QUARTO PRINCIPIO.

49. He com huma Luz mediana, que apparecem, e se formaõ as Cores.

Escholio.

50. Este quarto Principio ([n. 49.]) he hum Corollario do Terceiro ([n. 48.]); e ambos se provaõ evidentemente, com as experiencias ([n. 40.] e [41.]). A grande intensaõ da Luz do Sol faz, que observando-se este astro pelo Prisma, naõ mostre Cor alguma. A debil Luz de huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, he a causa, de que ella se veja pelo Prisma, sem Cor alguma. Mas a Luz de huma grande Estrella, que se póde reputar mediana entre o Sol, e huma pequena Estrella, presenta mui vivas, e brilhantes, as duas Cores Vermelho, e Verde. Os phenomenos ([n. 41.]) saõ identicos; pelo que he inutil o recapitullallos.

QUINTO PRINCIPIO.

51. As cores primitivas saõ duas, Vermelho, e Verde.

Escholio.

52. Simplez, e primitivo, só se póde chamar aquillo, que naõ he derivado, nem composto. Para conhecer esta qualidade, em qualquer substancia, he necessario descompolla, e resolvella nos seus elementos; que entaõ se chamaõ simplez, e primitivos, quando resistem ás analysis mais rigorozas, sem soffrerem alteraçaõ alguma. Assim, a respeito dos corpos, só se pódem ter por elementos simplez, e primitivos, a materia vitrea e calcarea; por que a estas duas substancias se reduzem todos os corpos do nosso Globo, por meyo de hum intenso fogo, que naõ tem mais a força de as descompor; e effectivamente he destas mesmas duas substancias, que se formaraõ todos os Corpos, de que se compoem a Terra, e que lhe estaõ inherentes ([§. 4.])

53. Pela mesma razaõ, que se tem por simplez, e primitivos, só aquelles elementos dos Corpos, que resistem á analysis do fogo mais intenso; se devem ter tambem, por simplez, e primitivas, só aquellas Cores, que resistem ás analysis mais fortes, que sobre ellas se pódem praticar. E como as Cores naõ podem soffrer que duas sortes de analysis, huma sobre os Corpos coloridos, e a outra sobre a Luz tambem colorida: segue-se, que só se devem ter por Cores primitivas aquellas, que resistem á força destas analysis, conservando-se inalteraveis. Ora o Vermelho, e o Verde, saõ as duas Cores, que resistem á força das analysis mais fortes, e que se conservaõ inalteraveis; quando todas as outras Cores se descompoem, e se destroem; como se prova das experiencias feitas sobre os Corpos coloridos ([§ 16.] [17.] [19.]), e observaçoens ([§ 22.] [23.]): e igualmente das experiencias feitas sobre, a Luz colorida ([n. 24.] [25.] [28.] [29.] [30.] [31.] [32.] [34.] [39.]): segue-se, que naõ se podem ter, physicamente, por Cores primitivas, senaõ o Vermelho, e Verde; por serem os elementos indestructiveis, a que se reduzem todas as outras Cores; e dos quaes as mesmas se compoem ([n. 34.]). Ainda que isto bastasse, para provar a evidencia deste Principio; elle tem ainda a seu favor as duas analogias ([§ 26.] [27.] [29.]), que na presente materia, saõ da mayor concludencia.

SEXTO PRINCIPIO.

54. A Cor Azul he derivada, e naõ primitiva.

Escholio.

55. Este Principio he hum corollario do Quinto ([n. 51.]); e a formaçaõ desta Cor, consta das experiencias, em que se funda o Principio Quarto ([§ 28.]).

SEPTIMO PRINCIPIO.

56. A Cor amarella he derivada, e naõ primitiva.

Escholio.

57. Este Principio he hum corollario do quinto ([n. 51.]): e o modo, por que esta Cor se forma, se ve das experiencias, e especulaçoens, em que se funda o Principio ([§ 30.]).

OITAVO PRINCIPIO.

58. O Negro he huma Cor positiva, e se forma do Vermelho, e Verde.

Escholio.

59. A Evidencia deste Principio, se mostra da observaçaõ ([n. 33.]). As velas do moinho de vento, de que ali se trata, estando horisontaes, pareciaõ duas largas faixas, unidas ao comprido, huma verde na parte superior; e outra vermelha, na inferior. E como estas duas Cores conservaõ sempre a mesma posiçaõ, sobre a linha horisontal, deviaõ necessariamente unir-se, à o passar pela perpendicular. He pois nesta passagem, e uniaõ, que se formava sempre a especie de nuvem ou sombra mui escura, como fica refferido. Aquela machina estava situada na linha visual ao ponto, em que o Sol se punha; as suas velas moviaõ-se em hum plano perpendicular à esta linha, e consequentemente eu as observava da parte da sombra, e de hum ponto diametralmente opposto à aquelle, donde partia a Luz, ellas eraõ, quadrilateras, e teriaõ 20 pés de comprido, sobre cinco, ou seis de largo; eraõ da mesma lona de que se fazem as velas dos navios; e me ficavaõ na distancia de 250 passos geometricos. Exponho todas estas circunstancias, porque em observaçoens deste genero, a direcção da Luz; a sua força; a grandeza, a figura, a materia dos objectos e a distancia em que se observa, influem muito nos resultados. As observaçoens feitas sobre as nuvens em movimento, daõ este mesmo resultado; e as experiencias ([§ 16.] [17.]), feitas sobre as Cores materiaes, convem inteiramente com as da Luz colorida.

NONO PRINCIPIO.

60. O branco he huma Cor positiva, e nasce da extrema divisaõ das duas Cores primitivas, Vermelho, e Verde.

Escholio.

61. As experiencias ([n. 40.] [41.]) mostraõ a evidencia deste Principio. O Sol, visto pelo Prisma, parece hum circulo de Luz mui viva; mas sem Cor alguma: por que a Cor se acha dividida em huma grande massa de Luz, e por isso he invisivel. O mesmo succede na experiencia ([n. 40.]), em que o rayo de Luz, depois de passar pelo Prisma, se recebe no cartaõ branco, ao pé do tubo, que o introduz na camara escura: e como, nesta distancia, a Luz se acha ainda mui intensa, e cahe sobre huma superficie branca, que tambem augmenta a sua massa, pela mesma razaõ da experiencia. ([n. 41.]) naõ deixa ver cor alguma. O mesmo succede com as Cores materiaes; como se prova pela [Taboa XIIII]. n. 43. e ainda mais palpavelmente, mixturando sobre o porphyro, hum graõ de Anil, com duas libras de Alvaiade, dividindo-o o Branco de tal sorte, que nelle senaõ destingue a minima sombra de Azul.

