VOCABULARIO DAS CORES,

que contem a explicaçaõ das Cores mais conhecidas, indicando a similhança, que algumas dellas tem com as das Taboas [A], [B], [C], [D], e o modo com que todas se pódem imitar, com os elementos da [Tab. XIIII]. n. I. II. III. IIII. V. VI.

A

Alvaiade, Cor especifica do branco. O Alvaiade se faz de chumbo, assim como o branco de chumbo; mas he menos fino, e delicado, que este: e se forma em pequenos paens de huma libra, pouco mais ou menos. Elle encorpora todas as Cores, com que se mixtura.

Amarello, Cor generica derivada. O Amarello he a Cor mais clara depois do [Branco], e naõ he que hum [Verde] degenerado. Esta Cor tem differentes tintas, taes saõ a [Gomma-gutta], a [Ocre commua], a [Ocre escura ou de Ruth], a [Terra de Italia], o Amarello de Napoles, o [Massicote] claro, e o Massicote escuro, o [Stil de Troyes], o [Stil de Inglaterra], o [Ouropimenta claro], e [Ouropimenta escuro], e a [Pedra de fel], cujos elementos se acharão ao pé de cadahuma destas tintas.

Anil, Cor especifica do [Azul]. O Anil dá hum Azul muito escuro similhante ao que presenta a [Tab. C]. XI. 7. e se póde imitar exactamente, proporcionando as quantidades dos elementos do dito n.º 7.

Azul, Cor generica derivada. O Azul naõ he outra cousa, que huma degradação do [Vermelho]. Esta Cor tem diversas tintas, a saber, o [Azul de Prussia], o [Ultramarino], o [Esmalte], as [Cinzas azues], e o [Anil]. O Ultramarino se deve ter, como o Azul elementar, com o qual se pódem imitar todas as especies desta Cor, mixturando mais ou menos [Negro], ou [Branco]. Com o Azul de Prussia naõ se póde bem imitar o Ultramarino, mas faz-se huma especie de Azul celeste, que se lhe avisinha muito; porem todas as outras tintas desta especie se imitaõ bellamente com o Azul de Prussia.

Azul de Prussia, Cor especifica do [Azul]. O Azul de Prussia he o mais bello depois do [Ultramarino]: eu o tomei por Cor elementar [Tab. XIV]. n.º 3. por naõ ter achado do bom Ultramarino. Com o Ultramarino se imita esta Cor, juntando-lhe hum pouco de [Negro]; mas com o Azul de Prussia se imitaõ todas as outras especies de Azul. Para a Miniatura, e illuminaçaõ, he melhor dissolvello em vinagre branco distillado, doque em agoa; por que esta o escurece muito, conservando-lhe a quelle a sua Cor viva, e natural. Deve juntarse-lhe, para o uso, alguma gomma, e açucar candi, para o unir melhor.

B

Branco, Cor generica derivada. Ella resulta da divisaõ, ou por dizello assim, da rarefacçaõ das duas Cores primitivas, e das que se derivaõ immediatamente dellas, como se ve da [Tab. XIIII]. n.º 43. Esta Cor se associa com todas as outras, de qual quer genero, ou especie que sejaõ, para produsir huma grande variedade de tintas differentes. Rompendo-se sobre huma palheta o Branco, e o [Negro], em differentes proporçoens, se forma toda a sorte de Cores cinzentas. Se se praticar o mesmo com as outras quatro Cores elementares, se terá com a mayor facilidade, hum grande numero de tintas, das quaes se poderão escolher as melhores para a pratica da pintura. A Cor branca naõ tem lugar na illuminaçaõ: porquanto, ainda que se junte em pequena quantidade com as outras Cores, as encorpora, e lhes faz perder o diaphano, que devem ter para este genero de colorido, no qual, se póde dizer, que a agoa, e o branco do papel tem lugar da Cor de que se trata. Alem disto o Branco he de diversas sortes, a saber, [Branco de chumbo], [Alvaiade], [Cal], e [Gesso], os quaes se buscaraõ nos seus respectivos lugares.

Bistro, Cor especifica do [Vermelho]. O Bistro se faz de ferrugem das chamines; e se póde imitar com os elementos da [Tab. III]. n.º 8.

C

Carmim, Cor especifica do [Vermelho]. A base desta Cor he a [Cochenilha]. Eu a tomei por Cor elementar [Tab. XIIII]. n.º 2. e ella he de grande uso na Miniatura, e indespensavelmente necessaria na illuminaçaõ dos planos.

Cal, Cor especifica do Branco. Ella se faz de marmore calcinando, e o seu mayor uso he nas pinturas a fresco.

Cinabro, Cor especifica do [Vermelho]. O Cinabro ou he natural, ou arteficial; aquelle se acha nas minas de ouro, e de prata, e este se compoem de azougue, e enxofre. Parece-se muito com a Cor [Tab. A]. IIII. 2., e se pode imitar com os seus elementos.

Cinzas Azues, Cor especifica do [Azul]. Veja-se [Esmalte].

Cinzas Verdes, Cor especifica do [Azul]. Chamaõ-se Cinzas verdes, porque desbotaõ em verde. Veja-se [Cinzas Azues].

Cochenilha, Cor especifica do [Vermelho]. A Cochenilha he hum pequeno insecto dessecado, que se exporta da America, em pequenos graõs concavos de huma parte, e convexos da outra. Ella se emprega para tingir de escarlate, e purpura: e ella faz a base do [Carmin], e da [Laca] composta.

E

Esmalte, Cor especifica do [Azul] [C]. XI. 6. O Esmalte he feito de vidro azul, moido em pó subtilissimo; e quando he mais groceiro, se chama [Cinzas azues]. Esta Cor se parece com o [Ultramarino], ainda que naõ seja taõ fina; ella póde imitar-se com o [Azul de Prussia], mixturando-lhe hum pouco de [branco de chumbo].

