EFFEITOS DO VENENO
Respeitosamente foi comprimentado o herdeiro da coroa por todos os poetas e cortesãos que de improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom João não se encontrava em maré de paciencia para aturar importunidades e por isso a numerosa colmea dos nobres aduladores cuidou logo de se despedir.
A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na parede o aventuroso pagem.
—Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos[{156}] alguns momentos, sinto que me vão affrouxando o animo e a paciencia. O badage aproximou-se do leito.
—São effeitos da doença, respondeu pausadamente.
—Disem-me todos que isto nada é. Todos me enganam... Só tu me dises que estou doente... Sabes que doença padeço?
—Sei, meu principe.
—Que doença é?
—Francisco Lopes que vos responda, senhor.
—Não és sincero. Tambem tu me enganas, pagem.
—Receio declarar-vos a verdade.
—Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...
—Vós todos, principes e monarchas, só tendes abertos os ouvidos á adulação e á mentira. A verdade é amarga e severa. Seria para as vossas organisaçoes anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas podesseis comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais tranquilla a vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Então saberieis ler no livro mysterioso do destino os deveres[{157}] que vos determina a Providencia. Serieis então os amigos e os protectores do povo...
O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem; mas, como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, não ousava interrompel-a.
Com mais valentia de voz o badage proseguiu:
—Abençoados os monarchas que são os amigos e protectores do povo! Abençoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao turbilhão vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos interesses publicos e em prejuiso da ventura das nações. Não é grande o numero dos monarchas, por mais ricos e poderosos que sejam, que morrem com a consciencia de haverem feito a felicidade dos seus vassallos. Parece que teem os olhos vendados para o bem...
—Cala-te, que és injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho feito eu para seres assim tam rigoroso de palavras?
—Sois christão e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois sabei que pelas culpas[{158}] dos paes respondem os filhos até á quinta geração...
—Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que peccados accusas meu pai?
—Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos desacertos e que torturas se não commettem ao sabor de Simão Rodrigues e só por interesse do tribunal da inquisição? Bastará o Santo Officio para causar maiores damnos do que a peste e mais opprobrio do que a forca. Nas mãos dos seus ministros flammeja o cutelo do carrasco, que é o mesmo que o estilete do assassino. Confisca-se a propriedade, assassina-se o fidalgo, rouba-se com a riquesa a honra alheia e queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba para que se accenda mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda com mais uma columna o templo da igreja!
—Não blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um principe de sangue.
—Principes e monarchas não os respeito nem[{159}] acato senão pelo esplendor das suas virtudes. Onde está o rol das vossas virtudes? Foi benefica a missão de que vos encarregou o Deus que sempre tendes á flor dos labios e a que nunca ergueu altares o vosso coração. Deus mandou-vos amar o proximo. Devieis ser o auxilio e não o latego do povo. Mas vós, que tendes para tudo ministros e conselheiros, só os não tendes para vos aconselharem a minorar os infortunios do pobre e obrigarem a repartir com as crianças que padecem fome as iguarias superfluas dos lautos e magnificos banquetes...
—Não te quero ouvir mais, não te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda te posso punir e esmagar, villão!
—Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que sempre a vossos pés se rojaram desenas e dusias de cortesãos ambiciosos, cortesãos que se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas das coroas regias para encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra do seu espirito. Sei que todos os vossos caprichos e devaneios, embora custem milhares de crusados, serão satisfeitos[{160}] mais depressa, do que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se vê estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa! Em vez de ser de perolas e rubis, será logo de terra e de cinzas a vossa coroa. Depressa se desfará em pó o vosso sceptro e, em vez de recamarem o vosso corpo o ouropel e os avellorios do throno, será entregue o vosso corpo aos vermes e á podridão do sepulchro!
—Basta, basta! São de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as entranhas, pagem!
N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria.
O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior observação e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.
Não proferiu um monosyllabo e jámais denunciou pelas impressões do rosto ou por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do enfermo.
Sempre com a mesma austeridade aproximou-se[{161}] de um dos angulos da alcova, recurvou-se de vagar sobre uma elegante mesa de jacarandá, serviu-se de uma penna de pato collocada ao longo de um precioso tinteiro de prata e com rapidez formula em meia folha de papel o recipe do costume.
Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto comprimentador a cabeça em direcção do leito e logo com inalteravel silencio transpoz os umbraes da porta.
No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente de roupas negras que ninguem mais era senão o jesuita Simão Rodrigues.
A meia voz segredou-lhe o medico:
—Está moribundo. Está sem vida. Morre antes de meia hora.
O jesuita laconicamente accrescentou:
—Requiescat in pace!
Entretanto não abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisação debil do principe ás fadigas das conversações e ao constrangimento das visitas, ou então por[{162}] que o quadro pavoroso da morte não é espectaculo que deleite as vistas e atraia a presença dos cortesãos.
O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos momentos de vida lhe restavam já e que severos momentos de tortura não deviam de ser aquelles! Affligiam-no contorsões horrendas; o fogo violento de um vulcão abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendões dos braços pareciam fios de arame agitados por uma descarga electrica.
Elle todavia prestava segura e ininterrompida attenção ás palavras mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se como se lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas ainda nutria alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:
—Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...
O badage continuou a revelar-lhe:
—Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei. É caso incrivel, mas é verdade. Foi crime horrendo, mas aconteceu. Está soffrendo vossa altesa[{163}] os effeitos do veneno e é el-rei, acredite-me vossa altesa, é el-rei Dom João III a causa da sua morte!
A tam inesperada e tremenda revelação o corpo do principe contorceu-se com maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e despedaçar as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de um abutre. Porém a alcova nupcial tornara-se depressa a habitação lugubre da morte. Agora a voz e as forças abandonaram de vez o corpo franzino do principe. Era elle apenas um cadaver![{164}]