OS REIS NÃO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS
Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos tudescos e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paços da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria e, em tom de quem dá conselhos, ousa segredar-lhe assim:
—Tomae cuidado. Os reis não costumam perdoar as offensas que recebem.
Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz não prestara ouvidos. Embuçando-se cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando sobre os olhos o seu amplo chapeu[{24}] de feltro enfeitado com bella pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous momentos se apresenta no meio do espaçoso terreiro.
O Tejo, esse rio de arêas de ouro tam decantado pelos poetas, dormia placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas de longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada monotonia da noite.
O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da Palha a direcção da praça do Rocio.
Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe surdem inesperadamente de cara tres vultos agigantados.
Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu corpo ficaria sem forças e sem vida se os punhaes não resvalassem no aço finissimo de uma cota de malhas.
—Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo[{25}] tempo que desembainhava a espada e que se poz em guarda.
Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.
Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja. Mas os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Além d'isso ajuntavam-se tres contra um. Não podia ser mais melindrosa a posição do infante.
Por fortuna, quando já o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na peleja.
Depressa cáe por terra o mais alentado dos aggressores e os dous restantes, naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e vergonhosa retirada.
—Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.
Era elle o mesmo pagem que nos paços da Ribeira lhe segredara misteriosamente: Cautela, que os reis não perdoam as offensas que recebem![{26}]
Por causa das sombras da noite não se lhe distinguiam as feições: poder-se-hia divisar apenas que era fransino do corpo e que lhe relusiam os olhos como a chamma de um lampadario.
Sorriu-se ouvindo os agradecimentos e, talvez com traça de se esquivar a novos protestos de gratidão, pretendeu retirar-se. O infante porém agarrou-lhe meigamente o braço e pediu-lhe que o acompanhasse.
Pouco adiante, a confinar com o adro de San Domingos, elevava-se em um angulo meridional do Rocio uma elegante e vistosa casaria.
O infante bateu de rijo com os copos da espada tres pancadas no portal e a porta franqueou-se-lhe minutos depois.
Ambos subiram os degraus de uma escadaria resguardada de tapetes e depressa alcançaram assim o primeiro andar da casa.
Introduziu-os um domestico em uma sala de paredes vistosamente forradas de ricos pannos de Arras e toda mobilada com largas cadeiras cobertas de seda escarlate.
D'esta sala passaram a um gabinete de exiguas[{27}] dimensões onde a seda, o brocado, as rendas e os cristaes de Venesa offereciam ás vistas um aspecto encantador.
Mais adiante abriu-se-lhes um salão da mais requintada opulencia. Tudo ahi reçumava riquesa e bom gosto. Julgar-se-hia logo a perfumada recamara de uma princesa.
Os reposteiros foram talhados de uma preciosa fasenda da Persia que Dom Affonso de Noronha mandara recentemente nos galeões das Indias. Não eram as tapeçarias que cobriam o soalho de menos valor e variedade. Por toda a parte macios coxins estofados de seda asul e franjados de ouro. Alguns quadros que representavam as viagens de Dom Henrique e as descobertas de Vasco da Gama, pendiam das largas paredes. Varias figuras da melhor porcelana da China se viam aos recantos do salão sobre dous elegantes bufetes com esmero trabalhados de madeira de ebano. Mil outros objectos de porcelana, prata e marfim decoravam finalmente com luxo oriental aquella mansão de fadas.
Mal o pagem se dispunha a observar os ricos[{28}] estofos e as admiraveis pinturas, eis que apparece no salão uma das mais prendadas e gentis damas do reinado de Dom João III.
Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes de prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoço e tam curto das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do seu braço.
Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.
Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus olhos castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais esmerada estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das estatuas gregas que representam a deusa das graças e dos amores. Os labios, feitos das petalas de uma rosa, possuia-os tam frescos e delicados que pareciam de uma criança.
Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não encerravam as suas fallas!
Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança das primorosas estatuas[{29}] de Praxitelles e de Phidias, esse ideal das artes plasticas, os contornos e proporções das rainhas da bellesa. Mais nutrida que magra assim nos braços como no rosto e, para mais se accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe o contorno dos lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção.
Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe calcularia acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes de rosas e frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses privilegio das mulheres formosas!
Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o pagem, lhe disse risonhamente:
—Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco me salvou os dias da vida.
O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção, ajoelhou aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus olhos negros se escoasse uma lagrima de praser.[{30}]
Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras divinamente repassadas de doçura lhe rumorejou:
—Deus vos recompense o bem que fiseste.
Dispôz-se então a contar-lhe o infante o que se passara.
A narração foi simples e curta. Poupou todas as côres da fantasia e do romantismo. Não se lhe ouviu sequer uma accusação contra os sicarios nem contra a pessoa que lhes commettera a empresa.
O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:
—Dom Luiz é denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora, deveis aconselhar-lhe que não a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe sobejam...
—Talvez que só Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.
—Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus amigos tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem, que se guardem bem os traidores![{31}]
—Guardam, guardam... Não vêdes como apenas mostram elles o braço e o punhal?
A esta allusão da formosa dama logo vaticinou o pagem:
—Decerto não falta um vilão que a troco de alguns ducados assassine o principe Dom Luiz!
—Mas que empenho haverá n'isso? Dizei-o, que vôl-o supplica Dom Luiz de Beja!
—Quereis que vôl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no meu officio de cortesão e eu vos direi agora o que sei: vosso irmão o senhor Dom João III não vos estima... antes vos odeia!
—Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante. Bofé que, se vos não devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.
—Rogo-vos moderação, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este generoso mancebo. Oxalá sejam imaginarios os seus receios; mas não sei que triste presentimento me leva a crêr que algum infortunio nos ameaça...
Sorriu-se o pagem com essa expressão de[{32}] interna melancolia que não se descreve nunca. Em seguida volveu-se para o infante.
—Perdão... mil veses perdão se vos offendi! lhe disse.
Abraçou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde logo se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.
Á primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem. Predominava n'elle o sangue das raças selvagens do Oriente. Era negra como aseviche a pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia tarjada de um leve circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e alguma coisa largo das asas; a côr da pelle bastante acobreada e os beiços grossos sem desar. De idade não contava mais de vinte e dous annos, mas na agilidade dos musculos e na vivesa do espirito poucos ou nenhuns cavalleiros o excediam.
Nascera no paiz dos badages e ali fôra, em companhia de seus velhos paes, convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de[{33}] Antonio Criminal. Quando os badages degolaram este malaventurado jesuita foi tamanho o horror que a pobre criança concebeu pelo seu idolo Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio. O vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Gôa, criara-lhe amisade pelas boas prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu regresso em 1550.
O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora não se fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos salões da côrte lhe fascinaram os olhos princesa de fórmas tam correctas, de maneiras tam delicadas e conversação mais suave. O terno e melodioso accento com que fallava insinuava-se meigamente nos corações como se fossem harmonias do ceu. Superabundavam-lhe bellesas assim no corpo como na alma. Talvez porque o acaso lhe denegara a nobresa do nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas que no mundo servem de apanagio e de cortejo á graça e á formosura.
Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous[{34}] hospedes, em ricas bandejas de prata, alguns doces e licores. Depois, a rogo do infante, passou com agilidade os seus pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa e com ternissimas inflexões começou de cantar o bello soneto em que Luiz de Camões define o amor:
Amor é um fogo que arde sem se vêr;
É ferida que doe e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dôr que desatina sem doer.
Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a apertar-lhe os braços em volta da cintura e com labios de fogo imprimiu-lhe nas rosas do collo um osculo fremente.
—São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não vês como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes amores...