IX
Estavamos então em fins de janeiro de 1875.
A corveta devia partir do Pará para Lisboa, com escalla pelo Rio de Janeiro, na madrugada do dia 3 de fevereiro do referido anno.
Aqui está a despedida Tribuna em seu boletim do dia 2:
«Foi o vapor inglez Ambroze, de proximo ancorado em nosso porto, que nos fez chegar ás mãos o n.º 80 do immundo pasquim, Brazil, onde vêm transcripta uma carta d'aqui enviada pelo fétido lapuz Krusse, o javardo de pince-nez de bordo da nauseabunda Sagres.
«Não lê o povo brazileiro o infamissimo pasquim Brazil, por isso nós vamos fazel-o ouvir, com attenção, o que dizia, ipsis verbis n'essa carta.
«Falla, nojento gallego Krusse:
(Segue a carta que atraz reproduzimos.)
«Está sciente o povo brazileiro, do que dizia na tal carta, não é assim?...
«Ora bem, pois agora fallemos nós.
«Antes que do porto de Belem desferre a immunda esterqueira portugueza Sagres, onde chafurdando-se em putridas materias engorda e vive o fétido e asqueroso gallego Krusse, cumpre-nos, em consideração ao nobre e heroico povo brazileiro, dizer duas palavras sobre a carta acima, que esse cynico bandido e miseravel assassino da honra alheia mandou publicar na degradante imprensa portugueza.
«Hoje, que está no dominio publico o quanto val Portugal, o que é a Sagres, o que são os seus officiaes, principalmente esse garoto de pince-nez, bebado e ladrão Krusse, relativamente a esta magna questão de nacionalidades—não podemos, por certo, temer que nos apanhem os seus infamantes insultos.
«Não. Não nos insulta esse aborto da natureza, essa podre excrescencia, essa massa informe de sebo e de chulé, esse monturo de percevejos, essa larva hedionda podridão dos excrementos humanos a que deram o nome de Krusse. Não! Como um vil, covarde, infame e miseravel cão que é, nem ao menos lhe poderiamos dar a honra de lamber-nos o fim da espinha dorsal.
«Já viram todos, o que dissemos a respeito de ter esse salteador invadido a nossa officina com louco intento de extorquir-nos uma satisfação, não só em um boletim como em um numero do nosso periodico, relatando com a nossa proverbial franqueza, imparcialidade e justiça tudo aquillo que em abono de fé e verdade se passou entre mim e o asqueroso biltre Krusse.
«E era isso uma satisfação que tinhamos de dever dar ao povo brazileiro. Demol-a, e os nossos dignos compatriotas conscios da nossa conducta e reputação que ha cinco annos teem sabido estudar, não trepidaram em lançar sobre esse gallego bebado e safado todo o pezo da mais justa odiosidade. Principalmente quando esse garoto de pince-nez tentou contestar-nos, debalde adulterando a verdade e invertendo o facto, em um artigo que mandou publicar no Jornal do Pará numero 274.
«Ahi porém, não poude elle á vontade vasar o seu venenoso pús. Escreveu então para a infamissima imprensa portugueza, e ahi está elle no seu elemento como em um fétido corpo está o percevejo.
«Pois, se esse grutesco bobo de pince-nez, tão cynica e infamemente faltou a verdade na imprensa brazileira, como podia deixar tambem de mentir e insultar na torpe imprensa de sua terra? Por acaso pode elle lembrar-se d'aquillo que realmente se deu em nossa officina! Póde elle dizer a verdade?
«Não, nunca. O bandido que assalta de dia a nossa officina offuscado pelos vapores intensos da jeropiga; o ladrão que assalta de noite uma outra casa de uma pobre e indefeza senhora, travessa das Gaivotas, e d'ahi é como um vil e pirento caxorro lançado na rua a pezo de cabo de vassoura, mesmo por um seu patricio;[[61]] um homem, emfim, como Krusse miseravel, mais vil e repugnante que a podre lama de um charco,—é capaz para tudo, maxime para faltar tão descaradamente á verdade de um facto, que depõe altamente contra o seu caracter de sabujo lacaio de pince-nez da Sagres.
«Por isso, a carta d'esse patife gallego não nos demoveria a traçar em tempo estas linhas, se n'ella não deparassemos com alguns trechos acremente offensivos e provocadores á nossa dignidade e caracter, ao governo brazileiro e á integridade do imperio.