62. Digo que o Branco, e o Negro, saõ Cores positivas, ([n. 58.] [60.]) porque o contrario repugna à todas as leys da physica. Nós recebemos indubitavelmente a idea dos objectos externos, pelo orgaõ sensoreo da vista, mediante o reflexo da Luz, a qual, cahindo sobre, os mesmos objectos, se reflecte à os nossos olhos, trasendo-nos comsigo à sua imagem ([n. 15.]). Ora, se a Cor negra naõ fosse que huma privaçaõ da Luz, seguir-se-hia, que naõ poderiamos receber a idea, nem de huma columna de marmore negro, nem de qual quer outro corpo da mesma Cor: mas a experiencia mostra, que estando em justa posiçaõ duas ou mais columnas, huma de marmore negro, e as outras de marmore branco, vermelho &c. recebemos taõ clara a idea de humas, como das outras; logo o negro he huma Cor taõ positiva, como qual quer das outras, a que senaõ disputa esta qualidade; e assim naõ póde consistir na privaçaõ da Luz.

63. Alem disto, huma taboa de marmore negro, bem polida, reflecte a Luz taõ exactamente, que nella vemos as imagens dos objectos, como em hum espelho. Ora, isto naõ póde acontecer, segundo as leys da Catoptrica, senaõ nos corpos, que reflectem fielmente os rayos da Luz; logo he imphilosophico o dizer, que a Cor negra consiste na absorbencia dos rayos da luz; quando os Corpos desta Cor os reflectem igualmente, que os coloridos de Branco, Vermelho &c. De mais he provado ([§ 22.] [n. 23.]), que a Cor negra se forma da mixtura do Vermelho, e Verde; ora, se a Cor de Purpura, que se forma de Vermelho, e Azul, he huma Cor positiva; da mesma sorte o deve ser a Cor negra, que se forma pór huma similhante combinação. Hum igual raciocinio prova, que o Branco he tambem huma Cor positiva.

64. O confundir estas duas Cores, huma com a Luz, a outra com a sombra, deu lugar ás ideas commumente recebidas. He preciso, differençar a Luz, da Cor branca, e a sombra, da Cor negra. A Luz faz visiveis os objectos, com as suas qualidades; e a escuridade, produz hum effeito opposto, isto he, de naõ deixar ver cousa alguma; mas a Luz, e a obscuridade, saõ tanto a Cor branca, e negra, como a azul, e verde. Ora, nimguem diria, que estas ultimas duas Cores equivalem á Luz, ou a escuridade; da mesma sorte senaõ póde dizer isto, das duas primitivas Negro, e Branco; sabendo-se de outra sorte, o mechanismo da sua formação, pelas experiencias ([§ 16.] [17.] [19.] [22.] [n. 33.])

65. Taes saõ os Principios, que resultaõ das observaçoens, feitas sobre as experiencias Prismaticas: os quaes se achaõ inteiramente conformes, com os que resultaõ das observaçoens feitas sobre as experiencias dos Corpos coloridos ([§ 20.] [21.] [24.] [28.] [30.] [37.] [40.] [43.] [48.]); e que tem ainda em seu favor, as analogias da Natureza ([§ 26.] [29.]).

Phenomenos das Cores, explicados pelos Principios, que resultaõ das experiencias do Prisma.

66. Se as leys geraes, quando servem para explicar casos particulares, se chamaõ Principios ([n. 42.]); a explanaçaõ, ou injuncçaõ, destes Principios, he chamada theoria, ou systema; e os factos que se devem explicar com elles chamaõ-se phenomenos. Assim os Treze Principios que presenta este Tratado ([§. 20.] [21.] [24.] [28.] [30.] [37.] [40.] [43.] [48.] [n. 44.] [46.] [48.] [49.]) formaõ huma theoria, ou systema de doutrina, com a qual se podem explicar todos os phenomenos das Cores.

67. Estes phenomenos saõ de duas sortes, porque ou se manifestaõ na Luz colorida, ou nas superficies dos Corpos naturaes. Eu vou explicar hum phenomeno de cadahuma destas especies, que servirá de norma para a intelligencia de todos os outros.

68. Dos phenomenos da Luz colorida, o mais bello e magestoso, he sem duvida, o Arco Celeste, que nos tempos mais antigos fez a admiraçaõ dos homens, e tem sido cantado, com o nome de Iris, pelos mais famosos Poetas. Este phenomeno, comtudo naõ he outra cousa, que hum grande, mas identico resultado, á o da experiencia ([n. 40.]) feita, com huma Luz mediana, em huma camara obscura.

69. O sol, na vasta camara do Universo, tem lugar do rayo da sua Luz, em huma pequena camara. As gotas de agoa, de huma nuvem desfeita, ou de huma nevoa pouco densa, saõ o grande Prisma, em que se refracte, e modifica, a Luz do Sol. E a parte do Ceo coberta de nuvens, que fica opposta ao Sol, he o immenso cartaõ, onde se mostraõ as Cores; que saõ mais distinctas, ou mais confuzas, e mais ou menos em numero, segundo a obliquidade da Luz do Sol, sobre o grande Prisma por onde passa: da mesma sorte que na camara obscura, recebendo o rayo da Luz do Sol perpendicularmente sobre a face do Prisma, naõ forma no cartaõ, que quatro ou cinco Cores; e recebendo-o obliquamente, forma muitas mais.

70. Quanto á curvatura do Arco, ella procede, de que passando a Lux do Sol por hum grande angulo, qual he o das gotas de agoa, que formaõ o Prisma Celeste, se produz aquela curva da mesma sorte, que o angulo de hum Prisma de 90 gráos, reduz á curvas todas as linhas direitas ([n. 22.]).