F

Ferrete de Espanha, Cor especifica do [Vermelho]. Elle se tira das minas, em huma especie de agulhetas pontudas, e rajadas de negro, e he entaõ muito escuro; mas depois que se reduz em pó, se faz de hum Vermelho como sangue. O que se tira nas minas de Inglaterra naõ he em agulhetas, nem taõ duro como o de Espanha. Elle se póde imitar com os elementos da [Tab. IIII]. n.º 8.

G

Gomma-gutta, Cor especifica do [Amarello]. Esta Cor se faz da gomma de huma arvore, que crece na India. Eu a tomei por Cor elementar [Tab. XIII]. n. 5; porque he susceptivel de todas as variaçoens da sua especie: naõ he preciso disolvella em agoa de gomma, sendo ella gommada naturalmente.

Gesso, Cor especifica do [Branco]. O Gesso se faz de huma pedra, de mediocre duresa, calcinada. O Gesso he menos bello que o [Alvaiade]; e se póde imitar com este, escurecendo-o hum pouco de [Amarello], e [Negro].

L

Laca, nome commum a muitas especies de maça; que se impregaõ na pintura. Mas o que se chama propriamente Laca he huma materia gommosa, e resinoza que vem da India. Assim a Laca he huma Cor especifica do [Vermelho], [Tab. C]. XI. 1. e se póde imitar exactamente, mixturando-lhe alguma cousa de [branco].

M

Massicote, Cor especifica do [Amarello]. O Massicote se faz de [Alvaiade] queimado, e segundo o grao de fogo, que se lhe da, he mais ou menos carregado. Elle se póde imitar com o elemento [Tab. XIIII]. n.º 5. juntando-lhe mais ou menos [Branco].

Minium, Cor especifica do [Vermelho]. O Minium se faz de chumbo calcinado. Parecesse muito com a Cor [Tab. C]. XI. 2. e se imitará exactamente com os seus elementos, juntando-lhe alguma cousa de [Branco de chumbo].

N

Negro, Cor generica derivada. Pela experiencia [Tab. I]. n.º 2. elle se compoem de partes quasi iguaes de [Vermelho], [Azul], [Verde], e [Amarello], ou por melhor dizer, de partes desiguaes de Vermelho, e Verde; pois que pelas experiencias [Tab. VI]. [VIII]. [X]. [XII]. n.º 3. se prova com a mayor evidencia, que no Vermelho, e Verde se contem o Azul e Amarello. O Negro, assim como as outras Cores genericas, he de muitas sortes; taes saõ o [Negro de fumo], o [Negro de pessego], o [Negro de Alemanha], o [Negro de marfim], o [Negro de osso], e a [Tinta da China], os quaes se pódem ver nos seus respectivos lugares.

Negro de Alemanha, Cor especifica do [Negro]. O Negro de Alemanha he huma terra natural, que dá hum negro azulado, de que se servem os Impressores. Elle se póde imitar com os elementos da [Tab. X]. n.º 7.

Negro de Cortiça, Cor especifica do [Negro]. Elle se faz com o carvão de Cortiça, e dá hum Negro mui ligeiro, com hum tom de azul, que se avisinha ás Cinzas do [Ultramarino]; e póde imitar-se com os elementos da [Tab. VIII]. n.º 7.

Negro de Fumo, Cor especifica do [Negro]. Ella se faz do fumo de termentina; e para ser de melhor uso, deve calcinar-se sobre huma lamina de ferro; mas ainda assim se associa mal com as outras Cores, e as destroe; de sorte que he de pouco uso na pintura.

Negro de Marfim, Cor especifica do [Negro]. Elle se faz de raspaduras do marfim, humedecidas com oleo de linhaça, e queimadas em hum vazo hermeticamente tapado. Este he o mais bello Negro, que se possa empregar na pintura.

Negro de Osso, Cor especifica do [Negro]. Elle se faz de ossos de animaes, e da mesma sorte, que o Negro de marfim. V. [Negro de marfim].

Negro de Pessego, Cor especifica do [Negro]. Elle se faz com o carvão de caroços de pessegos, redusidos a pó subtil.

O

Ouropimenta, Cor especifica do [Amarello]. O Ouropimenta claro se avisinha muito á Cor da [Tab. C]. XII. 2. elle he composto de arcenico, e enxofre; e se pode imitar exactamente com os elementos da [Tab. XII]. n.º 2, proporcionando as quantidades.

Ouropimenta Escuro, Cor especifica do [Amarello]. Ella he similhante á Cor da [Tab. VIII]. 2. e se póde bem imitar com os seus elementos.

Ocre Commua, Cor especifica do [Amarello]. Ella he huma terra ferruginosa, que se acha nas minas de chumbo, e de cobre. Assimilha-se muito á Cor da [Tab. C]. XII. 2., e se póde compor com os seus elementos.

Ocre de Ruth, ou Ocre Escura. Cor especifica do [Amarello]. Ella se acha natural, nas minas de diversos metaes; ou se compoem da Ocre commua, por meyo da calcinaçaõ. Parece-se muito com a Cor da [Tab. B]. VIII. 2., e se póde formar com os seus elementos.

P

Pedra de Fel, Cor especifica do [Amarello]. Ella se póde compor com os elementos da Cor [Tab. A]. III. 8, tomando por base o Amarello, e mixturando-lhe hum quasi nada de [Negro], e hum pouco mais de [Vermelho].

S

Stil de Inglaterra, Cor especifica do [Amarello]. Ella he mais escura, que o [Stil de Troyes], e pode imitar-se com os elementos da [Tab. III]. n. 8.

