O LEITO DA DOR

As festas e os folgares não se interrompiam nos alegres paços da Ribeira. Comtudo não havia remedios nem divertimentos que restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.

A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e revoluções de estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se lhe pronunciava a debilidade do corpo.

Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam todavia os minimos[{146}] cuidados. Effeitos do fastio e consequencias de debilidade, eis a opinião uniforme de todos os Esculapios e Galenos da côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de dia para dia. Pouco a pouco encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os dedos, empallideciam-lhe as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os beiços e enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.

Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás quintilhas de Francisco de Sá, á Diana de Souto Mayor nem aos autos de Gil Vicente. Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á proporção que lhe desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do espirito a coragem, a resignação e a paciencia.

Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua mocidade quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o balsamo das esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e amoravel esposa. Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos[{147}] seus thesouros de ternura com elle os gastava generosamente. Nunca seios de mulher compartilharam assim das amarguras alheias.

A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paços regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas tapeçarias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que valiam esses brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a alegria. A saude não se póde comprar com ouro e sem o dom precioso da saude não existem as alegrias domesticas, os risos da existencia.

El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe não permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava faser-lhe. Em compensação a rainha sua mãe todas as manhans se lhe dirigia á cabeceira do leito e a todas as horas mandava perguntar por suas damas se o principe melhorava.

Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova liberalmente cheia de amigos e aduladores. Como[{148}] se não julgava de gravidade a molestia, facilitava-se a honra da entrada a todas as pessoas do tracto e das relações do paço.

Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e são quasi dez horas da manhan. Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua estão esperando que estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de damas e criados. As damas chamam-se Dona Francisca de Aragão, Dona Catharina de Athayde e Dona Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os de maior nota, são Dom Manoel de Portugal, João Rodrigues de Sá, Frei Paulo da Cruz, Dom Simão da Silveira, João Lopes Leitão, Jorge Souto Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.

Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos parece faltar assumpto e liberdade. Está reinando certamente um quarto de hora de monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e pletorico, de barbas louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado, os olhos vivos e as faces pallidas. A boca mostra-a de exiguas dimensões, mas, segundo a fama que em Lisboa corria, no comprimento[{149}] da lingua ninguem se lhe avantajava.

Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos de alvas rendas. Traz na mão esquerda um chapeu de feltro enfeitado com sua pluma branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno preto. Calção e gibão foram talhados de veludo verde. As meias eram de fina seda cor de carne.

—Seja bem vindo vossa mercê, meu illustre coripheu da Castalidum turba!

A esta jovial saudação de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra e apertou com extremos de delicadesa a robusta mão do cantor da Diana.

Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestações de amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do principe. Depressa porém reapparece na ante-camara.

—Está descançando no regaço de Morpheu, murmurou elle com um sorriso prasenteiro.

—É certo que sua altesa está a dormir, confirma prosaicamente a celebrada e formosa[{150}] Natercia. Mas por isso não nos ha de deixar o nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir as suas poesias, meu caro Apollo.

—A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.

—Os numes não se constipam, acode o faceto Chiado.

—Não o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona Francisca de Aragão.

—Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por não traser peça de valor; mas não sei se lhes mostre...

—Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de guelas feminis.

—Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias!

—Quer mote?

—Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de lá...

—Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que é maravilhoso o ultimo parto do engenho de vossa mercê. Recite-o antes vossa mercê.[{151}]

—Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros.

Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos no bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.

—Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.

—Leia lá, senhora Dona Francisca.

—Eu leio, eu leio!

Pegou Pedro Caminha no precioso autographo[[17]] e com entono magestatico se dispoz a recitar:

Muitas veses meus versos me pediste
Que t'os mostrasse e nunca te mostrei;
Em não pedir-te os teus, se bem sentiste,
Entenderias porque t'os neguei:
Da paga me temi; se a não tivera
Muitas veses meus versos já te lera.

Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fôra o alvo do[{152}] epigramma e vai certamente dar o troco em egual moeda quando o auctor do Olyssipo requer explicações.

—Diga-nos vossa mercê, acodiu Jorge Ferreira, que allusões cavillosas são essas as do seu epigramma, senhor Caminha?

Caminha virou nas mãos a folha de papel e em voz mais elevada continua de ler:

Um tem dois olhos e com vista clara,
Outro um só tem e esse co'a vista estreita.
Diz este áquelle: «Amigo, eu apostara
A qual de nós tem vista mais perfeita?»
Quem houvera que a si não se enganara
Como o outro que enganado a aposta aceita?
Diz-lhe este: «Vê que vejo mais que ti,
Pois dois olhos te vejo, um só tu a mi!»

—Bravo, excellente! exclamara João Rodrigues de Sá quando comprehendeu que os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que todos elles porque se chamava Luiz de Camões e porque era talvez o primeiro, o ultimo, o maior portuguez do seculo deseseis.

—Deveras excellente! Excedeis Horacio e[{153}] Marcial, meu illustre e grandioso vate! com estudado sorriso e com excesso de lisonjaria acrescentou ainda Jorge de Souto Mayor.

A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:

—Agradeço as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por esta occasião acorrer as damas ao quarto do principe.

Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da enfermidade, mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.

—Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura aconchegando-se do leito.

—Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...

—Não tardará que vossa altesa esteja restabelecido. Isso não ha de ser nada, querendo Deus.

—Assim espero que aconteça; mas não sei, meu amigo, não sei o que sinto nem o que padeço. Ha tantos dias na cama sem forças nem saude![{154}]

—Disem os medicos que não passam de debilidade os achaques de vossa altesa...

—Os medicos sabem tudo, sabem tudo... Só não sabem dar-me cura!

Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora a colmea dos admiradores do poeta Caminha.

[[17]] Veja-se a Vida de Camões, por Theoph. Braga.

[{155}]