OS ESTAUS
Ao indio amarraram os pulsos com rijas cordas e violentamente o conduziram dos paços de Almeirim á residencia inquisitorial do Rocio.
Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na abobada subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula ou escapulario de panno amarello com cruses de Santo André pintadas de vermelho assim por diante como por detraz.
Era o carcere um espaçoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade,[{96}] o frio e todas as inclemencias da invernosa estação ali contrariavam sobremodo todos os elementos de hygiene. Ausencia radical de mobilia, de conforto e ambiente puro. Á propria luz do dia, que é propriedade que Deus reparte sem restricção por todos os seres racionaes ou irracionaes, era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta, morada onde não havia ar no verão, onde não havia fogo no inverno, onde não havia pão nem de inverno nem de verão. Morada lugubre do mysterio e do crime, áquella especie de catacumbas romanas de proposito se imprimira o caracter de infecta e lobrega sepultura a que faltava apenas a terrivel inscripção do inferno do Dante: lasciate ogni speranza!
Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de pão e a goles de agua sem que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer. Unicamente communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbéro de aspecto extremamente alvar e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem não se incommodou com o[{97}] seu estranho encerro. Naturesa moldada a todos os vaivens da fortuna, a transição da ventura para o infortunio era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais extraordinarios que fossem.
—Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões o procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era affecto nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus serviços e, juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita. Mas eu prometto ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e capital na mesma moeda. Pardés que havemos de saldar contas!
Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio Simão Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo officio.
—Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso de avisar-te que, por teu mal, és accusado,[{98}] na qualidade de christão novo, de rebelde ás praticas da religião e de Deus...
—Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o pagem, foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe, embora procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das onças e dos tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de fanatismo e de crimes. Por isso me não reconheço justiça de queixar-me. Aqui me tens agora, bem disposto de alma e corpo a escutar as tuas fallas e á espera dos teus castigos. Adivinho o que me espera: antes do baraço da forca o soffrimento da masmorra, ou talvez, para mais demora das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...
—Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De certo, pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de crenças e de fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam orgulhoso? Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes serão exaltados e os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel do Evangelho.[{99}]
—Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as bellesas e virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças de meus paes e as tradições seculares da minha raça. Voluntariamente recebi o baptismo das mãos de Antonio Criminal e desde então para sempre se inflammou no meu espirito o amor acrisolado do Deus dos christãos. De bom grado lidarei por toda a vida em defensão da cruz e da fé. Porém não quero, meu padre, seguir os teus preceitos e abraçar as tuas doutrinas, Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor, repugnam-me todas as peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o jugo atroz a que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro modo bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o amemos sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão? Obedecer ás leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e defender a patria: eis tudo!
—Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não bastam.
—Dize-me então quaes são as leis que governam[{100}] o mundo. Explica-me todos os mysterios do teu governo e da ordem inquisitorial.
—Em duas palavras se resumem, criança: mandar e obedecer.
—Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o sceptro, abusam da indole e fraquesa do rei?
—Vou mostrar-te a quem é.
A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o pagem no segredo.
O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e, mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da capacidade de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.
Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se lidasse com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as pernas, fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.[{101}]
A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior, á semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho de uma figura conica.
Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões funerarias de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.
—Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está decidido que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.
Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.
—Podes sair, ordena o jesuita.
—Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro. Nem luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me incommodava o nariz.
—Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus. Reconhecendo as leis e o dominio da nossa ordem,[{102}] terás para sempre o socego do teu corpo e a ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus Christo, a despeito de parecerem os ultimos pela modestia do habito, são hoje por todas as partes do mundo os primeiros na força e no poderio. Ai do insensato que julga encravar com um dedo a roda dos seus triunfos! Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio as glorias vans do mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de aço polido, enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus Christo.
O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.
Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez relanceou as vistas em redor do carcere.
A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em direitura da parede.
Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro carcomida pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao primeiro[{103}] empuxão; mas ficou segura e fixa como se a pretendesse abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior violencia e ainda, todavia, se não obteve mais feliz resultado.
—A questão é de geito, considerou o pagem.
Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou setima tentativa.
No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito onde fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero egualmente lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze palmos de largo e deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria de notavel a não ser uma especie de feretro levantado no centro do pavimento. O feretro, que era fabricado de pedra tosca em harmonia com todo o escondrijo, servia de asylo a um esqueleto de mulher. Os braços e tronco, as pernas e a caveira ali se viam com a pelle arroxeada e os ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.
O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda mais activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar[{104}] a porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a trechos a parede. Lançou as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo escondedouro. Não tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões. Menos alto do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás duzias. Era uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos humanos: um repulsivo e fetido ossario emfim.
Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de substancias asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses dous inimigos dos pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.
Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na organisação do badage. Influiu. A cabeça entonteceu-lhe e, cambaleando como um ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e esqueletos do ossario!