A LUTA

A rainha, forcejando por esquecer as extraordinarias impressões da caçada, recreava-se momentos depois na sua recamara dos paços de Almeirim com a leitura das trovas populares do celebre Juan de Encina.

A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a cada minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia inquieta do animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.

Entrou o pagem n'esta occasião e pé ante pé[{86}] dirigindo-se para o lado esquerdo da rainha, fitou-a com olhares de poetica melancolia.

—Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e será muito do meu gosto ouvir contar alguma façanha alegre. Sempre me dirás o que tens feito...

—Nem tudo se diz, senhora.

—Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que estás ao pé de quem deveras te estima...

—Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia estrangular pelas garras de um tigre só para vos compraser. Não faseis ideia da minha dedicação, não podeis medir a grandesa do meu amor!

A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.

—Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.

—Juro-o pelos Vedas.

—Mas não reparas nos meus annos? Não vês claramente que já sou velha!

—Uma rainha nunca envelhece. É uma eterna primavera de florescencia e de perfumes.[{87}]

—Sendo verdade o que dises, reconheço que sou uma excepção.

—Senhora, esplendem em vós todas as graças e possuis todos os encantos!

—Ousado mancebo, não saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim não sabes que uma rainha não deve amar ninguem? Contenta-te com a minha estima. Dou-te a minha amisade e isso é bastante.

—Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoação do seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso olhar... Mas para odiar-vos ainda será preciso menos. Escolhei...

—Escolhe tu, pagem.

—Escolho o vosso amor!

—Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te dê, que exigencias por acaso imaginas impor-me?

—Concedei-me tudo quanto vos peça.

—Com algumas condições...

—Sou orgulhoso. Não admitto condições. Disei se sim ou não.[{88}]

—Pois bem, prometto.

O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira revelação de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.

—Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do pobre pagem. Mil veses obrigado, senhora!

—Mas então que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea expressão de carinho.

—Quasi nada e todavia pretendo tudo.

—Dize...

—Quem sabe se vos offendo! Talvez me não atreva...

—Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...

—Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo... um beijo unico!

—Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em plena calma, saberás que a palavra de uma rainha não falta ao que promette. Aqui tens a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha aproximou-lhe[{89}] do rosto os labios cubiçosos e ali imprimiu com soffreguidão um beijo escandecente como as lavas do Etna.

Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com prestesa da recamara.

—É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade, ficou a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos os heroismos e todavia diante de mim parece uma criança cheia de timidez. Parece decerto uma criança. Mas quem o não é em taes circumstancias de enleio e talvez de demencia? Amor, amor! és o mobil de todas as acções esquisitas, porque és o germen de todos os pensamentos humanos. Jamais se realisam os teus desejos e todavia ninguem deixa de sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não queres, acaricias e odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi sempre voluvel o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a gota de agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e um sacrario de virtudes; mas[{90}] tambem és um elemento de odios e um antro de vicios. Socrates não saberia definir as tuas virtudes; Hercules não poderia medir-se com a tua força. Homens e mulheres egualmente abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e os teus effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem porventura conseguiu explicar os teus mysterios?

N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara. Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto corredor do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de el-rei lhe impedem a passagem.

—Acompanha-nos, meu caro.

A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage retorquiu orgulhosamente:

—Á ordem de quem?

—Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!

—Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!

O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa[{91}] de quem d'ella se sabia servir a tempo e horas e, recuando tres passos, aguarda com animo frio a aggressão dos alabardeiros.

—Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde faser por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!

Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se disposeram a começar o seu officio.

Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O badage, mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma polegada aos quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo do padre Vieira, soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança, erguer a espada e fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam diabolicas imprecações, empregavam-se titanicos esforços para se decidir da contenda; mas o badage parecia sustentar nas mãos de bronze a clava de Hercules.

—Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o desiquilibrio de um ebrio.[{92}]

—Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com desanimo de uma vez para sempre.

Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles principalmente não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e o mais temerario.

—Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!

O badage retorquiu-lhe:

—Parece-me que já nos encontramos, sicario.

—Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!

—Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?

—Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim: sou o teu conhecido Jacobo.

O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a descoberto a arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para triunfar do seu terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e infallivel o golpe, resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o[{93}] pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de uma rapida manobra, desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura do contendor. Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e completamente lhe atravessa o pescoço de lado a lado!

Ouve-se então um clamor horrendo. Á testa de uma dusia de archeiros e familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente o jesuita Simão Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse ensejo de evasão, com arrogancia o intima a render-se por ordem de el-rei.[{94}]

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