71. Os phenomenos das Cores, que nos presentaõ as superficies dos corpos naturaes, se explicaõ da mesma sorte. Todos os Corpos saõ compostos de partes taõ subtis, como fica provado ([n. 10.] [11.] [12.] [13.] [14.]). E como naõ ha Corpo, por mais compacto que seja, que reduzido a minutissimas partes, se naõ faça diaphano; segue-se que, a respeito da Luz, que he muito mais subtil, que as minutissimas partes, de que os Corpos se compoem, se devem reputar diaphanas, e transparentes as suas superficies. Ora, como a Luz, no reflectir-se dos Corpos, tem ja passado por este meyo mais denso, e menos diaphano, que o ar; segue-se que deve ter sofrido huma, ou mais refracçoens ([n. 7.]) e que deve necessariamente, fazer-nos ver colorida a imagem dos objectos ([44.] [45.]).

72. Naõ paressa extraordinario, que as superficies dos Corpos, e ainda dos mais densos, sirvaõ de Prisma à os rayos da Luz, para se formarem as Cores. Todos os Corpos naturaes saõ compostos de dous simplez elementos, que saõ a materia vitrea, e calcarea, combinadas de mil modos differentes ([§. 3.]). Se a todos os Corpos se faz soffrer a analysis do fogo mais intenso, elles se reduzem outra vez a estas duas elementares sustancias, e a huma grande quantidade de vapor, que exhalaõ no tempo da operaçaõ. Ora, a materia vitrea, e calcarea saõ indisputavelmente transparentes, ainda a os nossos olhos, quando estaõ reduzidas a partes de huma certa grandeza: com muita mayor razaõ o devem ser sempre, a respeito das subtilissimas partes, de que a Luz se compoem.

73. Daqui se ve claramente, que a Cor Vermelha do Rubim, se forma pela concorrencia das mesmas circunstancias, que fazem parecer vermelha ametade de huma Estrella ([n. 24.]), ametade das velas de huma embarcaçaõ ([n. 32.]), ou ametade da peripheria dos circulos ([n. 35.]); e que o Verde da Esmeralda, se forma pela concorrencia das circumstancias, que fazem apparecer verde a outra ametade daqueles objectos: e assim a respeito de todas as mais Cores. Mas qual he o intrinseco mechanismo, que produz taõ admiraveis effeitos, e para que serve tanta variedade de Cores: quando no Rubim, e na Esmeralda, naõ vemos que huma mera crystalisaçaõ; e para as outras experiencias naõ concorre, que hum pedaço de vidro, pelo qual observamos, ou hum Ponto lucido em hum ambiente escuro, ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido ([n. 20.]); e quando a mayor parte dos Corpos naturaes nos seriaõ igualmente uteis, sendo, ou naõ, coloridos?—Esta he huma daquellas Questoens, de que eu já fallei no Tratado ([§. 4.]); e da qual a decisaõ depende de conhecimentos superiores, e á força dos nossos sentidos, e mesmo á efficaz penetraçaõ das nossas intellectuaes faculdades. Limitemo-nos prudentemente à os factos, e ás verdades que a imparcial, e continua observaçaõ sobre elles, nos podem procurar; e deixemos de escrutar as causas primarias e ultimas, que só podem comprehender-se, pela illimitada Sabedoria de hum SER SUPREMO.

Succinta comparação das Proposiçoens de Newton, com os Principios, que presenta este Tratado.

74. A doutrina de Newton sobre as Cores, se contem nas cinco Proposiçoens seguintes; que transcrevo na lingoa original, em que foraõ escriptas, para evitar qualquer iquivoco, que poderia recrescer, ainda da mais fiel traducçaõ.

PROPOSITIO I.

Radiis diverse refrangibilibus diversi competunt Colores.

PROPOSITIO II.

Radiorum formæ, sive dispositiones colorificæ non sunt refractione mutabiles.

PROPOSITIO III.

Colores albi & nigri, cum cinereis sive fuseis intermediis unius cujusque speciei, confusè mistis, generantur.

PROPOSITIO IV.

Primitivi Colores per compositionem Colorum sibimet utrinque confinium exhiberi possunt.

PROPOSITIO V.

Corporum naturalium Colores a genere radiorum derivantur, quos maximè reflectunt.

QUANTO á [PROPOSIÇAÕ I.]

75. Para que esta Proposiçaõ fosse evidente, seria necessario, que Newton provasse: Que a differente refrangibilidade dos rayos da Luz, que attraveçaõ o angullo de hum Prisma, provem das diversas Cores destes rayos; ou que a diversa Cor dos rayos da Luz, saõ a causa da sua refrangibilidade: o que este philosopho naõ fez certo de forma alguma. Elle vio, que os rayos da Luz, que passaõ pelo Prisma, se refrangem huns mais que os outros; e que a Cor vermelha, nas suas experiencias, corresponde à os rayos menos refrangiveis, e a Cor de purpura à os que se refrangem mais: e desta observaçaõ concluio; que a os rayos mais refrangiveis competia a Cor de purpura, è a os menos refrangiveis a Cor vermelha; e a os que ficaõ entre estes dous extremos, todas as outras Cores[26].

76. Mas, como póde huma similhante asserçaõ concordar-se com a experiencia ([n. 35.]) que nos mostra, que aquellas duas Cores taõ oppostas, competem á mesma refracçaõ. Aquelles dous circulos saõ da mesma grandeza, e estaõ entre duas parallelas; vendo-os pelo Prisma, naõ se póde duvidar, que as refracçoens, que correspondem à cadahuma destas parallelas, sejaõ as mesmas. Ora, sobre cadahuma destas parallelas se ve, ao mesmo tempo, a Cor vermelha, e amarella, no circulo branco; e a verde, azul, e purpura no circulo negro: logo naõ se póde dizer, que a os rayos menos refrangiveis compete a Cor vermelha; e à os que soffrem mayor refracçaõ, a Cor de purpura; visto que de baixo da mesma linha, e da mesma refrangibilidade, vemos estas duas oppostas Cores.

