ORAÇÕES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS
Da casa do jantar passou a maioria dos convivas para um faustoso salão em cujos moveis sobresaiam riquissimos estofos de cores amarella e carmesim.
Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas, girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem alcacer de Astrea os paços de el-rei Dom João III.
Dom João III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado em larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior[{66}] attenção ás fallas veneradoras de dous illustres personagens.
Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na fasenda: traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde roupeta de estamenha.
Será empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio. Ambos representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.
São o padre mestre provincial Simão Rodrigues e o celebre Conde da Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que «n'aquelle tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro juiso[[11]]».
—Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.
—O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a empresa foi commettida a gente de confiança...
—Mas, interrompe el-rei, não me disseram[{67}] já que o attentado se baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?
—Verdade é, responderam ambos ao mesmo tempo.
—Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...
—Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.
—Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito! desabafa el-rei.
—O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.
—Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria, mas porventura não peccamos nós contra os mandamentos da santa religião? Receio, meu padre, o castigo da Providencia!
—Que póde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus? replica o poderoso jesuita com extrema brandura.
—O castigo dos meus peccados, o castigo dos[{68}] meus peccados... Conheço que ordenei um assassinio. Não terei eu, como Caim, manchado as minhas mãos em sangue fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cairá sobre a minha cabeça!
—A oração e os jejuns redimem todas as culpas...
Proferia Simão Rodrigues esta mistica sentença quando estalou na sala do jogo um grande alvoroto de voses e passos.
Sobresaltou-se o monarcha Dom João como se novamente lhe retumbasse nos ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: Eu venho, como Daniel, profetisar-vos a sorte de Balthasar.
O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a colher noticia do alvoroto e, dando volta á chave, eis que frente a frente se lhe depara a figura travessa do indio.
O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos defronte do monarcha.
—Não se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. É natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. Não provém de[{69}] rebellia nem de incendio. Toda a côrte se alvorota e desconsola porque o principe Dom João adoeceu repentinamente ao levantar-se da mesa.
—Asseveras que está doente meu filho, o meu querido filho Dom João? inquire el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel preoccupação.
—E doença de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie vossa altesa serenissima, que a oração e os jejuns redimem todas as culpas.
—Pardés, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso conde carregando o sobrolho.
—Fallo a verdade sem rebuço e mais direi ainda se el-rei me permitte a ousia de fallar.
—Sei que és ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo! volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.
—Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso filho o principe Dom João!
Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores de um raio.[{70}]
Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, não descobrindo já o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:
—Que é feito do pagem?
Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas já não avistaram ninguem.
Não quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os seus validos, lhes exprobra com friesa:
—Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vós, senhores, ai de vós e de mim se elle morre!
Os dous validos não aventuraram palavras de defesa ou de conforto com que salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis no meio do gabinete, saío pela porta a informar-se das clamorosas scenas que occorriam.[{71}]
—Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira logo que se viu a sós com o jesuita.
—Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz mais baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante Dom Luiz, tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz noivado!
Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven principe que uma vertigem lhe estonteara a cabeça e algumas nauseas lhe trouxeram incommodos ao estomago, mas que já se sentia completamente alliviado e fóra de perigo.
De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o maior cuidado, depressa declarou que a doença apresentava apenas o caracter de uns passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente pelos molhos indigestos das iguarias.
Foi o principe recolhido á cama com todos os conchegos e, como asseverava o discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente[{72}] não offereciam gravidade, os bellos e illuminados salões do paço continuaram até deshoras a servir de entretenimento aos nobres fidalgos e aos venerandos prelados.
No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo. Uma certa dose de satisfação parecia resumbrar dos seus olhos asues e a pallidez que pouco antes lhe amarellecera as faces fôra substituida por tintas rubicundas.
—Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mãos.
Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o jesuita a unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.
Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro De imitatione Christi e, pelos signaes de concentração que lhe transpareciam no gesto, inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa prece.
Não obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:
—Estava rogando aos céus que afugentasse desditas dos paços de vossa altesa...[{73}]
—Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha pessoa. Mas d'esta vez não succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos foi culpado sómente aquelle estonteado badage.
—A não fallecerem justiças n'este reino, cumpre que seja punido para lição de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar é vossa altesa?
—Elle não tardará no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e orações as minhas culpas?
—Está isento de culpas o coração de vossa altesa...
—Sei que sou um grande peccador!
—A alma de vossa altesa está limpa de mancha. É grande o amor que professaes pela fé catholica. Não esquece Deus os beneficios que tendes prestado pela igreja de Jesus Christo...
—Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas consolações haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se não fôr de morte o mal de meu filho, contai para[{74}] as festas do milagroso Santo Antão com uma custodia de ouro massiço e pedras preciosas...
—A graça de Deus seja comvosco...
—Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos do culto...
—Não deixarei jamais de rogar aos céus pelo bem do estado e pelas prosperidades de vossa altesa serenissima...
—Lançai-me agora a vossa benção, meu padre.
—Real senhor, eu vos abençôo em nome do Padre e do Filho e do Espirito Santo!
Ajoelhou el-rei para receber a benção do jesuita e em tam humilde postura de santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha illustrara mais com suas devoções os fastos da monarchia portuguesa.
[[11]] Frei Luiz de Sousa. Annaes. Parte II, livro II, cap. II.