TRATADO DAS CORES.
PARTE SEGUNDA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS DAS CORES.
Como nesta Segunda Parte se trata da composiçaõ das Cores, e esta ou he feita pela Natureza, ou pela Arte; pede o methodo que ella seja dividida em duas Secçoens. Na primeira se exporá o mechanismo, de que se serve a Natureza, para com duas Cores unicas, ornar taõ diversamente o seu vasto imperio. Na segunda porem se assignará o modo, com que a Arte deve combinar estas duas Cores, com quatro outras, para imitar todas as Cores naturaes.
SECÇAÕ PRIMEIRA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS NATURAL DAS CORES.
§ 34. Assim como o reyno animal, e vegetal nos presentaõ as duas Cores primitivas, e dominantes, assim tambem o reyno mineral, que he principalmente composto da quelles dous, nos offerece huma infinita variedade de Cores, com que se achaõ embellecidas todas as obras da Natureza. E para conhecermos o modo, com que ella formou esta admiravel variedade de Cores, consideremos os meyos, que devem necessariamente concorrer para recebermos as suas sensaçoens.
§ 35. O Sentido da vista, assim como he o mais espiritual[19] dos sinco, pelos quaes recebemos todas as impressoens das causas externas, he tambem o que depende demais circunstancias, para se formarem as suas sensaçoens. A luz, os corpos naturaes, e o orgaõ sensorio da vista, saõ de absoluta necessidade, para se cooperar este fim: e he em todos estes meyos, ou em parte delles, que devemos procurar a formaçaõ das Cores; para o que eu passo a considerallos em particular.
§ 36. He indubitavel, que as qualidades secundarias dos corpos consistem em certos accidentes, que inherem a os mesmos corpos. E se o orgaõ sensorio recebe a sensaçaõ das qualidades primarias dos corpos, que indubitavelmente existem fóra delle; da mesma sorte recebe a impressaõ das suas secundarias qualidades, que tambem existem fóra delle com os corpos que as sustem. Neste concludente raciocinio se estabelece o seguinte Principio.
SEXTO PRINCIPIO.
§ 37. O orgaõ sensorio da vista nada contribue para a formaçaõ das Cores; as quaes sendo qualidades secundarias dos corpos, existem com elles, fóra de nós mesmos.
§ 38. Naõ contribuindo assim o orgaõ sensorio nada mais para a formaçaõ das Cores, do que huma camara obscura, onde os objectos se representaõ já coloridos; ponhamos de parte esta divisaõ, e passemos a examinar os phenomenos, que os corpos naturaes nos presentaõ a respeito das mesmas Cores.
§ 39. Se tomamos hum papel branco, e fazemos sobre elle as experiencias da luz do Sol affectada da Cor da Aurora, achamos que o mesmo papel, quasi no mesmo instante, nos presenta quatro Cores differentes. Antes da experiencia, e vendo o papel sem ser ao Sol elle nos presenta a sua Cor branca e natural. Expondo o mesmo papel ao Sol, o vemos tincto de huma especie de Cor de roza. Fazendo cahir sobre elle a sombra de huma palheta de marfim, ou de qualquer outro corpo semelhante, nas circunstancias do § 27, entaõ nos faz ver ou huma Cor de Azul claro, ou hum Branco mais escuro que a sua propria Cor. E resultando estes diversos phenomenos da mesma luz, do mesmo papel, e de huma observaçaõ feita em hum momento, sem que na superficie do papel possa ter acontecido alguma alteraçaõ, segue-se outro Principio.
SEPTIMO PRINCIPIO.
§ 40. A Diversidade das Cores naõ resulta só da differente contextura dos corpos naturaes; pois que sobre huma superficie homogenea vemos, ao mesmo tempo, diversas Cores.
§ 41. Consideremos agora os phenomenos da luz, os quaes necessariamente nos haõ de dar toda a clareza, que ainda falta a esta indagaçaõ.
§ 42. Se a luz se propaga por continuaçaõ, ou por contiguidade, isto he, se ella consiste em rayos, que partem em linha direita dos corpos lucidos athe os objectos illuminados; ou se consiste somente em huma continuaçaõ de urtos das molleculas ethereas, causada pela rotaçaõ do Sol, ou vivo movimento, que existe em todos os corpos lucidos: he huma questaõ que eu deixo a decidir aos partidistas de Euler, e de Newton[20]; e qual quer que seja a sua decisaõ, naõ offenderá nada este systema. A luz terá sempre a qualidade de nos fazer visiveis os corpos, e de affectar-se de mil modos differentes, pelo reflexo, e refracçaõ, que sofre urtando contra os mesmos corpos. E como a luz he huma substancia clara, refraccivel e reflexivel, onde residem as Cores primitivas; mas que naõ as manifesta, nem as combina e varía senaõ por meyo do reflexo e refracçaõ, com que se modifica, urtando os corpos naturaes: e este reflexo e refracçaõ devem ser diversos segundo a differente contextura dos corpos, a qual naõ he mais homogenea em especies diversas; segue-se outro Principio.