77. A diversa refrangibilidade da Luz, que passa por hum Prisma, procedera, tal vez, de outra causa. O rayo de Luz do Sol, que attraveça hum Prisma, tem sempre dentro delle a figura de hum sylindro obliquo. Ora imaginando, que o lugar, que occupa este sylindro, he composto de milhoens de subtilissimos filamentos, alinhados a o comprido, elles devem ser todos de grandezas differentes; e consequentemente os subtilissimos rayos da Luz, á o attraveçallos, haõ-de achar mayor, ou menor resistencia. Póde ser que esta seja a causa, porque, á o sahir do Prisma, se refractem huns mais, que os outros: sem que isto tenha mais rellaçaõ com as Cores, que huma bala de artilheria, que attraveça os dous bordos de huma fragata, e se refrange passando o primeiro de hum navio.

78. A formaçaõ das Cores depende, tal vez, de outro mechanismo. As duas Cores primitivas se manifestaõ, por meyo da refracçaõ ([n. 44.] [45.]); mas a formaçaõ das outras Cores depende de mais circunstancias. Da mesma experiencia ([n. 35.]), se prova esta asserçaõ. Se aquelles dous circulos, se observaõ, à o mesmo tempo, de dous pontos oppostos, então parecem a hum observador, azues ou purpureas as Cores, que à o outro observador parecem vermelhas, e amarellas; o que naõ póde nascer das refracçoens, mas sim da opposiçaõ, da Cor negra, e branca, combinadas com as que resultaõ da refracçaõ do Prisma.

QUANTO á [PROPOSIÇAÕ II.]

79. Se Newton pretende persuadir, nesta Proposiçaõ, que qualquer Cor, conciderada na Luz, ou nos corpos naturaes, depois que he formada, se naõ muda com a refracçaõ do Prisma, neste caso nada se oppoem a os Principios deste Tratado. Mas se Newton pretende persuadir, que por isso que saõ inalteraveis, se devem reputar primitivas; sejame entaõ licito fazer a seguinte reflexão. Se observamos por hum Prisma duas superficies, das quaes huma seja vermelha, e a outra de qualquer Cor das que se naõ tem por primitivas, taõ inalteravel vemos a Cor primitiva como aquella que o naõ he: e consequentemente o dizer, que algumas das Cores Prismaticas saõ primitivas, porque se naõ mudaõ com a refracçaõ, naõ tem a menor concludencia.

QUANTO á [PROPOSIÇAÕ III.]

80. Esta Proposiçaõ concorda inteiramente com os Principios, Primeiro, e Segundo ([§ 20.] [21.]); e com o Oitavo, e Nono ([n. 58.] [60.]); que saõ identicos, ainda que dedusidos de experiencias diversas. O Negro, e o Branco, contem todas as Cores; aquelle, intimamente unidas ([§ 20.] [22.] [n. 58.] [59.]); e este extremamente, divididas ([§ 19.] [21.] [n. 60.] [61.]): donde se ve, que a differença destas duas Cores, e de todo o claro-escuro, consiste só nas quantidades das Cores componentes, a respeito de huma certa massa de Luz, ou originaria, ou reflectida dos Corpos, com mais ou menos modificaçoens.

QUANTO á [PROPOSIÇAÕ IIII.]

81. O sentido desta Proposiçaõ, he dificil de comprehender, muito mais dizendo Newton, que as Cores primitivas, saõ Cores simplez. Como se póde imaginar, que sendo as Cores primitivas, elementos simplez, como o mesmo Newton as caracterisa,[27] se componhaõ das que lhes ficaõ visinhas? Parece, que este philosopho naõ chegou a formar huma idea clara das Cores primitivas; porque quando as compara com o canon armonico[28] ou escala da Musica, deixa entender, que ellas saõ sete. Quando diz, que naõ entende por Cores primitivas só as cinco Vermelho, Amarello, Verde, Azul e Purpura, mas todas as que se formaõ desta sorte,[29] deixa em duvida o numero daquellas Cores. E quando diz, finalmente, que ellas saõ simplez, e elementares, deixa entender, que se naõ podem compor de outras Cores.

82. Seria preciso ser outro que Newton, para aclarar as suas ideas, se ellas saõ confusas. Mas quem reflectir, que o seu systema he fundado em huma mera conjectura, à que deu lugar a imagem oblonga, que hum rayo de luz do Sol, tendo passado pelo Prisma, faz ver na camara obscura, se convenserá facilmente, que de taes Principios se naõ podiaõ deduzir mui claros resultados. Aquella figura, pelo que ja fica dito, naõ he a pedra de toque para conhecer o metal das Cores primitivas. (n. [37.] [38.])

83. Se, sobre o porphyro, se mixtura com agoa, e em certas proporçoens, Carmin, e Verde-distillado, forma-se a Cor de Purpura. Se se junta hum pouco mais de Verde, resulta huma especie de Azul, mui similhante à o que faz ver o Prisma. Se este Azul, e Purpura se estendem com o pincel sobre hum papel branco, e depois se tocaõ com hum pincel banhado em agoa pura, desaparecem estas duas Cores resolvendo-se em hum vermelho mais escuro, que o Carmin. Se qualquer planta, de hum bello verde, deixa de ser regada, a sua Cor natural se converte em Amarello; mas acudindo-lhe, à tempo, com agoa, recupera a sua Cor verde, desapparecendo absolutamente a amarella.

84. Se a Cor de purpura, e azul se formaõ, e se destroem, como fica dito ([n. 83.]); se a amarella se faz nascer do Verde, e se converte outra vez nelle; ([Nota XVI.]) Como se póde crer, que estas tres Cores sejaõ simplez, e primitivas?

85. As outras duas especies de Azul, e Amarello, que pretendem ver-se no Prisma, naõ podem ser, que meyas tintas das suas similhantes; por que seria contrario à o poder, e á simplicidade da Natureza, que, para formar as Cores naturaes, duplicasse os elementos da mesma especie; quando a Arte, que he mais composta e menos poderosa, que a Natureza, forma todas as Cores de huma especie, com hum so elemento, analogo a essa mesma especie, modificado com o claro-escuro, e com as outras Cores ([§. 76.] [77.])

86. Excluidas, assim, das Cores chamadas primitivas, as duas especies de Azul, e Amarello, e a Cor de purpura; segue-se, que só o Vermelho, e Verde, se pódem ter por Cores elementares, simplez, e primitivas.