Stil de Troyes, Cor especifica do [Amarello]. Ella se compoem de huma terra cretacea, tincta com o Amarello de Avinhaõ; e pode imitar-se com os elementos da [Tab. III]. n.º 8. mixturando com o Amarello, muito pouco [Negro], e [Vermelho].

T

Tinta da China, Cor especifica do [Negro]. Esta Cor, que se exporta da China, em pequenos páos, he a melhor para dessenhar, e para lavar planos; para o que se dissolve em agoa pura, sobre huma palheta, ou em huma concha. Eu a tomei por Cor elementar, [Tab. XIIII]. n.º 1. por que se associa com todas as outras Cores.

Terra Verde, Cor especifica do [Verde]. Esta Cor parece-se muito com a da [Tab. B]. V. 10, e se póde exactamente imitar com os seus elementos.

Terras Vermelhas, Cores especificas do [Vermelho]. Estas Cores se formaõ todas com os elementos da [Tab. A]. III. 8.

Terra de Italia, Cor especifica do [Amarello]. V. [Ocre de ruth].

Terra de Colonia, Cor especifica do [Vermelho]. Esta Cor he muito escura, e para a sua composiçaõ se devem tomar os elementos da [Tab. A]. III. 8. juntando, à mayor quantidade de [Negro], as outras duas Cores.

V

Verde, Cor generica primitiva, e dominante em todo o reyno vegetal. O mais bello verde, e que se pode chamar Verde elementar, he o Verde distillado, ou seja [Verdete] [Tab. XIIII]. n.º 4., que he huma especie de ferrugem do cobre. A agoa pura naõ o dissolve, he necessario para isto servir-se de qualquer acido vegetal. O çumo de limaõ azedo, ou o vinagre branco distillado, saõ os melhores, que se pódem empregar. Esta Cor tem muitas tintas differentes, assim como, Verdete, [Verde montanha], [Verde bexiga], [Verde azul], [Verde-pé de pato], [Verde Iris], os quaes se pódem ver nos seus lugares.

Verdete. Veja-se [Verde].

Verde Azul, Cor especifica do [Verde]. Esta Cor he hum mineral, que participa do Verde, e [Azul], tirando hum tanto para o escuro; e se póde imitar com os elementos da Tab. III. n. 10., mixturando pouquissimo [Negro].

Verde Bexiga, Cor especifica do [Verde]. Esta Cor tira algum tanto para [Amarello] escuro, e se compoem de produçoens do reyno vegetal. Ella póde imitar-se com os elementos [Tab. II]. n.º 5. mixturando mui pouco [Negro].

Verde Iris, Cor especifica do [Verde]. Ella se compoem das flores de Lirio; e se póde imitar com os elementos da [Tab. XI]. n. 8.

Verde Montanha, Cor especifica do [Verde]. Ella se faz de huma certa area fina, que se tira das montanhas de Hungria, e Moldavia. Ella póde imitar-se com os elementos da [Tab. XII]. n.º 6. mixturando hum pouco de [branco de chumbo].

Verde-pé de pato, Cor especifica do [Verde]. Ella se póde imitar com os elementos da [Tab. VII]. n.º 8.

Verde de Saxonia, Cor especifica do [Verde]. Ella se compoem dos elementos do Verde-azul, com o qual se parece inteiramente. V. [Verde-azul].

Vermelho, Cor generica primitiva, e dominante em todo o reyno animal. Ella tem hum grande numero de tintas differentes, taes saõ, a [Laca], [Vermelho escuro], [Vermelhaõ], [Ouropimenta], [Carmim], e toda a sorte de [Terras vermelhas]; as quaes se podem ver nos seus lugares.

Vermelhaõ, Cor especifica do [Vermelho]. O Vermelhaõ ou he natural, ou artificial. O artificial se faz de azougue, e enxofre; e póde imitar-se com os elementos da Tab. VIII. n.º 2., mixturando-lhe, para o encorporar, hum quasi nada de [branco de chumbo].

Vermelho escuro ou Vermelho de Inglaterra, Cor especifica do [Vermelho]. Elle he huma terra natural, de Cor Vermelha leonada. Esta Cor he mui terreste, e se chama tambem Ocre vermelha. Ella póde imitar-se com os elementos da [Tab. III]. n.º 8. mixturando, de mais, hum pouco de [branco de chumbo].


NOTAS
E
ILLUSTRAÇOENS.


NOTAS
E
ILLUSTRAÇOENS.

NOTA I. [§ 1].

Lock. Essay concernig. Hum. Understan. Lib. 2.º Cap. 8. § 8. e seg.

NOTA II. [§ 2].

Locke define as qualidades primarias dos corpos: Qualities thus considered in Bodies, are, such as are utterly inseparable from the Body, in what Estate soever it be; e as secundarias: Such Qualities, which in truth are nothing in the Objects themselves, but Powers to produce various Sensations in us by their primary Qualities. O que Locke chama poderes, eu o chamo accidentes, por importar o mesmo, e naõ necessitar de mais extensas explicaçoens.

NOTA III. [§ 4].

La solidité & l'arrangement actuel de la terre sont l'ouvrage des eaux, des corps organisés & du laps de temps. Les végétaux & les animaux ont fertilisé la croûte superficielle de la terre que nous cultivons. Les eaux y sont venues à plusieurs reprises. M. Baume Chim. expér. & rais. T. I. p. 123. Paris. 1773. Póde ver-se M. de Buffon, e Lineus, sobre a formaçaõ da Terra.

NOTA IV. [§ 5].