OITAVO PRINCIPIO.
§ 43. As Cores originarias e primitivas, e as que dellas nascem e se compoem, necessitaõ para se manifestar e compor, e da luz, e da diversa contextura dos corpos, que as refringem, e reflectem.
§ 44. A Natureza da luz, e das Cores seraõ sempre taõ desconhecidas, como a natureza do espirito, e da materia; mas as propriedades da luz, e das Cores, nós as podemos conhecer de hum certo modo. A luz he huma substancia subtilissima, em que residem as duas Cores primitivas, como no puro ether reside o fogo electrico. O fogo electrico naõ se manifesta, sem que se perca o equilibrio, ou se descomponhaõ as molleculas, ou sejaõ pequenas partes do ether que o contem: perdido o equilibrio, por mil causas diversas, o fogo se faz visivel, por outros tantos modos differentes[21].
§ 45. O Fogo do rayo, a que nenhum corpo natural póde resister, he o mesmo fogo, que nos gabinetes de physica se faz sahir impunemente da ponta dos nossos dedos; e que em huma bella noute, illumina pacificamente o horizonte. O fogo, que faz jogar as batarias de hum navio de tres pontes, he o mesmo, com que os artilheiros fumaõ sensualmente o tabaco. O incendio de huma casa nasce do mesmo fogo, que nutria seu dono, e o aquentava. O Etna, e hum graõ de polvora naõ differem que nas grandezas. Os horrorozos phenomenos dos Vulcanos[22], e hum agradavel fogo de artificio, naõ differem senaõ nas quantidades. Basta de exemplos: e deixo tambem de trazer outra similhante analogia tirada dos dous sons, de que se compoem todas as lingoas, toda a sorte de canto, e harmonia, por ser inteiramente superfluo.
§ 46. A Respeito das Cores vemos na Natureza o mesmo mechanismo. Os rayos da luz illuminaõ os corpos naturaes, e pela opposiçaõ que encontraõ urtando os mesmos corpos, se descompoem em tantos modos diversos, quanto he differente a sua superficie; e entaõ se manifestaõ as duas Cores primitivas, ou puras, ou combinadas de mil modos differentes; e quanto mais heterogeneos saõ os corpos, que a luz encontra, tanto mais irregular he a refracçaõ, e tanto mais composta he a Cor que della resulta.
§ 47. A luz affectada de huma refracçaõ recebe sempre huma Cor, mais ou menos sensivel, a qual conserva sem alteração alguma, athe novamente se descompor, com o encontro, de outros corpos. A lux do Sol, por exemplo, chega á superficie da atmosphera da Terra, sem receber talvez alteraçaõ alguma; mas apenas entra na atmosphera do nosso Globo começa a refringir-se e a descompor-se, e nos manifesta huma Cor azul com alguma mixtura de Verde, que he a Cor do Ceo. Se a mesma luz, ao nascer do Sol, encontra os vapores, que ordinariamente cobrem o horizonte, se descompoem novamente, e nos faz ver huma Cor, que participa do Amarello e Vermelho, que he a Cor da Aurora. Esta Cor se conserva, athe que a luz toque a superficie da Terra, onde no mar, e grandes maças de agoa, se descompoem como na atmosphera, em huma Cor azul, mais ou menos verde, segundo o movimento ou altura da agoa: e cahindo sobre a superficie secca de nosso Globo, entaõ se descompoem em tantos modos differentes, quantas saõ as diversas organisaçoens dos corpos naturaes; da mesma sorte que encontrando sobre o horizonte nuvens de differentes configuraçoens, no las faz ver diversamente coloridas. Donde resulta o ultimo e fundamental Principio[23].
NONO PRINCIPIO.
§ 48. As Duas Cores primitivas, que residem na luz, se manifestaõ pela descomposiçaõ, que a mesma luz padece urtando os corpos naturaes: e todas as outras Cores, de qual quer genero que sejaõ, resultaõ da differente combinaçaõ das duas primitivas, nascida das diversas refracçoens, com que a luz se modifica, tocando a superficie dos corpos.