87. Ja que fallei da comparaçaõ dos intervallos dos sons, e das Cores ([n. 81.]), naõ devo omittir, que ella se funda em calculos meramente hypotheticos. Os intervallos das Cores prismaticas naõ se podem exactamente medir, como o mesmo Newton confessa[30], servindo-se ainda, da palavra Grega ακριβεια, para dár huma justa idea da diligencia, que inutilmente empregou nesta operaçaõ. E os rapportos geometricos dos sons intermedios da oitava, tem taõ pouca similhança com os sons naturaes, como he notorio á todos os Proffessores da Sciencia da Musica, e a todos os Geometras[31] ([§ 5.]). Donde se ve a inconcludencia, de tudo quanto se tem escripto, neste concernente.

QUANTO á [PROPOSIÇAÕ V.]

88. Nesta Proposiçaon diz Newton, que as Cores dos Corpos naturaes provem, de que huns reflectem huma parte dos rayos da Luz, que suppoem diversamente coloridos, e os outros outra; e que assim, o Corpo, que reflecte os rayos vermelhos, apparesse vermelho; e o que reflecte os purpureos, apparesse de Cor de purpura. Se Newton tivesse provado, que na Luz existem todas as Cores, que vemos nos Corpos naturaes; e depois fizesse certa a absorbencia de huns dos seus rayos, e o reflexo de outros, teria neste caso, toda a razaõ: Mas Newton naõ prova nenhum destes antecedentes.

89. Naõ prova o primeiro, porque logo, que faz differença de Cores primitivas à derivadas ou compostas, naõ tem lugar esta Doutrina: e quanto à o segundo, pretende provalho a posteriore, o que naõ conclue, tendo em contrario os factos de huma absoluta evidencia, ja refferidos ([n. 35.]).

90. Naõ se tenha, por huma refutaçaõ da Doutrina de Newton, o que digo a respeito de cadahuma das suas Proposiçoens; mas sim por huma resposta necessaria ás objecçoens, que se poderiaõ fazer contra os Principios, que presenta este Tratado, apoyadas na recebida theoria daquelle incomparavel philosopho. Eu ja dei a razaõ, porque me affastei da sua brilhante, e plausivel hypothesis; ([§. 9.]) e me parece, que sem temeridade, antepuz hum systema simplez, e natural, à outro que o naõ he tanto, e que se funda em huma mera conjectura[32].

91. Quanto he mais conforme á sabia economia, com que a Natureza procede em todas as suas operaçoens, o estabelecer sobre reiteradas, e decisivas experiencias, e sobre convincentes analogias; que na Luz residem só duas Cores simplez, e primitivas, que saõ o Vermelho, e Verde ([§. 24.] [n. 51.]); que da sua intima uniaõ se forma o Negro ([§. 20.] [n. 58.]); que da sua extrema divisaõ nasce o Branco ([§. 21.] [n. 60.]); que das mesmas duas Cores simplez emana o Azul, e Amarello ([§. 28.] [30.]); e que em fim destas seis Cores, tomadas como elementos, se podem artificialmente formar todas as que vemos nos Corpos naturaes ([n. 51.] e seg. [§. 68.] e seg.): quanto he mais conforme, digo, á sabia economia da Natureza este systema, do que o dizer; que as Cores compostas, ou derivadas nascem da combinaçaõ de sete elementos, ou de sete Cores simplez, e que estas residem na Luz, com o poder de imprimir à os seus rayos differentes gráos de refrangibilidade.

92. Se era hum dogma constante, que os Corpos naturaes procediaõ de quatro elementos ([§. 4]); e se huma analysis mais rigorosa os reduz a duas unicas substancias simplez e primitivas ([n. 72.]); como se póde crer, sem ser mais que provado, que as Cores, que naõ saõ que meros accidentes destes Corpos ([§. 2.]), dependaõ, para a sua formaçaõ, de sete differentes elementos?

93. Os Amadores das Sciencias naturaes, à quem offereço a parte theoretica deste Tratado, se se acharem perplexos entre a novidade da Doutrina, que elle-lhe presenta, e as oppiniones recebidas, e firmadas sobre respeitaveis authoridades, e estipadas com a sancçaõ de tempo: os exhorto a por de parte toda a preocupaçaõ da authoridade, e de procurar a evidencia, que dezejaõ, na mesma Natureza, por meyo da experiencia, e de huma profunda meditaçaõ sobre os factos, que ella lhes suggerir.

NOTA VIII. [§. 13].

Antes de passar á Parte Analytica, convirá muito de ler hum par de vezes os §§. 55. athe 63. nos quaes se explica o uzo das Taboas illuminadas, de que se começa a fallar logo no principio da dita Primeira Parte.

NOTA IX. [§. 14].

Luis de Camoens no seu incomparavel Poema, OS LUSIADAS, descrevendo a vista da Ilha Namorada, que Venus presentou a os seus Heroes, pinta o mais bello quadro, que se póde ver sobre a Terra.

LIII.

. . . . . . . . .
Para lá logo a proa o mar abrio;
Onde a costa fazia huma enceáda
Curva, e quieta, cuja branca arèa,
Pintou de ruivas conchas Cytherèa.

LIIII.

Tres fermosos outeiros se mostravão
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramineo esmalte se adornavão
Na formosa Ilha alegre, e deleitosa:
Claras fontes e liquidas manávaõ
Do cume, que a verdura tem viçosa;
Por entre pedras alvas se diriva,
A sonorosa lympha fugitiva.

LV.

Num valle ameno, que os outeiro fende,
Vinhaõ as claras agoas ajuntarse,
Onde huma mesa fazem, que se estende
Tão bella, quanto póde imaginarse:
Arvoredo gentil sobre ella pende,
Como que prompto está para enfeitar-se,
Vendo-se no cristal resplandecente,
Que em fim o está pintãdo propriamente.

LVI.

Mil arvores estaõ ao Ceo subindo
Com pomos odoriferos, e bellos,
A larangeira tem no fruto lindo
A Cor, que tinha Daphne nos cabellos:
Encostase no chaõ, que estâ cahindo
A cidreira cos pesos amarellos,
Os fermosos limoẽs, alli cheirando,
Estaõ virgineas tetas imitando.

LVII.