Aristoxenes pretendia, que os principios da Musica dependessem unicamente do bom ouvido, e de hum exacto discernimento. Αναγεται, diz elle, δ᾽η πραγματεια εις δυο. εις τε την ακοην, και εις την διανοιαν. τη μεν γαρ ακοη κρινομεν τα των διαστηματων μεγεθη. τη δε διανοια θεωρουμεν τας τουτων δυναμεις. E mais à baixo: Τω δε μουσικω σχεδον εστιν αρχης εχουσα ταζιν η της αισθησεως ακριβεια. L. 2. dos Element. Harmon. Pitagoras porem deduzia os mesmos principios do proporcional diametro, peso, ou grandeza, do corpo sonoro. Nicomacho, depois de referir as observaçoens de Pitagoras sobre os sons e as diversas applicaçoens da sua Doutrina à differentes instrumentos, diz: Και συμφωνον ηυρισκενεν απασι και απαραληπτον την δι᾽ αριθμου καταληπσιν. Encherid. Harmon. L. I. Póde ver-se tambem Euclides na sua geometrica Secçaõ do Canon, onde a Doutrina de Pitagoras se explica com a mayor claresa.

NOTA V. [§ 7].

As definiçoens de Aristoteles quasi todas saõ confusas; e a que nos deixou das Cores, he verdadeiramente sua. Elle define assim as Cores: Χρωμα δε εστι του διαφανους εν σωματι ωρισμενω περας: o que he mais de pressa a definiçaõ da superficie colorida, que da mesma Cor. Este sophista pretendia persuadir, que as Cores eraõ inseparaveis dos corpos, como as suas primarias qualidades; o que he absolutamente inadmissivel, por ser contrario à todas as experiencias.

NOTA VI. [§ 8].

Euler combate, no modo seguinte, a opiniaõ de Cartesio a respeito das Cores. Des Cartes, der zuerst dem Muth hatte, die Geheimnisse der Natur zu erforschen, erklaerte die Farben aus einer gewissen Vermischung des Lichts und des Schattens. Aber da der Schatten ein blosser Mangel des Lichts ist, indem er sich allenthalben befindet, wo das Licht nicht hindurchdringen kann, so siehet man wohl, dass das Licht mit einem Mangel des Lichts vermischt, die verchiednen Farben nicht hervorbringen koenne, die Wir an den Koerpern wahrnehmen. Breif 133.

NOTA VII [§ 9].

Dos numeros, que na presente Nota se acharem entre (), os que forem precedidos do sinal §. se referem ao Tratado: e os que tiverem antes de si hum n. indicaõ os numeros desta mesma Nota.

Como a Doutrina de Newton sobre as Cores he principalmente fundada nas experiencias do Prisma, e estas dependem da combinaçaõ da Luz com os Corpos naturaes: faz-se indespensavel, para comparar os Principios, que presenta este Tratado com as Proposiçoens do Philosopho Inglez, o dizer preventivamente alguma cousa a respeito da quellas duas substancias, e dos phenomenos, que resultaõ da sua combinaçaõ, por meyo das prismaticas experiencias.

Da Luz.

2. A Luz consiste em pequenissimas partes de materia, que de hum corpo lucido, sahem em todas as direcçoens. Segundo o calculo do Dr. Niewentit, em hum segundo de tempo, sahem 418, 660, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000, 000 partes de Luz de huma vela accesa; o qual numero contem, ao menos, 6, 337, 242, 000, 000 vezes, o numero de grãos de area, que conteria toda a Terra, suppondo, que cem grãos de area saõ iguaes à huma polgada de comprido, e que consequentemente, cada polgada cubica da Terra conteria hum milhaõ dos ditos grãos.

3. Se a Luz he taõ admiravel pela sua subtileza, naõ o he menos pela sua velocidade. Em hum segundo de tempo, ella corre 164 mil milhas, ou 50 mil legoas; vindo a ser desta sorte 1, 230, 000 vezes mais ligeira que huma bala de artelharia, que corre 600 pes, em hum minuto segundo: o que he innegavelmente certo, pelas observaçoens dos Satellites de Jupiter, feitas das duas oppostas extremidades do Orbito da Terra.

4. Quando as pequenas partes, de que se compoem a Luz, sahem de hum corpo luminoso, como o Sol, ou huma vela accesa, se propagaõ sempre em linha direita: o que se prova evidentemente do constante facto, que os corpos lucidos deixaõ de ser visiveis, pela interposiçaõ dos corpos opacos; como as Estrelas fixas, pela interposiçaõ da Lua, e dos Planetas; e o Sol em todo, ou em parte, pela interposiçaõ da Lua, de Mercurio, e de Venus.

5. Os rayos da Luz naõ só se propagaõ em linha direita, mas se encrusaõ huns pelos outros, sem que se confundaõ. Se em huma lamina subtil, de qual quer materia opaca, fazemos hum buraco, que naõ seja mayor, que hum ponto, e por elle observamos de noute os Ceos, vemos huma multidaõ de Estrellas, cujos rayos de Luz, sem confusaõ alguma, se crusaõ todos no buraco, por onde os observamos: o que demonstrativamente prova esta asserçaõ.

6. Aquella ley he innalteravel, quando a Luz passa por hum meyo de igual densidade; mas quando a Luz atravessa hum meyo, de huma densidade differente da quella, donde partio, neste caso se rompe ou quebra, avisinhando-se mais, ou menos, da perpendicular.

7. Os Rayos da Luz cahindo obliquamente de hum meyo mais raro, ou mais diaphano, sobre outro mais denso, ou menos transparente, como do Ar sobre o crystal, se avisinhaõ da perpendicular, tirada do ponto da incidencia, à angulos direitos, sobre a superficie do meyo mais denso; a qual se chama superficie rompente. Se, ao contrario, o rayo passa de hum meyo mais denso a hum, que o he menos, como do crystal a o Ar, no romper-se, se affasta da perpendicular. A primeira refracçaõ, chama-se refracçaõ á perpendicular; e a segunda, refracçaõ da perpendicular.