§ 49. Com estes simplez, e naturaes principios, fundados todos sobre exactas observaçoens, naturaes analogias, e repetidas experiencias, se explicaõ todos os phenomenos das Cores. O Prisma, o Iris, o pescoço da Pomba, a cauda do Pavaõ[24] &c., saõ phenomenos identicos, que resultaõ da mera descomposiçaõ da luz, nascida da differente contextura das partes, de que se compoem a quelles corpos.
§ 50. Athequi a Synthesis da Natureza. Passemos agora a ver como a Arte com as duas Cores primitivas, e quatro outras que dellas immediatamente se derivaõ, póde formar todas as Cores necessarias para, em qualquer genero de trabalho colorido, se imitarem as decoraçoens do Universo.
SECÇAÕ SEGUNDA,
QUE CONTEM A SYNTHESIS ARTIFICIAL DAS CORES.
§ 51. A Sabia Natureza só com as duas Cores primitivas, que residem na luz, e se variaõ ao infinito, por meyo de huma prodigioza combinaçaõ, nos faz ver todos os corpos de differentes especies, coloridos diversamente. A Arte porem, menos poderosa que a Natureza, tem necessidade, para imitar as suas admiraveis obras, de quatro outras Cores, nascidas immediatamente da quellas duas; isto he do Azul, que vem do Vermelho; e do Amarelo, que se produs do Verde; do Negro, que consiste na soma do Vermelho, e Azul, do Verde, e Amarelo; e do Branco, que se manifesta pela divisaõ destas mesmas Cores: de sorte que a Natureza executa, em hum instrumento de duas cordas, toda a harmonia das Cores, que a Arte só póde executar em hum de seis.
§ 52. A formaçaõ das Cores consiste em hum simplez, e puro mechanismo. Mudar a superficie dos corpos, ou alteralla, he o mesmo que mudar, ou alterar a Cor dos mesmos corpos. Mudada a contextura, muda-se a refracçaõ, e muda-se a Cor.
§ 53. Os Corpos ou tem a mesma contextura, em toda a sua massa, ou só na sua superficie. Hum cubo de marmore branco, partido em pedaços, mostrará sempre a Cor branca; mas hum pedaço de páo branco tingido de vermelho, se o fendermos, nos prezentará interiormente a sua Cor branca, e natural; e a alteraçaõ, que se tinha feito na sua superficie, applicando-lhe a Cor vermelha, fazia que toda a massa apparecesse desta Cor, sendo realmente branca.
§ 54. A Arte de Colorir naõ se versa senaõ a respeito das Cores superficiaes; e he o modo de achar toda a sorte de Cores, ou de mudar toda a sorte de superficies, que faz a materia desta secçaõ.
§ 55. O Mechanismo das Cores se contem da [Taboa I]. athe [XIII]. das quaes a explicaçaõ he a seguinte.
§ 56. Todas as ditas Taboas contem duas sortes de numeros, hum Romano, no angulo direito superior, que marca a Taboa; e outro Arabico sobre os circulos coloridos, que indica a figura: de sorte que toda a vez que se achar, por exemplo, [IIII]. 1. quer dizer Taboa quarta n.º 1., que he o mesmo que dizer, que de partes iguaes de Vermelho, e Azul resulta huma especie de Cor de purpura.
§ 57. Todas as figuras constaõ de duas partes, antecedente, e consequente: a parte antecedente saõ os elementos, de que se formaõ as Cores; e a consequente he a Cor, que resulta dos antecedentes: por exemplo [Tab. IIII]. n. 1. o antecedente he o Vermelho, e Azul, e o consequente he a Cor de purpura, que nasce delles: e assim em todas as mais.
§ 58. O Consequente he sempre hum, mas os antecedentes podem ser de dous athe seis. A [Tab. IIII]. mostra antecedentes de dous; a [Taboa II]. [III]. mostra antecedentes de tres; e a [I]. de quatro e de cinco. Nas pinturas a oleo, onde a Cor branca se combina com todas as outras Cores, pode o antecedente ser de seis.
§ 59. Os Antecedentes, ou se combinaõ em partes iguaes, ou em differentes proporçoens. A [Tab. I]. [II]. [III]. [IIII]. offeressem antecedentes combinados em partes iguaes; e as outras athe [XII]. os mostraõ combinados em differentes proporçoens. As [Tab. V]. [VI]. mostraõ os antecedentes combinados em proporçaõ de ½; a [VII]. [VIII]. em proporçaõ de ⅓; a [IX]. [X]. em proporçaõ de ¼; [XI].[ XII]. em proporçaõ de ⅕.
