RECOMPENSA DO CRIME
Acabara de badalejar a meia noite no campanario da cathedral quando na portaria arqueada do memorando collegio de Santo Antão parou um homem de gigantea corporatura.
Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça um desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.
Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou sorrateiramente no alpendre[{36}] do edificio e dirigiu-se por uma das portas lateraes para um modesto gabinete situado ao rez do chão.
Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes sacerdotaes e de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.
—Então que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua latina.
—Não me parecem tão alegres como desejava, regougou o recemchegado.
—Bem mau é isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.
—Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou por artes do diabo.
—Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupação interrogou o padre.
—Com verdadeira magoa o digo; mas é verdade.
—O que tambem é verdade é que sois todos uns covardes...
—Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A não ser assim,[{37}] eu por Deus que soubera responder pelo ferro do meu punhal!
—Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarrões e uns Hercules; mas porfim de contas, se é mister que se mostre valentia ou governe com prudencia, sois deveras mais pecos e villãos do que um asno.
—Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa. Juro que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como varões honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno quando os punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço de uma saia de malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha: como os punhaes eram curtos, puchamos das durindanas em guisa de valentes campeões e em poucos minutos dariamos com meia duzia de cutiladas remate á nossa obra se de improviso se não intromette o demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por terra e os outros... os outros...
—Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes acaecer a mesma sorte.[{38}]
—Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo que nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!
—Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que me toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não sabe o que diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do companheiro que morreu?
—Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A estas horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.
—És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e retira-te por hoje.
Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante, mirando-as com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso metal que na frase de Tolentino é o tiranno do mundo.
—Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo a mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez,[{39}] meu padre, bem sabe que tenho de repartir... Cincoenta escudos[[6]] é pouco.
—Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.
Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de combinar a melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.
—Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle pelo caminho.
Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção[[7]]:
Como no se desespera
quien se vê como me veo
tan lexos de dó desseo,
tan cerca dó no quisiera?
Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos como prova de quem se não julga de todo descontente.
—Do mal o menos, murmurou levantando-se[{40}] do tamborete. Escapou-nos por hoje, mas nada se descobriu... E que tudo se divulgasse e descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de Beja, para ergueres o braço contra a pessoa que te mandou assassinar!
O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da sola do tamborete.
—Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso proximo como nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e o abandono das riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os teus conselhos, Deus meu! Entra uma vez nos seios do homem o veneno das ambições terrestres e esquecem-se bem depressa os deveres da virtude e a salvação das nossas almas. Tudo se esquece e... lá vamos nós, vermes orgulhosos, pelo menos subvertendo nas voragens do crime a tranquillidade do espirito e a saude do corpo!
Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe De consideratione humanæ miseriæ[{41}] e que principia por estas palavras de humildade: Miser es, ubicunque fueris et quocumque te verteris, nisi ad Deum te convertas.
Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema beatitude fixou os olhos nas taboas do pavimento.
—Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está cheio de magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus peccados!
Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se fosse o recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o cicio dos insectos nem as oscillações da pendula dos relogios interrompiam o silencio sepulchral do gabinete.
—Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses com os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como bom christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare nunca[{42}] a vossa infinita graça. Eis aqui um grande peccador que, fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta as chagas dos maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao gladio da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim, senhor!
Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a exemplo dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a flagellar rudemente as espaduas, os peitos e os rins.
Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez com mais força se redobravam os açoutes.
Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á maneira do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo. Se deixava de orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo e, se parava com o castigo do latego, é porque em misticas leituras pregava os olhos nas paginas do livro.[{43}]
Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio de doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos olores das folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito de um christão e ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho. «Admiravel apesar da negligencia do estilo, commove muito mais do que as argutas reflexões de Seneca e as frias consolações de Boeccio. Foi traduzido em todas as linguas e lê-se em toda a parte com infinito gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o guardava na sua bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel prazer[[8]].» Leitura sempre cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio Fontenelle o conceito de «o mais bello livro sahido das mãos dos homens». Modestamente se intitula De imitatione Christi.