8. Quanto mais obliquamente os rayos da Lux cahem sobre qualquer meyo, tanto mayor he a refracçaõ. Assim a refracçaõ da Luz do Sol, a o nascer, ou ao por-se, he a mayor; por que ella fere mais obliquamente a superficie da atmosphera da Terra: e á proporçaõ que o Sol se eleva sobre o horisonte, diminue a obliquidade, e a refracçaõ, athe que no ponto culminante deste Astro, se reduzem à nada; como se prova pelas Taboas das refracçoens do Sol, da Lua, e das Estrellas, calculadas pelos melhores Geometras. He quanto basta à respeito da Luz.

Dos Corpos.

9. Sendo a verdadeira essencia dos Corpos absolutamente desconhecida, naõ se póde dar huma justa definiçaõ daquillo, que se chama Corpo. E como agora se naõ falla dos Corpos, que relativamente á luz, e a o sentido da vista, póde chamar-se Corpo tudo aquillo, que he capaz de ser illuminado pela Luz, e visto com os nossos olhos.

10. Os Corpos, assim considerados, devem ser tidos como hum aggregado de minutissimas partes de materia, e mesmo divisiveis ao infinito. Se consideramos, de huma parte, huma esphera de materia solida, que toque com o equator as duas Estrellas Anthares, e Aldebaram; e com os polos, no Norte, o Dragao, e a Dourada, no Sul: he indubitavel, que, por calculo, se póde redusir esta immensa esphera a partes taõ pequenas, como hum graõ de area. Se, de outra parte, consideramos huma esphera, que naõ tenha, que meyo pé de diametro, he igualmente indubitavel, que o calculo da primeira esphera se póde applicar á segunda; da mesma sorte que a escala, de huma carta de navegaçaõ, mede huma grande parte do Oceano; ou, que huma esphera armilar, de meyo pé de diametro, representa todo o systema do Mundo. Ora como as partes, que correspondem á ultima divisaõ da pequena esphera, haõ de ser a hum grão de area, na mesma proporçaõ, em que meyo pé está a o diametro da grande esphera; o qual he taõ grande, que segundo as observaçoens, e calculos de Bradley, huma bala de artilheria, a razaõ de 600 pés por segundo, de duas legoas por minuto, de 120 legoas per hora, de 2880 legoas por dia, e de 1,051,200 legoas por anno, deve gastar 2,000,000,000,000, de annos para o correr: segue-se, que as partes, que correspondem á ultima divisaõ da pequena esphera, saõ de tal pequenez, que naõ basta toda a força do entendimento humano, para as comprehender. Mas eu deixo estes calculos abstractos, aindaque exactissimos, para fazer ver athe onde póde chegar a physica divisaõ da materia.

11. Hum fio de seda, de 300 pés de comprido, naõ pesa mais de hum grão: ora, huma polgada he divisivel em 600 partes visiveis, sendo cadahuma dellas da subtileza de hum cabello finissimo; logo hum fio de seda, que naõ pesa mais que hum grão, pode physicamente dividir-se em 2,592,000 visiveis partes.

12. O ouro he o mais ductivel e maleavel de todos os metaes. De hum grão de ouro tem-se feito hum fio de 500 pés de comprido, o qual physicamente se podia dividir em partes visiveis 3,600,000.

13. Hum grão de Anil, ou de Azul de Prussia, he divisivel, por experiencias incontestaveis, em 24,788,000,000 partes, todas claramente visiveis.

14. Segundo o calculo de Niewentyt, a Eolipila resolve, pela actividade do fogo, huma onça de agoa, em mais de 13,365,000,000 partes. Basta isto, para dar huma justa idea da divisibilidade da materia, e para fazer conhecer, que qualquer corpo se compoem de minutissimas partes, que entresi coherem por huma ley da Natureza, ou por hum admiravel, e occulto mechanismo, que as theorias mais reflexivas naõ tem pódido athegora descobrir.

Da Luz, e dos Corpos, considerados juntamente.

15. Quanto, pois, á materia de que se trata, podem todos os Corpos ser divididos em lucidos, e opacos. O Sol, as Estrellas fixas, a Luz de huma vela &c., pertencem a os primeiros; a Terra, todos os Planetas, e qualquer producçaõ dos tres reynos da Natureza, pertencem a os segundos.

16. Os Corpos lucidos podemos considerallos, como outros tantos centros de immensas espheras de Luz; pois que a propagaõ em todas os direcçoens. O Sol he igualmente visivel, das duas oppostas extremidades, do vastissimo Orbito de Herschel; e o fanal de hum navio he igualmente visto, de todos os que o circundaõ sobre a linha do horisonte. A Luz, encontrando na esphera da sua actividade hum Corpo opaco, he por elle reflectida à os nossos olhos, e excita em nós a idea desse Corpo, formando-nos a sua pintura na retina. E como os Corpos saõ visiveis de todas as partes, a Luz deve ser reflectida por elles em todas as direcçoens. Assim os Corpos opacos tambem se devem ter, como huns centros de Luz reflectida, que delles se propaga em todas as direcçoens, que os mesmos Corpos saõ visiveis.

17. Mas, dos Corpos lucidos à os opacos, ha huma consideravel differença, a qual consiste, em que os primeiros naõ tem sombra alguma de si mesmos, sendo os centros absolutos de outras tantas espheras de Luz propria, que delles parte ao mesmo tempo: em lugar que os segundos, naõ sendo, que centros parciaes de huma Luz precaria, a reflectem só de huma parte da sua massa, proporcionadamente á incidencia dos rayos de Luz, que recebem dos Corpos lucidos; ficando a outra parte obscurecida com a sua propria sombra.

