O CARCEREIRO

O badage irremediavelmente morreria asphixiado pela acção dos vapores deleterios se o carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella situada ao fundo do calabouço, não permittisse rapido ingresso a uma camada violenta de ar.

Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram naturalmente substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos se restabeleceu nas gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos salutar.

O badage acreditou na sua ressurreição.[{106}]

—Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor do que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!

—Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a minha obrigação. Mandaram-me que o não deixasse morrer e eu obstei a que morresse. Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir nem mugir e vossa mercê, fóra de duvida, morreria sem remissão nem aggravo.

—Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a religião do dever do que a da misericordia. Mas tambem é certo que debaixo d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma alma. Por ventura deixarias morrer, á guisa de fera estorcida na jaula, um pobre homem nascido e criado á semelhança de Deus?

—Desempenho á risca as ordens que me dão. Para isso me sustentam e pagam.

—Então se te dissessem—estrangula tua irman e assassina tua mãe! tu, em obediencia á malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?[{107}]

—Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmãos ou a meus paes!

—Mas supponhamos que assim acontecia...

O carcereiro experimentou uma ligeira contracção de nervos, estendeu com gestos de ameaça terrivel os braços musculosos e regougou em bruscos termos como se disposesse da voz do trovão:

—Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua do meu amo!

—Não te fallece por tanto uma certa intuição do bem e do mal. Por instincto ou rasão natural, sempre dispões de uma certa faculdade pensante que te diz não ser infinita a orbita dos teus deveres servis. Reconheces em summa que o universo é maior...

—Não comprehendo bem. Um desastrado carcereiro não póde saber de letras nem sabe o que são ideias. É um cão de fila a quem disseram: guarda esse rebanho e no fim de cada mez receberás as gorduras de uns tantos ossos. O cão desempenha cada dia o seu serviço de guardar e jámais se importa que o rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e tinhosas. Obedece á voz de quem manda.[{108}]

—Mas porque obedeces tu?

—Porque me pagam.

—Logo, obedeces a quem te paga...

—Está visto.

—Logo, o serviço está em relação com a paga: maior paga, melhor serviço.

—Naturalmente.

—Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como carcereiro, depressa abandonarás a profissão de carcereiro...

—Nem mais nem menos, meu fidalgo!

—Dize-me então: quanto ganhas n'esta enxovia?

—Conta redonda: 150 crusados por anno.

—150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez e a menos de 200 reis por dia. Julgas que não é pouco?

—Deveras é muito pouco para quem se vê obrigado a sustentar mulher e filhos...

—Ah, tambem tens familia?

—Quem não tem familia, meu fidalgo?

—De certo não sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmãos e sem parentes. Disem que sou um christão novo! Sou talvez um apostata,[{109}] um reprobo, um paria! Vivi por longo tempo na innocencia e no socego dos sertões. Meus paes e meus parentes nutriam-se dos cachos das palmeiras, com todo o fervor das suas almas fasiam as suas orações no templo de Trichandur e as tempestades da desgraça jámais varreram tanto o repouso do seu corpo como as crenças do seu espirito. Mas um dia[[13]] nos mastareus de enormes galeões appareceu arvorada a bandeira lusitana n'esse grandioso imperio onde[[14]] as plantas são fructos, as aguas perolas e as pedras preciosas. Esta bandeira significava o symbolo da fé; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas as cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como irmãos e amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se todas as transacções commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e pelos tecidos de lan ou de algodão o coral e o marfim, as perolas e o ouro, a canella e toda a casta de especiarias. Mas, ah, depressa a cobiça das riquesas transtornou a paz e a ventura das Indias! Em vez da troca e dos contractos[{110}] mercantis, os portugueses foram preferindo as dadivas e a vassalagem por não desmentirem que chegavam tam mortos de fome como vivos de cobiça[[15]]. Accendeu-se então por toda a parte o facho da guerra e da discordia. Familias inteiras perderam a fasenda e a liberdade, povos inteiros perderam a familia e a existencia. Não te farei a resenha dos roubos e das violencias, dos combates e dos incendios. Basta saberes que foi assim que eu fiquei só no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...

—Uum, uum! Não sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. Não acredito de certo. Vossa mercê ou vossa senhoria é mais do que inculca ou inculca mais do que é.

—Então que favoravel ou ruim ideia fases de mim?

—Imagino que seja algum fidalgo poderoso.

—Não sou fidalgo.

—Pelo menos algum conde...

—Enganas-te.

—Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas[{111}] hierarchias e de singular poderio, gosa da honra de entrar aqui. Para simples peões não foram feitas as seguras grades e as grossas paredes que sustentam estas abobadas.

—Tens rasão. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso.

—Algum marquez?

—Mais!

—Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragança, o snr. duque de Viseu?...

—Mais, muito mais!

—Acima de um duque nada conheço. São os maiores fidalgos do reino. Ninguem acima d'elles a não ser sua altesa serenissima o senhor Dom João III.

—Pois recorda-te bem. Ha ainda quem valha mais de que el-rei!

—Mais do que el-rei?

—Muito mais, muito mais!

—Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que não ha quem valha mais do que el-rei nosso amo e senhor!

—Vaes sabel-o já...[{112}]

—Pois quem é, quem é?

—Alguem é.

—Mas quem?

—Simão Rodrigues!

O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous passos ao longo do calabouço, estalejou emfim com a mão direita uma palmada na testa e disse pausadamente:

—Na verdade o jesuita é poderoso. Vale mais em forças e poderio do que um duque...

—Mais que o monarcha. O monarcha tem a corôa na cabeça e o sceptro na dextra; mas isso tudo não passa das vans insignias da realesa. Vale menos o manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a vontade inquebrantavel de Simão Rodrigues tudo averga e affrouxa como o vime, se quebra e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da igreja; em nome da religião escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte de hebreus sempre amaldiçoada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e é el-rei o primeiro escravo que lhe obedece...[{113}]

—Assim é, assim é.

—Todavia Simão Rodrigues teme e reconhece a força e as traças de alguem...

—O papa?

—Não.

—O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?

—Tambem não.

—Pois quem é?

—Eu!

—Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito poderoso...

—Em verdade sou e não sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem sou, experimenta, experimenta...

—Que devo faser então?

—Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...

—Perco o meu emprego.

—Quanto vale o teu emprego?

—Vale mais de 100 escudos.

—Terás 500 escudos, terás 1:000 escudos. Queres vender a minha liberdade por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?[{114}]

O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:

—Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!

—Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a cadaveres queimados!

[[13]] Vasco da Gama aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de 1499.

[[14]] Conde da Ericeira. Portug. restaurado.

[[15]] D. João de Castro. Carta da India a D. João III.

[{115}]