, que nada comigo tinha relação, e que mesmo a palavra mestre, no artigo empregada, se não referia a official algum da corveta, mas sim a alguem da prôa.

«Agora este ente repugnante, vergonha da classe militar (ex-capitão paraguayo) e dos homens de bem, quer, em seus covardes escriptos, mascarar de prudencia o que n'elle foi falta de coragem, para sustentar o que havia escripto e desafrontar-se, quando pouco depois de eu ter entrado na redacção, justifiquei a minha tardança em ali ir, na falta de leitura d'um papel, que lhe disse ter «por unico programma a calumnia e a infamia, contra um povo, contra uma nação de que supponho não conhece a posição geographica».

«A colera reprimida d'essa abjecta creatura obrigou-a a mentir perante o presidente da provincia, queixando-se de que eu lhe havia assaltado a casa!

«Um unico homem, não manejando arma alguma, usando de todo o cavalheirismo, assalta a espelunca de um negro, dentro da qual estão mais cinco ou seis?

«Isto faria rir, se não provocasse dó.

«Na occasião em que procurei esta cousa de fórma humana, este menino da Tribuna, confesso-lhe sr. redactor, que imaginei que ao encontrar um testa de ferro acharia tambem n'elle os brios de homem.

«Reconheço hoje que tratei com um garoto de praça publica, que nos faz caretas ao voltarmos-lhe as costas, e a quem devolvo os epithetos, calumnias e infamias, que me dirigiu e que ahi leram.

«Que precisaria um homem que declara agora uma coisa, e que logo publica um pasquim negando os factos passados na sua officina, presenceado pelos «seus dignos empregados e ouvidos pelos muitos grupos que fóra escutavam e que na minha saída vi?»

«Poder-se-ha usar com homem de tal caracter os meios empregados entre cavalheiros, entre homens de bem?

«Não.—Disse-m'o uma grande parte da colonia portugueza aqui, aconselharam-me todos os meus camaradas.

«Que resta? O desprezo, a entrega de tal procedimento á apreciação do publico e o desforço que se toma para com um garoto quando o acaso depare occasião.

«Não responderei mais, como fazem todos os officiaes da Sagres, ao que diga de futuro a tal Tribuna, e só peço com fervor a chegada de uma occasião propria para o ultimo e unico desforço.

«Convença-se Portugal, de uma vez para sempre, que o seu apreciado Revalescière Prudencia! não serve, quando os acontecimentos chegaram a tomar o corpo que attingiram os do Pará.

«Uma satisfação das affrontas dirigidas ao soberano e á nação, exigida, se preciso fôr, com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de Janeiro, affigura-se-me ser a ultima, mas necessaria solução!

«Desculpe, sr. redactor, o apressado d'estas linhas, que teem tanto de mal escriptas quanto de verdadeiras, e creia no respeito que merece a quem é—De v. etc. C. Krusse

Marcelino Nery que se humilhára perante o bravo official, levantou a caricata grimpa pela seguinte forma, n'um avulso—Boletim da Tribuna, quando o portuguez digno lhe dera as costas como a vil sicario:

AOS BRAZILEIROS

«Acabamos de soffrer a mais revoltante affronta, que não foi, como devera ser, punida para não darmos logar a que ignobeis detractores da honra nacional cuspissem infamias cruelissimas á face d'este povo nobre e heroe na paciencia com que tolera os ultrages da colonia portugueza.

«Povo paraense! Ao meio dia de hoje foi a nossa officina invadida por um individuo, cujo nome, occupação e qualidade não indagamos, nem desejamos saber e que cheio da mais sôez prosapia e pela forma porque achava-se ajaezado, disse e acreditamos ser official da carveta Sagres.

«Armado sem duvida e no firme proposito de pôr em pratica um crime hediondo, e na louca persuasão de pratical-o e ficar impune, esse individuo, depois de invadir a nossa officina e encontrar da parte de seu proprietario um cavalheirismo a toda a prova, recuou de sua tentativa e tomou o expediente de proromper, n'uma grita crapulosa, em insultos e injurias contra a honra nacional, contra os brios paraenses, a ver, se arrastando ao extremo da indignação ao capitão Nery, o provocava a um desforço legal que desse-lhe brecha a converter-se de bebado em audacioso malfeitor.

«Foi preciso que o capitão Nery se revestisse da maior prudencia e em termos habeis repellir de dentro de sua propriedade um insolentissimo e arrojado lacaio com fumaças de nobre... que procurava ser castigado a vergalho, se por ventura em outro paiz se desse semelhante affronta.

«Saibam os portuguezes e o mundo inteiro—que se não fossemos generosos, se não tivessemos nobresa de alma, se fossemos selvagens, o infame deixaria os miolos ao estampido do revolwer sobre o chão que pisamos: só a tiro se poderia castigar a selvageria de um javardo agaloado, que teve a suprema audacia de invadir a nossa officina.

«Ninguem dirá que, dentro d'ella um bandido ou bebado pagou com a existencia atrevimentos escarrados em nosssa honra e patria.

«O facto, que expomos, foi levado ao conhecimento do ex.mo sr. presidente da provincia, que prometteu immediatas e energicas providencias com que contamos.

«Percheiro que transmitta esta noticia invertendo a acção e os actores.»

A consciencia dizia-lhe que no boletim deturpára a verdade dos factos; por isso nos impunha aquella especie de ameaça, para que os não illucidacemos em nossas partes telegraphicas, o que já mais elle ou qualquer tribuno façanhudo conseguiriam.