O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas veses silenciosamente e outras em voz alta.[{44}]
Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com profundo arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e salvação para a sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se poupava jejuns nem penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais no orbe catholico brilhara jesuita de maiores virtudes. Quando em reverente postura de resa e devoção se collocava defronte do seu crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer anachoreta da Nitria. Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de participar dos mais subidos panegyricos das lendas hagiolicas.
Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das Indias á conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O piedoso navarro decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a ir, por suas doutrinas e virtudes, ganhar entre o gentio[{45}] o glorioso titulo de Apostolo das Indias; mas o seu companheiro preferio que el-rei Dom João o galardoasse com a menos obscura e penosa commissão de director do collegio de Coimbra.
Era Simão Rodrigues,—o ladino padre mestre provincial que na sua qualidade de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados serviços á causa de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao benemerito Francisco Xavier deveram as Indias uma das mais heroicas e soberbas paginas da sua epopêa. Eis o que a tal respeito apregoam as trombetas da fama[[9]]:
«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram na praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto, queimaram parte d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo como se tivessem alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de sete pescadores malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o seu sangue escreveram uma carta prenhe de[{46}] injurias ao governador Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os habitantes de Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos pescadores mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo convinha vingar a injuria feita á nação portuguesa.
«—Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia. Cumpre embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos insultarem segunda vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se não quereis perder o nome e a reputação.
«—Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as forças. As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para espalmar as que temos seria necessario mais tempo do que para fabricar outras de novo. De mais d'isso os inimigos são muitos e os nossos alliados não podem soccorrer-nos com tanta promptidão.
«—E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a[{47}] cargo o diligenciar que se concertem as embarcações.
«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:
«—Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados de Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito qualquer temor e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis vencedores ou vencidos, a palma sempre será vossa!
«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um catur á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além disso os armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem resina nem estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora e outras munições para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas abastadas e moveo-as a faser as despesas demandadas pela expedição. Dentro em cinco dias poseram-se as fustas em estado de ir a corso.
«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles desejava Francisco[{48}] Xavier; mas não o consentiram o governador e os habitantes de Malaca.
«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então, saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações e proclama aos seus soldados:
«—Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco Xavier. Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem fugir e agora colherão o castigo devido á sua barbaridade.
«—Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de Jesus Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa gloria. Havemos de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso que temos pela morte.»
«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo que, soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se disposto em dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com excepção da primeira, que era de quatro.
«Deram os inimigos uma descarga com toda[{49}] a artilharia, mas sem causarem damno algum aos portugueses. Seguidamente os almirantes arremeçaram-se um sobre o outro e ambos disputaram largo tempo a victoria até que a do almirante inimigo foi metida a pique. As outras mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, voltaram os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da seguinte linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra as da segunda e assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as outras. Então os portugueses despediram tres descargas successivas que meteram a pique nove embarcações grandes. Abordando depois ás embarcações acheninas, saltaram dentro e degollaram dous mil soldados. Vendo o resto dos acheninos a sorte dos companheiros, precipitaram-se no rio em procura de salvamento; mas afogaram-se todos.
«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!
«Lavrava todavia a consternação em Malaca.[{50}] Não chegara ainda noticia da frota desde que sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava em socegar os habitantes e podia tanto com elles o medo, que em pouco tempo se persuadiram de ser perdida. Até alguns sarracenos tiveram a ousadia de divulgar como noticia certa que os acheninos a desbarataram completamente. A desconsolação por isso era geral na cidade e todos tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a frota. O piedoso varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no estado de crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de se perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia a Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para suas almas.
«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento:
«—Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve entrar sexta feira pelo porto de Malaca.[{51}]
«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado. Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os ares retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os rostos. Emfim entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de gloria e carregado com os despojos opimos da batalha!»
[[6]] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.
[[7]] Obr. de Sá de Miranda.
[[8]] Nov. diction. hist. par une société de gens-de-lettres, art. Kempis.
[[9]] La Clede. Hist. ger. de Port.