As arvores agrestes, que os outeiros
Tem com frondente coma ennobrecidos,
Alamos saõ de Alcides, e os loureiros
Do louro Deos amados, e queridos:
Mirtos de Cytherêa cos pinheiros
De Cybele, por outro amor vencidos,
Está apontando o agudo cypariso
Para onde he posto o eterno Paraiso.

LVIII.

Os doens, que dá Pomòna, alli Natura
Produze differentes nos sabores,
Sem ter necessidade de cultura,
Que sem ella se daõ muito melhores:
As cerejas purpureas na pintura,
As amoras, que o nome tem de amores,
O pomo, que da patria Persia veyo,
Melhor tornando no terreno alheyo.

LIX.

Abre a Romãa, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu Ruby teu preço perdes,
Entre os braços do ulmeiro estâ a jucunda
Vide cũs cachos roxos, e outros verdes:
E vós se na vossa arvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregaivos ao dano, que cos bicos
Em vós fazem os passaros iniquos.

LX.

Pois a tapessaria bella e fina,
Com que se cobre o rustico terreno,
Faz ser a de Achemenia menos dina,
Mas o sombrio valle mais ameno:
Alli a cabeça a flor Cefisia inclina,
Sobolo tanque lucido, e sereno,
Florece o filho, e neto de Cyniras,
Porquem tu Deosa Pafia, inda suspiras.

LXI.

Para julgar dificil cousa fora,
No Ceo vẽdo, e na terra as mesmas Cores
Se dava às flores cor a bella Aurora,
Ou se lha daõ a ella as bellas flores:
Pintando estava alli Zefiro e Flora
As violas da Cor dos amadores,
O lirio roxo, a fresca rosa bella,
Qual reluze nas faces da donzella.

LXII.

A candida Cecem das matutinas
Lagrimas rociada, e a Manjarona;
Vem se as letras nas flores Hyacintinas,
Taõ queridas do filho de Latona:
Bem se enxerga nos pomos e boninas,
Que competia Cloris com Pomona;
Pois se as aves no ar cantando voaõ,
Alegres animaes o chaõ povoão.

LXIII.

Ao longo da agoa o niveo Cisne canta,
Responde lhe do ramo Filomella,
Da sombra de seus cornos naõ se espanta,
Acteon n'agoa cristalina, e bella:
Aqui a fugace Lebre se levanta
Da espessa mata, ou timida Gazella,
Alli no bico traz ao caro ninho
O mantimento o leve passarinho.

Canto 9.

NOTA X. [§. 16. 17].

Aindaque a Cor, que resulta da mixtura do Vermelho, Azul, Verde, e Amarelo, combinados em partes iguaes, ou somente da mixtura do Vermelho, e Verde, combinados nas proporçoens das [Tab. VI]. n. 3. [VIII]. 3. [X]. 3. [XII]. 3. naõ seja huma Cor taõ escura, como o negro mais carregado, que se pode formar; naõ deixa com tudo de ser huma Cor composta de claro escuro, similhante à Cor de chumbo, ou Cor de cinza, que se compoem de Negro, e Branco, sem que nella domine alguma das Cores, de que se compoem. Isto he quanto basta, para ter lugar o argumento, que se forma sobre esta experiencia; e para ser bem fundada a inducçaõ que della se tira. O mesmo Newton comvinha em que a Cor branca, a Cor de cinza, e a Cor negra eraõ a mesma cousa, e só differiaõ entre si, em ter huma mais luz que as outras.

NOTA XI. [§ 21].

Veja-se a [Tab. XIIII]., e a sua explicaçaõ § 62.

NOTA XII. [§. 22].

Esta experiencia prova com toda a evidencia, que as Cores primitivas, e originarias saõ unicamente duas, a saber, o Vermelho, e o Verde. Por quanto, se da mixtura destas duas Cores resulta a mesma Cor, que provem do Vermelho, Azul, Verde e Amarello (naõ fallo do Negro, e Branco, porque estas só contribuem para o claro escuro) seguesse, que o Azul, e o Amarello se contem no Vermelho, e Verde, pois que na mixtura destas quatro Cores, naõ tem o Azul, e Amarello influencia alguma: o, que tambem se acha comprovado com as mais naturaes analogias.

NOTA XIII. [§. 25].

Opitz, fallando do Homem, diz:

Die Welt, das grosse Buch, aus deren Thun und Wesen.
Er von demselben kann auf allen Blaettern lesen.

Vesuv.

NOTA XIIII. [§. 27].

Quanto mais obliquamente cahem os rayos da luz sobre a superficie de algum meyo, tanto mais forte, e mayor he a sua refracçaõ. Daqui vem que a Luz de Sol entrando obliquamente na atmosphera da terra, quando aquelle luminar coincide com o horizonte, padece huma refracçaõ mais sensivel, que faz ver huma Cor, em que domina o Vermelho, a qual se desvanece à proporção, que o Sol se eleva sobre o horizonte, e se deminue a obliquidade da luz. Por hum similhante mechanismo se formaõ todas as mais Cores. A Azul de que se trata neste §., bem se vè, que he produsida da mera refracçaõ da Cor da Aurora.

Homero caracterisa admiravelmente esta decantada Cor nos seguintes versos.

Ηυς μεν κροκοπεπλος απ᾽ Ωκεανοιο ροαων Ωρνυθ᾽, ιν αθανατοισι φοως φεροι ηδε βροτοισιν. Iliad. liv. XIX. v. I.

O Licor alkalino phlogisticado, de que se compoem o Azul de Prussia, se prepara com o sangue dos animaes; e unindo-se ou mixturando-se com vetriolo de Marte, produz a Cor azul. Naõ he só no reyno animal, que o ferro produz este effeito. O páo do Brasil, que em agoa natural, larga huma Cor vermelha, metendo-o de infusaõ em agoa ferrea, dá huma Cor azul, como a de Anil. O Dr. Sehort falla munto desta experiencia; e eu a fiz algumas vezes analysando agoas mineraes. A affinidade destas duas Cores, Vermelho, e Azul, se prova ainda, em rasaõ inversa, do constante facto, que o Azul dos vegetaes se muda em Vermelho, por meyo dos ácidos mineraes, e vegetaes.

NOTA XV. [§. 29].