«Primeiro, porque queremos mostrar ao governo brazileiro, a que ponto chegou entre nós a louca e insensata audacia dos portuguezes bandalhos como o tal Krusse, quando se arroja a dizer, que Portugal necessitava exigir uma satisfação com a força de quatro corvetas, não aqui, mas no Rio de Janeiro!
«Segundo, porque queremos provar ao publico em geral, que não fazemos carêtas pelas costas a homens de bem, quanto mais á gente da casta do estupido, boçal e mariola Krusse.
«Terceiro, porque queremos bradar alto e bom som a esse mais vil e infame canalha da canalha portugueza:—Gallego Krusse, se é que pedias com fervor a chegada d'uma occasião propria para o ultimo e unico desforço, eil-a que se offerece, anda cá vil sicario, não percas tempo.—
«Quarto, finalmente, porque queremos que fique publico e notorio ao mundo inteiro, qual de nós merece o negro estygma de covarde; porque, para quem como o faccinora Krusse, pede com fervor a chegada d'uma occasião propria para o ultimo e unico desforço,—ainda é tempo e tempo assás opportuno e de sobra para tomal-o.
«Portanto, vem, miseravel sodomita Krusse, gatuno de pince-nez, burlesco e caricato truão agaloado da praça d'armas, cynico, immoral e nefando official dos immundos beliches dos marinheiros da Sagres, escoria das escorias portuguezas, vem, salafrario.
«Vem, se tens amor a esse trapo nojento das quinas, pendurado no penol d'esse carro da lama que se chama Sagres; vem, se não queres vêl-o mais vilipendiado do que tem sido por todas as mais nações que n'elle escarram, com o teu negro titulo de covarde infame; vem, janota pé de chumbo, vem, se te não gira nas veias ignobeis o sangue ignominoso dos cafres européos, vem tomar o teu ultimo e unico desforço.
«Vem, lazarento gallego, não para luctares comnosco, porque és tão miseravel e despresivel, que a arma ou a mão mais indigna que te batesse ainda seria nobre de mais para ti.
«Temos porém, uma unica arma, que é a que mais se aproxima ao merecimento de tua baixeza:—é um chicote para cavallo, com o qual te mandaremos fustigar as ancas, sem que traga isso pezar algum ao braço que te castiga e ao instrumento que te imprime seus degradantes e indeleveis sulcos.
«Vem, descarado canalha, cigano d'uma figa! tomar o teu ultimo e unico desforço.
«Se não vieres, então, tu, infimo bisborria, serás entregue á vindicta publica e á execração do futuro que te bradarão incessante:
«—Maldito! covarde! infame! desgraçado! és portuguez e basta, miseravel! escarneo da humanidade! vergonha eterna dos homens, não da tua raça vil, mas das outras, que na mesma classe que tu, sabem presar a nobreza da farda, a immaculação da honra, brios e dignidade do pavilhão glorioso e heroico que defendem.»
«Marcellino Nery.»
É a bilis de mais de dois mezes, que a premanencia do sr. Krusse no Pará evitára que sahisse do nauseabundo esofago tribunicio.
Expliquemos a peripecia:
Acompanhavamos quasi sempre os officiaes, nos seus passeios pela cidade do Pará, e passavamos muitas vezes, occasionalmente, pela praça de D. Pedro II, onde era o escriptorio da Tribuna.
O hydrophobo Marcelino Nery, desde os acontecimentos de 21 de novembro, nunca mais sahira á rua! e, de binoculo em punho, observava da sua janella, pela extensa praça, se para o seu escriptorio se dirigia algum official da corveta. Não eram estas as intenções da officialidade; mas Nery que não estava d'isso ao facto, e temendo alguma desafronta, serrava a janella no momento em que os officiaes por alli passavam!
O boletim acima transcripto tem, alem da data—2 de fevereiro—as seguintes palavras—ás 7 horas da manhã—, para que quem o lesse ficasse sabendo, pelo que estava escripto, que o papel tinha sido destribuido vinte e quatro horas antes, ainda quando o sr. Krusse podia acceder ao pedido do bravo anti-paraguayo encerrado; mas a verdade é que o tal boletim só foi destribuido na cidade quando já a hora adiantada da noite do dia 2, havia recolhido toda a guarnição para bordo da corveta!
E não vá dizer a historia para o futuro, que o sr. capitão Marcelino Nery, não era um digno heroe do exercito brazileiro que nos sertões envios das margens de Riachoello combatera com denodo pela cara patria!