18. Tal he o caso de Mercurio, de Venus, e da Lua, na sua opposiçaõ, ou na sua conjunçaõ com o Sol. No primeiro caso, estes Planetas nos reflectem a Luz, que recebem do grande Luminar, e nos deixaõ ver ametade da sua massa illuminada. No segundo caso, porem, interceptando a Luz do Sol, nos presentaõ a parte obscurecida, com a sua propria sombra, a qual se distingue bem, quanto a Mercurio, e Venus, quando passaõ pelo disco do Sol; e quanto á Lua, ou poucos dias antes, e depois da sua conjunçaõ, ou quando nos eclipsa a Luz do Sol. Mas basta de preliminares; passemos ao nosso Ponto.

Dos Prismas, e das Prismaticas experiencias.

19. Quando as pequenas partes, de que a Luz se compoem ([n. 2]), cahem sobre qualquer Corpo opaco, e saõ por elle reflectidas a os nossos olhos, naõ só nos excitaõ a idea da figura desse Corpo, dessenhando-no-la na retina ([n. 16]); mas tambem no-la-pintaõ, com huma quasi incomprehensivel, e harmonica variedade de bellissimas, e differentes Cores. Mas, de todas estas, as mais vivas, e resplandecentes saõ, as que nos offerecem as experiencias do Prisma.

20. Prisma, geometricamente fallando, he hum solido, do qual duas faces oppostas saõ dous planos iguaes, e parallelos, sendo todas as outras faces parallelogrammos. Chama-se Πρισμα, Prisma, do verbo Grego Πριω, que significa serrar, ou cortar: e effectivamente o Prisma he huma figura truncada, que parece o segmento de outro Corpo. Porem, relativamente á Luz, e ás Cores, o Prisma he hum instrumento triangular, de grandeza indefinida, e de huma materia diaphana, pelo qual se observa, ou hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro; ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido.

21. Estes Prismas saõ, ordinariamente, feitos de crystal branco; mas como he dificil o achallos desta materia, bastantemente grandes para se fazerem as experiencias, podem se os mesmos compor de vidros brancos, lizos, e delgados, unindo-lhes as junturas com betume, e enchendo-os de agoa pura, ou colorida, segundo o genero das experiencias, que se quiserem fazer.

22. Eu os fiz construir de todas as figuras, e com angulos de 10 gráos athe 90, mas a experiencia me mostrou, que os melhores Prismas, para observar, saõ os triangulares equilatros. Os de 45 gráos, ainda saõ bons. Os de angulos menores, naõ mostraõ bem as Cores: e os que excedem 60 gráos, ainda que mostraõ as Cores mui vivas, e fortes, desfiguraõ os objectos, curvando muito todas as linhas direitas.

23. Os Prismas, com que fiz as minhas experiencias, eraõ feitos de vidros brancos, lizos, e delgados, unidos com betume de cera, e resina; e da figura, grandeza, e cor seguinte.

Primeiro. Equilatro triangular, de 6 polgadas de comprido; e os parallelogrammos, de duas de largo; cheyo de agoa crystalina.

Segundo. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Carmim.

Terceiro. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Azul de Prussia.

Quarto. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Verde distillado.

Quinto. Da mesma figura e grandeza; cheyo de tintura de Açafraõ, que substitui á Gomma-Gutta, por esta dar huma tintura muito opaca, que naõ deixava passar os rayos da Luz.

Sexto. Da mesma figura, e grandeza; cheyo de tintura de Nankim.

Settimo. Hum parallelipipedo rectangulo, de duas polgadas de base, e seis de alto; cheyo de agoa pura.

Taes eraõ os Prismas com que procedi ás seguintes experiencias.

Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto lucido, circundádo de hum ambiente escuro.

24. Como, de todos os pontos lucidos, circumdados de hum ambiente escuro, os mais brilhantes saõ as Estrellas fixas, he por ellas que eu principiei as minhas experiencias. Regulus, Castor, a α do Cocheiro, Procyon, Cyrius, Rigel, a α de Orion, e Aldebaram, eraõ à o mesmo tempo visiveis, quando eu as observei, pelos seis primeiros Prismas ([n. 23]). O Prisma acromatico, por este entendo sempre o que he cheyo de agoa crystalina, fazia ver cadahuma destas Estrellas, como huma piramide de Luz, da qual a base era vermelha, e o resto verde. Com os Prismas coloridos, se alteravaõ alguma cousa estas duas Cores, fazendo-se mais, ou menos escuras; mas naõ se destruiaõ. O Prisma amarello naõ as alterava, mas antes as reforçava mais, que o branco.

25. A longitude geocentrica de Jupiter era, neste tempo, de 2 S. 24 G. e alguns minutos; e a de Marte, de 3 S. e quasi 27 G. consequentemente eraõ ambos visiveis, com as sobreditas Estrellas; achando-se o primeiro na constellaçaõ de Gemini; e o segundo na de Cancer. Observei pelos mesmos Prismas estes dous Planetas, e me deraõ as mesmas figuras, e as mesmas Cores, que as Estrellas fixas.

26. A lua, no tempo da sua opposiçaõ, vista pelo Prisma acromatico, se reduz a huma figura oblonga, que termina mais em ponta, de huma parte, que da outra; e deixa ver cinco Cores na ordem seguinte: Vermelho, Amarello, Verde, Azul, e Purpura. Exceptuado o Prisma amarello, todos os outros coloridos, alterando mais, ou menos estas Cores, as conservaõ todas; mas, o Prisma amarello, reforçando a Verde, e a Vermelha, destroe todas as outras.

