A TAVERNA

O carcereiro e o pagem toparam-se defronte do sombrio edificio de San Domingos por altas horas de uma noite escura como breu e sem ideias determinadas sobre a melhor direcção que lhes convinha aproveitar.

Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco de serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se lembra de acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em liberdade e esse unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos sorvos aspiravam as[{124}] emanações puras da noite e com as vistas abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas inquisitoriaes. Por ali passaram em companhia do carrasco e dos defensores da cruz algumas dusias de martyres envolvidos na samarra e cobertos das terriveis carochas sarapintadas de chammas e demonios. Mas, ainda assim, que feliz differença se se comparava a sombria praça de San Domingos com as estreitas e miasmaticas gemonias onde o corpo se esquartejava no excesso das torturas e a consciencia desfallecia á mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, como julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado ainda na escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e granito a não invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e opulenta, era então, como a soube descrever um dos mais sympathicos engenhos da moderna geração, a «perola das cidades do mundo, a Phryné das capitaes[{125}] da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das ostentações e das grandesas.»[[16]] Não lhe faltavam palacios nem choupanas, igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos inquisidores, Argos da peor especie conhecida, com tanta facilidade se estendia aos santuarios de Christo como sobre os santuarios das familias. Nada aos filhos de Loyola e aos discipulos de Torquemada lhes era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e a sua ambição natural eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente gigantesca, desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!

Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação. Dirigiram-se para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.

Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa de ebano e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e melancolia.

A principio sobresaltou-se e estremeceu com[{126}] a presença dos estranhos hospedes; mas logo com um sorriso feiticeiro de meiguice e suavidade se dirigiu ao indio:

—Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?

—Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.

—Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os negocios do estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos o espirito mordido pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.

—O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal do mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça dominado pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a minha consciencia se encaminhou para o mal.

Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento se passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante Gomes fora assediado por[{127}] uma turba sediciosa e infrene de alabardeiros e familiares do Santo Officio.

Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria temeridade com todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não desanimou nem tremeu.

—Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos e perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao encontro dos inimigos...

—Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este sitio. Segui-me depressa!

Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda e chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.

—Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados visinhos e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com segurança. Não afianço que não haja perigo...

—Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então regougou pela[{128}] primeira vez o ex-carcereiro. Mas nada de sustos. D'entre dous perigos escolhe-se o menor.

Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes desceu com animo desassocegado aos primeiros aposentos.

O borborinho e a algasarra não affrouxavam. Pareciam o preludio de uma d'essas tremendas tempestades que se chamam revoluções populares.

—Abram a porta, abram a porta!

A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses proseguiam entretanto:

—Abram, senão arromba-se!

—Arrombe-se a porta!

—Á ordem de el-rei! Manda el-rei!

—Abram! abram, sôs fidalgos!

Como a porta não cedesse á intimação, as coronhadas principiaram de desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!

De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a gritaria.

—Basta, basta! bociferava.[{129}].

Esforços baldados, porém. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava pouco a pouco. Scenas de sangue e horror iam começar ainda.

Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar ao meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar á porta da taverna de um parente do carcereiro.

Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura e trajos andrajosos que logo á primeira vista se consideravam relé de virtudes duvidosas.

Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no chão e outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.

Se aquella turba esqualida não denunciava um covil de feras, certamente não parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas homenzarrões de côr macilenta, voz cavernosa e cabeça guedelhuda e cerdosa como de juba de leão.[{130}]

—Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa como quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com geito. O vinho... que peste! O vinho é sempre do peor e do mais caro como se o vendesse a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.

—Pois andas mal, pedaço de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do mesmo modo ao taverneiro. Se te não emendas e não cobras tento, nós ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te ás moscas o presepio...

—Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, não me ha de ferver o miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel Farçante, juro que os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis os bolsos mais cheios de sarna e cotão que de chelpa. De calotes estou eu farto dês que vos aturo.

—Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farçante. Bem sabes que não sou de genio talhado para lerias...

—Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O que mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha[{131}] dos homens honrados, não me punhas mais as patas de portas a dentro.

—Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...

Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua; mas depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão quasi cheio de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão, em um apice o arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em pedaços e dous jorros de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.

Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous partidos. Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e punhaes. Metade dos fregueses predispunha-se para a defesa e outra metade para a investida.

—Vaes levar a tua conta, meliante!

—O vendeiro teve rasão...

—Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em um[{132}] abrir e fechar de olhos. Eram o preludio de uma contenda furiosa entre dusia e meia de ebrios e malvados, homunculos sem consciencia do bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue das veias de seus irmãos como em beberem até aos bordos um cangirão dos saborosos liquidos extrahidos das parras do Seixal.

Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de entrar na taverna.

—Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e rixas com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra liça. Quereis mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?

—Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a taverneiros desaforados.

O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe falhou. O badage[{133}] segurou com força extraordinaria o braço que sustentava o punhal.

Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e os punhaes, pediu e celebrou tregoas.

—Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos vossos braços, meus rapases.

—Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.

—Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa. Venha lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.

O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.

O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á medida que se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até aos bordos.

Todos beberam á vontade em menos de meio[{134}] quarto de hora e como o badage tivesse pressa de lhes aproveitar os serviços tratou de conduzil-os em direitura do Rocio.

—Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro de lei. Guarda-o em paga do teu vinho.

—Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o dinheiro de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.

—O taverneiro é generoso, é generoso! conclamou a maioria dos fregueses.

Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:

—Mas para onde vades assim, papalvos?

—Nós te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem fôr peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda queremos só gente de animo decidido e braço alentado.

—Bofé que ninguem dirá que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco! Mas ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa é séria, unicamente facas e punhaes são armas de pouca monta.[{135}]

—Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas não temos horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se encontram á mão nos parecem de boa tempera.

—Serão. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de alcance. Uma espada alcança mais longe do que um punhal e os pelouros de um bacamarte vão mais longe ainda...

—É certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?

—Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho já.

Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois se apresentou no meio dos seus fregueses com um braçado respeitavel de bacamartes e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para complemento da collecção de armaduras de que falla o cantor dos Lusiadas faltavam ainda[{136}]

Os arneses e peitos relusentes,
Malhas finas e laminas seguras,
Escudos de pinturas differentes,

mas certamente sobejavam

Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagittiferas aljavas,
Partasanas agudas, chuças bravas.

—Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos pão e queijo. Escolham á vontade...

Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.

—Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras á frente. Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e soldados do Santo Officio...

—Do Santo Officio! exclamaram com espanto.

Houve um momento de indecisão. Aquella palavra terrivel incutiu deveras o terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o braço[{137}] mais possante. O tribunal do Santo Officio ou da Santa Casa, segundo o conceito de um escriptor, comparava-se então pouco mais ou menos com a arca de Noé, observando-se unicamente a differença de que os animaes que entraram na arca sairam como tinham entrado e de todos os que eram encerrados nos carceres da inquisição se viam sair mansos como cordeiros aquelles que á entrada tinham a crueldade dos lobos e a feresa dos leões!

—Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que não sois homens para empresas serias. Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja de inquisidores, confesso-vos que não recuo nem me arreceio.

—Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica resolução. A vida é uma ninharia e a mim tanto se me dá morrer hoje na praça como ámanhan na cama. Vamos ou não vamos, rapases?

Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.[{138}]

[[16]] Arnaldo Gama. O segredo do abbade.

[{139}]