A CAÇADA
Alguns dias depois do casamento convidou el-rei toda a côrte para assistir a uma caçada.
Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes. Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paços de Almeirim e tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.
Chegou a côrte aos paços de Almeirim por uma tarde enxuta e serena, posto que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.
Era a vespera da campanha venatoria.
Na immediata madrugada foi servido um almoço[{76}] leve e em seguida ao almoço montaram a cavallo damas e fidalgos.
O monteiro-mór, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da partida e então el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e precedido por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez de uma frecha em direcção dos matagaes.
Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caça grossa e miuda de toda a especie. Veados e corças, lebres e coelhos e cabras monteses costumavam fugir e saltar aqui e além por entre as urzes e os giestaes, por debaixo dos ramos dos sobros e das pernadas dos choupos. Porem a raça canina via-se decerto em penosa maré de infelicidade. Latiam, uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos sem conseguirem alcançar uma lebre ou abocar um coelho.
Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma peça grauda quando alguns dos mais affoutos caçadores resolveram entrenhar-se no cerrado da floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a polvora das clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.[{77}]
Entretanto a maioria dos caçadores ainda esperava nas clareiras. Em posição de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e relusente das espingardas, os latidos dos cães ouviram-se por veses a curta distancia e os cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam impacientemente com as unhas ferreas na grama do solo; mas ainda não passara ao alcance das balas uma só lebre ou um só veado.
Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros caçadores, lá se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e os robles gigantescos.
A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as unicas pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes falleceu a paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos. Apearam-se pouco a pouco e a passos vagarosos foram passeando ao longo de um renque de choupos.
—O tempo corre bem, disse a rainha dando principio á conversação. Temos um ceu claro e magnifico; mas parece-me que não produz resultado a caçada.[{78}]
—Também me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.
—Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caça, replicou o pagem.
—Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio cardeal cioso de desenvolver a sua vasta erudição.
—Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.
—De bom grado escutarei. Dize lá: que são os Vedas?
—Os Vedas formam uma grossa collecção de slokes ou estrofes escrita em sanscrito sob a designação de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e Atharvana. A todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi por Vichnu, o verbo de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem sabe o que dizem e contém esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos tão cuidadosamente nos seus pagodes como os usurarios podem guardar um cofre de ouro. Conta-se que o poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz um dia conhecer as differentes religiões dos paizes que lhe eram tributarios e, como os brahmanes tenazmente se recusavam[{79}] a revelar-lhe os mysterios da sua crença, usou então de um subtil estratagema. Lembrou-se o imperador mahometano de enviar á santa cidade de Benares um indiosito chamado Fietzi e, fasendo-o passar por filho de um brahmane, foi o indio adoptado e instruido na linguagem e nos ritos sagrados. De tal modo seria satisfeita a curiosidade de Akbar, mas aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa filha do seu preceptor e, arrependido da fraude, foi lançar-se em lagrimas aos pés d'elle e tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por fim em casamento ao indio com a solemne condição de nunca em sua vida trahir os Vedas[[12]].
Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o toque arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a attenção para outro ponto.[{80}]
—Caça, temos caça? exclama com alegria Catharina de Austria.
Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo appareceu e adiantou-se o corpo ameaçador de um lobo.
Mostrava-se nas proporções de um molosso reforçado das patas, com os olhos horrorosamente injectados de sangue, com a cabeça de uma grossura enorme e infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem incutir no espirito de um homem os animaes carnivoros.
Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens. Alguns passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o corpo delicado e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impressão de medo ou qualquer motivo de surpresa, sosteve-se ali.
Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos estacou como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.
Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o badage. O corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.
Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam[{81}] certamente repetir-se as barbaras scenas do circo romano: o combate do homem contra a fera.
De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar um salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha. Mas o badage, que se affisera ás caçadas dos tigres e dos javalis nas florestas gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta. Quando o lobo se arremessou ao pescoço do indio na intenção de lhe verter o sangue e lhe despedaçar as carnes com o vigor das garras, o indio de repente cravou-lhe na garganta a lamina de uma comprida faca de mato.
A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera não se estorceu nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras, apertou os hombros do indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.
O indio não conseguio resistir áquelles musculos de bronze. Foi grande a convulsão que padeceu. Perdendo as forças e o equilibrio, cambaleou, estorçeu-se e cahio.
Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em holocausto da sua[{82}] dedicação, o pobre mancebo perderia as forças e a existencia. Quem lhe podera acudir nos apertos e nos trances de tam medonha conjunctura?
Talvez os companheiros. Porém o susto levara o augusto cardeal a esconder-se na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam demasiadamente franzinas de pulso para tam heroica defesa.
O badage, comtudo, não havia abandonado a coragem. Conservava na dextra a comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento affrouxou o lobo a compressão das unhas e esse momento foi o melhor auxilio que o badage podia receber.
Não é mais rapido um relampago: erguer o braço e ferir novamente a fera, eis os prodigiosos movimentos que elle fez.
O aço da faca despedaçou agora as guelas do lobo e logo em maior abundancia se inundaram as algas e folhas do chão com um lago de sangue.
A força da fera cedeu por fim ao esforço do homem. O lobo cahiu, estrabuxou e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos medonhos e perdeu os últimos alentos de vida.[{83}]
Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaços a buzina do monteiro-mór e é então que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os arredios caçadores.
—Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descança o cano da espingarda ao tronco de um carvalho.
—Pardés que não nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.
El-rei não pôde conter a explosão de uma risada e todos, sem distincção de gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.
—É bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de agradavel humor.
—Signal é de boa caçada. Não achas, pagem?
—Assim me parece, meu senhor.
—Mas que tens ahi? Que animal é esse?
—Meu senhor, são os despojos da caçada.
Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal acontecimento e logo de todos fôra o pagem felicitado por sua valentia e dedicação.[{84}]
[[12]] Cesar Cantu. Hist. universal. Edição francesa, tomo 1, pag. 305.