Milton, no Liv. VII. do Paraiso Perdido, nos presenta todos os Vegetaes, sahindo da maõ do Creador, ornados da agradavel Cor de Verde, que nelles geralmente domina:

He scarce had said, when the bare earth, till then
Desert and bare, unsightly, unadorn'd,
Brought forth the tender grass, whose verdure clad
Her universal face with pleasant green,
Then herbs of every leaf, that sudden flour'd
Op'ning their various colours, and made gay
Her bosom smelling sweet: and these scarce blown,
Forth flourish't thick the clustring vine, forth crept
The smelling gourd, up stood the cornie reed
Embattell'd in her field: and the humble shrub
And bush with frizl'd hair implicit: last
Rose as in dance the stately trees, and spred
Their branches hung with copious fruit; or gemm'd
Their blossoms: with high woods the hills were crown'd
With tufts the vallies and each fountain side,
With borders long the rivers. That eart now
Seem'd like to heav'n, a seat where Gods might dwell,
Or wander with delight, and love to haunt
Her sacred shades . . . . . . .

NOTA XVI. [§. 30].

Os mesmos Vegetaes, no estado da sua decadencia, passaõ da Cor verde á amarela. Assim no-los-pinta o Author do Poema, Les Saisons, que naõ he menos habil Physico, que bom Poeta.

L'Automne a des couleurs qui manquoient à l'été
Dans ces champs variés, l'or, le pourpre & l'opale
Sur un fond vert encor brillent par intervalle,
Et couvrent la forêt qui borde ces vallons
D'un vaste amphithéatre étendu sur les monts.
L'arbre de Cerasonte au gazon des prairies
Oppose l'incarnat de ses branches flétries.
Quelles riches couleurs, quels fruits délicieux
Ces champs & ces vergers présentent à vos yeux!
Voyez, par les zéphirs la pommone balancée,
Echapper mollement à la branche affaissée
Le poirier, en buisson courbé sous son trésor,
Sur le gazon jauni rouler des globes d'or,
Et de ces lambris verts attachés au treillage
La pêche succulente entraîner le branchage.
Les voilà donc ces fruits qu'ont annoncé les fleurs,
Et que l'été brûlant mûrit par ses chaleurs!

L'Autom.

O Verde, que geralmente domina em todos os vegetaes, he indestructivel: e assim o Amarello, que delle nasce, he huma Cor apparente que, com a mayor facilidade, se converte outra vez em Verde. ([Nota VII. n. 83.]) As experiencias de M. Macquer provaõ concludentemente esta asserçaõ. Elle se explica desta sorte: L'expériencie prouve que la couleur verte des plantes s'altere facilment, & même se change en un fauvebrun . . . . quoique cette couleur verte se change & disparoisse même ainsi totalement, elle n'est pourtant point détruite pour cela, & qu'on peut, par le moyen des menstrues, séparer & extraire la partie verte des plantes seches qui n'ont plus la moindre apparence de verd.

Dicc. de Chym. V. Fecules des plantes.

NOTA XVII. [§. 35].

Home. Element. de Crit. Introduc.

NOTA XVIII. [§. 42].

Euler Carta 133., e 134.

NOTA XIX. [§. 44].

M. l'abbé Nollet, Leç. de Phys. expériment. Leç. XX. Proposit. 2. & Leç. XXI.

NOTA XX. [§ 45].

A respeito da força do Rayo, nada se póde ler mais emphatico, que os seguintes versos de Klopstock

So, wenn auf unerstiegnen Gebirgen ein nahes Gewitter
Furchtbar sich lagert, so reisst sich eine der naechtlichsten Wolken,
Mit den mersten Donnern bewaffnet, entstammt zum Verderben,
Einsam hervor. Wenn andre den Wipfel der Zeder nur fassen,
Wird sie von einem Himmel zum andern waldichte Berge,
Wird hochthuermende meilenlange Koenigs-staedte
Tausendmal donnernd entzuenden, und sie in Truemmern begraben.

O Mess. Cant. IIII.

Naõ se pode descrever mais energicamente o horroroso phenomeno de huma Errupçaõ Vulcanica, doque o faz Opitz nos seguintes Versos.

. . . . Der Naechte Mittag macht
Die Wiesen nie so schwarz, wann des Gestirnes Pracht
Im dicken Nebel steckt, als dieser Dampf sich zeiget,
Der, wie ein Fichtenbaum, hoch von der Wurzel steiget
Mit dicken Aesten aus, dieweil der Asche Last
Sich in die Breite giebt. Bald koemmt ein solches Krachen,
Als wann der Jupiter mit Donner in die Sachen
Der schnoeden Menschen schlaegt, dass aller Grund der Welt
Erzittert, oder auch, im Fall ein kuehner Held,
Der vor die Freyheit steht, und seine grosse Thaten
Auf gute Sache pflanzt mit feurigen Granaten
Ergrimmet um sich wirft, und zwinget eine Stadt,
Die noch an Billigkeit der Waffen Zweifel hat,
Zu glauben, was ihr dient. Die Hitze bricht zusammen
Durch eine rauhe Bahn mit ihren wilden Flammen,
Wirft schreklicher Gestalt des Berges Glieder aus,
Und jaget mit Geschrey bis an des Himmels Haus
Den stinkigten Morast von dessen schwarzen Sande,
Der Pech und Schwefel haelt, kein Ort im ganzen Land
Sich frey und sicher weiss. Es springet auch ein Fluss
Des Feuers aus der Kluft, dem alles wrichen muss,
Indem er seinen Lauf in sieben Stroeme the ilet,
Und dem Gestade zu mit heissem Rauschen eilet,
Dass Thal und Hugel brennt; der Acker wird verheert,
Das Vieh, so weiden will, von Flammen selbst verzehrt,
Die Graeser Heu gemacht, die schattenreihen Waelder
Vom Grunde fortgefuehrt, und die Phlegraeerfelder
Sind nichts als lauter Glut; das alt Herculan
Das lustige Castell, genannt Octavian,
Viel Flecken voller Frucht und Doerfer stehn in Brand,
Die Wasser fuerchten sich, und fliehen von dem Lande,
Das Volk, so nicht erstickt und gar wird fortgerafft,
Kommt Athemloss daher, beraubet aller Kraft,
Lahm, nackend und halb todt, und fuellt mit Weh und Zagen
Den ganzen Himmel an, der gleichsam mit ihm klagen,
Und auch sich kuemmern muss.