§ 60. A [Taboa XIII]. faz ver, que, na combinaçaõ das duas Cores primitivas, e dominantes, Vermelho, e Verde, com as outras quatro, em partes iguais, os resultados saõ sempre affectados da Cor vermelha, e verde; mas que a vermelha he mais forte que a verde: porque nos resultados numeros 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7., que provem de antecedentes, em que a Cor vermelha se combina com o Azul, Verde, Amarello, e Negro, domina sempre a Cor vermelha. Porem nos numeros 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14., que provem de antecedentes em que a Cor verde se compara com o Vermelho, Azul, Amarello, e Negro, há dous resultados em que domina a Cor vermelha, e saõ os 8. 12.; e somente cinco em que domina o Verde; donde se ve que das duas Cores primitivas, e dominantes, a mais poderosa he a vermelha.
§ 61. Nesta mesma Taboa se vem Cores de cinco especies, ou graos diferentes. O numero 1. vem da combinaçaõ dos seus respectivos antecedentes Vermelho, e Azul; e o n.º 2. vem do Vermelho, e Verde combinados em partes iguaes: O n.º 5. vem da combinaçaõ do n.º 1. 2. tambem em partes iguaes: e o n.º 7. procede da combinaçaõ do n.º 5. 6. na mesma proporçaõ, e assim em todos os mais.
§ 62. A [Tab. XIV]. he feita á imitaçaõ da [Tab. XIII]., e se póde chamar a Taboa da somma, e divisaõ das Cores; porque as seis Cores n.º 1. 2. 3. 4. 5. 6. unidas em partes iguaes, produsem a Cor escura, ou negra n.º 7. E divididas estas seis Cores, por meyo de repetidas combinaçoens, athe o oitavo grao, tomando os consequentes, ou resultados do primeiro grao, por antecedentes ou elementos do segundo, e procedendo desta mesma sorte athe o oitavo, entaõ se vem as ditas seis Cores resolvidas na Cor clara ou branca n.º 43.
§ 63. As [Tab. A], [B], [C], [D] são como hum index de todas as outras. A letra A, por exemplo, indica a [Tab. A]. Os numeros Romanos desta Taboa indicaõ as Taboas notadas com os numeros Romanos: e o numero Arabico indica as figuras das respectivas Taboas.
§ 64. Isto supposto, eisaqui o modo, com que se podem formar, com a mayor facilidade, todas as Cores, que presentaõ as Taboas [A], [B], [C], [D].
§ 65. Preparadas as Cores elementares, como fica dito § 15., se queremos imitar huma Cor natural, que seja similhante á Cor verde [Taboa A]. IIII. 8. procuramos a [Tab. IIII]. n.º 8. e acharemos, naõ só a Cor verde procurada, mas que ella se forma de partes iguaes de Verde, e Amarello. Se quisermos imitar a Cor de violeta, ou purpura [Tab. A]. IIII. 1. procuraremos a [Tab. IIII]. n.º 1. onde acharemos a Cor desejada, e que ella se compoem de partes iguaes de Vermelho, e Azul: e para achar a composiçaõ de todas as mais Cores, de que se compoem as [Tab. A], [B], [C], [D], se procederá da mesma sorte.
§ 66. Por este methodo, só com os exemplos, que se vem nas Taboas, se formaõ cento e vinte Cores, capazes de se empregarem como Cores locaes, e suceptiveis de trez graos de força, isto he, de escuro, meya tinta, e claro, o que faz trezentas, e sessenta meyas tintas diversas. E para formar muitas outras, se procederá da mesma sorte, ordenando Taboas á imitaçaõ das que se presentaõ; tomando por antecedentes cinco, ou seis Cores especificas, isto he, das de que se compoem as [Tab. A], [B], [C], [D], o que produsirá huma infinita variedade de Cores, que todas se compoem das duas primitivas Vermelho, e Verde; e das quatro, que destas immediatamente se derivaõ, i. e. Azul, Amarelo, Negro, e Branco[25].
§ 67. Tal he a Synthesis artificial das Cores, que tanto desanima os Dilectantes, e que por tantos annos embaraça os Artistas; a qual por este methodo se comprehende, e se executa em poucas horas. Passemos a Terceira Parte.