XII
Um jornal paraense a—Regeneração—accusa-nos de calumniador das senhoras paraenses no que escrevemos em outro logar[[65]]. É uma falsidade o que se pertende affirmar com visos de verdade.
Calumnia é o que segue, publicado na Tribuna do Pará:
«Que fecundidade espantosa!—Na Correspondencia de Portugal, transcripta no Diario de Belem de 7 do mez passado, se lê esta noticia:
«Foi publicado o relatorio da Santa Casa da Misericordia, e por elle se vê que no fim do anno economico de 1872-1873, estavam a cargo da misericordia 13:370 expostos, dos quaes apenas pouco mais de 100 na casa dos expostos.»
«Com effeito, 13:370 engeitados no anno de 1873 estavam a cargo da misericordia de Portugal!
«É mais um documento, que offerecemos aos nossos leitores, para com elle provarmos a perversidade de que é dotado o coração portuguez, que expõe os filhos á miseria, á desgraça e á morte!
«Os povos barbaros por certo que não procedem com tanta deshumanidade para com os seus, como a raça portugueza procede para com os proprios filhos, negando-lhes um nome, e preferindo uma morte desgraçada, ou uma educação errante e infame, do que sugeitar-se á creação!
«Mulheres malvadas, corruptas e endemoninhadas, ainda não conhecemos segundas! Soffram muito embora o rigor da miseria e da deshonra, mas por caridade, não exponham á morte os filhos, que não tem culpa da mais abominavel depravação.»
O pobre redactor d'este jornal, ignora a razão porque em Portugal, e em quasi todos os paizes civilisados, as mulheres infelizes engeitam os filhos. Engeitam-os, porque... não são escravas, e porque não teem senhores que as deshonrem, com a mira no lucro proveniente da cria, que, como as bestas, devia ser posta em almoeda no mercado de carne humana!
Cá, as mulheres illudidas, e não malvadas, corruptas e endemoninhadas escondem da familia o fructo da sua deshonra nos asylos que os previdentes governos instituem, a bem da humanidade e da moral publica.
Lá, a escrava deshonrada e aquelle que a deshonrou, fazem gala da deshonra perante a familia que devia ignorar a infamia.
Nós estivemos em casa de uma familia brazileira, onde havia tres mulatas pejadas, que ostentavam diante de uma sinhá e uma sinhasinha o seu estado interessante; e ha quem diga que as ingenuas creanças não ignoravam que o seu proprio papai era o auctor dos futuros moleques!
Mas ninguem ignora que no Brazil, dão-se casos d'estes aos milhares; e que as sinhás no meio d'esta escola immoralissima sabem os segredos mais intimos, que as proprias mulheres deshonradas, entre nós, ignoram muitas vezes.
Á sociedade que, como a nossa, institue hospicios especiaes para os engeitados, chamam-lhe moralisada. Á que faz da casa de familia bordel-hospicio, chamam-lhe corrupta.
Mas... passemos adiante, não vão para ali dizer, que a resposta ao imbecil que escreveu aquellas linhas, antes das nossas injurias, é represalia.
O periodico citado dizia mais, «que havia dois principios que soffriam guerra de morte dos portuguezes no Brazil: um é a dignidade nacional, outro é a religião catholica e apostolica romana representada em seus ministros. O pamphleto do Percheiro[[66]] põe isto á evidencia. Tal é o ponto de contacto que nos aproxima da Tribuna, cujos excessos de linguagem estão plenamente justificados pelo atrevimento de Percheiro e seus adeptos[[67]]» etc.
A quem tiver lido os excessos de linguagem, empregados por nós nas Questões do Pará, recommendamos este topico publicado na Tribuna, em 17 de novembro de 1874; isto é, no mesmo numero em que era insultada a officialidade da corveta Sagres; e, note-se bem, quasi um anno antes da publicação d'aquelle livro:
«Cemiterio em Lisboa, 12 de outubro de 1874.
«Miseravel Percheiro.
«As tuas proezas e infamias teem echoado até n'esta fria morada dos mortos!
«Estás pondo tudo em pratica, teus crimes e vicios, n'essa terra abençoada para onde fostes ganhar o pão... o pão para ti e para tuas duas filhas...
«O que tens feito para essas infelizes? Nada! Fizeste-te corretor de infamias... apenas!
«Julgava-te regenerado e enganei-me!
«Julgava que teu coração de marmore ou de sangrento tigre tivesse sido tocado pelas lagrimas ardentes d'essas duas innocentes, de quem és, desgraçadamente, pae!
«Julgava que ao pungir ferrenho do remorso, tu te houvesses abraçado ao pé da cruz da Redempção! e envolto no lábaro sagrado do arrependimento, banhasses a fronte maldita nas aguas lustraes da salvação!
«Julgava que, na terra hospitaleira da Santa Cruz, tu te tivesses tornado homem de bem... enganei-me... hoje como outr'ora és o mesmo, sempre ladrão, sempre assassino! és maldito!
«Sim, assassino!
«Tu fizeste por longos annos a desgraça da vida feliz que consagrei-te—perante o altar do Senhor:
«Fizeste-me derramar lagrimas de sangue á toda a hora do dia e da noite em quanto folgavas no deboche e no jogo.
«Sacrificastes durante minha existencia os deveres, que a nossa união sagrada te impozera, e sacrificaste-os aos pés das mais torpes meretrizes nos antros da crapula, nas urgias.
«Converteste cada momento de minha existencia em seculos de martyrios insanos, até esse momento em que quizeste pôr termo aos meus soffrimentos; até esse momento em que, barbaro, arrancaste dos meus braços minhas e tuas filhas; até esse momento em que finalmente... me assassinaste!
«Assassino!... tuas filhas e meu sangue innocente em que ensopaste as mãos, são os remorsos vivos que sempre te hão de perseguir, quer durmas, quer véles e eu te juro, que d'aqui mesmo, d'esta campa aberta por tuas proprias mãos, te farei sentir que não me esqueço de ti... assassino! e de tuas infamias...
«Generosos brazileiros! uma esmola pelo amor de Deus para as filhas do corrector de infamias Percheiro, que morrem á fome em Lisboa!
«Adeus! recebe a maldição d'aquella que entre os vivos foi—
Tua esposa...»
Agora digam-nos, se depois de devassado o tumulo e desrespeitada a nossa dôr, a mais profunda que havemos soffrido, em 35 annos d'uma existencia attribuladissima, e, por mercê de Deus, honrada; haverá quem, com justiça, possa dizer, que os excessos de linguagem da «Tribuna» estão plenamente justificados pelo atrevimento de havermos publicado as Questões... um anno depois de tanta infamia?!
Ah! como sois inconsequentes!
Depois do nosso livro, é que o governo brazileiro se lembrou de comprar a consciencia do capitão Nery. Pena foi que essa transacção se não fizesse antes de começar a tragedia do Pará. Preferiamos isso á gloria que nos assiste de havermos contribuido, com os nossos excessos, para a pacificação dos animos em tão uberrima provincia.
E olhae que vos não pedimos mais do que a continuação do vosso desprezo, em paga do nosso serviço, ó illustres optimistas!
Se á vil calumnia e á detracção raivosa, não póde escapar quem diz verdades, não deve esperar recompensa dos homens quem pratica o summo bem.