27. Feitas estas mesmas experiencias sobre a Luz de huma vela, ou sobre hum pequeno circulo branco, de qualquer materia, posto sobre hum fundo escuro, como hum chapeo, ou qualquer seda, ou pano negro, se vem os mesmos resultados, que nos numeros precedentes: e assim qualquer outra experiencia que se faça, neste genero, será huma pura repetiçaõ das que ficaõ referidas.

Experiencias do Prisma, feitas sobre hum Ponto escuro, circundado de hum ambiente lucido.

28. Se, no meyo de huma janella aberta, se suspende huma pequena esphera, de qual quer materia opaca, observando-se da parte da sombra, a huma proporcionada distancia, com o Prisma acromatico, entaõ se ve huma figura oblonga, apparentemente diaphana, e colorida, de baixo em alto, na ordem que se segue: Amarello, Vermelho, Azul escuro, algum reflexo de Purpura, e Verde, que saõ, justamente, as mesmas Cores ([n. 26.] [27.]), com a differença, de se mostrarem em huma ordem diversa. Se esta experiencia se faz com o Prisma amarello, todas estas Cores se reduzem a Vermelho, e Verde; occupando o Vermelho a parte inferior da esphera, e o Verde a superior: o que he bem o contrario, do que succede nas experiencias do Ponto lucido, em hum ambiente escuro.

29. Se, sobre huma folha de papel branco, pomos hum circulo de seda negra, ou de qual quer outra cousa da mesma Cor, vemos o mesmo phenomeno ([n. 28]), que he sempre inaltaravel em similhantes circumstancias.

Outras Experiencias do Prisma.

30. Se observamos, pelo Prisma acromatico as nuvens, que em differentes formas, cobrem o Ceo, da parte do horisonte, à o nascer, ou à o pòr do Sol, vemos, que as pequenas nuvens brancas nos presentaõ somente a Cor Vermelha, e Verde: a primeira, da parte donde recebem a Luz; e a Verde da parte opposta. As nuvens densas, e escuras, nos presentaõ da parte donde recebem a Luz, a Cor amarella e vermelha; e da parte opposta, as Cores azul, e verde; e em certas circunstancias, a Cor de Purpura: e quando as nuvens, assim coloridas, passaõ humas pelas outras, levadas por diversas correntes de ar, entaõ vemos, que as suas Cores se mixturaõ, e formaõ outras Cores diversas. Se giramos o Prisma, de sorte que os rayos da Luz cáhiaõ mais obliquamente sobre a sua face, que primeiro os recebia quasi perpendiculares, todas aquellas Cores se vaõ incorporando humas nas outras, e finalmente se reduzem a huma faxa de Cor mui forte, da qual ametade he vermelha, e a outra parte verde.

31. No ver huma Cidade illuminada, pela Luz do Sol, succede o mesmo. Os profis, dos edificios illuminados apparecem vermelhos, e amarellos; e os da parte da sombra, apparecem azues, e verdes, com algum reflexo de Purpura: mas girando o Prisma, como na experiencia ([n. 30]) todas estas Cores, e as que se tivessem composto da sua mixtura, se reduzem a duas, Vermelho, e Verde. O mesmo succede, se fazemos naturalmente a observaçaõ com o Prisma amarello. Obtem-se este mesmo resultado, observando da mesma sorte, de dentro de huma camara, as vidraças, as persiannas, ou a luz, que entra irregularmente pelas janellas mal fechadas.

32. A linha do horizonte, no mar, observada com o Prisma acromatico, se ve sempre de hum Verde mais, ou menos carregado, segundo os differentes reflexos da Luz, e o estado da superficie da agoa. As ondas mostraõ sempre a Cor Vermelha, e Verde; e o mesmo succede ás velas dos navios, e principalmente das pequenas embarcaçoens.

33. Fazendo, de hum terraço elevado, diversas observaçoens sobre as Cores, vi casualmente ao pòr do Sol, que as velas de hum moinho de vento, que me ficava à poente, pareciaõ compostas, ao comprido, de dous panos, hum vermelho, e outro verde, quando ellas estavaõ horizontalmente situadas. Quando, porem, se avisinhavaõ da perpendicular, começavaõ estas duas Cores a confundir-se, de sorte que, justamente na perpendicular, se resolviaõ em huma especie de nuvem, ou sombra muito escura, a qual se desvanecia á proporçaõ, que as velas se avisinhavaõ utraves da linha horizontal; em cuja situaçaõ recuperavaõ as duas primeiras Cores, e na mesma ordem, sempre inalteravel i. e. o Vermelho na parte inferior, e o Verde na superior.

34. Tambem outra casuàlidade me fez, em hum dia de vento fresco, encontrar com o Prisma, huma destas bandeiras, que em la se costumaõ pendurar nas ruas, para indicar festas mais solemnes. O vento a movia em todas as direcçoens; e muitas vezes a tinha suspensa horizontalmente. Vendo-a pelo Prisma nesta situaçaõ, parecia huma larga fita, ametade vermelha, e a outra ametade verde, e quando ondeava irregularmente, entaõ se via nascer destas duas Cores muitas outras que desapareciaõ todas, quando a bandeira tornava á situaçaõ horizontal: e neste caso se recolhia ás duas, de que se tinhaõ formado.

35. Se, em hum quarto de papel branco, colamos hum circulo de seda negra, de tafetá, por exemplo, e se, em hum pedaço de tafetá, desta mesma Cor, colamos hum circulo de papel branco, da mesma grandeza do primeiro; e pomos estas duas figuras, de sorte que os dous circulos fiquem em justa posiçaõ, hum ao lado do outro, e como comprehendidos entre duas parallelas: observando-os, pelo Prisma acromatico, os vemos coloridos com as mesmas Cores; mas em huma ordem diametralmente opposta. O circulo branco mostra, na sua peripheria superior, as Cores vermelha, e amarella; e na inferior hum Verde claro, pouco Azul, e hum quasi imperceptivel reflexo de Purpura. O circulo negro, porem, mostrando estas mesmas Cores, as faz ver em huma ordem toda opposta, isto he, o Vermelho, e Amarello na peripheria inferior; e as outras Cores, na superior.

