CIUMES DE UM REI
Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de 1553, no desvão de esguia janella do palacio dos nossos reis estava casual ou intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de rendas de Flandres um personagem vestido com gibão de veludo preto.
Usava elle de curta cabelladura côr de castanha e não inculcava mais de cincoenta annos de idade[[2]]. Em volta do pescoço alvejava-lhe[{12}] uma das amplas gorgueiras encanudadas que, na frase picaresca de um novellista espanhol, davam á cabeça o irrisorio aspecto de um melão collocado em cima de um prato de porcelana branca. Pronunciava-se-lhe bem um nariz em demasia grosso, era baixo da corporatura como qualquer burguez e parecia reforçado dos musculos como um legitimo descendente de Hercules.
Para melhormente sobresairem as tintas: «em mean estatura grande proporção de membros; olhos entre verdes e asues; boca vermelha; rosto alvo e de boa côr. Notava-se-lhe o pescoço um pouco curto e a cintura grossa, mas não que chegasse a desar[[3]].»
Dominava-o finalmente a prurigem da impaciencia ou da curiosidade. Translusiam-lhe no rosto arredondado a feição sombria do seu caracter e no sorriso confrangido a indecisa severidade do seu genio. Algum acontecimento inesperado lhe impressionara sobremaneira o espirito e certamente era essa uma das mais[{13}] criticas situações a que submettera a sua delicada sensibilidade.
Nada com effeito de mais critica e extraordinaria situação.
Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de uma poderosa mulher e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e esbeltos personagens do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta conversação com essa mulher em quem todos «descobriam raras e heroicas virtudes, grande zelo e piedade christan, grande brandura e affabilidade em obras e palavras para com grandes e pequenos.[[4]]»
—Que nunca eu mereça o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso coração e da vossa nobresa, senhora. A não depositar nas vossas mãos a redoma das minhas esperanças, teria levado o meu corpo á defensão da praça de Arzilla ou das heroicas muralhas de Dio...[{14}]
—Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco serve o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em vosso auxilio.
—É tudo o que vos supplico, porque sei que nada vos recusa el-rei...
—Em pouco mais pensa el-rei do que no zelo da religião e no culto de Deus. As nossas praças de Africa vão sendo abandonadas pelas lanças dos portugueses e fracos são os reforços de soldados e munições com que se acode aos ricos dominios das Indias. Escuta lá el-rei os meus conselhos!
—A quem ha de ouvir senão a vós, senhora?
—Attende em mais e em tudo o reverendo Simão Rodrigues e esse terrivel prelado João Soares. Elle não conhece outro amor que não seja a puresa da fé e não respeita outros homens que não sejam os jesuitas... Amor do povo e da patria como o nutriam em seus heroicos seios seu pai e avô Dom Manoel e Dom João! Jámais esses bons monarchas offenderam a religião de Christo e sempre todavia se cumularam[{15}] de gloria sem tribuanes de inquisição e sem ordens de jesuitas...
—Não vos tacharei de injusta por não faltar-vos ao respeito, senhora minha. Certo é que Dom João presta ouvidos a Simão Rodrigues, criou o venerando collegio de Coimbra, estabeleceu em nossos reinos a mesa do Santo Officio e toda a sua alma se affervora no zelo da religião catholica; mas todas essas virtudes são effeito de piedade e não de falta de civica devoção. Ama tanto a fortuna dos filhos de Loyola e dos discipulos de Torquemada como o bem dos seus vassallos...
—Não que o não fadaram os céus com a vossa indole, Dom Luiz. Por estas lagrimas o digo, accrescentou levando o lenço aos olhos. Que differença tam grande entre irmão e irmão! A vós não vos fallece galantaria nem juiso. Sois valente e generoso a um tempo. Todos vos apontam como enlevo das damas, captivaes as affeições do povo e mereceis a estimação dos mais esforçados cavalleiros da côrte...
—Não me lisongeeis assim, que podem escutar-vos e de mim curtirem ciumes.[{16}]
—Ninguem me culpará perante Deus nem perante os homens. Sabe de sobejo meu esposo quaes são os meus sentimentos a seu respeito. Amor com amor se paga e por isso não deve tomar a mal que lhe eu pague com indifferença as suas frias indifferenças.
—Julgo que nada padecereis, senhora. Mas fallo por mim...
Ainda não eram concluidas taes palavras quando de repente a cortina se desvenda e o personagem que se conservara achegado ao peitoril da janella se adianta com passo grave.
Parecia, embora a frase tenha laivos de sediça, a estatua severa do Commendador. Era agora, ao contrario das côres naturaes, pallido e altivo do rosto. Dos grossos labios desferia um sorriso de neve. Dos seus olhos entre verdes e asues dardejava um lampejo de indignação que devera ferir como o raio.
Talvez se esperasse a tremenda explosão de colera por muitos dias sopitada. Entretanto o grave personagem declarou com serenidade:
—Nada receeis, meu nobre irmão...
Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se[{17}] lhe prendeu nas fauces ou o respeito o fez calar. Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de subito o muito alto e poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua altesa serenissima o senhor Dom João III.
Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situação. Antes mil veses se quisera em luta encarniçada com os mouros de Asamor ou com as hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do Crato, digno infante de Portugal e esforçado filho de Dom Manuel foi havido sempre no consenso publico por cavalleiro valeroso e destemido. Em provas de coragem não no excederam os Pachecos nem os Albuquerques e ninguem com mais galhardia soube ainda no officio das armas brandir uma lança ou empunhar uma espada. D'elle recontam chronistas e historiadores que principe nenhum soube dar-se ao respeito melhormente ou faser em sua vida com que o amassem tanto. «O amor que os portugueses lhe tinham passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que podem fazer-se credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo e[{18}] valente, affavel e tam ousado que passava a destemido.
«A estas gentis condições andavam annexas muita mansidão na sociedade e rara prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e deveras affeiçoado ao trato das senhoras.
«A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas voára até os paizes estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima e uma das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a nobre donzella encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se facultava entrada livre no palacio por ser protegido de Muley Abel Mumen, irmão do xerife, nunca se fartava de fallar-lhe no infante. Um dia que passeava nos jardins do palacio viu Dom Diogo e chamou-o para lhe diser: «Colhei de aqui algumas flores e tecei com ellas uma corôa semelhante ás que trasem os principes christãos». Obedeceu Dom Diogo das Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a então e pondo a corôa na cabeça encantadora, ella lhe disse: «Permittam os ceus que eu algum dia viva unida com o infante Dom Luiz como sua[{19}]esposa e que, sendo elle o rei, eu seja a rainha de Portugal![[5]]»
Mas agora a conjunctura não demandava feitos de valor nem proesas de galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a sós em aposentos que apenas não eram vedados á pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de Catharina de Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o victorioso imperador Carlos V!
Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa a diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:
—Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos galanteios. Por Deus que vos dou uma lição que vos deve servir para de outra vez terdes em mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas sempre se desculpam os maus humores de um esposo e por isso espero de vós que não tomeis a mal a minha presença.
Ás veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta da raça de seu pae[{20}] Filippe I, aprumou o seu bello pescoço de garça como se nada houvesse que temer, fitou firmemente com um olhar de aguia o semblante pallido de Dom João III e de prompto impugnou com a austera dignidade de uma rainha:
—Jamais tive galanteios que não fossem para vós, senhor meu esposo!
Sorriu o monarcha d'esta vez com aquelle sorriso contrafeito que lhe era peculiar e por ventura se dispunha a retorquir em termos de menos restricta etiqueta quando o infante se lhe dirige assim:
—Assaz vos hei provado, meu irmão e senhor, a força da minha lealdade e o quilate da minha honradez. Sabei que junto da camara de vossa altesa não me trouxeram galanteios. Antes retalhara o coração com o gume da minha espada do que faltar algum dia á fidelidade e ás homenagens que a vós e a ella vos devo. Missão de outra naturesa me guiou á presença da esposa de vossa altesa serenissima. Vim pedir-lhe, senhor, que vos amolgue o genio á compaixão e vos decida a resgatar a honra de Dona Violante Gomes...[{21}]
A este suave nome de Violante Gomes pareceu sobresaltar-se o animo de el-rei. Os olhos, que até ahi os conservara como pregados na alcatifa multicor do aposento, erguera-os ao nivel do olhar do irmão e pareciam em semelhante conjuncção animados de uma estranha vivacidade. Mostrava-se agora mais varonil a phisionomia e mais aprumada a estatura do fanatico Dom João III.
—Insensato que sois, meu irmão! Violante Gomes talvez algum dia venha a ser vossa esposa; mas juro-vos... juro-vos que, em quanto eu viva, nunca Dom João consentirá que uma barregan se associe á familia dos monarchas de Portugal!
Inesperadamente assomou um vislumbre de colera ás faces amarellecidas do infante. Pouco lhe quedaria para se esquecer da obediencia que jurara a el-rei, quando Catharina de Austria adianta dous passos e se colloca de permeio como decidida a conjurar a tempestade.
—É de justiça, aventurou-se a interceder, o que vos implora o infante Dom Luiz. Fará o vosso rigor com que mais se deva tomar-vos[{22}] por tiranno que por monarcha. Elle falla em nome da humanidade e da honra, duas virtudes que o vosso espirito não poderá desconhecer nem póde repulsar. Por isso não vos merece a resposta do orgulho e do fanatismo...
—Diseis bem, applaudiu Dom João com modos brandos e com uma indefinivel expressão que só elle e Machiavelo sabiam fingir. Diseis bem; mas esses negocios ficam para mais tarde. Veremos se elles interessam ao esplendor da religião e ao bem do estado.
Estendendo depois o braço para a porta do aposento, pareceu indicar a Dom Luiz que era chegado o desfecho da entrevista.
Dom Luiz de Beja, baixando a cabeça e não arredando os olhos do chão, dirigiu-se machinalmente para a porta e se retirou em completo silencio.
[[2]] Nasceu a 2 de janeiro de 1502.
[[3]] Frei Luiz de Sousa. Annaes, liv. I, cap. IV.
[[4]] Frei Luiz de Sousa. Annaes, liv. III, cap. 11.
[[5]] La Clede. Hist. ger. de Portug.