O FESTIM DE BALTHASAR
Era Francisco Xavier um dos raros exemplos com que os jesuitas poderiam alardear a santidade da sua universal associação; mas quem é que em Lisboa se importava das virtudes do apostolo das Indias?
Por outras differentes rasões se recreava Lisboa com folganças e festejos.
Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a artilharia do velho castello.
Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Paço resoavam alegres musicas de atabales e clarins.[{54}]
Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com galhardetes multicores, bambolins de murta e festões de louro e rosas.
Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos escaleres reaes.
No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular flammulas e estandartes de todas as nações.
É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de gala.
Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.
Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua posição.
Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda aos elegantes[{55}] capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o sol com raios coruscantes.
Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!
Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e do seu apparatoso cortejo.
Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada[{56}] tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[[10]].
El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.
Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.[{57}]
De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.
Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal.
Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro, o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.
Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores[{58}] e as mais esquisitas iguarias serviam-se com profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.
Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra. Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:
—Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso é, fidalgos e prelados[{59}] da minha côrte, que eu com summa alegria do meu coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!
Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.
De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.
—Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus[{60}] a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!
Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salão do festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com enthusiasmo as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando á altura dos beiços as copas cheias d'esse valente liquido que o peito accende e a cor ao gesto muda, soltaram o grito fremente de viva o principe Dom João! Viva o principe Dom João!
Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios. Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas dos criados. Foi porém de breve duração esta calmaria. Levantou-se o Conde da Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia palacianos, dispoz-se a discursar.
—Pedindo venia a vossas altesas serenissimas—começou o poderoso valido, cortejando com a cabeça o monarcha e Dona Catharina—ouso[{61}] tambem manifestar a grande satisfação que me desperta o glorioso dia que em tam esplendido banquete se commemora. O feliz consorcio do nosso principe real é para todos os leaes portugueses motivo de felicitações e regosijos. Quem não ha de exultar com as virtudes varonis e prendas naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa! Dae-me a liberdade de brindar á vossa ventura, augusto principe!
Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.
Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mão o inquisidor geral D. Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom João de Lencastre. Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous primeiros discursos, mostrando-se assim a erudição e sabedoria dos respeitabilissimos varões que os proferiram. O de Dom João de Lencastre, esse foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como sendo de pessoa mais[{62}] adestrada no jogo das armas que em torneios de palavras.
Como nas marés dos oceanos, dá-se tambem o fluxo e o refluxo nas marés do enthusiasmo. Nem tudo, por esta rasão, era delirio e voseria. O silencio reinava tambem de longe a longe.
Silencio profundo reinava no salão do banquete quando, emfim, de um dos recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a dos povos da India.
Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.
—Monarcha Dom João, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu venho como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!
Mal fôra proferida esta ameaça terrivel e já duas duzias dos mais esforçados fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados chifarotes.
O pagem não se intimidou, porém. Deu maior volume á voz e com o seu placido gesto exprimiu-se ainda:
—Não encareço as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha Dom João; mas[{63}] sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos crimes que se commettem na vossa côrte...
—Crimes na minha côrte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da cadeira como impellido por uma secreta mola.
—Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda não vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmão o infante D. Luiz.
Á inesperada revelação succedeo um momento de espanto e alvoroço. Quem não presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim fidalgos como peões e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes que se não sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja correra imminente risco.
—Fallae agora vós, meu irmão. Por acaso premeditaram alguns sicarios contra a vossa vida?
—Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos[{64}] e de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me não acode aquelle generoso pagem.
—Graças dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas que foi feito dos assassinos? Justiça rigorosa se fará, meu presado irmão.
—Justiça rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.
—Justiça! justiça! conclamaram todos os convivas.
Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras explosões de enthusiasmo e então o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez terminar esse festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo semelhanças do festim de Balthasar, só faltou que mão invisivel escrevesse na parede as mysteriosas palavras mané—thécel—pharês!
[[10]] Vid. Hist. polit. e militar de Port. por L. Coelho, t. I, pag. 249.