NOTA XXI. [§. 47].

As diversas Cores, que a luz do Sol faz ver nas nuvens, quando as illumina obliquamente, estando vesinho a o horizonte, se achaõ bellamente descriptas nos seguintes versos:

Mais les sombres vapeurs qui retardoient l'aurore
S'entr'ouvrent aux rayons du Soleil qui les dore;
L'astre victorieux perce le voile obscur
Qui nous cachoit son disque & le celeste azur;
Il se peint sur les mers; il enflamme les nues;
Les grouppes variés de ces eaux suspendues,
Emportés par les vents, entassés dans les cieux,
Y forment au hasard un chaos radieux.

Les Sais. Prin.

NOTA XXII. [§. 49].

Os Poetas mais famosos fallaraõ todos, do admiravel, e bello phenomeno do Arco Celeste, nas suas metricas composiçoens. Homero lhe atribue a Cor de ouro:

Ιριν δ᾽οτρυνε χρυσοπτερον αγγελεουσαν,
Iliad. liv. XI. 185.

Vergilio lhe atribue mil Cores:

Mile trahit varios adverso Sole Colores.
Eneid.

Milton lhe da só tres Cores:

. . . . and in the cloud a bow
Conspicuous, with three listed Colours gay,

Paris. Perd. Liv. XI.

O Pescoço da Pomba, e a Cauda do Pavaõ, saõ bellos objectos, que igualmente merceraõ de ser cantados pelos melhores Poetas. Lucrecio os pinta no seguinte modo:

Pluma Columbarum quo pacto in Sole videtur:
Quae sita cervices circum, collum que coronat:
Namque aliàs fit uti rubro sit clara Pyropo:
Interdum quodam sensu fit, uti videatur
Inter caeruleum virideis miscere smaragdos.
Cauda que Pavonis, larga cum luce repleta est,
Consimili mutat ratione obversa Colores.
Qui, quoniam quodam gignuntur luminis ictu,
Scilicet id sine eo fieri non posse putandum est.

Lib. II. de Rer. Nat.

Tasso, imitando talvez este bello original, pinta os mesmos phenomenos no seguinte modo:

Così piuma talor, che di gentile
Amorosa Colomba, il collo cinge,
Mai non si scorge a se stessa simile,
Ma in diversi Colori al Sol si tinge,
Or d'accesi rubin sembra un monile;
Or di verdi smeraldi il lume finge;
Or insieme gli mesce: e varia, e vage
In cento modi i riguardanti appaga.

Gerusal. Liberat. Cant. XV. 5.
Nè 'l superbo pavon sì vago in mostra
Spiega la pompa dell'occhiute piume,
Nè l'Iride si bella indora, e inostra
Il curvo grembo, e rugiadoso al lume:

Canto XVI. 24.

NOTA XXIII. [§. 66].

Este methodo he applicavel à todo o genero de Pintura, e o será mesmo às Manufacturas, e Tinturarias de Algudaõ, e Seda &c.

Para a Miniatura, e para Lavar Planos, se preparaõ as Cores na forma do §. 15. e de que se junta no Vocabulario à respeito de cada huma destas Cores: e a o Carmin, se deve juntar alguma gomma, para o unir melhor.

Na Pintura a Oleo, à Cola, e a Fresco, se devem empregar Cores de mais corpo, e relativas a cada hum destes generos.

Na Pintura à Pastel se pode trabalhar só com as seis Cores elementares; mas para compor os Lapis de differentes Cores, naõ he preciso outra cousa, que fazer seis maças ou bolos das Cores elementares, e com estas compor, nas respectivas proporçoens, os Lapis que se quiserem.

Nas Tinturarias se devem preparar cinco tintas elementares em caldeiroens diversos, e depois fazer as mixturas na proporçaõ das Taboas. N. B. Deve advertir-se que o Linho, Algudaõ &c. sejaõ bem exprugados antes de se lhe dar a tinta; porque de outra sorte as Cores se alterariaõ consideravelmente.

Em todos estes generos se devem ter presentes as Taboas de combinaçaõ; e deve tambem ter-se o mayor cuidado, em que as Cores elementares sejaõ do mesmo gráo, e força, para que os resultados conrespondaõ sempre a o que se dezeja.

N. B. Por Cores elementares da Pintura, se devem entender sempre o Vermelho, o Azul, o Verde, o Amarelo, o Negro, e o Branco, que saõ os elementos de todas as Cores materiaes, que se empregaõ nos trabalhos Coloridos. E por Cores primitivas, e originarias, se devem ter sómente o Vermelho, e o Verde.

FIM.


CORRECÇOENS.

ESTÁ ESCRITO.DEVE LER-SE.
[Pag. 7. §. 10.]*Este sinal he de mais.
[Pag. 12. §. 15.]disolvi em cinco conchas as seguintes Cores:dissolvi em cinco conchas as seguintes Cores: ([Nota XXIII.])
[Pag. 34. §. 60.]Amarela,Amarello,
[Pag. 78. n. 10.]gráograõ
[Pag. 99. n. 45.]E como a Luz nasce e augmentaE como as Cores nascem, e augmentaõ
[Pag. 110. n. 64.]das duas primeiras Vermelho, e Verde:das duas primitivas Negro, e Branco;
[Pag. 115. n. 73.]quando os corpos naturaesquando a mayor parte dos corpos naturaes
[Pag. 120. n. 77.]os rayos da luz,os subtilissimos rayos da luz,
[Pag. 125. n. 84.]([Nota XII.])([Nota XVI.])
Pag. 138. [Nota XIII.]BlattrnBlattern
[Pag. 142.]he inalteravel:he indestructivel:

No [Vocabolario] faltaõ as Cores, Branco-de-Chumbo, Purpura, e Ultramarino. Quanto á primeira destas Cores, ella he o mesmo que Alvaiade, V. [Alvaiade]. A segunda he huma Cor especifica do [Vermelho], V. [Tab. V]. [VII]. [IX]. [XI]. 1. A terceira finalmente, que se faz de lapis lazuli, se acha discripta na Cor, [Azul], e [Azul de Prussia], onde se póde ver.