36. Todas as experiencias feitas com o Prisma, sobre hum rayo de Luz do Sol, introdusido em huma camera escura, se redusem ás experiencias ([n. 24.] [25.] [26.] [27.]), isto he, a observar hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro. Este rayo de Luz, se se recebe em hum cartaõ branco, forma neste hum circulo mui claro, rodeado de hum ambiente escuro, correspondendo justamente a obscuridade da camera à o azul escuro dos Ceos, nas observaçoens das Estrellas, e dos Planetas ([n. 24.] [25.]). Se observamos, pelo Prisma acromatico, este circulo de Luz, o vemos colorido da mesma sorte, e com as mesmas Cores, que elle se pinta no cartaõ, quando tem passado à o traves do Prisma; de sorte que tanto vale observar, pelo Prisma, o rayo de Luz, que sobre o cartaõ he branco, como ver sobre o cartaõ o rayo de Luz colorido, depois de ter passado pelo Prisma.

37. No que respeita á figura oblonga, formada da incidencia de muitos circulos, na qual se pretendem achar as sete Cores chamadas primitivas, deve reflectir-se, que esta figura naõ he que huma pura illusaõ. Ella se compoem indubitavelmente, de muitos circulos coloridos com as cinco Cores, que resultaõ da experiencia ([n. 26.] [27.]), os quaes circulos cahindo huns sobre os outros, mixturaõ aquellas cinco Cores, e formaõ quantidade de outras compostas, entre as quaes se pertendem destinguir aquellas, que se chamaõ primitivas.

38. Tanto he isto assim, que, se applicamos ao tubo, que intreduz o rayo do Sol, huma lamina subtil, de qualquer materia opaca, na qual se tenhaõ feito cinco, ou seis pequeninos buracos, que naõ distem huns dos outros mais de oito pontos, ou huma linha; e fazemos passar estes rayosinhos de Luz pelo Prisma acromatico: entaõ vemos, à huma proporcionada distancia, sobre o cartaõ, outras tantas figuras coloridas, da mesma sorte, e na mesma ordem, que se ve hum so rayo mayor de Luz do Sol ([n. 36.]). Mas se affastamos, pouco a pouco, o cartaõ, aquellas figuras se avisinhaõ, cadavez mais, humas das outras; atheque, finalmente, se mixturaõ, formando huma figura oblonga, comprehendida entre duas parallelas, e circular nas duas extremidades; aqual figura he absolutamente similhante, á que forma hum rayo mais forte de Luz do Sol, quando se recebe obliquamente na face de hum Prisma. Ora as Cores que resultaõ da mixtura dos, cinco ou sete pequenos rayos de Luz, saõ indubitavelmente compostas: logo as que se vem na figura oblonga, que resulta de hum so rayo de Luz, a qual tamben he composta de circulos coloridos, mixturados huns com os outros, saõ da mesma natureza, e consequentemente naõ se podem chamar primitivas.

39. Se observamos, com o Prisma amarello, todas as experiencias, que na camera escura, se fazem com os rayos do Sol, naõ vemos senaõ a Cor vermelha, e verde: e se fazemos as mesmas experiencias com este Prisma, todas as figuras conservaõ as mesmas formas, que lhes dá o Prisma acromatico; mas naõ mostraõ senaõ as Cores vermelha, e verde.

40. Se em huma camera, em que naõ entre Luz alguma erratica, se faz entrar hum subtilissimo rayo da Luz do Sol, e tendo passado pelo Prisma, o recebemos em hum cartaõ branco, bem perto do tubo por onde entra, entaõ naõ vemos, que hum circulo luminosissimo, sem Cor alguma. Se affastamos mais o cartaõ, vemos este circulo menos luminoso, mas colorido. E se finalmente pomos o cartaõ em grande distancia, vemos hum circulo obscuro sem Cor alguma.

41. Fora da camara obscura, succedem os mesmos phenomenos. Se observamos o Sol, pelo Prisma, naõ vemos que hum circulo de Luz muito clara, sem Cor alguma. Se observamos da mesma sorte huma Estrella da primeira grandeza, ou hum Planeta, vemos huma figura colorida. Se finalmente olhamos pello Prisma para huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, naõ vemos que hum circulo obscuro, sem Cor alguma. Athequi as experiencias do Prisma.

Principios, que resultaõ das experiencias Prismaticas.

42. Todos os conhecimentos physicos se versaõ, ou sobre factos particulares, ou sobre leys geraes. O conhecimento dos factos, precede sempre o das leys, as quaes saõ meros resultados das observaçoens, do que ordinariamente acontece, em hum grande numero de casos particulares; e que depois servem de norma, para decidir outros casos da mesma natureza. Assim, das observaçoens feitas sobre o movimento projectil dos Corpos, em linha direita, e do universal poder da attracçaõ, que os tira desta linha, se formaraõ as leys, que applicadas a os Planetas, fizeraõ conhecer o seu curvilineo movimento. Quando as leys geraes servem, para explicar casos particulares, chamaõ-se entaõ Principios.

43. He com este nome, que se achaõ caracterisadas todas as leys physicas, que resultaõ das experiencias sobre as Cores, e fazem a materia da Primeira, e Segunda Parte do Tratado: e he com este mesmo nome, que eu vou designar as leys, que resultaõ das experiencias Prismaticas, que acabo de referir nesta Nota.